sexta-feira, agosto 22, 2008

RESENHA CRÍTICA - POR QUE (NÃO) ENSINAR GRAMÁTICA NA ESCOLA

RESENHA CRÍTICA - POR QUE (NÃO) ENSINAR GRAMÁTICA NA ESCOLA
Helem Cristiane Aquino dos Anjos Fernandes[1]

POSSENTI,Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas/São Paulo: ALB, Mercado de Letras, 1996.



Na obra “Por que (não) ensinar gramática na escola”, de Sírio Possenti (1996), o autor apresenta uma proposta de mudança radical para o ensino de Língua Portuguesa. Argumenta que “para o ensino de língua materna mudar de verdade, não basta remendar alguns aspectos, é necessário uma revolução” (1996), pois, em nada vale mudar os programas de ensino se não houver mudanças nas escolas e nos professores. A hipótese do autor é que ensinar “língua” e ensinar “gramática” são coisas diferentes, por isso aposta no ensino da língua (viva e atual) e não de regras gramaticais (inusitadas e ultrapassadas), sendo assim, acredita que “o domínio competente da língua não requer o ensino de seus termos técnicos” (1996, p.54). Nessa obra, Possenti sugere várias propostas para o ensino de Língua Portuguesa que são de extremo bom senso, pois se constituem de metodologias alternativas, que com a conscientização do professor, ele mesmo pode aplicá-las em sala de aula. Como exemplos podemos citar: 1º) a valorização, sobretudo, da leitura e da escrita, acredita que se aprende a escrever escrevendo e a ler lendo; 2º) propõe a mudança do padrão de língua a ser seguido, isto é, trocar a Literatura Antiga que é o modelo, pela linguagem jornalística ou dos textos científicos, tendo em vista que, esses apresentam uma linguagem muito mais próxima do que falamos atualmente; 3º) sugere uma nova visão acerca do que o educador deve considerar como erros de escrita, ressaltando que existem muito mais acertos do que erros. Por outro lado, existem propostas, que a meu ver, estão muito além do que poderíamos aplicar como uma metodologia de ensino, pois para a sua adesão, necessária seria uma revolução cultural, ou seja, na mentalidade da sociedade e na formação dos profissionais da educação acerca de como o ensino passaria a ser entendido e conduzido. Digo isso por sermos filhos de uma Cultura de Ensino Pragmático, ou seja, aula de Língua Portuguesa é para se ensinar as regras gramaticais, e não ensinar a Língua, pois se subtende que o aluno não precisa aprender falar, mas sim escrever e ler. É válido dizer que, não me coloco contra a importância de uma revolução na educação, pelo contrário, a educação necessita urgentemente passar por grandes transformações. Porém, o que se percebe é que, muito se falam em transformações, mais isso sempre fica na superficialidade do discurso, e nunca se chegam ao cerne da questão. Por exemplo, na formação acadêmica de Letras, no ano de 2006, ainda não estamos sendo preparados para sermos professores de Língua, mas sim de Gramática, então como podemos falar em uma revolução no ensino de Língua Portuguesa se ainda estamos sendo preparados para dar aulas de regras gramaticais? (As propostas de Possenti que julgo estarem além do que conhecemos e entendemos como ensino de língua materna, por apresentarem uma concepção lingüística extremada são as que seguem): 1º) propõe que se ensine o que os alunos não sabem, ou quando eles erram, pois “o que é sabido não precisa ser ensinado” (1996, p. 50); 2º) acredita que o domínio efetivo e ativo de uma língua dispensa o domínio de uma metalinguagem técnica (p.53); 3º) enfatiza que, o que os alunos precisam é ler e escrever ativamente, e não decorar regras gramaticais; 4º) sugere que as aulas de gramática sejam abolidas, ou pelo menos, abolidas nas séries iniciais (p.55) Para esclarecer essa posição dual que tenho em relação à obra de Sírio Possenti, faz-se necessário uma breve explanação sobre os porquês dos pontos positivos e negativos que apresentei, pois de nada vale apontá-los se não houver uma tentativa de uma sólida justificativa. Quanto aos pontos positivos, enfatizei primeiramente a importância que o autor dá à leitura e à escrita. Concordo plenamente, por acreditar que é inconcebível um ensino que não valorize, sobretudo, o ato de ler e escrever; a leitura é de essencial importância no processo de formação do aprendiz, porque o possibilita, ao mesmo tempo, entrar em contato com o mundo da escrita e, com novas experiências e aprendizagens. Já a prática da escrita propicia uma outra experiência maravilhosa, o fato do aluno poder se comunicar por outro código de linguagem. Infelizmente o que vemos é que, embora alfabetizados, a prática da escrita competente está cada vez mais restrita, justamente por não haver nas escolas incentivo à leitura e a produção textual. Sendo assim, não há dúvidas de que “se aprende a ler lendo, e a escrever, lendo e escrevendo” (p. 48). A mudança do padrão de língua a ser seguido é, sem dúvida, outra proposta totalmente lúcida. Ora, como continuarmos ensinando arcaísmos que não fazem mais parte da língua que hoje falamos e conhecemos? Ensinar conjugações verbais da segunda pessoa do plural, tempos e modos, e outras tantas regras que nunca saberemos onde e como usar? Ensinar os mecanismos técnicos da Língua Portuguesa desde sempre foi tarefa árdua, imagine hoje, com todas as transformações que o dia–a-dia propiciam, ainda mais na Língua. Como deve ser difícil para uma criança ter que aprender as formas dito padrão da nossa língua se elas nunca as ouviu falar? Portanto, não há dúvidas de que mudar o Padrão de língua a ser seguido a ser seguido para os textos jornalísticos ou científicos é uma excelente proposta, pois esses estão muito mais próximos da língua que eles conhecem, sendo dessa forma, muito mais significativos. Outro ponto positivo é a concepção de erros e acertos. Segundo Possenti os alunos mais acertam do que erram (p. 43). A explicação é muita clara e óbvia, quando dizemos que um aluno ou outra pessoa fala tudo errado, devemos ter a devida atenção para observarmos também que o número de erros é maior que os tipos de erros, ou seja, os erros não devem ser corrigidos um a um mais sim a cada tipo de erro. Por exemplo, se encontrarmos quem diga “os livro”, “as casa”, “os amigo”, não estaremos nos deparando com três erros, mas apenas um, e o professor não terá que resolver três problemas, mas apenas um, substituindo simplesmente uma regra de concordância por outra (1996, p.44). Quanto aos pontos negativos, iniciei com a colocação do autor que diz: “ensinar o que os alunos não sabem, ou quando eles erram, pois “o que é sabido não precisa ser ensinado” (p,50). Tenho algumas ressalvas quanto a esse posicionamento. Primeiro, como saber certamente o que os alunos não sabem? Segundo, como mensurar adequadamente se o erro lingüístico representa mesmo um não saber ou o acerto um saber, tendo em vista que, tanto erros como acertos podem ser hipotéticos, ou seja, sem o saber aprendido? E terceiro, como ter certeza de que os alunos sabem, ou aprenderam realmente apenas olhando em seus cadernos as matérias já estudadas? Ter visto o conteúdo não é sinônimo de ter aprendido, pois a aprendizagem é algo relativo e acontece de formas diferentes em cada indivíduo, sendo dessa forma, muito complicado trabalhar com essas probabilidades. Outro posicionamento que julgo objetivamente pouco praticável é o de que “o domínio efetivo e ativo de uma língua dispensa o domínio de uma metalinguagem técnica”. Concordo que é totalmente possível dominar oralmente uma determinada língua sem ter o dominar de sua grafia, é o que mais ou menos acontece com os analfabetos, e falantes de línguas ágrafas. Todavia, não concordo que o domínio ativo de uma língua dispensa a sua metalinguagem técnica, pois não aprendemos a ler e escrever instintivamente, ou somente entrando em contato com os livros, precisamos de quem nos oriente e, nos ensine regras básicas do funcionamento da língua na escrita. Por exemplo, como saber quando se usa “x” ou “ch”, “m” ou “n”, “s” ou “z”, “g” ou “j” ? Como se socializar através da escrita se se supõe dispensável o ensino de suas regras? É muito válida a valorização da leitura e da escrita, e é sabida a intenção de se ensinar a ler e escrever através dos textos, todavia, não é válido querer dissimular o ensino das regras, pois mesmo através dos textos as regras deverão ser ensinadas. Sendo assim, o que existe é o intento de uma mudança na metodologia do ensino de Língua Portuguesa, fazer com que o ensino das regras torne-se mais significativo, e menos desconexo, enfadonho e ultrapassado. O que o ensino precisa é atender as necessidades reais de seus alunos, ou seja, que propicie a capacidade de ser um competidor em meio à nossa sociedade competitiva, e não um indivíduo a margem da sociedade por não possuir o domínio efetivo de sua própria língua enlarguecendo ainda mais a base da pirâmide hierárquica. E a meu ver é isso que o não ensino da gramática irá propiciar. Quanto ao terceiro posicionamento que enfatiza que os alunos precisam ler e escrever ativamente e não decorar regras gramaticais é sem dúvida, a princípio, muito válido, porém, volto a dizer que, o ensino das regras de funcionamento da língua subjás o ato da escrita e da leitura. E porque não ao mesmo aprender a ler, escrever e as regras? Qual o problema? Será que a palavra regras adquiriu um significado tão ofensivo ao ensino que nossos alunos não podem mais aprender e conviver com a sua significação? E por último, Possenti sugere que as aulas de gramática sejam abolidas, ou pelo menos, abolidas nas séries iniciais. Essa posição é bastante radical. Acredito que toda proposta de mudanças no ensino, deva se apresentar com metodologias sólidas de aplicação, ou seja, se proposta é mudar subtende-se que apresenta planos de aplicação melhores do que se tem. Todavia durante todo o percurso de sua proposta - que não há dúvidas é muito interessante - não encontrei essas tão importantes sólidas metodologias de aplicações, não que ele não apresente metodologias, apresenta sim, mas não ao nível da necessidade prática do ensino de Língua Portuguesa. Sendo assim, o que se pode observar é que sua proposta de ensino contém muitos pontos positivos e outros bastante polêmicos. E isso faz com que sua obra seja uma leitura ainda mais essencial para os letrandos, pois apresenta uma visão “lingüística” de ensino de Língua Portuguesa em contraponto à nossa forte cultura “gramatical” de ensino. Esse contraponto nos oportuniza refletir criticamente acerca do ensino e da pratica docente, pois temos um contraponto e não uma visão única. Sírio Possenti recebeu uma marcante formação Lingüística, foi aluno e acabou por se tornar discípulo de João Vanderlei Geraldi, um dos mais renomados lingüistas do Brasil. Daí herança da aplicação lingüística que beira, muitas vezes, o extremo, e que causa tanta polêmica.

[1] Graduada em Letras pela UNESC, pós-graduanda em Metodologia e Didática do ensino Superior (UNESC), pesquisadora na área das teorias de aprendizagem.
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