quarta-feira, abril 24, 2013

“CRIME E CASTIGO” DE DOSTOIÉVSKI: DIÁLOGO E POLIFONIA

by Rômulo Giácome


Ensaio análise produzido a partir da Leitura fruitiva da obra e a posterior participação na Mesa Redonda Intitulada "Crime e Castigo” de Dostoiévski: Um Olhar Jurídico, Psicanalítico e Literário”, realizada no dia 18 de Abril, no auditório da UNESC, com a partipação dos professores Rogério Dias (psicologia), Bernardo Shimidt Penna (Direito) e Rogério Sikora (Direito).


O presente ensaio / análise acadêmica da obra “Crime e Castigo” de Dostoiévski, está estabelecida sobre a leitura / análise, com recortes de momentos intricados e classificados pela teoria, detidamente observados por uma voz descritiva. Nesta triangulação, a teoria que valemos é a da Polifonia de Bakhtin, a partir de seus estudos na obra “Problemas da Poética de Dostoiévski”, levando em conta o que Wisnik (1989) denomina de franco processo de mixagem de sons, ritmos, textos, línguas e índices sociais.
A base do conceito de Polifonia de Bakhtin, mais detidamente na obra de Dostoiévski, concentra-se na questão da independência das consciências discursivas, ou consciências / vozes que se mantém em perfeito equilíbrio, sem uma dominar a outra, estatizadas e neutralizadas umas pelas outras, mas não sem amplitude, apenas em uma relação de independência chamada de “equipolentes". Elas têm suas próprias forças e amplitudes e aparentam estar acima da própria voz autoral, sussurrando em cada palavra.
Uma forma de materialização desta polifonia é o diálogo; principalmente os diálogos e cenas de “Crime e Castigo”, que carregam fortes traços de singularidade de cada consciência discursiva, apresentando-se incompletas e sem necessidade de completude, tornando a obra ainda mais interessante e rica.
                Abaixo seguem alguns diálogos escolhidos à luz deste intróito metodológico.

Parte I - Capítulo II – Raskólnikov é nosso protagonista. Estruturalmente, “Crime e Castigo” é simples, com um plano fabular cronologicamente curto. A trama se passa em menos de 04 dias. O mote central do enredo pode ser estruturado de forma simples. Um epicentro factual no assassinato e depois a construção de uma “culpa” a partir da(s) consciência(s). No entanto, a riqueza dos personagens é incontestável e inestimável. São profundos e vivos, humanizados ao extremo. Talvez por dois fatores: a) a abordagem psicológica de um narrador infra onisciente neutro, mas de visão dinâmica e dimensionável. E ainda pela força dos diálogos. Estes são a matéria especial desta pequena resenha. Ricos e polifônicos, exalam uma tensão especial e, principalmente, uma concatenação lógica do raciocínio, preciso e claro.
Neste capítulo, Raskólnikov desse aos baixios, buscando nas tabernas do mercado do feno, local pobre e desestruturado, um local para repousar seu transe humano, sua negação à vida e a si mesmo. Lá ele se encontra com Marmieládov, um ex-funcionário, em estado de miséria, bêbado, grande e galhofo. A eloquência de Marmieládov tem o tom do desespero e da avidez. Neste encontro a narrativa coloca o protagonista de fronte ao seu futuro, pois é essencial os personagens e o desenrolar da trama por sobre eles. À frente surgira a pequena e frágil Sônia, com seu título amarelo de prostituta, que praticamente sustenta a família de Ekaterina Ivânovna, esposa de Marmieládov, ríspida e nervosa esposa, que eu sua situação de tísica, prolifera e vocifera ódio do marido. (no futuro veremos que não é bem assim, pois Marmieládov havia tido uma segunda chance, tinha arrumado novamente emprego, estava sendo bem tratado, mas perdeu a linha e voltou a beber, gastando os últimos copeques).

Parte I – Capítulo III – Raskólnikov recebe a carta da mãe. Esta carta propõem um novo tom narrativo e estilístico na enunciação. É um monólogo estruturado por uma outra voz, sobreposta à voz narrativa (segunda consciência). No entanto, fica definido um diálogo polifônico na medida em que a carta da mãe de Rodka (apelido de Raskólnikov ) simula que prevê uma situação de enunciação virtual, ou seja, a mãe escreve imaginando o comportamento do filho ante à informações prolatadas, e antecipa recursos enunciativos, como pausas e comentários. Em tom amendrontado e respeitoso, escamoteado, a carta conta a vilanice contra a irmã, fato que fez com que toda uma cidade ficasse contra sua irmã Dúnia. Acusada de ter um caso com seu patrão, Sviridov, Marfa, esposa, a difamou. Também nesta carta irrompe um outro ponto conflituoso: o casamento de sua irmã Dúnia, concedido pela mãe sem a anuência de Rodka;

Parte I – Capítulo VI – O diálogo entre Mitka e Kotch, na porta de Alióna, buscando trocar alguns pertences por dinheiro, inocentemente, sem saber que trancado dentro da casa, Rodka respirava sufocado, com a machadinha em punho, e os corpos de Alióna e Lisavieta atrás de si. Raskólnikov já tinha assinado sua sentença psicológica pelo romance afora: a culpa pelo assassinato. Aqui é notório que o Crime empetrado por Rodka é o divisor de águas da obra; a partir de então, os elementos psicológicos que compõem a riquezado sacrifício do “réu” passam a agir, trespassando pela moral, ética e religião, em um diálogo franco com si mesmo;

Parte II – Capítulo I – Entremeios ao diálogo de Nikodim e Iliá Pietróvich, Raskólnikov desmaia. (o conteúdo do diálogo era o seguinte: argumentavam sobre o assassinato, faziam um circuito lógico do acontecido muito próximo da verdade real. Um dizia que o caso estava escuro. O outro afirmava que estava muito claro. Rodka escureceu em um desmaio comunicativo).

Parte II – Capítulo IV – A oposição de ideias entre Rodka e Pietróvitch, o futuro cunhado e agora, desafeto. Um diálogo perfeito. Cada enunciado talhado por Rodka parece oriundo de uma outra narrativa, de outro autor, que se engendra nesta narrativa, consolidando a polifonia.

Parte III – Capítulo II – Raskólnikov analisa a carta que Pietróvitch enviou à irmã e mãe. O intertexto, a carta, passa a ser resolvida à luz do personagem, figura ficcional, que analisa o estilo da escrita e o fato desta carta ser uma prova da “arrogância” e “perigo” que constitui o noivo de Dúnia (Irmã). Nesta argumentação, do estilo dentro do estilo (o estilo da carta, dentro do limiar do estilo de escrita advogatícia, dentro do estilo de análise de Rodka) o seguinte trecho é locaz: “Processuais? Sim, é isso: processual, de advogado. Nem demasiado vulgar nem demasiado literato, advogatício”. Diz Raskólnikov. Em suma, é ressaltada uma consciência dentro da consciência, sem nível hierárquico, que analisa a própria astúcia da narração em criar uma micro-narrativa dentro da narrativa principal com estilos e categorias de escrita próprias.

Parte III – Capítulo V – Capítulo importantíssimo; nele se desenvolve a tensão dialógica entre Porfíri, o juiz de instrução, e Rodka com seu amigo Rasmukin; várias camadas de leitura poderiam nos permitir entender diferentes níveis ou ângulos da percepção de Porfíri sobre a culpa de Rodka, senão do nível de conhecimento de Porfíri quanto a participação de Raskólnikov no assassinato; cada palavra, cada sentença forma um estranho quebra-cabeça de intenções que podem dissipar sentidos sobre o grau de onisciência do investigador; no entanto, tais discussões acabam por ancorar-se na tese de Rodka sobre os homens extraordinários. Eis o epicentro do Capítulo V; a dissecação moral e política da visão do protagonista sobre a culpa, a culpabilidade e a pena; ou seja, se matar por algo maior não está imune da culpa, isento da culpabilidade e assim, descriminalizado na pena; como nota final, é importante perceber a junção da fala e do pensamento do protagonista, ambos em articulação;

Parte IV – Capítulo II – Capítulo que demarca a cisão entre Dúnia e Pietrovicth, a aparente vitória de Rodka; belíssimo diálogo polifônico, marcado pela transposição de conteúdo e forma enunciativa (sinais de pontuação); o uso de Dostoiévski das aspas para a referência ao pensamento é uma forma gráfica de separar, ainda mais, as diferentes ações, manipulando e des-sincronizando o que se “pensa” do que se “fala”;

Parte IV – Capítulo IV – Uma verdadeira catarse irrompe do diálogo polifônico entre Sônia e Rodka; a evolução entre o discurso de Raskólnikov, mas a comoção de Sônia, o ambiente, e o texto bíblico, em uma profusão de sensações e emoções, compõem o diálogo entre a passagem que Jesus ressuscita Lázaro; o equilíbrio de forças antagônicas, mas que compartilham a mesma estrutura: a moral religiosa e a moral idealista, confrontada com a moral da sobrevivência e do existencialismo. Talvez a epifania do discurso polifônico, onde ambas as consciências, díspares, autônomas e fortes, em caráter contencioso, dialogam de forma ímpar.

Parte IV – Capítulo V – O grande confronto intelectual de dois astutos e insidiosos dominantes das palavras e das ideias: neste confronto, Porfíri consegue, por sobre o desequilíbrio emocional do protagonista, uma quase/confissão; surge um próprio terceiro personagem, que quase materializado, atua sobre o estado emocional de Raskólnikov: a Culpa.
                Ainda é possível descrever dois grandes momentos desta grandiosa obra:
Parte V – Capítulo I – O grande fato da denúncia de roubo contra Sônia, que desmascara Iujin;
Parte V – Capítulo II – O grande festim e Ekaterina; o banquete envolvido em uma carnavalização; a loucura, o alimento farto e a insanidade;
Bem, esta pequena análise / resenha buscou atuar sobre a leitura da obra de modo produtivo, não deixando escapar a lembrança fresca de grandes cenas e diálogos compostos pela narrativa. É crível que uma obra de arte, principalmente aquelas clássicas, devem sofrer a atuação consistente da leitura crítica, culminando em uma produção que gere conhecimento e valorização de seus artifícios. Só assim teremos a literatura perene em nossa modernidade.







quarta-feira, abril 10, 2013

Resenha Obra: "INTRODUÇÃO À SEMÂNTICA DE CONTEXTOS E CENÁRIOS" (2010) – Celso Ferrarezi Jr.

UM BREVE OLHAR DA CIÊNCIA SOBRE A LINGUÍSTICA E A SEMÂNTICA: CRISE DE OBJETO E MÉTODO

by Helem Cristiane Aquino dos Anjos Fernandes*



Na obra “Introdução à Semântica de Contextos e Cenários”, o autor Celso Ferrarezi Jr. faz considerações acerca das definições, ou ao menos recortes conceituais sobre os termos “Semântica” e “Significado”, assinalando que existe maior dificuldade em conceituar o Significado do que a própria Semântica. Isso porque, para o caráter científico se estabelecer é necessário a presença de alguns fatores essenciais, a saber: o objeto, o objetivo e o método.
O objeto constitui o material de estudo, podendo ser um elemento material ou imaterial. O objetivo consiste no que se pretende alcançar com a realização do estudo, proporcionando maiores conhecimentos acerca do assunto pesquisado. E por último, o método que pode ser entendido como um conjunto de técnicas usadas para a pesquisa do objeto e consequente realização do objetivo.       
Conhecer esses fatores será útil para o esclarecimento do que seria realmente a Semântica e o Significado, tendo em vista que a Semântica ainda não galgou o status de Ciência (FERRAREZI JR, 2010) por não apresentar um método de análise capaz de responder as questões mais básicas de seu objeto de estudo: o significado. Portanto, Ferrarezi (2010) atribui essa maior dificuldade em conceituar Significado, justamente pelo fato da Semântica não possuir métodos eficazes que possam esclarecê-lo satisfatoriamente.       
A Linguística é uma ciência, ao contrário da Semântica, que ainda rende muitas controvérsias acerca de seu valor científico. Sendo assim, é importante enfatizar Ferdinad Saussure como o primeiro pesquisador das manifestações da linguagem humana, pois suas pesquisas deram origem à Ciência da Linguagem.
A princípio, o objeto de estudo da Linguística era somente a língua escrita. É a partir das pesquisas de Saussure que as línguas naturais e suas diversas manifestações passam a compor os estudos da linguagem.
Saussure foi o responsável por fazer da Linguística uma ciência, pois ele delimitou seu objeto, os objetivos e os métodos de estudo da linguagem humana. Alguns dos objetivos delimitados por ele constituem-se de: buscar descrever e    reconstituir a origem de todas as línguas, bem como indicar as causas responsáveis pela evolução destas.
Quanto aos métodos utilizados, observa-se que muitos deles foram emprestados de ciências afins, como por exemplo: a Filologia, a Antropologia, História, Filosofia, Sociologia, entre outras. Esses métodos emprestados já gozavam de grande mérito cientifico.
Desse modo, pode-se destacar como técnicas utilizadas a reconstituição histórica por meio de comparações, uso de Gramáticas Normativas, assim como os aspectos básicos constituintes da linguagem, que foram usados para definir as diferenças entre língua falada e escritos.
Foi com base nesses métodos de analise de sistemas linguísticos que Saussure pode subdividir a Linguística, surgindo então três novas ramificações dessa ciência, a saber: Fonologia, a Semiologia e a Gramática, considerando os aspectos sintagmáticos e associativos.
Atualmente, as subdivisões dessa ciência são bem maiores, como bem afirma Cagliari (1990, p.42) “Assim podemos dividir a Linguística em Fonética, Fonologia, Morfologia, Sintaxe, Semântica, Análise do Discurso, Pragmática, Sociolinguística, Psicolinguística etc”. É válido dizer que posteriormente às subdivisões de cada uma delas, todas se tornam áreas específicas de estudo. Sendo assim, devem possuir objeto, objetivo e métodos próprios, muito embora estes devam estar em harmonia com a Ciência-mãe.   
Essas subdivisões acarretaram, de certo modo, um grande problema para a Linguística, pois ao subdividi-la, dezenas de conceitos diferentes de língua natural surgiram, fazendo com que a metodologia responsável pelo surgimento dessa nova visão fosse insuficiente para descrevê-la. Isso quer dizer que a língua natural, objeto de estudo da Linguística e, de certa forma, de suas demais ramificações, passaram a ser analisadas numa partimentação muito limitada, que não dava conta de toda a sua complexidade, como por exemplo explicar a língua natural apenas pelo foco da Semântica, ou da Análise do discurso, ou ainda apenas pela Sociolinguística.
No entanto, as delimitações foram importantes no sentido de organizar a ciência, separando as diferentes perspectivas de abordagem feitas em relação à língua natural. Mas, infelizmente, em certos momentos, mais atrapalhou do que ajudou na compreensão geral do que seja língua natural, pois análises demasiadamente fragmentadas não são convincentes, como afirma Ferrarezi (2010, p.15):


[...] não pode existir uma Fonologia convincente sem uma Fonética (...). Não existe uma Sintaxe convincente sem uma Semântica (...); enfim... uma língua natural não pode ser compreendida e explicada aos pedaços de forma convincente [...]

A partir dessa premissa, Ferrarezi (2010) dá início a uma longa discussão sobre o problema da Semântica, ou seja, sobre os verdadeiros motivos que a impede de se consolidar como Ciência.
Sabemos que o objeto de estudo da Semântica é o significado, e que o seu objetivo é compreender o significado. Portanto, surge daí seu principal empecilho na definição de seu método.
A semântica poderia, de acordo com as idéias de Saussure, definir-se a si mesma e delimitar-se. Porém, esse instrumental não seria conveniente por ser limitado a uma mera subdivisão Semântica.
Inicialmente ela investiu nessa possibilidade e tomou emprestado o método da lógica Formal, bem como alguns procedimentos da Filosofia; mais adiante passou a analisar estruturalmente os sentidos, depois a análise funcional - que quase baniu os sentidos, e enfim, a uma análise gerativa. Método atrás de método, todos muito controvertidos, e que de nada solucionaram o seu e os outros problemas da compreensão de seu objeto de estudo.
Portanto, fica evidente que a semântica não pode ser considerada uma ciência por não possuir exatamente a noção de significado; é por isso que a maioria das teorias propostas acerca do significado, em grande parte são insatisfatórias, mesmo sendo desenvolvidas por renomados pesquisadores, e sob critérios rigorosos de cientificidade.
Sendo assim, Ferrarezi (2010) propõe que os estudos semânticos reavaliem os conceitos de significado, para observarem até que ponto ele é essencialmente importante para a semântica, pois como se sabe, após tantos séculos de estudos, ainda não temos uma resposta satisfatória para o significado. Desse modo, o autor propõe a reestruturação da Semântica.

REFERÊNCIAS


FERRAREZI JR, Celso. Introdução à Semântica de Cenários e Contextos. São Paulo: Ed. Mercado de Letras, 2010.



*A Autora é professora da Rede Estadual de Rondônia, Graduada em Letras e Especialista em Metodologia e Didática do Ensino Superior.