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segunda-feira, abril 03, 2006

ALGUNS PILARES DA TEORIA DA LITERATURA CONTEMPORÂNEA

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Poema da Semana: e que semana!
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quando andamos no solo
seco solo tênue próximo
as linhas do caminho se fecham
e se cruzam por sobre elas mesmas;

fundem-se na pele o ferro e flutuando
o contorno da estrada circula no vento
e faz-se alto girando luminoso de fronte
formando uma auréola sufoca a cabeça que
pesada cai na terra da estrada
sem caminho formando o pó e mais nada

onde estaria no leito a acabar
sabendo que pedaços sensíveis
despedaçadas epidermes sofrem o peso
sufocante da escolha e da vida afora
correndo diante do vazio que agora

enegrecido pelas formas invisíveis
pedem um pouco de mim onde mim
mesmo estaria desperto a acordar
sem saber que o frio não corta
nem o fogo queima só o vazio silencioso
que marca o espaço, definha o sonho e
destrói a última gota de lembraça
ficando o resto, ainda, a contemplar
as sobras do tempo e da consciência
com a cara na lama, os pés na merda
a cabeça pendida ainda pedindo
e ainda mandando um recado à felicidade
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Conto: Ainda que dure a esperança!
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COMPRIMIDOS

A sacola comprimia meu peito. Estava cheia e pesada e por isso ficava a balançar, passando de banco em banco, olhando de soslaio a moça que estava atrás. Fazia um barulho infernal, um barulho de martelos e pregos. Os pregos comprimiam meu peito, por dentro. O sapato preto, respingado de lama falava do dia anterior, falava em preto e branco. Ainda lembro quando ganhei estes sapatos. Décadas talvez, tempos diferentes. Mulher e netos. Sentia-os nos pés mostrando-me lembranças fulgazes de mato, lama e crime. O sapato comprimia meus pés, acordavam meu inconsciente. Os sapatos estavam vivos em meus pés mortos. De longe olhei aqueles sapatos sujos de viagem: seria um trabalhador? Seria um ambulante, um andarilho? Bem, viajava. Ansiava por isso desde a infância. O dia em que iria sair de casa, destruir as últimas réstias de lembrança daquele lugar. Os murros, as lágrimas, os gritos. Já não agüentava ficar sentada, nem quieta. Já escutava aquela voz imperiosa a pedir, a ordenar, a mandar que fizesse alguma coisa. Mas eu nunca havia pedido favor algum para ninguém, porque tinha que fazê-los a todos?. Bem, pensar não é libertar-se. Pensar é amargurar-se. Os cabelos longos tocavam minhas costas. Tinha-os pintado. Ainda restava em mim algo de beleza, mesmo que ninguém falasse. Tocavam e pensava o que queriam? Mas. O que queriam todos ali? Uma mulher de cabelos longos, negros e com ar cansado. Perguntei-lhe: falta muito para chegar? Não respondeu, nem olhou. Devia estar cansada de responder aquela pergunta. Devia estar cansada de alguma coisa. Um velho segurava uma sacola. Como pesava aquela sacola. Como ele se agarrava a aquela sacola, de modo tão forte e tão intenso, que ela parecia que iria escorrer das suas mãos. As mãos tremiam e comprimiam a sacola contra o peito. Se todos aqueles soubessem o que me fazia bem e mal. Se todos aqueles soubessem o que tomo para escapar da dor. Já não via mais nada além da luz depois da curva. Todos viam aquela luz intensa, um farol em sentido contrário ou anjos?
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CONCEITOS CAPILARES DA TEORIA LITERÁRIA
Prof. Ms. Rômulo Giácome O Fernandes

1. A literatura está no rol das artes, e por ser antes e tudo expressão artística, ela não tem contato ou obrigatoriedade de o ter com a verdade ou até mesmo com a mentira. A arte possui apenas uma verossemelhança, ou seja, possui uma ligação estrutural ou dialética com a realidade, visto que ela imita (mimese) ou recria esta suposta realidade.

2. Por estar consolidada como arte, possui uma perenidade temporal inatingível; é sempre universal, uma espécie de novidade que permanece sempre novidade. A resposta para este poder universalizante está em alguns fatores, como: a) a literatura não fala de coisas, ou de elementos datados; ela fala por categorias: dores, dialéticas que sempre existiram em qualquer tempo ou espaço. b) é feita de linguagem e portanto é um jogo que pode sofrer mudanças nas regras e possibilitar novos sentidos em qualquer época, visto ser de código aberto (sistema modalizante secundário). f) Possui face metalingüística: está sempre falando dela mesma (em uma observação profunda) e está sempre discutindo a arte pelo simples fato de o ser.

3. A Arte evita funções definidas; mudam-se as teorias, os códigos políticos e humanos, mas a arte está sempre situada naquele espaço exigido pelo lúdico, pela fantasia, pela necessidade de algo mais que a cultura pode oferecer além das necessidades biológicas e afetivas. Ela é o supérfluo necessário da cultura humana.

4. A literatura é antes de tudo linguagem conotativa; um conjunto de códigos que juntos em organização estética tornam-se pulsares de novos sentidos e sensações. Esta linguagem opera no campo conotativo da interpretação. Portanto ela é passiva a criação de novos códigos inventivos, a novas definições e a possibilidade de alimentar enigmas de sentido. Para reforçar, o campo conotativo é o hemisfério dos múltiplos sentidos, além dos sentidos atribuídos categoricamente pela denotação.

5. Modulação: justamente o processo pelo qual o signo multiplica suas possibilidades, saindo dos graus primeiros da escritura, perpassando ao abstrato. Em outras palavras, evoluir o signo até o máximo grau possível de significado: do grau zero da escritura, onde, utilizando um exemplo simples, o lexema “prego” temos que no denotativo prego é prego de pregar, até a possibilidade do prego ser alguém muito idiota (ambigüidade) grau 1; subindo até o prego da cruz (grau 2), e o que representa nela (misericórdia) grau 3; Notem que esta evolução propicia ao texto ter polissemia, pois admite uma variedade maior de possibilidades interpretativas

6. polissemia: é a virtude lingüística que o texto possui de admitir variadas leituras, possibilitando ao signo agregar um maior número possível de significados mediante diversos contextos de significação; ora, cabe aqui lembrar que uma das grandes “operações” semióticas da literatura é a polissemia, visto que um poema não busca uma mensagem específica; na realidade as grandes obras habitam o céu do espaço cultural como estrelas que propiciam dezenas de leituras a quem as quer utilizar;

7. Interpretação e compreensão: Quando encaramos a interpretação como a operação de recepção e assimilação de conteúdos que podem ser descartados ou não, acrescentados ou não, segundo nossa idiossincrasia (nossa subjetividade) percebemos que diante de um poema que se apresenta carregado de sentidos até o máximo grau possível (POUND) a única alternativa possível é a interpretação; a compreensão total de um enunciado literário parte da crença de que um poema possui apenas um sentido e que este pode ser apreendido na íntegra; devemos evitar a compreensão do texto literário, naquilo que o termo tem de limitador das possibilidades de sentido.

8. Em literatura, o autor mesmo que esteja vivo, deve estar morto; não devemos nos preocupar com o autor; o sentimento proposto no momento inicial da enunciação já não é o mesmo no resultado final da leitura, uma vez que se está a séculos do momento do autor, o ímpeto autoral já não tem mais sentido. A única ambição do verdadeiro autor é a expressão; a representação de sensações que possam ser reproduzidas pelo leitor; ou senão criadas a partir de uma sugestão dos signos. Vejamos o que diz Fernando Pessoa a Carlos Drummond de Andrade: O poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente. (FP) Dizem que finjo ou minto / tudo que escrevo. Não. / Eu simplesmente sinto / com a imaginação / não uso o coração / Sentir? Sinta quem lê! (FP). Tua gota de bile tua cara de gozo. Isto ainda não é literatura. Tua infância (...) deixes tua cidade em paz. (CD).

9. A linguagem literária é um código por sobre um outro código ainda, assim sucessivamente. Este caráter modular da linguagem poética permite fazer referências onde ninguém faz por achar impossível. A literatura admite o que aparentemente é impossível pois para ela aquilo é apenas um recurso de expressão. “Ler poesia para mim é desaprender”. (Manoel de Barros). O fato da linguagem por sobre a linguagem; a forma sobre o conteúdo e logo depois o conteúdo passa a ser forma de um novo conteúdo são camadas já previstas por poetas como Fernando Pessoa. Ex: AUTOPSICOGRAFIA; ISTO. A dor sentida pelo poeta, a dor fingida, a dor lida (expressa) a dor do leitor e a dor não tida a dor do devir. O que falha ou finda em Pessoa é um terraço por sobre outra coisa ainda. Notem que ele afirma que esta coisa ainda é que é linda; o conteúdo por sobre a forma que já era um conteúdo por sobre outra forma, em uma relação intensa de imagem por sobre imagem, conceito por sobre conceitos.
10. A natureza da verdade e da imagem poética está na contradição; poesia é contradição; dialética com a realidade (os ombros suportam o mundo / e este pesa menos que a mão de uma criança, Carlos Drummond); ruptura com seu tempo através da novidade; perversão semântica (a cigana analfabeta / lendo a mão de Paulo Freire); desconstrução da imagem; (pingos de vc mancham a minha camisa branca, Rômulo Giacome)

11. O todo literário é formado pela junção de forma e conteúdo; a forma é o suporte material, o significante; aquilo que é organizado de forma sistemática com a intenção de atingir sentidos no leitor pressuposto; o conteúdo foi o resultado atingido pela forma e com ela (o significado); os sentidos, as suposições, os pensamentos, os sentimentos resultantes do processo; è bom frisar que as imagens constituídas na mente do leitor ainda são formas; “o campo de futebol com um elefante rosa”;

12. Literatura é pensar por imagens; não existe um poema sem a realização imagética;

13. Literatura como música e ritmo; o primeiro passo para evocar o sentido de um poema é lendo-o em voz alta; dessa forma vc percebe sua musicalidade (melodia e sonoridade) através da entonação e dos recursos como aliteração (predominância de sons consonantais), assonâncias (predominância de sons vocálicos) bem como silepses (sons de s, f e z); O ritmo é importante pois demarca onde o texto que acentuar;

14. Captamos o sentido do poema pelo visual, sonoro e conceitual; até chegarmos no sentido do poema devemos realizar sua parte material; suas imagens e seus sons, chegando até seu conteúdo; Ezra Pound chama essas faces de Melopéia (sons), fanopéia (imagens) e logopéia (conceitos);

15. Função Poética é a projeção de equivalência entre o eixo de seleção e o eixo de combinação; (Roman Jakobsom); é quando o poeta consegue cruzar forma e conteúdo de modo perfeito; a palavra “sais” Possui uma equivalência entre o seu som (sibilantes que lembram o sal) com o seu sentido denotativo.

16. Literariedade. É a característica essencial para que possamos afirmar que um texto é ou não literário; a literatura é uma eterna problematização; sempre estamos perguntando o que é literatura, como é a linguagem literária; para obter respostas devemos estabelecer critérios dentro da própria obra, do seu caráter inerente, da sua composição intrínseca (dentro do texto) mais do que extrínseca (fora do texto);

Aqui vão mais alguns conceitos importantes a serem eternamente lembrados:

- A linguagem literária está centrada sobre um impacto constante, uma mudança de valores, um trabalho sobre o código em que opera;
- O caráter paradoxal da linguagem literária é proveniente de seu caráter tensivo (oposições)
- "interpretar é escolher um percurso de leitura"
- "interpretar é substituir o signo por seu possível substituto"
- "a linguagem literária parte de pressuposições" (o signo pressuposto)
- "a linguagem literária é sofisticada porque admite o polissêmico com estilo"

- Aproveitem a obra poética como quem recebe um segredo;
a leitura de um poema é um ritual, assim como é qualquer recepção de arte;
um ritual que coloca a linguagem como grande portadora de sentidos;
um ritual que propõem na linguagem respostas às inacreditáveis dores do mundo; um ritual que procura descortinar os mistérios da obra;
um ritual que procura evoluir, desenvolver as imagens, os sons, as texturas;

3 comentários:

michelle ayres disse...

A paz está dentro de ti.
Não há outros lugares para procurá-la.
Ela acontece a partir da tua compreensão,
da tua disponibilidade em aceitar e
aprender com os momentos que te chegam.
Quando chegas ao teu coração, inevitavelmente chegas à paz.
Ela se encontra no lugar onde tudo em ti se traduz em equilíbrio, harmonia e inocência.
A tua paz depende da tua atenção para
com o teu interior, assim ela se estende
ao seu exterior, dando uma nova dimensão
da tua realidade onde tu consegues clarear, através dela, o que parece obscuro, desfazer os nós onde tudo parece emaranhado,
sem saída.
Dá uma chance para a paz, a tua paz,
e verás que a vida colore o que te parece cinza, traz amor onde sentes haver ódio,
traz abundância onde pensas haver miséria, traz aconchego onde pensas haver frio, solidão.
A vida muitas vezes não parece ser fácil,
existindo momentos onde desistimos de tudo, para simplesmente chorarmos pela nossa aparente incapacidade em harmonizar tamanho caos que criamos, mas digo a ti: procura por tua paz, procura pela tua quietude interior e tudo a tua volta reluzirá na bênção Daquele que não deixa de olhar por ti, Daquele que, eternamente, não deixa de ser a própria paz.

... qtos momentos voce professor nos mostrou que o poder naum e tudo e sim a humildade, com aqueles que estao em sua volta.. muito sucesso e sabia que nos do 7 de letras temos orgulho em te-lo como nosso eterno mestre... obrigada amamos vc... beijaoo

Rômulo disse...

Poxa Michelle;
que bela traduação de sentimentos em palavras; achei deslumbrante e com a força singela da compaixação e da amizade; obrigado pelas palavras doces e saiba que vc salvou meu dia; é tão bom ouvir emoções interpretadas em signos;
um grande abraço e saiba que tenho muita admiração por vossa integridade;

Tiago do 1 disse...

e ai prof.
cara estou aqui me preparando para sua prova
e quis postar um singelo comentario
pedindo compaixão pelos EXAMADOS(os que ficam de exame)
ROmulo vc e um homem bom Romulo
lembre-se disso

mas é brincadeira

com pingos de verdade