MENU PRINCIPAL

terça-feira, junho 29, 2010

Produção Científica - JOSÉ SARAMAGO: CARNAVALIZAÇÃO NA OBRA MEMORIAL DO CONVENTO


NOTA DO ORIENTADOR: O texto abaixo é o primeiro de uma série de QUATRO textos resultantes de pesquisas literárias e culturais realizadas dentro do grupo de Pesquisa TEOLITERIAS, fechando o clico de atividades para 2010. As pesquisas resultaram em trabalhos monográficos qualificados e defendidos com êxito no bojo institucional. Nesta pesquisa a autora conseguiu aprofundar a complexa relação cultural entre carnavalização e polifonia, tecendo uma ampla teia de referências que perpassam dos tempos medievais e dos ritos, engendrando formas e linguagens contemporâneas, alicerçadas pela magistral capacidade narrativa de Saramago. Tecendo e costurando teoria e toda a principiologia da Carnavalização Baktiniana, Valdenice propõem resultados de amplo aspecto literário e teórico, enriquecendo a academia cacoalense.

MARCAS DE CARNAVALIZAÇÃO EM “MEMORIAL DO CONVENTO”

VALDENICE OLIVEIRA MENDES
Professora, Graduada em Letras, Pesquisadora do Grupo Teoliterias.

A carnavalização é uma leitura irônica de tudo que é sério e que está presente na literatura atual. Para Bakhtin o carnaval teve sua representação mais forte na Idade Média, por meio das histórias contadas por Rabelais, porém, com o tempo, a verdadeira origem carnavalesca foi perdendo alguns traços particulares, mas mantendo sua essência carnavalesca.
Os traços do carnaval permanecem até os dias atuais na literatura devido a sua concepção ampla e traz a ideia de um termo antigo de festa popular. (BAKHTIN, 1999)
O romance “Memorial do Convento” pode ser visto com características que permanecem fiéis ao texto e retratam a época histórica e literária.
No romance, é possível observar as marcas carnavalescas por meio da narrativa irônica que descreve a promessa do rei de construir o convento às duras custas populares, o exagero das ambições burguesas, as procissões religiosas, a autoridade do clero e a grande diferença social em que se divide a sociedade portuguesa presente na obra.
Toda a narrativa de Saramago possui sua marca e estilo que faz com que a linguagem adquira as marcas do passado histórico Português, trazendo originalidade às marcas carnavalescas.
Serão descritos a seguir, mascas importantes dessa cultura carnavalesca que estão presentes na narrativa do romance “Memorial do Convento”.


A PROCISSÃO CARNAVALESCA DO “CORPO DE DEUS”
No capítulo III de “Memorial do Convento”, Saramago apresenta o episódio religioso em que toda igreja juntamente com seus fiéis seguem o ritual do cortejo do “Corpo de Deus” (Corpus Christi) que se assemelham aos rituais festivos carnavalescos rabelaisianos.
Saramago descreve todo um ritual sério que segue pelas ruas estreitas, imundas e fétidas de Portugal. Sua descrição faz referência às ideologias dos cultos sérios, que condenavam o riso. Porém, ele relata as excitações sexuais, o desejo reprimido e todos os tipos sentimentos proibidos e reprimidos pelas doutrinas na igreja, isso, tanto dos fiéis quanto dos membros do clero.
Os seus fiéis seguem atrás e, mais à frente, os padres e bispos, fazendo frente ao cortejo da procissão. Seus rostos sérios refletem a grandeza e a devoção do momento. Das janelas das casas, os olhos curiosos e ávidos por um mexerico, observam a procissão e os fiéis que fazem penitência e se autofragelam para pagar os pecados.
A noção de carnavalização definida por Bakhtin cujos procedimentos rompem com os preceitos da história literária tradicional se preocupa em identificar poéticas para uma nova época.
Em “Memorial do Convento” o discurso narrativo solto da procissão do “Corpo de Deus” descreve homens e mulheres e a tortura dos corpos para a purificação da alma em misto ao frenético ritmo acelerado dos corpos dominado pelos rituais religiosos e exaltações espirituais.
Durante o tempo quaresmal, se privavam de comer, beber e dos prazeres da carne, para depois participarem do banquete. “Vai sair a procissão de penitência. Castigámo-la a carne pelo jejum, maceremo-la agora pelo açoite. Comendo pouco purificando-se os humores, sofrendo alguma coisa escovam-se as costuras da alma.”(SARAMAGO, 1997, p. 28)
Os homens que seguem a procissão utilizam instrumentos como o chicote para a própria tortura e levam consigo enfeites de fitas coloridas no auto da cabeça e de longe, as esposas avistam seus amados no ritual de penitência e prazer.
Presas no alto do gorro ou na própria disciplina, levam fitinhas de cores, cada um a sua, e se a mulher eleita que à janela anseia de angústia, de piedade pelo amador sofredor, se não também de gozo a que só muito mais tarde aprenderemos a chamar sádico, não souber pela fisionomia ou pelo vulto, reconhecer o amante na confusão dos penitentes, dos pendões, do povinho derramado em pavores e súplicas, do vozear das ladainhas, do bambear desacertado dos pálios, dos cabeceamentos bruscos das imagens, adivinhará ao menos pela fitinha cor-de-rosa, ou verde, ou amarela, lilás, se não vermelha ou cor do céu, [...].(SARAMAGO, 1997, p. 29)
Todo esse ritual de veneração, dor e piedade se misturam com o suor dos corpos e também com o prazer do ato sexual, tudo devido ao prazer em exercer o ato de fé.
[...] é aquele o seu homem e servidor, que lhe está dedicando a vergada violenta e que, não podendo falar, berra como o toiro no cio, mas se às mais mulheres da rua, e a ela própria, pareceu que faltou vigor ao braço do penitente ou que a vergada foi de um jeito de não abrir lanho na pele e rasgões que cá de cima se vejam, então levanta-se do coro feminil grande assuada, e possessas, frenéticas, as mulheres reclamam força no braço, querem ouvir o latejar dos rabos do chicote, que o sangue corra como correu o do Divino Salvador, enquanto latejam por baixo das redondas saias, e apertam e apertam e abre as coxas segundo o ritmo da excitação e do seu adiantamento. (SARAMAGO, 1997, p. 29)
É semelhante à procissão carnavalesca rabelaisiana dos espancamentos durante o banquete de casamento, ou seja, as “grosserias-destronamento” em que o cortejo sai pela praça pública a fora com “chicaneiro” todo enfeitado e espancado, e fazendo tudo isso “rindo”, enquanto sua esposa fica a chorar e rir ao mesmo tempo em que o amado é espancado e injuriado. (SARAMAGO, 1997)
Aqui, Bakhtin relata um trecho semelhante aos festejos carnavalescos da procissão do “Corpo de Deus”:
À luz desses fatos, a paródia de Rabelais não parece mais tão surpreendente nem monstruosa. Ela apenas desenvolve todos os elementos do drama satírico que já existiam nas imagens tradicionais da festa: a do monstro trazendo ao dorso uma pecadora, os gigantes e os negros, os movimentos indecentes da dança, etc. É verdade que Rabelais narra o fato de uma maneira tão audaciosa quanto consciente. Nesse ambiente de drama satírico, nem a imagem dos cães urinando, nem os detalhes relativos à cadela no cio devem espantar-nos. Recordemos também o caráter ambivalente da rega pela urina, a idéia de fecundidade e de potência sexual que ela contém. Não é à toa que Rabelais nos explica que os cães fizeram um regato com a sua urina, o qual passou em Saint-Victor, e do qual se viu Gobein para tingir os seus tecidos. Todos os episódios que examinamos até aqui, estão diretamente ligados a festas específicas (matança do gado, vindima, perdão jubilar, festa do Corpo de Deus). O tema da festa exerce assim uma influência determinada sobre a organização das suas imagens. Mas há no livro de Rabelais algo mais do que o reflexo direto de folguedos precisos sobre os acontecimentos. (BAKHTIN, 1999, p. 200)
É também semelhante à ambivalência do “baixo” material corporal relatado por Bakhtin, o espancamento e a dor, fazem parte do ritual de renovação espiritual, ou seja, todo o sofrimento do corpo faz com que o espírito se renove.
As diversas cenas de pancadaria são idênticas em Rabelais. Todos esses reis feudais (Picrochole e Anarche), os velhos sorbonistas (Janotus de Bragmardo), os sacristãos (Tappecoue), todos esses monges hipócritas, esses tristes delatores, sinistros egelastros que Rabelais aniquila, despedaça, golpeia, afugenta, maldiz, injuria e ridiculariza são os representantes do velho mundo e do mundo inteiriço, do mundo bicorporal que dá a vida ao morrer. Quando se elimina e se rejeita o velho corpo que o morre, corta-se ao mesmo tempo o cordão umbilical do corpo novo e jovem. Trata-se de um único e mesmo ato. As imagens rabelaisianas fixam o próprio instante da transição, incluindo os seus dois pólos. [...] Por causa disso, os golpes e injúrias se transformam em alegre ato festivo. (BAKHTIN, 1999, p. 179)
Junto ao ritual religioso que faz parte da procissão, há a privação dos prazeres da vida para alcançar o perdão dos pecados na época da quaresma e do outro a abundancia do comer e beber, como que se devesse alimentar o corpo só depois de alimentar o espírito.
Saramago relata na obra a diferença social exagerada, ou seja, de um lado os que comem demais, pelo puro prazer de banquetear, que tem ricas refeições diárias, assim como os banquetes carnavalescos. (BAKHTIN, 1999)
Correu o estrudo essas ruas, quem pôde empanturrou-se de galinha e de carneiro, de sonhos e de filhós, deu umbigadas pelas esquinas quem não perde vaza autorizada, puseram-se rabos surriados em lombos fugidiços, esguichou-se água à cara com seringas de clisteres, sovaram-se incautos com réstias de cebolas, bebeu-se vinho até ao arroto e ao vómito, partiram-se panelas tocaram-se gaitas, e se mais gente não se espojou, por travessas, praças e becos, de barriga para o ar, é porque a cidade é imunda , alcafitada de excrementos, de lixo, de cães lazarentos e gatos vadios, e lama mesmo quando chove. Agora é temo de pagar os cometidos excessos, mortificar alma para que o corpo finja arrepende-se, ele rebelde, ele insurrecto, este corpo parco e porco da pocilga que é Lisboa. (SARAMAGO, 1997, p. 28-29)
Já do outro, estão os miseráveis e maltratados de “barriga agarrada às costas”, como se sua condição social fosse uma providência divina. Mas o que se pode perceber é que todos fazem parte desse ritual religioso como um só corpo. Por isso que todo esse ritual da procissão e o ambiente carnavalesco podem ser caracterizados como universal, uma vez que ela está presente em cada uma das imagens da procissão.
Mesmo com as diferenças sociais, a procissão segue. Desta forma, assim como o carnaval da Idade Média da época de Rabelais descrevia todo o espaço e ambiente carnavalesco para atingir de forma indireta a sociedade burguesa e o poder real.
Assim também Saramago descreve a procissão do “Corpo de Deus”, o ambiente fétido e imundo de Lisboa, povoado de “cães lazarentos e gatos vadios”, as relações de infidelidade conjugal, o poder absoluto da igreja sobre os fiéis, a diferença entre os miseráveis famintos e a minoria que se farta de comida e regalias. Esse ambiente possui imagens polifônicas carregas de significações que fazem parte desse copo carnavalesco que é a procissão.
O AUTO DA FÉ: O BANQUETE
“Memorial do Convento” possui parte da narrativa retirada dos acontecimentos portugueses que marcaram o período literário barroco entre os séculos XVI e XVIII. Em meio aos acontecimentos históricos e culturais, a ficção é criada por Saramago e faz um retrato verossímil do passado português, considerado moralista religioso e literário, que foi responsável por muitas mortes na fogueira e comandadas pela “Santa Inquisição”, denominado pelo clero de “auto-de-fé”
É possível perceber que todo esse moralismo, apesar de cruel, era bastante afeiçoado pelos portugueses, é o chamado de “[...] moralismo de sacristia, [...] Uma certa macieza na própria maldade é sinal de que o nosso povo os conhecia e afeiçoava.” (SIMÕES, Apud. FILHO, 1993, p. 24)
Numa época em que o mundo se voltava para as ideias que aproximam da ciência e o mundo moderno, “Memorial do Convento” retrata a nobreza de Portugal numa forte ligação com o clero, unidos em um mesmo ideal de acabar com todas as ameaças aos princípios religiosos, por meio da inquisição. ( FILHO, 1993)
Um relato desse moralismo religioso é contado no capítulo V, em que todo o povo se desloca de suas caras para a celebração bastante comum naquela sociedade. O mesmo povo sofredor que vive sob forte domínio do rei e da igreja, são os mesmos que celebram as mortes pela inquisição.
Grita o povilho furiosos impropérios aos condenados, guincham as mulheres debruçadas dos peitoris, alanzoam os frades, a procissão é uma serpente enorme que não cabe direita no Rossio e por isso se vai curvando e recurvando como se determinasse chegar a toda a parte ou oferecer o espetáculo edificante a toda a cidade, [...]” (SARAMAGO, 1997, p. 50)
As fortes ligações do povo com a igreja e os autos-de-fé que é um ato desumano, se tornam motivo de celebração, como em uma data festiva. O local das fogueiras desses dias se transforma um grande espetáculo, com palco de tortura e a grande multidão como espectadora e passiva.
O assujeitamento vivido por eles é fruto desse discurso religioso moralista, que faz com que os autos-de-fé sejam atrativos do que o próprio lazer.
Os relatos dos “autos-de-fé” descritos em “Memorial do Convento” trazem as marcas das grandes festas e banquetes carnavalescos, parte das características originais do carnaval contextualizado por Rabelais.
A sincronia polifônica dos ambientes festivos carnavalescos, a universalidade do banquete simbolizando a confraternização do ato digno de celebração. (BAKHTIN, 1999)
Toda a narrativa desse acontecimento trás ao leitor o exagero das imagens dessa celebração, desde a preparação das pessoas para um ambiente festivo, ao saírem de suas casas trajando as melhores roupas, até o vocabulário irônico adotado pelo narrador, que por meio da sua onisciência, coloca o leitor ciente dos fatos do cotidiano de Lisboa.
Há todo um preparo do ambiente e das pessoas para o evento com enfeites, boas vestimentas e boa aparência. Uma atmosfera festiva e carregada em que o cheiro dos corpos queimados se junta à celebração do grande banquete com enorme variedade e abundância de comida, bebida e dança.
Porém, hoje é dia de alegria geral, porventura a palavra será imprópria, porque o gosto vem mais fundo, talvez da alma, olhar esta cidade saindo de suas casas, despejando-se pelas ruas e praças, descendo dos altos, juntando-se no Rossio para ver justiçar a judeus e cristãos-novos, a hereges e feiticeiros, fora aqueles casos menos correntemente qualificáveis, como os de sodomia, molinismo, reptizar mulheres e solicitá-las, e outras miuçalhas passíveis de degredo ou fogueira. (SARAMAGO, 1997, p. 48)
Já passou Sebastiana Maria de Jesus, passaram todos os outros, deu volta inteira a procissão, foram açoitados os que esse castigo haviam tido por sentença, queimadas as duas mulheres, uma primeiramente garrotada por ter declarado que queira morrer na fé cristã, outra assada viva por perseverança contumaz até na hora de morrer, diante das fogueiras armou-se um baile, dançam os homens e as mulheres, El-rei retirou-se, viu, comeu e andou, com ele os infantes, recolheu-se ao paço no seu coche puxado a seis cavalos, guardado pela sua guarda [...] (SARAMAGO, 1997, p. 51-52)
A ausência da rainha no “auto-de-fé” devido as dificuldades na gravidez e o luto pela morte do irmão são evidenciados a vida íntima da rainha, como as imagens carnavalescas do parto e também a linguagem grotesca semelhantes aos textos de Rabelais.
É como recortes da realidade cultural portuguesa, construída de forma carnavalesca e ambivalente, em que o retrato da mulher grávida como símbolo da vida, contrapõe-se às morte. E tudo é finalizado com festa e alegria e no mesmo ambiente há o sinal de morte e de vida.
D. Maria Ana não está no auto-de-fé porque, apesar de prenha, três vezes a sangraram, e isso foi-lhe causa de grande debilitação, me acréscimo dos afrontamentos de que vinha padecendo há muitos meses, demoraram-lhe as sangrias como lhe tinham demorado a notícia da morte do irmão, que queriam os médicos segura-la mais, sendo tão pouco tempo de gravidez. Que, em verdade, os ares não andam bons no paço, como ainda gora se averiguou ao dar a el-rei um flato rijo, de que pediu confissão e logo lha deram, pelo bem que sempre faz à alma, mas terão sido imaginações suas, afinal era só a tripa empedernida. (SARAMAGO, 1997, p. 47)
É colocada aqui a figura do rei como personagem fundamental do carnaval. Mesmo com todos os sentimentos e imprevistos é naturalmente indispensável sua figura para a celebração do “auto-de-fé”.
Para ele, a pesar de do luto na família, nada o impede de participar da celebração da inquisição. Como monarca e soberano de toda uma nação, sua imagem deve superar a de todos os seus súditos, em exemplo de fé, de poder e de bons ensinamentos.
El-rei, com os infantes seus manos e suas manas infantas, jantará na Inquisição depois de determinado o acto de fé, e estando já aliviado do seu incómodo honrará a mesa do inquisidor-mor, soberbíssima de tigela de caldo de galinha, de perdigões, de peitos de vitela, de pastelões, de pastéis de carneiro com açúcar e canela, de cozido à castelhana com tudo quanto lhe compete, açafroado, de manjar-branco, enfim doces fritos e frutas do tempo. Mas é tão sóbrio el-rei que não bebe vinho, e porque a melhor lição é sempre o bom exemplo, todos o tomam, o exemplo, o vinho não. (SARAMAGO, 1997, p. 49)
A pesar da morte, o sentimento alegre faz parte do contentamento espiritual, em uma ambivalência semelhante às festas carnavalescas rabelaisianas.
Toda a atmosfera séria e tensa passa a fazer parte de um grande banquete dos quais as vítimas, assim como o “chicaneiro” citado por Bakhtin, são motivos da festa, ou seja, sua morte é o ponto chave, um ritual de celebração para a remissão dos pecados e o renascimento para uma nova vida.
Essa liberdade do riso, como qualquer outra liberdade, era evidentemente relativa; seu domínio se alargava ou diminuía alternadamente, mas não foi jamais totalmente interdita. Já vimos que essa liberdade, em estreita relação com as festas, estava de certa forma confirmada aos limites dos dias de festa. Ela se fundia com a atmosfera de júbilo, com a autorização de comer carne e toucinho, de retomar a atividade sexual. Essa liberação do riso e do corpo contrastava brutalmente com o jejum passado ou iminente. A festa marcava de alguma forma uma interrupção provisória de todo o sistema oficial, com suas interdições e barreiras hierárquicas. Por um breve lapso de tempo, a vida saía de seus trilhos habituais, legalizados e consagrados, e penetrava no domínio da liberdade utópica. O caráter efêmero dessa liberdade apenas intensificava a sensação fantástica e o radicalismo utópico das imagens geradas nesse clima particular. (BAKHTIN, 1999, p. 77)
A associação dos dois pólos tão diferentes, a morte da fogueira e o banquete estão ligados a todas as outras imagens carnavalescas, uma vez que todas elas têm uma ambivalência, semelhante às celebrações sérias dos festejos carnavalescos da Idade Média.
Sendo assim, percebe-se que os autos-de-fé narrados em “Memorial do Convento” se transformam em uma das festas preferidas do povo e transforma toda seriedade em ironia. Os mesmos líderes da igreja, supostamente representantes de Deus aqui na terra, são os mesmos a condenar as pessoas à morte de fogueira e ocultar os próprios erros.
A INAUGURAÇÃO DO MARCO INICIAL DO CONVENTO
Em toda a história de Portugal a literatura buscou retratar os grandes acontecimentos, ou os grandes feitos desse povo. É o que o narrador apresenta neste caso, no episódio de inauguração do marco inicial que dá início às obras do convento de Mafra.
Assim como todo grande acontecimento digno de grandeza, a celebração deste grande feito marca o poder econômico e o domínio da burguesia, constituída pela minoria localizada no topo da hierarquia social portuguesa: o rei e o clero.
Assim como Camões contou o passado glorioso desse povo, também estão presentes nessa narrativa, a força e o poder de uma nação e reconhecimento perante as outras, suas riquezas e conquistas materiais. “Benzeu-se a cruz no primeiro dia, enorme pau com cinco metros de altura, que daria para um gigante, Adamastor ou outro, ou para o tamanho natural de Deus, [...]”. (SARAMAGO, 1997, p. 130)
Assim como uma nação vencedora que outrora cruzou os limites de oceanos construíram um passado digno de lembranças, assim também são as pretensões do rei, que por meio da promessa, almeja conseguir algo inédito.
Toda a cerimônia narrada neste episódio, mostra ao leitor o tamanho dos sonhos que a burguesia almejava alcançar. A grandeza que o rei propõe é medida de acordo com o tamanho do convento.
A figura real para a sua nação é indiscutivelmente aclamada e o próprio rei faz tudo para manter a soberania e também a sua vaidade, porém, de forma que seus princípios reais não se oponham aos poderes e dogmas da igreja. Isso pelo fato de ser dividido entre as ideias iluministas, as quais davam impulso à sua grandeza perante as outras nações e com seus princípios religiosos.
Neste caso, todo o poder da burguesia religiosa se volta para o grande feito, como uma antecipação da vida celeste terrena.
Venham pois sua majestade para que se comecem os dias gloriosos da vila de Mafra, para que os seus moradores levantem as mãos ao céu, lês que com os seus perecíveis olhos vão ver a quanto alcança a grandeza de um rei, monarca sublime, graças a quem podemos gozar estas antecâmaras do paraíso enquanto às celestiais moradas não acedermos, tarde seja, que mais apetece estar vivo que morto,[...]. (SARAMAGO, 1997, p. 127)
[...] sabendo que el-rei, chegado a Mafra e informado do sucesso, se pôs, ele, a distribuir moedas de ouro, assim, com esta mesma facilidade com que o contamos, porque os oficiais da obra em dois dias tinham tornado a levantar tudo, multiplicaram-se as moedas, que foi bem melhor que terem-se multiplicado os pães. É el-rei um monarca previdente que sempre leva arcas de ouro para onde vá, [...]. (SARAMAGO, 1997, p. 128)
Quando el-rei chagar, primeiro encarará coma as três largas portas da frontaria, tendo por cima um quadro que representa os santos Pedro e João naquele acto de sararem o mendigo que lhes pediu esmola à entrada do templo dito de Jerusalém, insinuada esperança doutros milagres que venham a produzir-se aqui [...]. (SARAMAGO, 1997, p. 129)
D. João V. vaidosamente usa seus direitos reais para realizar esses grandes acontecimentos para se eternizar na história portuguesa, ou seja, ele sacrifica toda a nação e a obriga a trabalhar em prol a sua promessa para que sua linhagem real se perpetue.
Juntamente com o rei, o clero e suas autoridades religiosas são detentoras de grande poder autoritário e financeiro. Possuem grande riqueza e luxo ostentado nas vestes cravejadas de pedras preciosas extraídas das colônias portuguesas.
Todo luxo ostentada pelo rei e pelo clero eram retirados das riquezas mineras de suas colônias, principalmente do Brasil, para confecção das vestes reais e sacerdotais.
[...] e então se formou a procissão, à frente sessenta e quatro religiosos arrábidos, depois o clero da terra, a cruz patriarcal, seis homens de opas roxas, os músicos, canelões de sobrepelizes, grandes cópia de clérigos vários, um espaço livre a preparar o que aí vinha, e eram os cônegos de pluviais de tela branca e outras bordadas, adiante de cada um deles os seus criados nobres, empós, sustentando-lhes as caudas, os caudatários,das, os caudatbranca e outras bordadas, adiante de cada um deles os seus criados nobres, empse as moedas, que foi bem melh e atrás o patriarca com preciosos paramentos e mitra do maior custo, adornada de pedras do Brasil, depois el-rei com sua corte, juiz e vereadores da terra, corregedor da comarca , e grande número de gente [...].(SARAMAGO, 1997, p. 131)
O ambiente e também na arquitetura das grandes igrejas e conventos é o retrato da exploração que são encobertas por uma ideologia de uma justiça religiosa da luta do bem contra o mal.
De forma hierárquica, a sociedade portuguesa estava para prestigiar a inauguração. Mas essa mesma sociedade é ideologicamente assujeitada ao poder do rei e da igreja. Mesmo contra a vontade, são obrigados a deixar seus próprios trabalhos para atender a construção do convento.
Grande multidão se reúne ao redor da igreja e por serem pobres ou por estarem sujos, não são permitidos a entrar na igreja. Apenas a burguesia é permitida a ocupar os lugares de destaque. “[...] e outra vez o povo, muito povo, tanto povo, nunca a vila de Mafra vira tal ajuntamento, porém, não cabendo todos na igreja, entram os grandes, e dos pequenos só os que cabem e tiveram antes de insinuar-se, [...]”. (SARAMAGO, 1997, p. 131)
A grandeza da arquitetura do convento e as enormes pedras para colocar na porta principal, tornam-se uma representação da fé. Todo tesouro da nação é disponibilizado para a construção do convento, enquanto a grande maioria da população sobrevive miseravelmente e acreditam ideologicamente que todo esforço viria a ser recompensado por Deus, mesmo que lhes custasse a própria vida.
Agora despachem-se com isto, há mais de seis anos que fiz um voto, não estou para andar com os franciscanos à perna todo o tempo, então, então o nosso convento, por causa do dinheiro não sejam os atrasos, gastam-se o que for preciso. Mas em Lisboa dirá o guarda-livros a el-rei, Saiba vossa real majestade que na inauguração do convento de Mafra se gastaram, números redondos, duzentos mil cruzados, e el-rei respondeu, Põe na conta, disse o porque ainda estamos no princípio da obra, um dia virá em que queremos saber, Afinal, quanto terá custado aquilo, e ninguém dará satisfação dos dinheiros gastos, nem facturas, nem recibos, nem boletins de registo de importação, sem falar de mortes e sacrifícios, que esses são baratos. (SARAMAGO, 1997, 133)
O povo faz o trabalho pesado, por acreditar ser necessário, porém o que se percebe é que suas vidas possuem pouca importância perante a burguesia, por isso se distanciam da liberdade. A repressão sofrida abate sobre o povo durante longos anos por acreditarem nas ideologias de uma nação conhecida pela fé.
Desta forma, verifica-se que há uma intenção do narrador em mostrar a figura do rei e do clero, de forma exagerada e espalhafatosa, as quais se distinguem do restante do povo. Há uma grande diferença entre o povo que faz o serviço pesado e os fidalgos e religiosos que se comprometem apenas com os benefícios que lhes trarão a construção do convento, tanto para o rei quanto para o clero.
O ÉPICO DA PEDRA
Estava Baltasar há pouco tempo nesta sua nova vida, quando houve notícias de que era preciso ir a Pero Pinheiro buscar uma pedra muito grande que lá estava, destinada à varanda que ficará sobre o pórtico da igreja, tão excessiva a tal pedra que foram calculadas em duzentas as juntas e bois necessárias para trazê-la, e muitos os homens que tinham de ir também para as ajudas. (SARAMAGO, 1997, p. 232)
Do romance “Memorial do Convento”, esse é o episódio em que o narrador descreve minuciosamente o trabalho braçal no transporte de um enorme bloco de pedra de uma cidade à outra, para a construção do maior convento da história de Portugal.
Na inauguração do marco inicial das obras do convento, é possível ver uma sociedade portuguesa rica, poderosa e moralista, a qual possui grande apego aos bens materiais, frutos da exploração de suas colônias.
A exposição maior desse poder acontece por meio de algo que viria a ser um símbolo da fé, mas para isso, toda a população é explorada submetida ao pior trabalho, que é o de carregar a pedra.
Neste episódio verifica-se que a visão da sociedade inferior, os quais os responsáveis pela construção do convento como maior realização real é também o marco da exploração da sociedade.
Após a grande e espalhafatosa celebração, o que resta é o trabalho pesado e o exagero da exploração dos animais e, principalmente, da mão-de-obra humana. A parte do trabalho que é destinada aos considerados o resto da sociedade, pode ser observado como uma “visão de baixo”.
Essa sociedade esquecida aglomera-se aos redores do convento, fazendo crescer cada vez mais a favela e, junto a ela, todas as consequências da miséria e da pobreza.
O trabalho braçal o qual os homens são submetidos passa a ser um retrato do trabalho escravo de toda uma nação, como se tal exploração superasse os castigos do inferno: “Em cima deste valado está o próprio diabo assistindo, pasmado da sua própria inocência e misericórdia por nunca ter imaginado suplício assim para coroação dos castigos do seu inferno.” (SARAMAGO, 1997, p. 250)
Todos são chamados à dura tarefa de carregar a grande pedra. Uma multidão de homens, animais de carga e carros carregam um enorme bloco de pedra para ser colocada na porta de entrada do convento.
Os nomes são que são citados para essa dura tarefa, são retirados dessa sociedade anônima, como representação de todos os que foram chamados.
[...] já que não podemos falar-lhes das vidas, por quantas serem, ao menos deixemos os nomes escritos, é essa a nossa obrigação, só para isso escrevemos, torna-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende, Alcino, Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo, Horáco, Isídro, Juvino, Luís, Marcolino, Nicanor, Onofre, Paulo, Quitério, Rufino, Sebastião, Tadeu, Ubaldo, Valério, Xavier, Zacarias, uma letra de cada uma para ficaram todos representados, porventura nem todos estes nomes serão, mas, enquanto não se acabar quem trabalhe, não se acabarão os trabalhos, e alguns destes estarão no futuro de alguns daqueles, à espera de quem vier a ter o nome e a profissão. (SARAMAGO, 1997, 233)
Cada um possui sua história de vida, que para a socidade fidalga, não possui valor algum e fazem parte da memória desse povo sofrido, como um corpo. E o trabalho realizado na construção do convento, torna-se uma marca de recordação para as futuras gerações.
É deste espaço pobre e esquecido que, por ordem real, os homens são obrigados a irem realizar o trabalho que a burguesia não faz. O anonimato deles e seus nomes são sinônimos da própria servidão a qual são submetidos, isso, pelo fato de serem chamadas apenas as pessoas que possuem deficiência física, ou os que são doentes e rejeitados pela sociedade e que, se morrerem, pouca falta farão aos demais, com exceção da própria família.
[...] pede-se nos deixar sem vida contada aquele Brás que é ruivo e camões do olho direito, não tardaria que se começasse a dizer que isto é uma terra de defeituosos, um marreco, um maneta, um zarolho, e que estamos a exagerar a cor da tinta, que para heróis se deverão escolher os belos e famosos, os esbeltos e escorreitos, os inteiros e completos, assim o tínhamos querido, porém, verdades são verdades, antes se nos agradeça não temos consentido que viesse à história quanto há de belfos e tartamudos, de coxos e prognatas, de zambros e epilépticos, de orelhudo e parvos, de albinos e de Álvares, os da sarna e os da chaga, os da tinha e do tinhó, então assim, se veria o cortejo de lázaros e quazímodos que está saindo da vila de Mafra, ainda madrugada, o que vale é que de noite todos os gatos são pardos e vultos todos os homens[...]. (SARAMAGO, 1997, p. 233-234)
A caminhada de casa ao local da pedra é lenta e pesarosa, como quem se despede da vida e segue rumo à morte. O trabalho e o esforço seguem durante dias, nos quais muitos feridos ficam para trás e os sangues das machucaduras ficam na terra e se misturam sob os pés dos homens, dos animais e as rodas dos carros. O ponto culminante é o momento em que um homem é esmagado pela roda do carro no qual suportava todo o peso da pedra e também os animais feridos, eram sacrificados e servidos como alimento, “[...] recomeçará a pedra a sua viagem, em Cheleiros ficou um homem para enterrar, fica também a carne de dois bois para comer.” (SARAMAGO, 1997, p. 252)
Durante o dia, seguem a lenta e dura tarefa, já à noite, os homens se reúnem ao redor da fogueira e apresenta cada qual, a sua história de vida, como única forma de serem ouvidos.
Todas as histórias de vida eram sempre idênticas, pois entre eles, eram expostos os sonhos e o desejo de cada um. Aqui, o narrador empresta sua voz para cada um deles e marca esse episódio com marcas de polifonia.
Toda a grandeza e importância da qual se destina a pedra, para os trabalhadores não significava nada além de grandes esforços e sofrimentos.
[...] com três ou dez mais pequenas se faria do mesmo modo a varanda, apenas não teríamos o orgulho de dizer a sua majestade, É uma pedra, e os visitantes, antes se passarem à outra sala, É uma pedra sopor via destes e outros tolos orgulhos é que se vai disseminando o lúdico geral, com suas formas nacionais e particulares, como esta de firmar nos compêndios e histórias, Deve-se a construção do convento de Mafra ao rei D. João V, por um voto que se lhe nascesse um filho, vão aqui seiscentos homens que não fizeram filho nenhum à rainha e eles é que pagam o voto, que se lixam, com perdão da anacrónica voz.(SARAMAGO, 1997, p. 248)
A grandeza da pedra, aqui traz um símbolo da grandeza e do apego material, ou seja, o tamanho da pedra é baseado no tamanho do apego à riqueza e poder, pois, não basta uma pedra pequena, uma vez que não seria suficiente para expressar a soberania do rei e de sua igreja.
Desta forma, pode-se dizer que o rei, junto ao clero possui um discurso ideológico dominador, no qual ocultam todas as verdadeiras intenções. Isso pelo fato de camuflar a exploração do povo, em benefício aos bens materiais, dentro dos discursos religiosos da igreja e também do rei.
A VIAGEM DA COMITIVA REAL
Porém, ainda se encontram famílias felizes. A real de Espanha é uma. Portugal é outra. Casam-se filhos daquela com filhos desta, da banda deles vem Maria Vitória, da banda nossa vai Maria Bárbara, os noivos são o José de cá e o Fernando de lá, respectivamente, como se costuma dizer. [...] os casamentos são feitos desde mil setecentos e vinte e cinco. Muita conversa para pouca conversa, muito embaixador, muito regateio, muitas idas e vindas de plenipotenciários, discussões sobre as cláusulas dos contratos de matrimónio, as prerrogativas, os dotes das meninas, [...]. (SARAMAGO, 1997, p. 288)
Na sociedade portuguesa dos séculos XVI à XVIII, podem ser comprovados os dois lados extremos classificados entre os ricos e os miseráveis, conforme foi dito. É neste contexto que o narrador de “Memorial do Convento” constrói o enredo marcante, levando em conta o código ético religioso repressivo e moralista da época.
Nesse episódio, verifica-se a questão do apego ao dinheiro e aos bens materiais, como também, a futilidade do poder e riqueza em superação aos valores espirituais.
Em uma viagem de negócios, a família real portuguesa segue até a Espanha para o casamento de ambos os filhos, o casal de filhos da família real portuguesa com o casal de filhos da família real espanhola.
D. João V e toda a sua comitiva seguem para à Espanha, país este, que antes era seu inimigo, para uma negociação visando benefícios e lucros de ambas as partes, do casamento de ambos os filhos, que por sinal, são crianças e adolescentes. “Tem essa casa três salas, uma de cada lado para os soberanos de cada país, outra central para as entregas, toma lá Bárbara, dá cá Mariana.” (SARAMAGO, 1997, p. 308)
Na comitiva real que segue pelas ruas em direção ao país vizinho, são ostentados todo do luxo e riqueza do rei e da sua comitiva, com números exagerados de criados, servos, escravos e animais. Por onde passam, seguem arrastando multidões de olhares curiosos com tamanha exposição de riqueza.
Pesa aqui também, antigos costumes culturais em que os pais representam a figura machista e, neste caso, utilizam os próprios filhos como objetos de negócio.
Todo o cortejo real é visto e admirado através dos olhos de um velho soldado espanhol que lutou na guerra de Portugal e Espanha, o João Elvas. Aqui, o narrador torna a personagem protagonista deste episódio, como um representante de todo povo que sofre, luta, relembra o passado e sonha com um futuro promissor, ao presenciar o evento.
Mas a festa vem aí. Já se ouvem ao longe toques de trombetas bumbos de atabales, acelera-se o velho sangue militar de João Elvas, são emoções esquecidas que de repente voltam, é como ver passar uma mulher quando delas não há mais que lembranças, e, ou por riso, ou por um bandear de saia, ou por um jeito dos cabelos, sentem um homem derreterem-lhe os ossos, leva-me, faz de mim o que quiseres, tal qual como se nos chamasse a guerra. (SARAMAGO, 1997, p. 292)
E toda a reverencia é prestada ao rei no momento em que ele passa arrastando multidões que o seguem mendigando esmolas e dinheiro.
”[...] e agora atenção, agora é que vai começar a valer a pena, estes coches e estufas vazios que passam são os coches e estufas de respeito das reais pessoas a seguir, a cavalo, aparece o estribeiro-menor, enfim, chegou o momento, põe o joelho em terra, João Elvas, que estão passando el-rei e o príncipe D. José, e o infante D. Antônio, é o teu rei quem passa, papagaio real quem vai à caça, vê que majestade, que presença incomparável, que gracioso e severo semblante, assim Deus estará no céu [...] (SARAMAGO, 1997, p. 293)
Verifica-se que a representação e o valor dos bens materiais que D.João V deixa evidente que os valores materiais que ele e sua comitiva ostentam.
Compreende-se que há exploração do trabalho dos criados e dos que sofrem com a grande e dura tarefa de servir a família real durante a longa caminhada, assim como ocorrem ns obras do convento. “Saiba vossa alteza que aqueles homens vão trabalhar para Mafra, nas obras do convento real, são do termo de Évora, gente de ofício, E vão atados porquê, Porque não vão de vontade, se os soltam fogem [...]” (SARAMAGO, 1997, p. 303)
Na viagem, a chuva castiga toda a comitiva e, ao observar os esforços desumanos os quais são submetidos os servos, a família real descansa e observa tranquilamente sem demonstrar devido valor. “Agora não está a chover, mas o frio aperta e queima as carnes, não faltam frieiras por essas mãos, apesar dos regalos e das damas, falamos das damas, claro está, tão entanguidas e constipadas que fazem dó[...]” (SARAMAGO, 1997, p. 299-300)
Com a chuva, os trabalhos são multiplicados e, nesse caso, a filha do rei contempla a si própria o real motivo da exploração, sem se quer ao menos ter ido ao convento.
A princesa já não pensa nos homens que viu na estrada. Agora mesmo se lembrou de que, a final, nunca foi a Mafra, que estranha coisa, constrói-me uim convento porque nasceu Maria Bárbara, cumpre-se o voto porque Maria Bárbara nasceu, e Maria Bárbara não viu, não sabe, não tocou com o dedinho rechonchudo a primeira pedra, nem a segunda, não serviu com sua mão o caldo dos pedreiros, não aliviou com bálsamo as dores que Sete-Sóis sente no coto do braço quando retira o gancho, não enxugou as lágrimas da mulher que teve seu homem esmagado, e agora vai Maria Bárbara para Espanha, o convento é para si como um sonho sonhado, uma névoa impalpável, não pode sequer representá-lo na imaginação, se a outra lembrança não serviria a memória[...] (SARAMAGO, 1997, p. 304)
A família real é sempre rodeada pela burguesia pelos criados reais, devido ao interesse em relacionamentos pessoais por interesses materiais e benefícios próprios, mesmo que estes custem a exploração do trabalho das outras pessoas.
Observa-se que o cortejo da família real e todos que o acompanham, possui semelhança com as imagens de Rabelais (BAKHTIN, 1999), as quais estão ligadas aos banquetes carnavalescos.
Assim como ocorre em outros episódios de “Memorial do Convento”, os quais foram analisados, neste a carnavalização significação está relacionada aos excessos da vida material e faz criticais sociais às principais classes altas da época que são: o clero, a realeza e a burguesia, os quais são responsáveis pela detenção de toda riqueza e também, da exploração da vida humana em benefício próprio.
Assim, ocorre no episódio da viagem da família real a visão externa desse cortejo mostra um assujeitamento ou mesmo submissão da população aos interesses reais. A distribuição de esmolas e sobras de comida no decorrer do caminho, atribui ao rei uma imagem bondosa, quando na verdade, o almejado é sempre a pretensão à riqueza com a garantia de que seu nome, D João V ficará para sempre na história devido ao casamento dos filhos.