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quinta-feira, julho 03, 2008

"O LIVRO DAS IGNORÂNÇAS" - MANUEL DE BARROS

Manoel de Barros - A palavra que goteja sentido
Por Rômulo Giacome O Fernandes
19/08/2005

A leitura de Manoel de Barros precede a leitura dos códigos, precede a leitura dos símbolos e precede a leitura do verso. Sua condição de vácuo entre o sentido / ser / significante propõe mais do que a própria teoria. Nele, ela se perde e se reencontra no desconhecer da palavra.
"Ocupo muito de mim com o meu desconhecer"
Não é a palavra nova, não é a nova forma ou velha forma em pastiche. É o verbo em estado de coisa. Verbo em estado de essência, que fala através dos seres, animais, pequenos pedaços de pedaços de signos soltos.
"Ninguém que tenha natureza de pessoa pode esconder suas natências"
A forma como cada palavra recebe a dádiva da indicação e como cada indicação, por mais simples que seja, perde seu sentido imediato e passa a significar aquilo que nunca / sempre significou. A perfeita relação semântica entre indicadores em potencial faz com que sua poética consiga aproximar as antigas noções das simples nominalizações.
"Sou o passado obscuro destas águas?"
Uma natureza semântica, sem a beleza das imagens, não comporia a perfeita visão poética. Mais do que encabalar o verbo, crucificar os nomes, Manoel deixa a imagem, por si mesma, alavancar os sentidos, ruminando tal qual o boi no pasto pantaneiro.
O mínimo, diriam alguns, seria a marca predatória de uma readaptação dos antigos modernos, Drummond e Bandeira. Na realidade, o mínimo está na concepção, o mínimo está na perda da grandiloqüência verbal para uma grandiosa contemplação essencial. A palavra vale enquanto suporte de constatações, que fincadas no verde, fincadas no ato de repetir até ficar diferente (Repetir repetir, até ficar diferente), formam o imaginário de Barros. Não se inventa palavras. Não se cria novas constatações. A realidade semântica de Manoel está em sua forma de recitar um idioma novo, onde o que ficou de resto de suas lembranças expressam referências que são todas nossas. Usar algumas palavras que não tenham idioma.
Nesta criação e lapidação de um idioma novo, correlacionamo-os ao grande Guimarães Rosa, como o próprio Manoel de Barros afirmou, certa feita: "Temos que enlouquecer o verbo, adoecê-lo de nós, a ponto que esse verbo possa transfigurar a natureza. Humanizá-la."
Mas: por que ler Manoel de Barros? Por que ler esta obra que procura apalpar as intimidades do mundo de maneira verbal? Ler para reconhecemos o lirismo recôndido nos vãos das pequenas impressões.Ler para sustentar a palavra em seu estado latejante de sentido, onde ela se nega a ser simplesmente lagartixa, rio, sapo, pasto, boi, mosquito. Ler para reabrir um rol de experiências sutis dentro da própria experiência sutil.Ler para penetrar na poesia de maneira bruta, e sair levemente, de soslaio, assustando-se com versos, assustando-se com a nova condição do mundo, depois da leitura.

Fonte: http://www.leialivro.sp.gov.br/texto.php?uid=5507

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