terça-feira, abril 26, 2005

O DEVENIR...EVANESCENTE

Escaparam do horizonte olhares perdidos
caminhando, o espaço não é mais
a pequena esfera que gira sob nossas cabeças
apertado foge um pequeno soluço
dos lábios azuis do sol sem festa
o sol sem calor e sem sol

um pequeno soluço incendeia
alenta
do frio amigo à noite
cabera tudo dentro de um pequeno copo
e nele esvaziava dia após dia
quem dera um último gole cesse
mas se cessa, vivia;
(a tristeza é uma pequena dádiva do coração)
(uma pequena doação aos deuses que brincam,
trotam nos cordeiros que pulam felizes ao
sacrifício)
(sacrificar é banalizar-se)

vontades não morrem, a morte não sonha
como sonham nossos sonhos
previsível a desgraça, incógnita a vitória
mas a vitória é prêmio duro: vencer é destruir
apenas cesse e viva;
e se viver que agora salte
se saltar que agora grite e cante
se cantar não termine
mesmo que a noite acabe o dia venha
dotado de músculos reais

se afogar no cotidiano já
não sem motivo de fuga
não sem motivo de agonia
que viva ainda no último gole
que exista enquanto último
que lampeje enquanto luz

não deixo os segundos sem tempo
fugir da batalha e esperar a derrota?
a derrota é uma vitória fácil para a morte
não deixo que vá
de maneira nenhuma possa ficar
plantado como tronco caído
deseperos, sotejos, murmurar perdido
dentro de mim um eu sempre presente

descarrego na vida o peso da morte
desafiar é viver
tudo está a meu favor
tudo está onde justamente nunca deva estar
somente o devenir
(o devenir, esta vontade intensa de ter e ao
mesmo tempo desdenhar)

Ser um devenir é tarefa dura
persistir é encontrar
nos cantos da casa, nas quinas da mesa,
nos entre-livros,
um motivo para ser
e ser
já é uma vitória perfeita

Rômulo

// Não poderia acreditar em mim sem uma certa suspeita...
Será? Como? Por que? Mas desde o momento que encarei tudo
como um processo, e veja bem, já não sem tempo percebi que
ainda não sei o que é um processo...
Talvez processo seja um movimento... (para onde?) talvez compreender o processo é entender sua origem (onde?) ora, talvez seja apenas a ligação entre dois pontos (quais) ora bolas, que seja então dado o nome de processo à aquilo que não determinamos, mas sabemos que existe? (pode existir algo que não determinamos?)
O passar do homem pela história do globo é um processo. Categoricamente, um micro processo seria minha passagem pelo globo. Mas se ainda não finalizei minha passagem, posso estar em processo? Um processo que ainda não possui conclusão? Será que um processo é justamente indicar apenas um pedaço do movimento e a partir dele, perceber sua dinâmica? A vida seria um processo? Nas ciências, as descobertas são um processo? ??? ///

segunda-feira, abril 18, 2005

A Análise Literária: uma introdução

A linguagem é um fenômeno que agrega muitas teorias. A propagação científica das problemáticas que ela engendra, coube também à teoria literária. As artes, como linguagem essencial que são, merecem uma atitude científica, que perquira hipóteses dentro de problemas, acentue uma investigação metodológica e defina resultados dentro de uma linha ideológica de estudo. Ter atitude científica sobre a literatura é o primeiro passo para compreendê-la. Muito se tem dito da literatura popular, daquela desvencilhada de aparatos técnicos; outros acentuam o poder da arte de consumo, art pop, cult art, literatura descartável de fruição rápida e descompromissada; mas até mesmo estas apresentam motivos para problematizações: são realmente arte? possuem literariedade?
O grande pedestal da atitude crítica e científica sobre o objeto de arte verbal é a ANÁLISE LITERÁRIA; encarada como uma sistematização da obra de arte por alguns; vista como libertadora dos sentidos segundo outros; o que basta para uma investigação sobre a análise literária é saber o que ela consegue engendrar sobre si: portanto, deixo claro aqui três grandes pilares da Análise Literária em sua operação sobre a linguagem artística.

A análise literária como libertadora dos sentidos poéticos;
A análise literária como desmistificadora e mistificadora do texto e seu funcionamento;
A análise literária como grau essencial para a crítica literária;
Nos primórdios da comunicação, a ato de compor peças literárias, amarradas às canções, faziam de seus autores verdadeiros magos; tratados como místicos pelos filósofos do centurião Greco-Romano, mal sabiam estes que seus recursos podiam ser explicados facilmente um pouco mais a frente, pelo que então seria conhecida por Lingüística e semiótica;
O poeta é re-organizador da linguagem; ele compila as palavras certas e combina estas palavras para causar o efeito literário; nesta busca de selecionar os termos certos e combinar da melhor maneira possível, ele até que se assemelha ao comunicador comum, que de certo modo também escolhe as palavras e combina no cotidiano; a diferença latente entre um escritor literário e outro não literário, é a necessidade poética que existe no ato de seleção e combinação; valorizar a função poética é um dos preceitos básicos do artista literata; seu discurso deve impulsionar significações e não privá-las e/ou limitá-las; o poeta liberta o código de sua condição de mesmice, de cotidiano, de regularidade; ele provoca na linguagem aquilo que ela possui de máxima potencialidade de representar: visualmente, sonoramente, graficamente e conceitualmente.
Nota-se que o discurso literário não aprisiona conceitos, não dogmatiza, não se priva no tempo; na verdade ele abre lacunas, possibilita brechas em seus interstícios, impessoaliza, procura abster-se de soluções fáceis para o leitor e torna a obra literária um elemento coletivo, onde sua realização completa encontra-se no leitor
"não existe texto literário sem um leitor literário"
Ora, se não existe uma obra sem um leitor apto, a primeira habilidade é a análise.
A partir do postulado acima, todo texto é fruto de um preparo, de seleção e combinação, surtindo efeitos que ainda não foram designados: o efeito mor da literatura é a ligeira sutileza entre o belo e o sentido;
Captar o sentido é a tarefa do analista literário; mas não captá-lo somente em uma leitura individual, apenas substituindo metáforas; captar o sentido também é prever onde e como eles se originaram; quais termos o poeta escolheu para surtir polissemia e porque escolheu; por que combinou e quais as possibilidades que ele conseguiu potencializar no ato desta combinação;
Notem que aqui estamos a frisar o primeiro pilar, já assinalado logo acima, de Análise como Libertadora de Sentidos.
Esta condição de descobrir os sentidos através da combinação e seleção já foi intensamente explicitada pelos formalistas Russos, principalmente por Roman Jakobson; mas, onde realmente o sentido surge, somente a semiótica moderna vem adentrando no problema. Greimas já previu que o sentido surge nas diferenças. Estas combinações sêmicas que se dá entre tropos (construções unitárias) perfaz o caminho teórico suscitado por Zilberberg.
De um modo geral, fechando esta primeira premissa (Análise como Libertadora de Sentidos), temos que entender o analista como um investigador do texto, procurando os "nós" (como afirmava Derrida) de sentido, que sempre estarão nos porquês da escolha daquele vocábulo junto a aquele outro. Então, estabelecer um estudo sistemático dos sentidos, aquilo que ele nos suscita, nos provoca e explicar este processo, é análise literária.
Por outro lado, mistificar sempre foi uma forma de poder. Mistificavam para combater na Idade média pobres coitados (Hereges), porque assim eles poderiam estar ao mesmo nível da Igreja, detentora do saber divino e único caminho com o oculto, legitimando assim as fogueiras. Mistificavam os poetas gregos porque neles estaria a representação cabal do pover divino. Ora, então porque mistificar o texto literário? Sabendo desta condição de poder, a análise tem a possibilidade de agregar potencialidades ao discurso literário, que ora pode agir como elemento suplementar às necessidades humanas.
Como exemplo podemos analisar textos de auto-ajuda. Este rótulo faz com que meras metáforas toscas (ratos e humanos) "Quem ...eu meu queijo" possam ser consideradas pérolas do imaginário humano, e mais do que isso, possam ser consideradas elementos salvadores. Por que não utilizar o ritual, o mistificar o texto literário para agregar a ele seu valor devido? Notem que este é um fenômeno lingüístico e não moral. É mistificar para des-mistificar. Valorizar a construção a tal ponto que sua explicação seja a única forma de contemplá-la totalmente, de não deixar escapar nenhuma gota de sua seiva polifônica. Valorizar a obra como quem valoriza, posteriormente, o próprio ato de analisá-la.
Descortinar as possibilidades constitutivas da literatura é uma amálgama da ordem humana, e não simplesmente científica ou escolar. Vários homens de talento perderam seu precioso tempo estudando a arte verbal. É deste ponto que vem o cerne das questões sobre a intencionalidade textual, objeto tão caro aos analistas semióticos. O ato de tornar a arte literária a presentificação de um real que não pode ser tocado senão pela linguagem (Lyotard) faz com que esta seja crucial ao andamento cultural da humanidade. A linguagem tem a força e propriedade de referendar o mundo através de sua categoria "representativa". Mas a literatura, feita de linguagem, tem a força para além de referendar o mundo, dotá-lo de vivacidade, coloração, intensidade, força, emoção. Isto é presentificação. Pontuar na intencionalidade de dado texto literário, a fórmula de transformar signos em paixões, textos em tragédias e narrativas e épicos humanos.
O ato de presentificar no discurso uma porção humana, não deixa de ser uma mistificação cabal do discurso. Desmistificar o texto literário é senão torná-lo inteligível aos olhos da cultura. Aos olhos de um interpretante (Peirce) cada vez mais dotado de valores semióticos.
Por fim, a crítica literária compreende-se de uma postura científica sobre dado objeto artístico verbal. Avaliar uma construção e julgá-la, é antes de tudo prever as relações que existe entre a forma e o conteúdo; é articular as noções de poética e literariedade frente à uma interface de escrita / saber / poder, que suscita variações artísticas, lingüísticas e humanizadoras. É atentar ao "desempenho" do signo enquanto portador de verdades sociais, filosóficas e estéticas. O rascunho operacional e técnico deste processo aparentemente abstrato e especulativo, é a análise integral dos componentes construtores "constructos" da intenção artística. Descortinar processos de composição, bem como possibilitar empreendimentos de sentido, norteaiam às ações analíticas literárias.
Encarar o texto como um "processo", o que requer uma explicação dinâmica (Lotman) e não determinada do conjunto (vocábulos / signos / marcas representativas) conflui em análise literária. Descrever a relatividade e intencionalidade dos sistemas representativos, bem como seus componentes inerentes e explícitos, valoriza a proposição simbólica da linguagem bem como legitima sua condição de grande metáfora humana.
Não se tem crítica literária sem uma análise literária bem arquitetada e explicativa. Da mesma forma que não entendemos um texto poético e ou narrativo sem um preâmbulo de mistério e ritual. A literatura está dentro de um circuito complexo de variáveis científicas, onde o aspecto formal (linguagem) dialoga com inferências culturais, emocionais e ideológicas. Cabe-nos reconhecer a análise literária como instrumento eficiente e científico ao contato direto com a poética.