quinta-feira, outubro 09, 2014

XIX SELL - MINICURSO "UM OLHAR SEMIÓTICO SOBRE A POESIA DA DÉCADA DE 90"

(Minicurso ministrado na XIX edição do SEMINÁRIO DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS, Vilhena, 02 e 03 de Outubro)
A POESIA DA DÉCADA DE 90 E SEUS PARADIGMAS CABRALINOS E CONCRETISTAS, SOB A FACE NEUTRA OU NÃO DA IDEOLOGIA PÓS-80
by Rômulo Giacome


Elementos semióticos utilizados: 

- Isotopias; (Rastier)
- Tensões e significações; (Zilbenberg)
- Semas e classemas (Greimas)
- Iconografia e ícones imediatos; (Peirce)
- Semissímbolos; (Pietroforte e Mary Floch)



Poemas analisados: (Carlito Azevedo)


Na noite física
(desentranhado de um poema de Charles Peixoto)
A luz do quarto apagada,
na escuridão se destaca
a insônia que nos atraca,
dois gêmeos na bolsa d’água.
Ao despertar levo as marcas
que de noite rabiscavas
em minha pele com a sarna
ávida de tua raiva?
E em você a cega trama
algum mal pôde? ou maltrata
ainda, que penetrava
concha, espádua, gargalhada?
E, em nosso rosto essa raiva
aberta? que estranha lava
é essa que, rubra (baba
de algum diabo), se espalha?
A luz do quarto apagada,
na escuridão se destaca
a fúria que nos atraca,

dois gêmeos na bolsa d’água.


RÓI
Rói qualquer possibilidade de
sono
essa minimalíssima música
de cupins esboroando
tacos sob a cama
imagino a rede de canais
que a perquirição predatória
possa ter riscado
pelo madeirame apodrecido
se aguço o ouvido
capto súbito

o mundo dos vermes


Poemas Analisados: (Paulo Henriques Britto)

Materiais (de Liturgia da matéria)
A utilidade da pedra:
fazer um muro ao redor
do que não dá para amar
nem destruir.
A utilidade do gelo:
apaga tudo que arde
ou pelo menos disfarça.
A utilidade do tempo:
o silêncio.

Insônia
Na noite imperturbável,
infinitamente leve
a consciência se esbate,
espécie de semente
sobre um campo de neve
neve macia e negra
intensamente morna
onde o tempo se esquece
na inércia indiferente
das coisas que só dormem
onde, alheia ao mistério
de tudo ser evidente,
inteiramente encerrada
dentro do espaço exíguo
que é dado a uma semente
inútil como fruta
que não foi descascada
e apodreceu no pé,
jaz a semente aguda
profundamente acordada.
(1987)

Ontologia sumaríssima
Umas quatro ou cinco coisas,
no máximo, são reais.
A primeira é só um gás
que provoca a sensação
de que existe no mundo
uma profusão de coisas.
A segunda é comprida,
aguda, dura e sem cor.
Sua única serventia
é instaurar a dor.
A terceira é redondinha,
macia, lisa, translúcida,
e mais frágil do que espuma.
Não serve para coisa alguma.
A quarta é escura e viscosa,
como uma tinta. Ela ocupa
todo e qualquer espaço
onde não se encontre a quinta
(se é que existe mesmo a quinta),
a qual é uma vaga suspeita
de que as quatro acima arroladas
sejam tudo o que resta
de alguma coisa malfeita
torta e mal-ajambrada
que há muito já apodreceu.
Fora essas quatro ou cinco
não há nada,
nem tu, leitor,
nem eu.
(1989)


Declarações teóricas a partir das sínteses de ideias: 



è A busca do desenho da fábula; a fábula ou alegoria tenta manipular a expressão solta do poema; a busca de decifrar o poema pela alegoria é a mesma tentativa de ler a pintura pela figuratividade; muitas vezes o propósito dos poemas é dialogar em níveis secundários, terciários e até mesmo quaternários;

è Primários à sentido denotativo; Secundários à sentidos ambíguos ou conotativos; à Terciários à homologias entre os campos da expressão e não do conteúdo; (ex: sonoridades internas e externas dos versos e signos); Quaternários: (ex: sentidos de uma categoria que constroem homologia com outra categoria. Diálogo entre as frutas e suas características e a amizade)

è Isotopia; a arte de arranjar elementos em um conjunto identitário que está disperso na ordem usual do discurso;

è A metalinguagem e a inversão dos elementos significantes e significados nos semissímbolos.

è Os arranjos possíveis entre os signos intermediados pelos campos de expressão e conteúdo; ex: sonoridades como aliterações e assonâncias; campos semânticos identitários, como o grupo dos alimentos, cores, partes do corpo e, mais profundamente, campos ideológicos;