sexta-feira, maio 16, 2008

PÓS-MODERNIDADE LITERÁRIA

FONTES E ORIGENS DO PÓS-MODERNO SOB O PRISMA DA ESTÉTICA
Por Prof. Ms. Rômulo Giácome de Oliveira Fernandes

O primeiro a falar em “pós-modernismo” foi Perry Anderson, que cunhou o termo após tê-lo ouvido de um autor hispânico chamado Frederico de Onís, na ocasião ele o utilizou para alicerçar um pensamento conservador dentro do próprio modernismo. Perry Anderson escreveu "As Origens da Pós-Modernidade" (Ed. Jorge Zahar, 1999), figurando como um grande pesquisador das questões culturais e sociais da atualidade, sendo que a primeira (cultura) nos afeta diretamente, partindo para o viés de análise deste pequeno ensaio.
Antecipadamente, não podemos deixar de ressaltar que esta discussão está engendrada sobre duas condições básicas: a constituição de uma sociedade e seus meios de produção e cultura, e por outro lado, a consciência histórica enquanto agente ou paciente dos processos de reconhecimento e representação. No primeiro âmbito, Fredric Jamesom "Pós-Modernismo - A Lógica Cultural do Capitalismo Tardio" (ed. Ática, 1991) aborda de maneira sistemática e crítica os mecanismos de apropriação da consciência cultural através de uma indústria cada vez mais sofisticada de bens de consumo. Alguns mecanismos de inserção de uma vivência cultural destinada a suprir necessidades são frutos do fetiche pela imagem, uma espécie de reação ao novo capital, o capital devir, aquele que é nutrido pela ausência de repressão e imersão completa na própria vivência. Em outras palavras, a sociedade corrompida pelas próprias necessidades de consumo, busca na produção modernizada, um tempo de informação, como se pudéssemos estabelecer um diálogo exterior com nossa própria consciência.
Ao meu ver, esta bridge que procura unir um vácuo de existência com a possibilidade do ter e do poder, também é criticada por toda a epistemologia da pós-modernidade. O que parece é que todos os críticos ao pós-moderno vêem em Jamesom mais um forte candidato à cadeira marxista do que um crítico literário revolucionário e contemporâneo. Jamesom não é reacionário. Ele encara os modos de produção cibernéticos como suportes ao ir e vir de novas informações produtivas, de novos saberes eficazes e humanos e o enriquecimento da humanidade através das novas habilidades e tecnologias.
A partir desta interpretação do pensamento de Jamesom frente ao cinema, música e pintura consideradas de ruptura, vemos que seu marxismo já é tangenciado por laivos de abstração. O contexto artístico pós-moderno parte de que uma nova ordem social está em voga. A força bestial com que a tão famigerada “Indústria Cultural” (Adorno) toca a ordem de produção de arte é fruto de uma adoção do discurso produtivo como se fosse sua, a adoção do discurso de outrem como legítimo (ideológico). A arte passa por um processo de tentativa de legitimação, busca por uma saída de alteridade.
Acredito que nada possa residir tão pernicioso nas atuais estruturas que não sobressaia momentos de ruptura importantes ao desenvolvimento social. Jean François Lyotard que escreveu em 1979 o livro "A Condição Pós Moderna", procurou de maneira epistemológica e estética, traçar uma ordem discursiva para a pós-modernidade. Desta obra podemos extrair, dos inúmeros postulados, um que me parece salutar para a ocasião: a legitimidade do discurso. Na pós-modernidade a necessidade do discurso crítico para fruição da arte é inegável. A obra de arte passou a estar centrada dentro de um discurso estético que a sustenta e a suporta enquanto veiculadora de idéias e informações. Na literatura esta nova postura foi deflagrada por Ezra Pound e James Joyce (Ulisses), ambas obras de fragmentação e atadas a evolução do estudo da linguagem. (Semiótica e Lingüística). Os próprios russos já pretendiam uma nova estética literária, atada aos valores: fragmento, alusão, imagem, discurso e signo (Mayakovski, Andrei Biéli entre outros).
Aqui no Brasil, a nova ordem aferida nos oitocentos por Mallarmé foi devidamente re-trabalhada pelos irmãos Campos e Décio Pignatary na poesia concreta. Contudo, a legitimação da arte pelo discurso, e aqui entraria a crítica marxista contra os excessos do mesmo, também estariam previstas em lastros de realidade itinerante e poderosa. Ao contrário do que muitos pensam, a literatura pós-moderna é um contato com o real. Marcas como o cotidiano, o romance urbano, a crônica, a sátira e toda a produção Beatnik e Regionalista estão amarradas a uma noção de verossímil crítico. Por outro lado, a geração de 22 abriu às portas da produção popular regional, em uma ampla pesquisa estética, que no arcabouço da intelectualidade brasileira, deflagrou na literatura pós-moderna como ganchos de ruptura.
É irônico termos rupturas na pós-modernidade com a literatura popular, tendo em vista que muitos críticos a vêem como redutora e limitadora desta produção. Com o advento das novas tecnologias discursivas, na geração pós-guerra, tivemos a revitalização de autores como Patativa do Assaré, Pedro Kilkerry e a Lama e Caos do manguebeat. Ora, convenhamos que identificar sintomas de fragmentação na arte pós-moderna como defeito, é esquecer as cicatrizes deixadas pela arte Iluminista e Romântica, elitista e altruísta. O Pós-moderno literário possui um projeto, e este projeto tem marcas profundas na adequação social dos meios de produção de massa e domínio das novas tecnologias.
Nunca foi tão possível acessar a informação, e nunca foi tão possível preconizar uma “epistemologia da Internet”. Os Happening e os Madefake, arte multimídia e textos de qualidade estão sendo produzidos em volumes exponencial, e somente através de novos mecanismo de produção e absorção de arte teríamos como escapar do mercado editorial. Fugir dos domínios editoriais, bem como nossos românticos fugiram da Editora da Monarquia, é uma nova forma de encarar os modos de produção. A constatação sociológica de uma sociedade dês-moldada e renitente de contradições, é o júbilo e regozijo da arte. Banhando-se freneticamente nestas disjunções inerentes ao ser, poder, ter e parecer, a literatura vai concretizar seu projeto de re-estilização projetiva da sociedade através da nova narrativa e da nova consciência histórica de descontínuos.
Aqui entra o segundo item mencionado acima, uma construção de historicidade através da representação. Em uma época de meandros de projeções e devir assentado na reprodução em escala potencial, um mundo de representações artísticas possuem mais força e poder do que em décadas anteriores. Do tecnicismo concreto ao tecnicismo subjetivo, ganha o último como saber estético. Esta crise de representação é bem articulada por Siscar, em seu artigo Figuras do Presente:
Neste fechamento do presente sobre si mesmo, já não de trata dizer que a vida
imita a arte, pois a crença na presença pura pretende exceder virtualmente,
fantasmaticamente, a própria representação do real (1999:p50)
Esta figurativização do representamem como identidade do pós-moderno literário, tem no simulacro uma identificação tênue com a linha traçada por Derrida quando ele afirma que “nada existe fora do texto”. A arte sempre procurou categorias de existência antagônicas à sua condição de linguagem ficcional. Encontrou forte apoio existencial no simulacro de Baudrillard. “É sempre uma questão de provar o real através do imaginário, de provar a verdade pelo escândalo, de provar o trabalho por intermédio da greve, de provar o capital pela revolução" (BAUDRILLARD, 1998).
Drummond já preconizava a existência de um simulacro na vivência poética, na arte de amarrar a condição do ser com a noção do parecer, fecundando uma literatura de metáforas amplas e ligadas ao coletivo sentimento do mundo. A linha que divide a vida da personagem com a existência real sempre foi a mesma linha que dividiu o sonho da concretude. Estas representações mor, que as novas narrativas pós-modernas procuram estender dentro do cenário de produção atual, é a estreita hiperonímia entre um ato de devorar a si mesma para assinalar a força da fome.
Mas toda representação artística está validada por sobre uma égide de categoria semiótica: seja na presentificação do sublime, seja no ato de narrar as desventuras humanas. A reinvenção da palavra e o pastiche, são técnicas contemporâneas para deflagrar sentidos. Se antes a arte estava para o real como substituto, agora ela o tem apenas como âncora referencial. O foco não é mimetizar o sensorial, o existente, mas sim utilizá-lo como matéria prima para transportar ao sonho, ao fantástico, e modernamente, à intimidade, ao pessoal. A existência individual é muito interessante e cara, como metonímia salutar à procriação de idéias. Copiar novas idéias como em uma série ou linha de montagem, não é exatamente o êxito pós-moderno.
O êxito pós-moderno na literatura está em deixar o leitor co-piloto de sua obra, como em uma espécie de farsa desdobrada, a leitor tem a parca sensação de domínio do texto, abertura e interpretação própria. Ele acredita estar sendo proprietário de si mesmo, enquanto na realidade está sendo apropriado, está sendo fio condutor da arte, desposando as dúvidas e separando-se das certezas rumo à consciência. Jorge Luís Borges, em seu conto Loteria da Babilônia, de modo sutil e alegórico, remonta como o discurso penetra nas camadas mais profundas da sociedade, do indivíduo e da consciência. Como a apropriação da representação tem o poder e o fazer de mudança (ideologia). Assinalo que tanto a boa literatura (Jonh Barth, por exemplo), quanto a indústria efêmera da arte comestível, possuem os mesmos recursos. Seduzir e provocar são elementos poéticos utilizados na propaganda moderna. Isto por si mesmo mostra a força da literatura enquanto modalizadora de novas linguagens e técnicas.
Mas notem que o contrário não é verdadeiro. A propaganda atual reconhece na tônica literária um braço ágil e forte para domesticar. O grande problema é que a ausência de educação formal e lacunas sociais, afetam o desenvolvimento da grande arte, fazendo com que muitos afirmem que a culpa é da própria arte. Esta crise de problematização desarranja o modo como vemos e entendemos a literatura, passamos a acreditar que literatura popular é literatura de péssima qualidade e que a boa literatura é incognoscível. Esta inversão de valores deturpa os estudos literários e mostra que mais fraca do que a arte de um modo geral, está os sistemas políticos, tanto de esquerda quanto de direita, que ainda não conseguiram resolver suas próprias idiossincrasias, imaginem as da literatura.
LINKS IMPORTANTE QUE COMPLEMENTAM O TEXTO
1. O problema da criatividade e os contextos de produção pós-modernos;
2. 16 Paradigmas de entendimento do pós-moderno Literário;
3. O Processo de Criação contemporâneo e algumas considerações extemporâneas;
4. Análise literária acadêmica de um poema Concreto;