quinta-feira, maio 24, 2007

HERMENÊUTICA

Muito se tem falado da desinportância da Língua Portuguesa no âmbito social e cultural, prevalecendo a idéia de que o que importa é a comunicação; muitos tem acreditado que o professor de língua portuguesa apenas está "obstruindo" o caminho entre a informação e o detentor dela, como um obstáculo à linguagem fácil e chula, o que alguns acreditam ser motivo de "comunicação"; o que nem todos sabem, é que nosso conhecimento teórico está intrisecamente ligado ao nosso repertório vocabular; quem conhece mais palavras tem mais idéias teóricas, é mais espontâneo e consequentemente mais expressivo; por outro lado, quem conhece os mecanismo coesivos da gramática, articula mais as idéias e consegue representá-las com clareza e definição, evitando os embaraços da falta de objetividade; ao contrário do que alguns pensam, falar corretamente é ser mais objetivo do que aquele que fala truncado e demonstra ausência de objetividade quando não consegue um termo correto e adequado. Assim, devemos ter cautela quando falamos da desinportância da Língua Portuguesa culta, uma vez que esta é exigida pela mesma sociedade que a deteriora. Como exemplo de sua importância instrumental, inclusive para a prática jurídica, vemos sua relação com a Hermenêutica, que é senão uma aplicabilidade sistemática dos conceitos e terminologias da estrutura gramatical em uma redação aplicada (LEI) ao elemento pragmático da ordem comunicativa. (quem fala, para quem, por que, onde, quando, etc) no fato concreto.

HERMENÊUTICA
Prof. Rômulo Giácome de Oliveira Fernandes

A proximidade do termo interpretação com hermenêutica, diagnostica o grau de aplicabilidade de ambos os termos e sua necessária delimitação na orbe da leitura da redação da lei. Poderíamos dividir a interpretação como o resultado da ação de leitura engendrada por meio de alguns fatores sistematizados ou não, comportando uma opção estabelecida de informação resultante. Em outras palavras, um conjunto de fatores permite uma dada leitura, que é senão uma opção frente a outras opções possíveis e cabíveis a depender do contexto textual e social da aplicação da lei. Onde a hermenêutica entra neste processo? É a própria sistematização do ato de ler a redação da norma, o que é metodologicamente um processo estabelecido. As etapas comumente aplicadas pela hermenêutica enquanto método de leitura, pode ser sintetizada em quatro abordagens.
Gramatical ou filológica. Quando o leitor debruça-se em esmiuçar o léxico e sua estrutura sintática detalhadamente, bem como o seu comportamento representativo em sua literalidade, ou seja, sentido strictu. Insere-se também nesta prática o étimo, procurando os antigos usos terminológicos para com os atuais usos, sempre em busca da objetividade do termo, o que implica em uma análise mecânica e que não atenta à realidade circundante (social ao fato e a lei). É a preocupação com o vocabulário, com as palavras e seu sentido. Também uma busca de retratar as origens de certos vocábulos e seus princípios de utilização.
Lógico / sistemático. Neste caso procura-se estabelecer uma conexão com a lei em sua essência vocabular (o nível de representação dos vocábulos) com os pressupostos da própria lei em si na sistematização do ordenamento jurídico, estabelecendo conexões com outras leis. Além da busca das relações de coesão entre os termos alocados nos períodos ou frases que se aglutinam, concatenam ou se justapõem. Assim, um elemento coesivo com a conjunção OU, pode determinar uma variação na interpretação da lei, o que está longe da questão no fato concreto.
Histórica. Procura-se um diálogo com o momento de enunciação da norma e sua pragmática. Por quem ela foi proferida, qual a finalidade de sua existência, qual o contexto de necessidade de sua aplicação, quais os motivadores que levaram os legisladores a tal definição; busca-se com isso uma re-elaboração do instante da redação inicial e de sua aplicação (o espírito da lei), bem como o peso da norma no tempo em que foi engendrada.
Sociológica. Esta tem total relação com este trabalho, uma vez que trabalha na medida de uma realidade social que deve ser atendida, provocando um diálogo com vários conteúdos de ordem moral, ética, econômica, social, psicológica entre outros conteúdos que o sistema vai definir como variáveis. É a adaptação do sentido das leis à uma realidade social em que esta está interligada. Esta adaptação está prevista no art. 5º da Lei de Introdução ao Código Civil: "Na aplicação da lei o Juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum".
Teleológica. Prever e criar expectativas semânticas a cerca do fim a que vem a norma (on ration). Em outras palavras, perceber a reação da norma, seu efeito prático em dois ângulos de atendimento: o fim social e o bem comum. Efetuar uma interpretação, levando em conta a resultante prática da norma, é uma ação teleológica.

quarta-feira, maio 16, 2007

EASY RIDER - SEM DESTINO (filme)


(1969) Procurar duas pontas de caminhos tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo; discutir ideologia a partir da contra-ideologia, ou o que é pior, discutir ideologia onde ela mora enfaticamente: na cultura americana ou o seu american live; Easy Rider é um filme de motoqueiros para motoqueiros; uma das pontas desta belíssima película é desvendar este mundo no que ele tem de fantástico: o visual, a ausência de destino e principalmente, captar o espírito da viagem em si, da saída de casa e sua simbologia (o relógio caído) do atravessar o deserto escaldante e perpassar uma américa dividida entre o o rural e o progresso urbano. A sedução de uma highway, no meio de um imenso deserto de sois e planaltos que se avolumam densamente, como psicodélicas imagens retratadas a pincel e esponja; o delírio de andar, sempre e sempre em caminhos, desvios e desvãos que misturam a realidade com o movimento. Montados em suas motos, ambas de estilos diferentes: chopper com guidão alto, bem tradicional e esportiva no sentido harley; e outra guidão t-bar, quase uma dragster dos anos 70, quicando no asfalto bruto enfileirado na areia e visões amarelas da estrada. Uma lenda se constrói a partir de sensações e devaneios, onde a presença milagrosa da imagem, do vento, do barulho do motor aberto de dois cilindros em V podem proporcionar; esta lenda passa a ser mito na medida em que é modelo, símbolo e passa a mediar o desejo incontrolável de imitar, sentir o que se sente quando se pega uma estrada com uma motocicleta; Easy Rider é um mito incontrolável dentro do desejo de viajar e transformar um ato simples e transloucado em um símbolo de liberdade. Entretanto, é justamente aí que a outra ponta da corda é acessada e toma lugar no preâmbulo ideológico. Liberdade para quem? para que? ou mais profundamente: o que é a liberdade? Um sonho de escapar do tempo e da espacialidade comum da rotina, embrenhada em delírios? um rol de sensações soltas e caóticas que se depreendem do asfalto, do barulho hipnótico do motor, das curvas, de sentir o corpo sendo projetado para frente e flutuar sobre duas rodas? Ou a liberdade "freedom" americana? um rótulo invisível e inexequível? Ter suas escolhas e poder realizá-las em um país que supostamente é livre, mas que é cometido por um surto de preconceito racial, ético e social? Uma liberdade que necessita de drogas para existir e se manifesta apenas em estado de embriaguês? Buscar um sonho de liberdade, mitificado por uma harley davidson da Route 66, sem tempo e espaço, sem obrigação nem restrição, adocicados por entorpecentes, desfaz fatalmente aquele conceito de liberdade que supostamente seria criado e exequível; Posso afirma que o filme trata de desilusão; aquela rápida e voraz facada que recebemos da pior das pessoas; nós mesmos; mas não posso sentir-me desiludido pelo filme, tendo em vista que ele é muito mais do que ansiava; é um tratado belíssimo sobre motocicletas e homens, que daria a real medida entre o ser e o querer-ser, que logo desenboca na essência das coisas; nem tudo que queremos e conseguimos é bom. Meu desejo incontrolável por novas sensações me faz pensar que agora será melhor ainda; agora, uma viagem de moto, ao estilo easy rider, seria muito melhor aproveitada; saiu um mito e entrou uma verdade: amo motociletas e amo viajar com elas em minha mente. Esta obra é uma referência para analisar o desmoronamento da contra-cultura e repensar o conceito de liberdade. Por outro lado, é um "cult" no mundo das motocicletas.