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segunda-feira, março 13, 2006

TÉCNICAS SEMIÓTICAS APLICADAS À VANGUARDA

Olá a todos;
Esta postagem procurará apresentar algumas incursões no universo da linguagem estética pelo viéis da semiótica Francesa. Abaixo também vocês encontraram os Links importantes para as disciplinas.

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Três momentos marcantes na arte pictórica determinam a nova visão do signo que insuflou no século XIX. O primeiro momento é o Impressionismo, que já comporta a (des) unidade do legi-signo, ou seja, já apresenta a quebra de certas consolidações legitimadas pela hierarquia artísticas. Como exemplo podemos apresentar o figurativo, o traço, a norma, o tipo de luminosidade claustrofóbica que permeava a unidade. O impressionismo tem seu momento histórico marcado pela exposição de telas em 17 de abril de 1874. O movimento já destituía o signo de suas marcas individuais, para projetá-lo no âmbito de novos contextos de arranjo, como ao ar livre, ao contato das múltiplas formas de luz que decompunham sua performance realista. Este acelerar do processo de "fragmentação", culmina em um ato de agregar qualis, criando uma arte anti-iconográfica mas marcada por sensações (primeiridade). Vejam como a presença do "externo" e a nuance como exemplo de toque com a impressão são fortes marcas dessa vanguarda.

Abaixo a obra considerada marco histórico:
"Impression soleil levant - Claude Monet"


Culminando em mais uma etapa no processo de disformização do signo visual, percebemos que as estruturas sagradas ao ato de imitar (mimese)
perdem sua idealização central. O que ocorre é que o determinismo que figurava no signo da pintura em estar indicando seu objeto dinâmico e imediato (Peirce) não existe mais. A arte abstrata, que teve como precursores Kandinsk e Piet Mondrian, deixa de estabelecer uma relação direta de signo com objeto. Temos um cavaleiro sem cabeça - signo sem objeto - e como tal temos o processo de estranhamento em grau profundo.

"Cores - Piet Mondrian"


Por último, como em um processo de "abandono" das causas naturais que amarravam a órbita do signo ao seu objeto (referente) temos o "caso" Pop-Art. A referencialidade volta a ser mola, mas vincula-se a um contexto de desautomatização do interpretante, que de tal modo projeta sentidos dado o cenário indiciado. Em outras palavras, a situação do signo dentro de seu cenário de elocução demarca a produção de "símiles" e "análogos". Desde que Duchamp optou pelo Vaso Sanitário no museu, pela roda de bicicleta, a estética passou a ser amparada pelo meta-discurso, sendo ela mesma a re-tradução da sua própria prática. Em moldes acadêmicos, teríamos a necessidade da arte - bula, do contraponto, da explicação do sentido no desarranjo do código. É o caso da obra abaixo, que figura como
uma das primeiras telas Pop-Art.

"O que torna os lares de hoje diferentes? - Hamilton"


Concluo que entender os processos de composição e organização da malha representativa que a vangurda faz uso, é compreender a arte por aquilo que ela tem de singular: sua linguagem. Contemporaneidade é um caráter, e não uma data. Ninguém consegue encontrar algo tão contemporâneo quanto Mallarmé, Pound, James Joyce; modernos que foram escritos no final e início do século.

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UMA BREVE ANÁLISE DE “MAGNÓLIA”

Tecerei antes algumas considerações. A semiótica encara o discurso como um arranjo; uma organização sígnica sistematizada, onde cada peça possui uma funcionalidade, ou até mesmo uma representação ontológica de si mesma ou de outra coisa. Uma palavra cara ao método semiótico é “representação”, que pode ser dedutivamente rotulado como “papel” de determinado sinal, marca, índice, representando aquilo que é para ser representado ou abrindo formas de representar aquilo que se queira. A arte possui características peculiares em sua tessitura pois trabalha sobre algumas assertivas básicas. Digamos que em busca de uma eficácia, ela re-arranja suas moléculas em busca de “estratégias” discursivas.Vejamos algumas marcas essenciais do discurso artístico:

O signo não é utilizado apenas por seu poder de “representar” ou “indicar” um possível objeto; como se ele estivesse sempre em busca de “mostrar” e/ou “indicar” seu referente; o signo está colocado por aspectos próprios de sua materialidade ou natureza. Seja a beleza de suas silepses, o próprio ato da sonoridade advinda da leitura, ou a beleza da imagem que ele mesmo conduz. Ele pode, simplesmente, estar querendo mostrar-se, apresentar sua face material, sua cor, sua imagem, sua textura.

O signo também pode fazer referência ao real, ao denotado. Mas a arte procura utilizar o signo por sobre outro, outro e mais outro, alicerçando a possibilidade de escolha de qual amparo (interpretante) o leitor irá corresponder. A possibilidade de escolher o que o signo indica, o que ele representa, é marca positiva no discurso semiótico / artístico. O caminhar do signo por sobre seus próprios semelhantes, sem recorrer ao real ou ao cartesiano, deixando-se substituir não por um objeto, mas por outro representante, em uma cadeia chamada semiose, é imperativo a diagnosticar a possibilidade do leitor perante a escritura.

Quando o signo não estabelece referência com a cultura ou com seu sistema ele é ontológica. Está nele a resposta através de seu paradigma semântico / cultural. O avanço dos estudos de Iuri Lotman para a área da semiótica se deu no relacionamento inter-mediático entre cultura e avanço semântico, como em progressões modulares de sentidos. Buscar semas para alavancar um processo de interpretação semiótica passa pelo lastro de buscar na cultura mediadores de saber, graus de informação pré-concebidos mediante uma concatenação de informações geridas por um fio condutor “dominante”.

Pensar a linguagem humana como uma ferramenta de diálogo com o mundo, é também pensar em processos de representação complexos, que estão propostos desde o instante da comunicação verbal, até o fluxo do sonho, aos símbolos sociais e idiossincráticos.

No filme Magnólia, o terceiro longa de Paul Thomas Anderson (28 anos), o que vemos é a provocação da capacidade semi / ótica de perceber a construção em seus fragmentos, em porções que concentram poder comunicativo e que se unem em um corpo maior. Nas próximas linhas analisaremos semioticamente este grande filme. O método utilizado será o recorte de micro-narrativas oportunas à técnica, amparada na determinação das tensões, elementos fóricos / disfóricos e marcas de semiose.

1. A tessitura do filme avança rumo ao fragmento. A pequenos núcleos de ação que cabalam uma mesma estrutura tensiva entre um actante (Greimas) que está consumado pelo ódio de uma traição passada com outro actante que procura o perdão para morrer em paz. A morte age nestas micro-estruturas como diluidoras do orgulho, que homens potencialmente poderosos possuem na esfera da aparência social. Em dois núcleos distintos temos dois idosos (um apresentador famoso de televisão, e outro proprietário de uma produtora, coincidentemente a produtora que produz os programas do primeiro) que em situação de morte procuram o perdão dos filhos: uma moça viciada que se auto-exila e um jovem professor (Tom Cruise) que lança e divulga um livro “seduza e destrua”. As marcas identificatórias do movimento tensivo que demarcam o eixo do ódio e do perdão se manifestam nos encontros e desencontros de um presente que ainda dialoga com o passado. Ambos sofreram as traições dos pais. Por outro lado, um outro núcleo dramático apresenta o diálogo de opressão e ambição sofridos por uma criança pelo pai, ambicioso e ausente, que procura no filho um motivo para enriquecer as custas de um programa de respostas, onde crianças desafiam adultos. Nos fragmentos nucleares, que aparecem costurados por tomadas bruscas de câmara, delineiam um enredo maior, uma costura que está amarrada tanto pela “representação”, “referencialização”, quanto pelos temas modulares que irrompem na órbita do macro-discurso. Em suma, podemos perceber a presença de micro-discursos, que giram em uma órbita simétrica em relação a temas e representações. Esta marca pós-moderna de narrativa praticamente incita a ver o conceito do individual talhado não no específico limitador, mas no micro-cosmos que é a vida humana. Pegadas, marcas, detalhes que fogem à lupa do Universal.
2. O que liga estas micro-narrativas? Poderíamos afirmar que a costura efetuada nestas micro-narrativas para com a macro-narrativa é efetuada em dois campos distintos mas confluentes: a representação e a temática. Do ponto de vista da representação percebe-se pequenos “eventos” na teia narrativa que demarcam uma unidade: ambos os núcleos dramáticos assistem ao mesmo programa (aquele, onde a criança pressionada pelo pai procura responder tudo para sair vencedora). A rua onde por alguns momentos os veículos de alguns personagens se encontram (Rua Magnólia). A chuva de sapos que abarca a todos. Todos cantam uma canção, em um momento lírico da obra. O relacionamento de referências actanciais entre diálogos (o não-querer perdoar / o querer ser perdoado). Um homem (núcleo não descrito) que em décadas anteriores havia sido campeão do mesmo programa que agora leva a criança à competir, que vive um amor platônico por um garçom de bar. Este homem, frustrado e empobrecido pela vida, dialoga com a criança como uma espécie de projeção-exemplo, daquilo que a manipulação ambiciosa dos pais provoca nos filhos. Do ponto de vista dos temas, as identidades fóricas que edificam as relações tensivas determinam semioticamente uma seqüência actancial que pode ser modelada da seguinte forma: um fazer errado (abuso sexual, abandono, egoísmo, pressão); um não-fazer-parecer (não ligar, não procurar, não estabelecer), um não poder-fazer (receber o perdão, dar o perdão pelas marcas do passado). Usando o quadrado semiótico percebemos que mais do que erros do passado, o que o filme preconiza são os erros do presente. Marcas como arrependimento, busca pelo perdão estão cerceadas pelo passado que demarca um não-perdoar, um não-aceitar. Diacronicamente, elementos do passado tentam se repetir no presente. O filho (do programa), pressionado pelo pai, (futuro sujeito a pedir perdão), é alertado pelo filho, que em dado momento corta abruptamente o ciclo de erros e não aceita continuar no programa e ser pressionado pelo pai, bem como pede para este pai ser mais carinhoso com ele. A força com que erro, arrependimento e perdão modulam a película, deflagra a própria da força de novas identidades: a falta atenção; o egoísmo; a traição; e em grau profundo, o próprio arrependimento daquele que não quer perdoar o erro do passado, demarcado pela dor que alicerça o orgulho. Passado e presente chocam-se na mesma tessitura. O ciclo de erros deve acabar, e para isso esta referência é efetuada diretamente na órbita do filme.
3. Analiticamente, a composição de certos agentes sígnicos na esfera visual promovem um componente transcodificador, que permite a permuta entre códigos referenciais com códigos conotativos. A referência bíblica na alegoria sinestésica dos chuva de sapos. A presença do elemento incógnito, como um signo visual sem sustentação lógica. (a arma caindo junto com os sapos). Bem como discursos dentro de discursos. O Rap do garoto da periferia. Um outro dado semiótico interessante é evocado pelo agente sígnico representado pelo virtuema “conter a dor”, materializado nas drogas que irrompem no filme: elas deixam lastros de sentido, exaladas na performance do agente “lisérgico”; identificamos em cortes como a morfina para conter a dor do velho doente, que é tomada pela moça jovem arrependida das traições ao marido; o álcool bebido compulsivamente pelo velho apresentador do programa (também consumido pela esposa). A cocaína consumida pela moça que nega o perdão ao pai apresentador (que sofre de câncer).


Qualquer conclusão sobre este filme pode soar um clichê. Logo, uma determinante interessante é a doença corroendo o orgulho. Os erros do passado são marcas que grudam e não soltam mais. Mais difícil do que errar traindo e perdoar. O câncer é escolhido estrategicamente pelo seu processo lento, que possibilita a imersão na própria condição. O tempo latente de “morrer” e perceber a vida passando. Neste intervalo de tempo certas condições surgem. Certas marcas temporais devem ser diluídas na dor. Visto que o ciclo não pode continuar.

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Links:

Bem gente, não só de boa-vida e leituras paralelas vive um aluno mutante;
abaixo seguem alguns Links para leitura obrigatória.
VII período. (é preciso estabelecer com mais convicção o papel da semiótica na teoria e crítica literária; bem como perceber o contexto diacrônico da presença do Clássico e do Moderno).
Segue também Link para o famosíssimo poema "Um lance de Dados" de Mallarmé e um texto crítico sobre o referido poema

SEMIÓTICA E LITERATURA

UM LANCE DE DADOS

SOBRE CÂNONE CLÁSSICO E SEMIÓTICA

UM LANCE DE DARDOS - CRÍTICA

I período
Resenha da obra de Acízelo "Teoria da Literatura"

TEORIA DA LITERATURA - ACÍZELO

Um abração leproso a todos; boa leitura