sexta-feira, março 19, 2010

EXISTE MESMO GOSTO PELA LEITURA?

LEITURA É UM TRABALHO QUE DÁ PRAZER
by Rômulo Giacome

O professor Antônio Carlos da Silva, meu amigo, em uma ocasião de qualificação de trabalhos de conclusão de curso, suscitou o tema do gosto pela leitura. Na ocasião, o professor Thonny, como gosta de ser chamado o referido professor subscrito, afirmou que não existe gosto pela leitura. Existe uma curiosidade e uma necessidade de saber para crescimento profissional e pessoal. Concordo com ele, e sobre isto que venho a lume discutir.
Em primeiro lugar a noção de gosto pela leitura, como é entendida a noção geral, é de prazer, júbilo e, muitas vezes versada (erroneamente) como êxtase. Dessa forma, gosto pela leitura seria um tipo de prazer intenso, extremamente poderoso, uma catarse envolta em uma epifania de sentidos rumo à quimera perfeita de fronte ao livro. Em suma, algo impossível de acontecer, justamente porque este prazer não é sensível aos olhos da epiderme ou visão, mas sim nos recôndidos da nossa capacidade abstrata.
Prazer pela leitura é algo refinado e depende de iniciação. Uma definição mais consciente de gosto pela leitura deve passar ao largo do sentido prospectado pelos inquietos e simbolistas leitores que querem sentir orgasmos intelectuais.
Assim, sob o signo da sobriedade e da razão, o gosto pela leitura está mais para um trabalho silencioso de decodificação, internalização e construção dos saberes envoltos, seja em forma de ficção, seja na face técnica, seja na face filosófica, e assim por diante, do que para um prazer hedônico. (sensível)
O gosto pela leitura que devemos entender, ou ao menos me parece o mais construtivo e real, é aquele onde a razão nos permite ser transformados, conscientes de nosso percurso mutacional rumo ao desenvolvimento cognitivo e humano. Crescer intelectualmente prescinde da boa leitura, daquela que reúne os requisitos tais quais: qualidade da informação, nível de discussão e valor da apreensão do texto lido.
Assim, prazer inigualável e grandioso está em perceber o crescimento oriundo da nossa leitura, ou seja, do nosso trabalho transformador sobre a realidade da informação que advém dos livros, proveniente desta empreitada silenciosa que é caminhar pelo conhecimento.
Pensar em gosto pela leitura nos moldes que temos é algo que prescinde de uma definição mais pertinente e imediata de gosto. A sensibilidade da criança frente ao livro é diferente daquela empreendida pelo adulto. O nível de exigência de ambos deriva também do grau de expectativas que cada um projeta para com sua obra. A frustração imediata do leitor em não construir o grau de sensibilidade que almejava em contato com o livro, deve ser solucionada a partir de uma visão realista e madura do que é leitura, do trabalho que ela empreende, da seriedade com que ela deve ser entendida e conduzida, com a mágica do imaginário, das referências, do vocabulário, dos requisitos mínimos que o leitor vai adquirindo caminhando pelos livros.
É importante também salientar que existem níveis de leitor, e destes é possível abstrair tipos de textos mais adequados, assuntos e temas mais relevantes, assim como linguagens mais acessíveis.
É possível sentir prazer pela leitura? É possível construir um “gosto” pela leitura? Gosto é algo extremamente subjetivo, mas de qualquer modo não é algo localizado. Gosto pela leitura tem quem também é preparado culturalmente para entender o livro como objeto de transformação intelectual. Quem não tem esta noção confunde prazer sensível com prazer intelectual, mistura revelações e evocações emanentes das palavras com sensações.
A discussão é longa e demanda tempo e mais leitura. Assim, da minha experiência demarquei em minha jornada de leitor, vevando em conta uma máxima que criei para mim: LEITURA É UM TRABALHO QUE DÁ PRAZER.

sexta-feira, março 12, 2010

CURSO DE LETRAS DA UNESC NO DIA DO VOLUNTARIADO DA FUNDAÇÃO BRADESCO


VEJA NOTÍCIA VEICULADA E FOTOS DO EVENTO:

CURSO DE LETRAS PARTICIPA DO DIA DO VOLUNTARIADO NA FUNDAÇÃO BRADESCO

Neste último domingo, 07 de Março, a Fundação Bradesco realizou mais uma fantástica atividade social, que congregou instituições das mais diversas naturezas em atividades sociais, culturais e utilidade pública. E na ocasião, não menos que 35 acadêmicos do primeiro período do curso de Letras da UNESC se vestiram de personagens para participar das atividades culturais deste evento, apresentando teatro de fantoches, brincadeiras, estórias e a mágica dimensão lúdica do universo infantil. O evento foi um sucesso e a fundação Bradesco, sob a direção da Professora Sandra, está de parabéns pela coordenação das atividades. A turma de Letras contou com a orientação da professora Aline Cristina (professora do curso de Pedagogia da UNESC) que usou da sua vasta experiência na arte de contar estórias para contribuir com o grupo. O coordenador do curso de Letras (Rômulo Giácome) que participou com a equipe no dia afirmou que, pela motivação, empenho, criatividade e vontade que a equipe apresentou, esta nova turma de Letras ainda vai dar o que falar no cenário cultural da região.
















PARTICIPAÇÃO MACIÇA DA TURMA DE LETRAS NO EVENTO

sexta-feira, março 05, 2010

NO PAÍS DO BIG BROTHER, DO FUTEBOL E DA NOVELA SÓ NASCE BANANA MESMO!

A CRISE DE LEITURA EM NOSSO PAÍS
By Rômulo Giácome

Pra que reclamar se tem conhaque?

Se na tevê tem um craque, e o meu timão
só entra pra ganhar...
Pra que imitar Chico Buarque?
Pra que querer ser um mártir, se faz parte
do momento se entregar...
(Pullôveres, 2009)

Estudar ideologia faz mal para o estômago; da dor de cabeça entender Althusser, Maquiavel, Jean Boudrillard “Simulacros e Simulações”, a análise do discurso francesa; um pouquinho de Foucault sobre a realidade de hoje é nitroglicerina; pensem então na bomba que Adorno e Walter Benjamim lançam sobre os pilares da produção em massa, da arte em série e da impressa moderna. Misture isto a boas doses de reflexão, crítica e observação. Um pouco de coragem para ver as entrelinhas e vergonha na cara para perceber que, mesmo lendo alguma coisa, ainda fazemos parte de uma sociedade prostrada, inebriada pela sensação de consumo “casas Bahia, lojas americanas, catão de crédito, limite, etc”.
O brasileiro está com uma falsa sensação de conforto. Está em êxtase por uma leve manifestação de crescimento medíocre do poder de compra, da escapada do nível da miséria, da vitória das rodas sobre os dois pés e da máquina de escrever para o computador “positivo”. Está com a arrogância típica de quem come carne quase todo dia, da opulência de quem tem celular com “dois chips”. Muito bom!
Mas este pseudo crescimento esconde a ignorância de um povo, a vacuidade de existência de uma comunidade inerte, acrítica, com latência mental e lacunas conceituais gigantescas. A substituição do modo de produção industrial para o conceitual, do valor da marca e do “parecer / poder” de compra, fez o homem brasileiro e quiçá (mundial) escravo da sua burrice. Como nas antigas civilizações, estratégias simples, mas eficazes continuam dando certo em pleno século “Google”; vozes falam: “tome tudo deles e dê a conta gotas”; (Maquiavel); “pão e circo como desvio do foco”; “distância dos livros”; e seguimos a ideologia manifesta nas ações “tipicamente” fascistas anti-livro, anti-leitura, anti-boa música, anti-filosofia, anti-poesia, anti-humanidade, que simplesmente determinam: viva o técnico, viva o prático, viva a negação do que é conceitual, do que é poético, do que realmente revela o homem. Viva a época bárbara, a barbárie artificial, sem graça e gosto, sem verdade e sem emoção, só pose blasé.
Sim, e é aqui que iniciamos nossa curta jornada ao inferno astral do povo brasileiro! Em 2006 o Brasil era o oitavo pior país do mundo em Leitura (UNESCO); é isto mesmo, o oitavo de trás para frente. Na copa do mundo não teríamos chance nas eliminatórias e seríamos tratados como azarões. No entanto, somos azarões em leitura! Que grande contradição; na copa do mundo de Leitura, algo, inclusive, irrelevante, seríamos como Montenegro, Butão ou Somália. Os nossos jogadores seriam como egípcios nos jogos de inverno.
Uma outra contradição trágica; a média de ligações para o Big Brother está na casa dos 70 milhões; Segundo dados da Pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” temos 77,1 milhões (45% da população estudada) de não leitores, número composto por pessoas que não leram nenhum livro nos 03 meses anteriores à pesquisa. Também estão aqui os 06 milhões que disseram ter lido pelo menos 01 livro nos outros meses do ano e 4,5 milhões (6%) dos não leitores lêem a Bíblia. Menos mal. Assim pelo menos existe salvação no campo espiritual.
Um país onde a metade da sua população alega não gostar de Ler, onde se lê 1,2 livros por ano por vontade própria, com certeza tem metade de sua população ideologicamente inativa, e pode ser considerado um dos piores no ranking da UNESCO. Entendendo este 1,2 livro(s) por ano, e tendo em vista que este livro terá no máximo 100 páginas, o indivíduo terá lido em média 04 parágrafos por dia. Uma média altíssima se considerarmos países como o Haiti depois do terremoto.
Assim, a capacidade de resistência cultural de um povo que não lê é como o sistema imunológico falido. Sem proteção, alheios ao conhecimento e a capacidade de libertação e emancipação que a leitura e a razão crítica proporcionam, somos presas fáceis a um sistema ideológico intenso e obstinado, que sufoca o ser humano povoando seu imaginário de uma pseudo-praticidade inexistente. Somos um corpo técnico, de formação técnica, trabalhando como escravos técnicos, para nações soberanamente humanizadas para explorar.
Mitos de plástico são criados, padrões e valores são transmitidos e determinados por códigos advindos da televisão, com suas propagandas absurdas, suas informações ilegítimas e muitas vezes inverídicas. A forma como vemos as coisas é determinada por uma força discursiva que não é nossa, e como fantoches falamos e discutimos temas e discursos que não são nossos, são apenas vozes provenientes de nossa relação com o mundo midiático, com nosso parco conhecimento e nossa pouca leitura. Agindo como se fôssemos o outro, o imitamos, nos vestimos como tal, falamos como tal e gostamos da mesma coisa. Afoita e afeita a modelos, a sociedade da ignorância procura pequenas gírias para viver, pequenos objetivos, pequenas aventuras no mundo niilista da suposta “realidade”. O problema é que estes modelos vêm do Big Brother, dos jogadores de futebol e das novelas.
Aparentemente livres, na realidade somos um povo escravo de clichês de quinta, de filmes de sexta categoria, de programas vulgares que mostram orgias e semeiam estas como atos heróicos de modelos a ser seguidos em pleno horário nobre, embalados por verborragias poéticas referenciais que falam de sentimentos e cosmogonias das celebridades. Aparetemente sexuais, eróticos e potentes, um dos países que mais usam Viagra no mundo assistem ao futebol em todas as oportunidades, se espancam e tatuam o time do coração. Se sentem fortalecidos nos grupos, se sentem astutos como animais em matilhas, mas na solidão do lar desmontam em carências machistas e pedidos religiosos e fervorosos ao senhor Deus.
Quanto mais nos distanciamos da boa leitura, menos formação humanística temos. Formação humanística tem relação direta com atos e mudanças profundas, mudanças comportamentais e filosóficas como alteridade, emancipação, autonomia e uso digno da liberdade. E isto afeta o nosso tecido social, re-configura-o, o coloca a par do mundo civilizado. Torna o nosso sistema político mais ideológico e reflexivo, em lugar de um santinho ridículo ou uma telha, porque não entender o perfil do governo e suas metas sociais e políticas, como é na França e Argentina?
Não se pode falar em estado humanista de direito sem que a metade da população entenda pelo menos o sentido desta palavra. Sem que pelo menos metade desta metade entenda a função desta palavra. E sem que pelo menos a metade desta metade seja consciente da sua importância.
O irônico é que quanto mais precisamos de um sentido social às relações humanas e estatais / privadas, mais o povo brasileiro está fechado nos primitivos moldes americanos, ou seja, somos a América da década de 50 e 60. Qual foi seu futuro? Qual será o nosso?
Qualquer ato social ou estatal, ainda mais de tônica da soberania dos países, nunca tocou tanto no resto da humanidade quanto agora. Era como se as profecias existencialistas de Sartre estivessem se concretizando. Dessa forma, a única maneira consistente de libertação e pacificação da coletividade é a leitura, a formação humanística, os valores de transcendência desta realidade dura e crua.
Mas pensem, em um país que só dá bananas, dificilmente sem evolução teremos outras frutas. Com a hegemonia ideológica dos modelos pregados pela dimensão do capital e do hedonismo tardio, dificilmente colheremos graviolas.