quarta-feira, dezembro 14, 2016

NENHUM DE NÓS - REVISITANDO

O SHOW ME LEVA A ENTENDER UM POUCO MAIS DA OBRA DESTA BANDA. O QUE ACABOU POR ME PROJETAR EM UM CAMINHO DE REFLEXÃO SOBRE O CONSUMO DE ARTE E O FALAR DA JUVENTUDE ONTEM E HOJE.

Na ocasião do show da banda Nenhum de Nós aqui em Cacoal, imperdível por sinal, tornou salutar voltar e pesquisar um pouco mais sobre esta banda dos anos 80 e 90. 
Primeiramente, sempre analisamos uma banda de Rock Pop dos anos 80 como portadora de muitos hits. Volvendo a memória, o que me antecipei a pensar e lembrar foram dois grandes hits: "Camila" e "Astronauta de mármore"; esta última, uma versão de David Bowie.
O show foi acontecendo, limpo e sem angústia, sem excesso, quando surge "Amanhã e depois"; aquela ponta de Rock nacional já começa a cintilar, principalmente em nossas lembranças locais. Logo depois começa "julho de 83" e aquela sensação de deja vu. Quando soa o extasiante e apoteótico começo de "Sobre o tempo", aí já não tem mais jeito e é possível concluir: caralho! o rock nacional tem seu zagueiro ali na frente!



Sobre isso é interessante refletir. O quanto consumimos a arte de maneira desrespeitosa! muitas músicas destas relatadas, pulsantes em coletâneas, pulverizadas em pendrives e hds, como fenômenos sem autores, sem história e contexto. A era digital impele um despreparo ao fruir a canção, retirando-a de seu contexto e de sua liturgia. Des-historicizada, a canção é apenas um hit; assim como a arte sem entendimento e leitura é inútil. O entendimento da canção, desde sua letra, preparo, disco, inclusão contextual, comentários, lendas, e todos os aportes que dão singularidade à produção musical.
Assim, o show me fez pensar sobre isso e ir um pouquinho mais no entendimento da obra de Nenhum de Nós. E acabei por ter grandes surpresas, principalmente por desconhecer muitas de suas músicas. Me deparei com "Eu caminhava", com sua levada The Smiths e sua letra bacana. Encontrei "Fuga" e "Sinais de Fumaça", assim como a niilista "Jornais". Caramba. Além da punk "Cardume". 
E destas audições despretensiosas, uma leitura literária é quase impossível de evitar. Da minha leitura, ainda conspícua, se desdobra em dois pontos:
O primeiro é o tempo. Claro que faço um recorte arbitrário e não científico. No meu recorte o tempo ficou latente. A discussão da temporalidade é algo salutar. Tanto o tempo da ordem temática "Amanhã e depois", quanto do ponto de vista de categoria de discussão. Ou modalidade de pensamento, conduzindo às incertezas do jovem das décadas de 80 e 90. Este jovem adolescente em dúvida, apologista da insegurança e da tristeza. O jovem de "Julho de 83", inseguro e impotente diante de sua gagueira emocional. 


O tempo passa e nem tudo fica
A obra inteira de uma vida
O que se move e
O que nunca vai se mover

O tempo engana aqueles que pensam
Que sabem demais que juram que pensam
Existem também aqueles que juram
Sem saber

O niilismo do "acho que não sei quem sou / só sei do que não gosto" não é apenas mais um tropo da fábula cultural juvenil. É a forte categoria axiológica da discussão entre o ser pelo saber. 

Acho que era Julho de 83
Eu sempre esqueço do dia
Mas lembro do mês

As brechas no tempo propiciam habitar as especulações filosóficas. A identidade do adolescente irrompe com contraponto à falta de certezas. O próprio niilismo da negação juvenil seja o próprio código de ressignificação de seus valores. Não lembro o mês, mas foi naquela época que marcou. O dia não interessa, mas sim o momento. O jovem foge do tempo, tanto por identificá-lo como forma de permanência, quanto por oprimi-lo. 
Não consigo comparar de maneira mais empobrecedora. O Jovem dos anos 80 sofria da crise e do peso da juventude, obscurecida pela consciência de dúvida e incerteza perante a vida. O jovem de hoje, desta década, com sua cultura da potência, certeza e determinação, ou projeta na cultura (música, cinema, novela) realmente a evolução da adolescência, ou é apenas uma máscara que manipula a visão dos outros e de si mesmo de suas próprias limitações.  
Obrigado Nenhum de Nós, pelo belo show e por lembrar-me: a arte nos faz perceber que somos humanos e que estamos vivos. 

  

sexta-feira, dezembro 09, 2016

SETE SELOS PARA A LITERATURA SOBRENATURAL

Surfando na onda de Edgar Alan Poe, nada mais natural que evocar um grande coletânea de contos intitulada "Clássicos do Sobrenatural". A peculiaridade desta antologia é a de que os autores são renomados e verdadeiros panteões da Literatura Universal. Aqui temos a fina flor da narrativa universal produzindo contos de terror, suspense e alucinações, povoando o imaginário pós-vitoriano de sobrenatural. Alguns autores: H. G. Wells; Henry James; Sir. Arthur Conan Doyle. entre outros.  


Para chegar até esta coletânea, caminhamos sobre sete imagens da mais alta relevância, de artistas consagrados, que selecionei para um mergulho em meio ao sobrenatural. 

O primeiro selo é uma imagem gótica moderna, de alto impacto visual e ambiente místico. Piranesi, "Prisões". (1720-1778)

O segundo selo é uma imagem belíssima de alto poder iconográfico. Os elementos noturnos "O Pesadelo" de Johann Heinrich Fussli. 1802. Obra sensacional 


O terceiro selo é a tela, também magistral, de iconografia noturna, de Fussli. "The Nightmare". A donzela romântica desprovida e arrebatada sob o incubus; a presença noturna infernal dos elementos como o Cavalo. 


A morte e suas maneiras, na penumbra, também compõem um painel soturno do místico e do misterioso, Francisco de Goya, em seu "Saturno devorando um filho" traz o aspecto enlouquecido da morte. (1819)


 Em "Estudo do retrato do Papa Inocêncio X Segundo Velasques" de Francis Bacon (1953) semiotiza os elementos expressionistas da dor e da angústia, erigidos a partir do grito, da cadeira elétrica e dos raios.


Dante e Virgílio no inferno é um quadro do pintor academicista William-Adolphe Bouguereau, realizada em 1850 e que se encontra no Museu de Orsay em Paris, França. As referências infernais, a intensidade das cores e formas, bem como elementos iconográficos da alma humana, como o ódio, cobiça e rancor são estendidos à condição pictórica . 


O sétimo selo é a imagem do porvir; Ou do Devir. Aquela que será sugerida. Neste tema temos uma infinidade de outras telas que podem e devem compor um painel humano. 
Mas priorizei duas imagens da cultura Pop, que pululam no imaginário midiático. 
 A primeira imagem é de Bill Stoneham, pintada em 1973. Existem lendas sobre esta imagem, muito em face das mudanças de fisionomia das crianças, o que provoca alucinações.
A segunda imagem, denominada o Homem Angustiado, foi encontrada no sótão de uma casa americana, e desde então é cercada de lendas. Imperiosamente a imagem foi feita para chocar, com o expressionismo estriônico e o design monstruoso. 

domingo, dezembro 04, 2016

FERREIRA GULLAR - POETA PRÁTICA

POETAS NÃO MORREM - VIVEM NO ESPAÇO DA MEMÓRIA

A biblioteca Nacional sempre acolheu este poeta de veia social. Mais do que um experimentador da linguagem, mais do que um teórico da arte verbal, Gullar viveu a literatura como forma política e social de estar no mundo.
Na foto abaixo, retirada em 2011, Na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, na ocasião era celebrada uma exposição de arte deste grande poeta. Tive o privilégio de visitar.
A minha experiência literária esculpiu alguns pequenos versos e fragmentos poéticos, não muitos, de vários artistas; mas Ferreira Gullar me deixou quatro versos.

Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena