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sexta-feira, março 04, 2005

Semiótica e Literatura: uma parceria perfeita

Olá a todos os leitores;
Já faz tempo que não escrevo e pretendo tirar um pouco do atraso;

O título fala muito aos nossos ouvidos letrados: a combinação semiótica e literatura data já de algumas décadas e fica cada vez mais forte; Vejamos quais são as causas disso:
Quando a arte literária tentou romper com o clássico, que de regra traz sobre si toda a plataforma da retórica, (uma espécie de normatividade da linguagem), traços de um humanismo racionalista elitista, e de uma estética amarrada aos valores míticos e harmônicos, o homem tentou lidar melhor com a liberdade criadora e leitora; esta liberdade de criação já estava prevista no Romantismo, período que tem seu cânone amarrado à "liberté";
o problema é que o Romantismo ainda não possuía uma linguagem que estivesse à altura do projeto de liberdade; esta linguagem ainda representava muito próximo o real e o verbal. É possível acreditarmos que o verbal tinha pequenas imperfeições como linguagem artística. Foi nesta lacuna aberta pelo Romantismo, problematizada pelos simbolistas que entra a voz forte de Mallarmé: ele percebeu as imperfeições da língua verbal como portadora de sentido poético, e tentou criar uma nova unidade de significação que fosse mais forte do que o aparato verbal. Acreditava Mallarmé que esta unidade tinha que possuir uma polifonia, tanto na esfera formal quanto da constituição dos conteúdos a ela veiculados. Logo, temos o surgimento do Símbolo (simbolismo) na literatura: uma unidade que tivesse porções verbais, sonoras e visuais, em um cruzamento sinestésico de sensações que possibilitasse o engendramento de todos os recursos da linguagem.
È possível percebermos que no discurso de Mallarmé, no seu grandioso poema Lance de Dados, o simbolismo vinha para destruir a língua na arte literária, destruir o verbal e possibilitar a nova linguagem.
Ora, tínhamos então a concatenação de interesses comuns entre a semiótica moderna e literatura de vanguarda: uma linguagem desengajada da noção antiga de língua, pautada na diversidade da linguagem polifônica, seria o objeto ideal para o estudo semiótico, visto que esta disciplina passou a dedicar-se a qualquer tipo de linguagem que possuísse uma constituição sistêmica, oriuda das definições estruturais de signo e sentido.
A fome com a vontade de comer teve seu ápice com as novas teorias concretas e neo-concretas de Décio Pignatary, Haroldo e Augusto de Campos; Em sua obra "A arte do horizonte do Provável" Augusto disseca as possibilidades de aplicação da semiótica para uma nova visão de linguagem, de crítica literária e de teoria de suporte ao objeto artístico.

A desfragmentação na linguagem artística fez com que a crítica se pautasse não somente em estilo, mas também na composição, teoria do arranjo, onde os componentes devem fazer parte do sistema, determinados por uma dominante nítida, operando nas estruturas.
Escolas literárias como o concretismo, pós-concretismo, simbolismo, modernismo de 45, poesia marginal, e pós-modernidade de 80 não poderiam estar sendo estudadas pela antiga "lingüística" do código verbal, visto que a linguagem verbal era apenas uma "parte" do poema;
A semiótica, pela sua lida insana com os códigos não-verbais, passou a vislumbrar os sistemas e suas composições, criando um discurso crítico pautado na metalinguagem e desconstruindo e reconstruindo a poética através de modelos estruturais.

Nesta concatenação de ideais, a semântica foi a disciplina que mais cresceu na atividade crítico-literário, visto que o estudo dos sentidos não estava mais arbitrariamente ligado ao sistema histórico-crítico, ou seja, a eterna luta pelos conteúdos sociais e humanitários que tinham por obrigação um fundo lógico operacinal sobre o real. Agora, o sentido faz parte do individual-coletivo do leitor, fecundando o que a arte tem de geradora no interior das assimilações e leituras, abrindo as possibilidades de interpretação.

Os autores que tiveram maior influência nos estudos semióticos para a compreensão do objeto literário artístico podem ser descritos na lista abaixo, (que está extremamente incompleta):

Levy-Strauss --> Fecundou a noção de arquétipos para o entendimento dos sistemas literários;
Todorov --> Alimentou os estudos estruturalistas dentro da poética, descortinando as possibilidades da narrativa e da poesia; continuou fazendo crítica semiótica-estruturalista;
Roland Barthes --> Crítico eclético, que muitas vezes compunha crítica tendo em vista polos Marxistas e Psicanalíticos, utilizou a semiologia com ferramenta mor.
A. J. Greimas --> Criou os sistemas de significação literária; os conceitos de modulação; as relações actanciais; O quadrado semiótico e a semiótica das paixões;
Claude Zilberberg --> Criou o sistema binário de significação, as relações tensivas, o proto-sujeito, o proto-discurso;
Tinianov --> Remodelou os estudos semióticos estruturalistas; implantou a noção de cultura dinâmica e sistemas correlatos;
Lotman --> Redefeniu a noção de elementos pré-simbólicos; aludiu aos sistemas de contenção de sentidos; a intermediação da cultura e do saber semiótico;

Atualmente, estudar a semiótica é uma necessidade básica do lingüista que deseja compreender o fenômeno pós-moderno da língua; A língua perdeu parte de seu poder comunicativo, que hoje se dá por intermédio de mais elementos sinéticos e alegóricos, convencionados em milésimos de segundo e depois destruídos; culturas inteiras, complexas que nascem e morrem em menos tempo do que demoramos para aprendê-las; a vacuidade da língua e a nova dimensão da linguagem faz da semiótica a disciplina mor da nova era da comunicação, incluído aí as artes.
Prof. Rômulo Giacome Oliveira Fernandes (04/03/2005)

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