quinta-feira, outubro 18, 2012

RESENHA DA OBRA “INTRODUÇÃO À ANÁLISE DO DISCURSO” CAPÍTULO I – HELENA H. NAGAMINE BRANDÃO


CAPÍTULO I – ANÁLISE DO DISCURSO

Rômulo Giácome de O. Fernandes[1]
Leiliane Xavier Azevedo[2]
João Valter Gabriel[3]
Sandra Maristela[4]
Tércio Silva Flor[5]
Valdomiro de Jesus [6]
Valéria Fagundes[7]

 1 ESBOÇO HISTÓRICO

Este trabalho tem por finalidade apresentar ao público leitor um resumo sintético sobre a Análise do Discurso (AD) do ponto de vista da autora Helena H. Nagamine Brandão em sua obra Introdução à análise do discurso em segunda edição publicada em 2004.
A princípio devemos considerar que a linguagem é um sistema de significação da realidade, como um distanciamento entre a coisa representada e o signo que a representa; sabendo que esta distância entre a coisa e sua representação sígnica é que reside a ideologia. Daí, consideramos que o ponto de articulação dos processos ideológicos e dos fenômenos lingüísticos é, portanto, o discurso:

A linguagem enquanto discurso não constitui um universo de signos que serve apenas como instrumento de comunicação ou suporte de pensamento; a linguagem enquanto discurso é interação, é um modo de produção social. Ela não é neutra e nem natural, por isso o lugar privilegiado de manifestação da ideologia. (BRANDÃO, 2004, p.11)

Os anos 50 foram decisivos para a construção de uma análise enquanto disciplina. De um lado surge o trabalho de Harris (1952) Discurse Analys, que mostrou a possibilidade de ultrapassar as análises confinadas meramente à frase. (BRANDÃO, 2002. p 13)
Segundo Brandão (2002), a princípio existiram duas obras diferentes, embora importantes e seminais para a análise do discurso: A primeira, considerada um marco inicial da análise do discurso, (a obra de Harris, já citada, que se coloca ainda como simples extensão da Linguística); e a segunda, a obra de Benveniste, a qual afirma que o locutor faz uso do aparelho formal da língua para enunciar sua condição de locutor por índices específicos.
A primeira obra se volta para o procedimento de análise de unidade da língua, dos enunciados e situando-se fora de qualquer reflexão sobre as significações e as considerações sócio-históricas que vão distinguir e marcar a análise do discurso. Por outro lado a outra é voltada para o foco da relação que se estabelece entre o locutor, seu enunciado e o mundo: relação que estará no centro das reflexões da análise do discurso, em que o enfoque da posição sócio-histórico dos enunciadores ocupa um lugar primordial. Ambas as obras citadas acima são consideradas importantes, pois segundo Orlandi (1986) apud Brandão 2002), essas duas direções marcariam duas maneiras diferentes de pensar a teoria do discurso. Ainda Segundo Orlandi (1986):

Há duas maneiras diferentes de pensar a teoria do discurso: Uma que a entende como uma extensão da linguística e outra que considera o enveredar para a vertente do discurso o sintoma de uma crise interna da linguística, principalmente na área da semântica. (BRANDÃO, 2004, p. 14)

Contudo, acredita-se que ambas contribuem para que a análise do discurso ocorra em seu âmbito natural e real semântico, podendo assim trazer ao espaço linguístico o conteúdo implícito que está além da frase propriamente dita.

1.1 A PERSPECTIVA TEÓRICA FRANCESA

Na frança, com o Estruturalismo, os intelectuais enxergaram uma articulação que se fazia entre a linguística, o marxismo e a psicanálise. Neste interstício, a AD nasceu tendo como base a relação entre linguistas, historiadores e psicólogos.
Contudo, inscrevendo em um quadro que articula o linguístico com o social a AD vê seu campo estender-se para outras áreas do conhecimento e assiste a uma verdadeira proliferação dos usos da expressão análise do discurso. Para Brandão (2002), ocorrem no interior da AD dois quadros que se inter-relacionam, a saber: o linguístico e o socio-histórico, em que se formam dois conceitos, o de cunho ideológico e o outro discursivo:

As duas grandes vertentes que vão influenciar a corrente francesa de AD são do lado da ideologia os conceitos de Althusser, e do lado do Discurso as ideias de Focault. É sobre a influência dos trabalhos desses dois teóricos que Pêcheux, um dos estudiosos mais profícuos da AD elabora seus conceitos. (BRANDÃO, 2004, p.18).

A ideologia sempre apresentou variadas interpretações no que diz respeito ao seu real significado. Chauí, apud (BRANDÃO, 2004) diz que o termo ideologia foi criado pelo filósofo Destrutt de Tracy, e têm como sinônimo a atividade científica que estudava a faculdade de que o indivíduo era dotado de pensar e da relação do corpo com o meio ambiente. Em Napoleão a palavra adquiriu sentido pejorativo, em que os franceses eram taxados de abstratos, perigosos e que ofereciam risco ao poder vigente, em que também eram acusados de serem causadores da desordem do sistema sociopolítico da época.

2 A IDEOLOGIA

2.1 MARX

Marx e Engels identificam a ideologia com a separação que se faz entre a produção das ideias e as condições sociais e históricas em que são produzidas. A produção de ideias, de concepção e da consciência liga-se, a princípio, diretamente e indiretamente à atividade material e ao comércio material dos homens, como uma linguagem da vida real. Para Marx e Engels, o que as ideologias fazem é colocar os homens e suas relações de cabeça para baixo como ocorre com a refração da imagem numa câmara escura.

Metaforicamente, essa invasão de imagem, isto é, o “descer do céu para a terra em vez de ir da terra para o céu” que ele denuncia nos filósofos alemães, representa o desvio de percurso que consiste em partir das ideias para se chegar à realidade. (BRANDÃO, 2004, p. 20).

            Para Chauí apud Brandão (2002), segundo a concepção Marxista, a ideologia é um instrumento de dominação de classes porque a classe dominante faz com que suas ideias passem a ser medidas de todos, com a visão de que o termo ideologia parece estar reduzido a uma simples categoria filosófica de ilusão ou mascaradamente da realidade social, a ideologia a que se refere é, portanto, especificamente a ideologia da classe dominante.

A ideologia organiza-se como um sistema lógico e coerente de representação e de normas ou regras que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar o que devem valorizar o que devem sentir o que devem fazer e como devem fazer. (BRANDÃO, 2004, p. 22)

2.2 ALTHUSSER

            Em Althusser a ideologia é a maneira pela qual os homens vivem a sua relação com condições reais de existência, e essa relação é necessariamente imaginária.

A existência da ideologia é, portanto, material, porque as relações vividas, nela representadas, envolvem a participação individual em determinadas práticas e rituais no interior de aparelhos ideológicos concretos. Em outros termos, a ideologia se materializa nos atos concretos, assumindo com essa objetivação um caráter moldador das ações. (BRANDÃO, 2004, p. 25).

            Portanto, em seu ponto de vista, o imaginário é o modo como o homem atua e relaciona-se com as condições reais de vida.

2.3 RICOEUR

Paul Ricoeur chama atenção para não se fazer uma interpretação ideológica redutora em termos das classes sociais, justificando o interesse da classe dominante. Ele classifica ideologia em três categorias: a primeira é função geral que perpetua um ato fundador inicial; é dinâmica e motivadora, também simplificadora e esquemática, além de operatória e não temática. Poderíamos dizer, também, que é intolerante, devido à inércia que parece concretizá-la.

Nesse sentido, ideologia é a conservação e resistência às modificações. O novo põe em perigo as bases estabelecidas pela se reconhecer e se reencontrar na comunhão das mesmas ideias e práticas sociais. A ideologia opera, assim, um estreitamento das possibilidades de interpretação dos acontecimentos. (BRANDÃO, 2002, p.26)

A segunda categoria de ideologia classifica-se como função de dominação. É o momento em que se cruzam a ideologia-integração com a ideologia-dominação, que possuem um caráter de distorção e de dissimulação.
A terceira Ricoeur diz que é tornar a imagem pelo real e o reflexo pelo original. Nas diferentes formas de conceituar a ideologia, percebe-se que ela oscila entre duas opções que determinam diferentes maneiras de abordar a relação linguagem-ideologia: uma ligada à tradição marxista, preconizando o discurso ideológico (que de alguma forma serve para legitimar o poder de uma classe social). A outra se define como uma determinada comunidade social numa determinada circunstância histórica.

3 LÍNGUA, DISCURSO E IDEOLOGIA


Foi em 1977, através de Pêcheux, que surge a crítica contraditória à Focault, apresentando uma teoria materialista do discurso.
Esta crítica aponta três tendências:
- A formalista-logista por intermédio da estrutura linguística das teorias gerativas através dos “[...] trabalhos da escola de Port-Royal (CHOMSKY, FILLMORE, LAKOF, MCCAWLEY)”. (BRANDÃO, 2006. p.39);
- A histórica ou linguística histórica conhecida desde o século XIX por Brunot e Meillet, que após diversas variações e mudanças passou a ser conhecida como “geo, etno, sociolinguística (M. Cohen, V. Weinreich, Labov e de um ponto de vista menos teórico, B. Bernstein).” (BRANDÃO, 2006, p.39)
- E, finalmente, a linguística da fala; sua primazia está na enunciação, na mensagem, no texto, no discurso etc., por enfocar e dissecar a comunicação apresenta apreensões quanto à retórica e a poesia. Assim passa a ser considerada uma contravenção do desvio e passa a ser vista como uma “linguística do diálogo como jogo de afrontamento (R. Jakobson, Benveniste, Ducrot, Barthes, Greimas, Kristeva)”. (BRANDÃO, 2006. p.39)
Deste modo, percebe-se que o olhar formalista / estruturalista, ao fragmentar a língua como objeto científico e social, a tem como composição de características morfológicas e sintáticas interligadas aos elementos e lugares linguísticos.

[...] a preocupação de Pêcheux é inscrever o processo discursivo em uma relação ideológica de classes, pois reconhece, citando Balibar, que, se a língua é indiferente à divisão de classes sociais e a sua luta (daí a relativa autonomia do sistema linguístico), estas (as classes sociais) não o são em relação à língua a qual utilizam de acordo com o campo de seus antagonismos. (BRANDÃO, 2006. p.41-42)

No entanto, o processo discursivo tem como base a produção de sentido, proporcionando a emersão de significações e constituindo os sentidos na formação discursiva, bem como a ideológica e, assim, fomentando bases da teoria da análise do discurso.

3.1 CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO DO DISCURSO

Courtine (1981), após denominar que as condições de produção[8] deveriam ter requisitos, as enumera em uma tríade, dispostas em: Análise Psicológica social, seguida dos estudos da Sociolinguística e suas variações "o estado social do emissor, o estado social do destinatário, as condições sociais da situação de comunicação” (BRANDÃO, 2006, p.43) as quais seriam responsáveis pelas condições de produção do discurso; e foi através do texto Discourse analysis (1952) de Harris que foi perceptível os primeiros vestígios de CP (Condições de Produção) presentes em frases "que foram pronunciadas ou escritas umas em seguida das outras por uma ou várias pessoas em uma só situação" (BRANDÃO, 2006, p.43).
A primeira tentativa para a explicação científica da construção da significação a partir da CP foi apresentada por Pecheux, em 1969, por meio da estrutura informacional da comunicação, organizada por Jakobson, que expôs “[...] a vantagem de colocar em cena os protagonistas do discurso e o seu ‘referente’, permitindo compreender as condições (históricas) da produção de um discurso.” (BRANDÃO, 2006, p.44). Podemos acrescer de que

[...] a contribuição de Pêcheux está no fato de ver nos protagonistas do discurso não a presença, a física de "organismos humanos individuais”, mas a representação de "lugares determinados na estrutura de uma formação social, lugares cujo feixe de traces objetivo característicos pode ser descrito pela sociologia. (BRANDÃO, 2006, p.44)

Portanto é

[...] no discurso, as relações entre esses lugares, objetivamente definíveis, acham-se representadas por uma série de "formações imaginárias" que designam o lugar que destinador e destinatário atribuem a si mesmo e ao outro, a imagem que eles fazem de seu próprio lugar e do lugar do outro.  Dessa forma, em todo processo discursivo, o emissor pode antecipar as representações do receptor e, de acordo com essa antevisão do "imaginário" do outro, fundar estratégias de discurso. (BRANDÃO, 2006. p.44)

Helena Hathsue Nagamine Brandão (2006) expõem que para Courtaine (1981) as tentativas de Pecheux deram início às discussões, mas foi nas teorias de Courdesses, em meados de 1971, por meio dos discursos de Blum e Thorez que percebe-se a

Passagem contínua da história (a conjuntura e o estado das relações sociais) ao discurso (enquanto tipologias que nele se manifestam) pela mediação de uma caracterização psicossociologica (as relações do indivíduo ao grupo) de uma situação de enunciação. (BRANDÃO, 2006, p.45)

Logo, é perceptível que

[...] a relação entre língua e discurso, midiatizada pelo psicossociológico, apaga as determinações propriamente históricas, fazendo com que a caracterização do processo da enunciação em cada discurso não seja relacionada ao efeito de uma conjuntura, mas às características individuais de cada locutor ou ainda as relações interindividuais que se manifestam no seio de um grupo.  (BRANDÃO, 2006, p.45)

Courtaine (1981) nos apresenta que as Condições de Produção não podem ser atraídas pelas ações psicológicas originadas pelo histórico do discurso ou por singelas circunstâncias, mas que a interação entre os “sujeitos do discurso”, que então passaram a se interagirem e estabelecer analogias discursivas, passando assim a uma teorização de que a CP está “alinhada a análise histórica das contradições ideológicas presentes na materialidade dos discursos e articulada teoricamente com o conceito de formação discursiva”. (BRANDÃO, 2006, p.45)

4 FORMAÇÃO IDEOLÓGICA E FORMAÇÃO DISCURSIVA

A materialidade ideológica se concretiza no discurso e sua articulação possui dois conceitos: a de formação ideológica e a de formação discursiva. Para Pêcheux (1977) o discurso que interessa ao materialismo histórico está ligada à superestrutura ideológica, à produção dominante e à formação social considerada.
Na reprodução das relações de produção, uma das formas pela qual a instância ideológica funciona é a da “interpelação ou assujeitamento do sujeito como sujeito ideológico”. Essa interpelação ideológica consiste em fazer com que cada indivíduo (sem que ele tome consciência disso, mas, ao contrario , tenha a impressão de que é senhor de sua própria vontade) seja levado a ocupar seu lugar em um dos grupos ou classes de uma determinada formação social. (BRANDÃO, 2006, p. 46)

O discurso é uma qualidade da ideologia, e o discursivo pertence ao gênero ideológico que leva em conta uma relação de classe, determinando o que deve ou não ser dito. A formação discursiva envolve dois tipos de funcionamento: a paráfrase, que é um texto retomado e reformulado em busca da preservação da identidade. Segundo Pêcheux (1977 apud BRANDÃO, 2006) o outro é pré-construído é um ponto de articulação da teoria do discurso com a linguística.

O conceito de FD regula, dessa forma, a referência à interpelação/ assujeitamento do individuo em sujeito de seu discurso. É a FD que permite dar conta do fato de que de que sujeitos falantes, situados numa determinada conjuntura histórica, possam concordar ou não sobre o sentido a dar às palavras, “falar diferentemente falando a mesma língua”. Isso leva a constatar que uma FD não é “uma única linguagem para todos” ou “para cada um sua linguagem”, mas que numa FD o que se tem é “várias linguagens em uma única”. (BRANDÃO, 2006, p. 49)




REFERÊNCIAS

HELENA, H. Nagamine Brandão. Introdução à Análise do Discurso, Campinas, SP: Editora da Unicamp, Ed. 2004 e 2006.




[1] Orientador da resenha e professor da disciplina de Linguística Geral
[2] Acadêmica do sexto período de Letras/UNESC
[3] Acadêmico do sexto período de Letras/UNESC
[4] Acadêmica do sexto período de Letras/UNESC
[5] Acadêmico do sexto período de Letras/UNESC
[6] Acadêmico do sexto período de Letras/UNESC
[7] Acadêmica do sexto período de Letras/UNESC
[8] A qual será referida pelas siglas C.P.



quinta-feira, outubro 11, 2012

SEMARTE 2012: JOSÉ EDUARDO MARTINS, CIPRIANO LUCKESI, ROSANA NUNES ALENCAR E SÉRGIO CANIBAL

SEMARTE 2012: 

Presença do Doutor Cipriano Luckesi, Educador e especialista em Avaliação, junto ao Coordenador do Curso de Pedagogia, prof. Nelson Rangel. (Foto 01) Mesa-Redonda com Rosana Nunes Alencar, especialista em Literatura Contemporânea, pesquisadora do GEPOEC, junto   ao poeta, professor e pesquisador na área de  Linguística, Dr. Sérgio Nunes de Jesus. (Foto 02). Dr. Francisco Cetrulo, Coordenador Pedagógico da UNESC, junto ao conferencista, José Eduardo Martins de Barros Melo, professor, poeta e partícipe do movimento "Independentes" do Recife na década de 80.(Foto 03). 




sexta-feira, outubro 05, 2012

SEMIÓTICA E JOÃO CABRAL DE MELO NETO: FRAGMENTOS DE UMA METODOLOGIA DE ANÁLISE


UM OLHAR SEMIÓTICO EM JOÃO CABRAL: “A EDUCAÇÃO PELA PEDRA” e “FÁBULA DE UM ARQUITETO”
By Rômulo Giácome

MINICURSO APLICADO NO SELL 2012, VILHENA, NOS DIAS 04 E 05 DE OUTUBRO DE 2012


A semiótica de linha americana pode ser muito bem aplicada no corpus literário. Simplificando marcas textuais da camada superficial em recursos, poderíamos ter, grosso modo, as seguintes relações:

    a)      Ícones: adjetivos e substantivos que remetem e inferem um sentido sensorial, (primeiridade);

O poema de João Cabral de Melo Neto, Educação pela Pedra, é imprescindível para ilustrar o intento teórico acima. Por meio de alguns ícones que irrompem de sua tessitura, tais quais: “resistência fria”; “flui”; “muda”; “carnadura concreta”; todas estas iconicidades remetem ao sensorial e tendenciam a eclodir na poética Cabralina da coisificação. No entanto, esta coisificação busca a tridimensionalidade do signo e não simplesmente a coisa / ser / objeto. É a face aparente, velada, áspera, sonora (...). Vejamos o poema para recolocar os ícones listados.

Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, frequentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra (de fora para dentro,
Cartilha muda), para quem soletrá-la.
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.
Em sequência temos o índice. (secundidade)

      b)      Índices: Verbos e formas verbais que traduzem a dinâmica narrativa do texto;

Entendendo o poema de Cabral como uma micro-narrativa, teríamos a seguinte estrutura formal / verbal: Ação principal: “Aprender”; sub-ações específicas e necessárias: “frequentar”; “captar” (sentido diferente de escutar ou ouvir; estes são estáticos enquanto que captar pressupõe uma ação do ouvinte); “fluir”; “adensar-se”, verbo importante para a identidade do texto, uma vez que forma o sujeito “aprendiz” (que não se revela pois é impessoal); “adensar-se” possui forias relacionadas ao ato de se fortalecer, aprofundar. E por fim, um “soletrar”.
É possível inferir, por meio de uma relação actancial (sujeito à objeto) que o sujeito cognitivo do poema é impessoal e não necessita personalização ou referência; no entanto o “professor” mudo é a pedra. Podemos tentar propor que além de pedra / professor, ela é pedra / sílaba (verbo soletrar) e pedra / signo. Isto porque a pedra possui uma dicção de existência e não de voz. Basta existir para ensinar. E basta a experiência do homem sobre ela e sobre as formas naturais e puras para se entender e aprender.

       c)       Símbolos: referências demarcadas e legitimadas; (Terceiridade)

A forma narrativa / argumentativa do poema Educação pela Pedra evoca três disciplinas necessárias, que irrompem por meio dos símbolos: Moral, Poética e Economia; mesmo que esta economia encontre homônimo na máxima Cabralina, sua função simbólica é evidente. Assim, varremos e identificamos estes três símbolos acima descritos.

A lição de moral, sua resistência fria
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:

Neste momento é interessante explorar a semiótica na formação poética Cabralina. João abandona o símbolo e busca, quase sempre, a (des)referencialização dos signos poéticos.
Cabral abandona os símbolos; trabalha apenas com ícones e índices: (“casa apenas com teto e porta”, como veremos em Fábula de um arquiteto);
Para este raciocínio é preciso compreender uma analogia simples da semiótica poética:

Ícone à sem referência; (não podemos definir peremptoriamente o sentido)
Índice à sem referência; (idem)
Símbolo à referência; ou o mesmo que chamarmos o sentido do símbolo da eterna afirmativa “É”; Por outro lado, esta definição não é literária; definha o ente poético; assim, o símbolo carrega sobre si o estigma da definição, e não do devir (o vir a ser), que concatenará a afirmação correta: “pode ser” e não “é” na esteira das inferências de sentido.
Em outras palavras, o símbolo como limitador do texto Cabralino e de todo o texto poético, não consegue intercambiar-se poeticamente com outras unidades. Para tanto, é relevante entendermos o que chamo (ousadamente) de Transposição semântica.
Um símbolo só se comunica com outro símbolo de modo superficial; (pedra na entranha da alma); já os índices e ícones podem ser transmigrados; ao decompor o símbolo pedra em ícones e índices, ou semas, a transmissão torna-se efetiva
Pedra à rigidez, dureza, concretude, rispidez, resistência àentranha da alma” o Sertanejo é um forte; os semas impregnam na alma, promovendo a transposição do legado semântico do símbolo Pedra (que se (des)referencializa) para o objeto “alma”.

Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma

                Ao dialogarmos com um Cabral que trata de “objetos”, devemos perceber que, pela sua necessidade poderosa de fugir dos referentes, sua linguagem evolui de uma espacialidade simples, para categorias mais complexas, incidindo em um conceito mais amplo de “dimensão”. Do espaço e coisa para a dimensão e categoria. Vejamos em fragmento do poema “Fábula de um arquiteto”:

A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;

construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;

construir portas abertas, em portas;

            Observamos em “construir o aberto”, “fechar secretos” e “portas abertas” que o signo poético almeja a dimensão maior, designar as formas em sua plenitude: não é a porta. É seu vão, sua forma pura de vazio que permite a entrada, a dimensão do aberto e do permitido. É o espaço de entrada e não a coisa de madeira e seu portal. Nesta busca da forma pura /plena, Cabral chega aos índices, negando a finalização, negando o “fechar”, mas sim o abrir. É uma casa indicial, apenas porta e teto, tal qual Mondrian.

casas exclusivamente portas e teto.

                Nesta dimensão de abrir / fechar, o poema enseja esta dialética do aberto e fechado a partir das casas. Não a “casa”, mas um espaço sem limite / limitado, linhas imaginárias da temporalidade / espacialidade, que se intercalam. No ato de construir “aberturas” que se abrem, portas que se abrem dentro do espaço e sem portas, a lembrança clara da Biblioteca de Babel (Joge Luis Borges) como matriz da construção ilimitada de espaços, até chegar no todo é inevitável.

O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

                Muito que a semiótica discursiva tem buscado é a importância da máxima Greimasiana “de que só existe sentido na diferença”. Assim, a importância do discurso enquanto combinação / sintaxe de semas subterrâneos, conexões improváveis e relações entre termos de inovada elevação de sentido, perfaz o próprio projeto de poemas como Rios sem Discurso e Tecendo Manhã; o primeiro uma clara alusão à sintaxe semântica.
Por fim, no minicurso que deu origem a este texto, no frêmito da aula, exigiu este adendo, que fez todo o sentido e espero que agora o faça também. É importante salientar que o ícone e o índice se comunicam ao perceptum, e não à decodificação racional da linguagem; comunicar-se ao perceptum é uma forma singular de comunicação, pois tem eficiência garantida por meio de outros registros; assim, ícones e índices propiciam esta comunicação perceptiva por meio de cheiros, design, movimento, cores e formas, além de outras categorias sensoriais.
Assim, poderíamos chamar o perceptum de intuição? Ou sensorialismo? (sons, gestos, cheiros)