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sexta-feira, julho 11, 2008

CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS: A FORÇA DO ATO E A ALEGRIA DO SILÊNCIO

CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS: A FORÇA DO ATO E A ALEGRIA DO SILÊNCIO
Por Rômulo Giácome de Oliveira Fernandes SINOPSE
Em 1942, no meio do sertão nordestino, dois homens vindos de mundos diferentes se encontram. Um deles é Johann (Peter Ketnath), alemão fugido da 2ª Guerra Mundial, que dirige um caminhão e vende aspirinas pelo interior do país. O outro é Ranulpho (João Miguel), um homem simples que sempre viveu no sertão e que, após ganhar uma carona de Johann, passa a trabalhar para ele como ajudante.
 Viajando de povoado em povoado, a dupla exibe filmes promocionais sobre o remédio "milagroso" para pessoas que jamais tiveram a oportunidade de ir ao cinema. Aos poucos surge entre eles uma forte amizade.
“Cinema aspirinas e urubus” é um filme que pode ser fatalmente chamado de um monólogo: um monólogo a dois e um espaço côncavo (o sertão), que encobre o mundo todo pelo ícone da tragédia que este representa, mas que é recortado e colado no contexto da película; isto porque o foco da câmara está no foco restrito, no caminho trilhado pela representação dos personagens e não pela dinâmica da ação e o desenrolar da trama.
Esta ausência de movimento e velocidade imprime à película um minimalismo significativo e alicia a uma plena entropia, que sintetiza a necessidade do mínimo como forma comunicativa do poder semântico, a partir do corte de informações e da abertura da ambigüidade, elemento marcante na simplicidade e evasividade nas falas dos personagens Ranulpho e Johann;
Dirigido por Marcelo Gomes, com atuação de João Miguel na figura de Ranulpho e do ator alemão Peter Ketnath na pele de Johann, a trama está estrutura sobre o encontro e manutenção relacional entre um vendedor alemão de aspirinas, que viaja o Brasil inteiro em um caminhão, levando seu produto e projetando filmes que persuadem aos moradores das pequenas cidades a comprar seu remédio para a dor; por outro lado, Ranulfo é um personagem nordestino, morador característico do sertão agreste, que tenta fugir daquela pobreza e ir ao Rio de Janeiro construir uma nova vida.
A movimentação do enredo torna-se análoga e simétrica no momento em que os personagens fogem de seus meios e se encontram em sentidos diversos; um está do centro para a periferia, fugindo da Alemanha (em plena segunda guerra mundial), saindo do Rio de Janeiro para penetrar agudamente no interior do Brasil em busca de vender suas aspirinas (ou de se encontrar?) e o outro da periferia para o centro, saindo do sertão agreste e indo ao Rio de Janeiro em busca de uma nova vida, promovendo uma colisão em dado momento, que permite a troca de conheceres e saberes que são importantes informações ideológicas sobe o filme.
O conflito da trama possui o ponto de equilíbrio centralizado sobre a fuga de cada um, mas esbarra na falta de dados mais consistentes e informações mais agudas para apresentar este conflito; o processo de auto-conhecimento promovido pelo conhecimento mútuo entre os personagens, não evidencia de modo nítido a carga dramática de quando o alemão abandona tudo e vai para a Amazônia, trabalhar como soldado da borracha; o ápice não existe, propositalmente, a busca por este momento sublime está salvaguardado em cena de menor impacto literário, mas de grande impacto visual, quando suas naturezas se re-encontram em um bordel de interior, com prostitutas sujas e mal afeiçoadas, que deixam entrever a virilidade que ambos compartilham.
Longe do contexto do cinema empolgante, talvez por isso venha sua artisticidade, Cinema e Aspirinas e Urubus é um filme para ser visto com lupa ou luneta, perpassando grau a grau as possíveis entranhas de falas, imagens com a mesma cor, este cinza do nordeste que adensa o sertão e constrói o bojo ideal do nascer trágico, do miserável e do pouco; é um filme para ir construindo a leitura e afugentando a monotonia com criatividade fruitiva, ou seja, não basta ser um bom interlocutor para assistir ao filme, aqueles que querem entrar nesta jornada pictórica, devem estar atentos ao discurso total, construindo sentidos a partir da observação clara da simplicidade dos gestos, da languidez dos movimentos, da evasividade dos temas e da sensação próxima dos rostos e desenhos semióticos das feições.
Por fim, se o entretenimento não é a mola mestra que mantém o equilíbrio artístico do filme, porque ele é tão elogiado pela crítica e foi premiado em Cannes?
A construção de um tecido discursivo, que promova a criação de um símbolo ou metáfora que possa servir de simulacro às discussões políticas e filosóficas, encontramos na própria idéia de aspirina no sertão, como a “cura de todos os males”; os males físicos e os males espirituais; Como curar os males de um povo tão sofrido, que vive além da linha da dor ou do prazer? Este mal que a aspirina procura curar, no filme, é o símbolo que cura as dores espirituais a partir do cinema, nas projeções do alemão Johann, que cura mais do que o remédio. Muitos, depois de assistir às seções de cinema do alemão, compram apenas por manutenção daquele benefício, e pedem mais filmes; a noção da arte como cura física, a idéia do cinema como intervenção benéfica na carne, suprimindo a fome e a dor, o sofrimento e a lástima, encontram respaldo na necessidade humana de fantasia, neste quinhão de fábula que esclarece o espírito, rejuvenesce a alma e provoca a consciência;
Assim, vendo a produção cinematográfica brasileira atual, com seus temas e seu devir grandiloquente, bem como a proximidade deste cinema brasileiro com a televisão aberta (novelas), “Cinema aspirinas e urubus” é uma contracorrente a isso tudo, uma vez que nasce com uma proposta diferente; incluindo aí, certa dose de contra-cultura, uma forma apurada, mas despojada de trama e ausência de movie action que estamos acostumados; no processo todo, este filme se encaixa como o pote de café que nos utilizamos para “resetar” os vários cheiros que confundem nosso olfato quando vamos comprar perfumes; é um zerar de experiências, uma busca interior de reflexão e resignação, é um estar subjetivamente consciente da interação artística que o filme promove, e por isso o filme é bom, não soa datado e nem com aquela quantidade louca de clichês que estamos acostumados a ver no cinema brasileiro.

Um comentário:

Vânia disse...

Com essa resenha fantástica estou com sentidos aguçados para ver o filme. Parabéns mestre!!!

Vânia Paulino