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quinta-feira, setembro 25, 2008

artigo - CULTURA KITSCH E REPRESENTAÇÕES ICONOCLASTAS

CULTURA KITSCH E REPRESENTAÇÕES ICONOCLASTAS
Rômulo Giácome de Oliveira Fernandes[1]


RESUMO
O que é cultura Kitsch? Qual o seu papel na indústria cultural contemporânea? Como ela integra os vácuos de saber e necessidades sociais que o consumo alimenta e propaga? Como as representações iconoclastas adentram no imaginário artístico social? Estas são as questões abordadas por este artigo, que tem como objetivo geral, apresentar a cultura Kitsch ao universo acadêmico regional e apresentar a relação equinânime entre sua forma de cultura e as representações iconográficas enquanto mecanismo de propagação.
PALAVRAS-CHAVE: Cultura Kitsch; Iconoclastia; Indústria Cultural;

ABSTRACT
What is Kitsch culture? What is your role in contemporary cultural industry? As it incorporates the vácuos to know and social needs that consumption feeds and spread? As the representations iconoclastas adentram artistic imagination in society? These are the issues raised by this article, which aims to general, the present culture Kitsch the academic world and regional equinânime make the relationship between culture and their way of the representations iconográficas as a mechanism for spreading.
KEYWORDS: Culture Kitsch; Iconoclasm; Culture Industry;


INTRODUÇÃO

O presente artigo procura vislumbrar, no contingente amplo da cultura contemporânea, uma definição prática de produção Kitsch e suas implicações no cenário artístico erudito, definindo a iconoclastia como mecanismo desmodrômico de proliferação do Kitsch na nova desenvoltura da produção intelectual de consumo.

1 A PRODUÇÃO DE ARTE KITSCH

Muitas vezes entendido como réplica de obra de arte e interpretado como diluição destas mesmas obras consagradas, o Kitsch é um fenômeno da cultura contemporânea, demarcado pela panicéia do consumo, do ter sobre o ser e da aparência sobre a essência.
Oriundo do verbo alemão kitschen/verkitschen (trapacear, vender alguma coisa em lugar de outra), o termos kitsch adquiriu o significado de "falsificação" a partir de 1860. Porém, o termo kitsch foi usado pela primeira vez na metade do século XX, na obra do sociólogo francês Edgar Morin (1987, p17) intitulada Esprit du Temps. Guimaraens & Cavalcanti (1979, p.9) encontraram outra possível origem para o kitsch, além de considerarem a etimologia alemã. Para esses autores há uma versão na língua inglesa, provinda da palavra sketch, significando esboço. (SÊGA, 2008)

Algumas formas artísticas tem propriedades que impossibilitam uma distinção entre arte e artesanato; enquanto a primeira tem o caráter universal e a perfomance da linguagem em estado sublime, a segunda é a constatação da técnica pela técnica; o ato de repetir um procedimento artístico e perpetuar a mesma mensagem pragmática; a exemplo podemos citar a escultura, a modelagem, a arquitetura, entre outras formas, incluindo, em certo grau, a pintura, modalidades artísticas que exalam confusões conceituais sobre sua natureza original.
Aos olhos do crítico, o dilema arte e artesanato parece simples e de fácil solução; já aos olhos das pessoas com menos erudição, a ausência de experiências com a arte canônica, desqualifica o intelector dos códigos culturais mais clássicos de compreender o que vem a ser um cânone artístico em função de uma obra artesanal. A exemplo do regionalismo brasileiro, que sustentado por obras extensamente universais (Graciliano Ramos e Guimarães Rosa), soam demarcadas e datadas a partir da década de 60 (vide Jorge Amado).
Quando a cultura de massa, conceito de Benjamim (1892-1940) e Adorno (1903-1969) decide por utilizar de signos e formas culturalmente clássicas (um quadro de Mondrian, Magritte ou Duchamp, como exemplo), buscando respaldo na “massa” intelectora, esta extensão de um signo universal e artístico consagrado e sua reverberação dentro da caverna da cultura de massa, constrói um procedimento Kitsch. Este uso pragmático, assombrado pelo fazer da linguagem de consumo e da Indústria Cultural, formata e impele à produção de réplicas, miniaturas, referências e mais referências à arte erudita e pop, de modo a construir uma teia de ramificações que convergem sempre a um mesmo propósito, gerar cultura de massa em campos áridos.
Um documentário em um programa popular de grande audiência, que coloca a importância do vaso de Duchamp para a arte contemporânea, incorpora ao circuito informativo de um dado grupo, informações artísticas que serão estendidas ao ato de fruir nas camadas modulares iniciais, ou seja, um consumo destes objetos que remetam a esta idéia artística veiculada; camisetas com a ilustração do vaso de Duchamp, réplicas do vaso para mesas de escritório, artigos de divulgação com conteúdos incipientes sobre o tema e, em certa medida, uma pequena convulsão de interesse pela matéria; comentários “exclusivos” sobre o artista em rodas regadas a vinho e a consolidação do mecanismo primário de propagação ideológica, as referências.
Quando em grande escala, temos fenômenos culturais como o já consagrado exemplo do quadro de Leonardo Da Vinci, a “Monalisa”, que reverbera dentro da consciência artística da sociedade, constituindo uma catálise de obras clássicas inacessíveis ao público comum, o que perpetua a idéia oblíqua de gosto e prazer estético falseado pela condição de ser cultuado. Em suma, uma obra que tornou-se, inocentemente e sem consentimento, esplendidamente Kitsch.
Mais do que os valores artísticos, um determinado elemento torna-se Kitsch quando agrega em seu bojo e contexto, valores que diferenciam e dissociam os indivíduos dentro de um dado grupo social; conhecer Duchamp é uma forma de apresentar-se em condição intelectível de discutir sobre arte em um patamar mais amplo que a cultura Pop; citar nomes de autores sem os ter lido é altamente Kitsch, e torna-se objeto de dominação a partir da sedução do conhecimento. Este fenômeno ocorre muito na juventude com as bandas de Rock and Roll, que quando recebem muitos fãs, deixam de interessar; ou quanto determinado cantor ou cantora regrava grandes sucessos de outrora, que consolida uma pseudo-visão cultural do processo musical, eximindo a culpa de “vender” que atormenta todos os cantores imersos na idéia ingênua de que música é apenas catarse; (vide Marisa Monte e seus sambas, Fernanda Takai e sua “homenagem” a Nara Leão).
A cultura Kitsch nos assola e determina nossa relação com o conhecimento cultural da “indústria cultural contemporânea”; tirados os elementos da cultura clássica por essência, aqueles ancorados nos panteões universais e amarrados às dificuldades da erudição, (Esculturas Helênicas, obras simbolistas como Mallarmé e os Cantos de Maldoror, a literatura Clássica do renascimento e Realismo, os sonetos greco-romanos desde Homero a Camões na contemporaneidade, dentre outras milhares de produções) todo o resto de elementos que temos enquanto obra, estão vinculados à uma industria cultural que sobrevive e se retro-alimenta de sua própria produção; qual a relação artística entre um Crime e Castigo e O código de Da Vinci? Qual é mais sinal de erudição? Qual é mais sinal de cultura? Como saber se o que gostamos na MPB é realmente a nata e pode ser considerado fora das regras convenientes do gosto musical vigente, e assim, podem nos assegurar estarmos corretos em nossa cultura? Marisa Monte é símbolo de qualidade musical? Ou faz música Kitsch? A progressão modular e a sombra causada pela arte culta emoldura e standartiza objetos de consumo que se tornam kitsch, pois a necessidade de consumir esta arte, não requer qualquer critério de escala.

Ainda que, muitas vezes, se fale no kitsch como um conceito universal - reconhecível portanto em qualquer época e estilo artístico - a maior parte dos estudiosos localizam-no no seio da sociedade industrial, de feitio burguês, o que faz do estilo kitsch um dos produtos típicos da modernidade. A pujança do kitsch, coincide com a expansão do mercado e com a emergência da sociedade de massas que impõem normas à produção artística ditadas pela difusão e possibilidades de aquisição de produtos artísticos - de modo geral, reproduções e cópias - em função dos baixos preços. Os grands magazins, que abrem suas portas a partir da segunda metade do século XIX, dão vazão aos novos produtos que visam agradar às classes médias: porcelanas, bibelôs, estatuetas, cromos com reproduções de estampas e/ou figuras célebres etc. O kitsch apresenta-se desse modo como a arte que está ao alcance do homem, disponível nas vitrines e casas comerciais. (MOLES, 1975, p18)

Como reconhecer o sêmen primeiro, o verbo que fez a nova linguagem e que proliferou arte? Como entender o que é original do que é cópia? O inovador do pastiche? A proliferação de imagens, fotos, camisetas, comentários e diálogos que falam de filmes, músicas, quadros e literatura não passam de uma mesma teia, datada de anos e anos do mesmo conhecimento cultural, arraigado pela educação escassa e pela propaganda ideológica que somos obrigados e ter e a consumir?
A tarefa de crítica e reflexão sobre a produção Kitsch tem sua práxis determinada não pela exclusão ou pelo ato niilista de reprimir e negar; na verdade, compreender o processo nos atinge com algumas soluções um tanto quanto inusitadas:
1ª – A indústria cultural de Adorno e a crítica que Walter Benjamin fez a todo este emaranhado pegajoso de cultura não é um elemento externo a nossa construção cultural; na verdade, somos parte dela porque compartilhamos e moldamo-nas de acordo com nossas necessidades; necessitamos de uma didática cultural para poder, sistematicamente, compreender e consumir nossa produção artística; temos pouco tempo e conhecimento e, portanto, a diluição é inevitável; Jorge Luis Borges metaforizou esta condição em seu conto a “Biblioteca de Babel”, onde ele categoriza que as obras são exponenciais em suas bifurcações de produção e leitura; portanto, é impossível termos e adentrarmos ao todo;
2º – Vivemos em uma era de fetichismo pela imagem no bojo da linguagem; este fetichismo nos impede de ver o todo e de aprofundarmos dentro do conhecimento cultural; assim, temos ícones de cultura, fragmentos de saber artístico, pequenas imagens que representam o que gostamos e, assim, o que somos; é neste gancho que inserimos a iconoclastia contemporânea;

2 O AMÁLGAMA DA CULTURA KITSCH NA ICONOCLASTIA

Na era do design, as formas e as cores nunca foram categorias tão intensas de representação; o que outrora eram conhecidas formas de conhecimento e estruturação cognitiva do indivíduo cognoscente (dialética, estruturalismo, contraposição, metáforas, lógica) agora dão lugar ao pensamento / memória visual, expressão sensorial e raciocínio paramétrico, entre outras;
A forma sistematizada do conhecimento em pequenos pacotes (quantas de informação e saber) e a possibilidade de compartilhamento destas informações são percebidas na própria eclosão e propagação do conhecimento por meio do saber em infográficos, gráficos sinópticos, listas e estruturas, bem como na forma mais consistente e básica de organização do conhecimento hoje: as pastas e janelas; nunca uma perspectiva tecnológica conseguiu afetar tão profundamente o modo como a sociedade e a comunidade humana como um todo encara e organiza o saber quanto a informática e seus sistemas operacionais conseguiu determinar, baseados em plataformas multimídia e multitarefas; é a perfeita simbiose entre um conhecimento estruturado e didático, a imagem (ícones) e a forma (janelas), em um sistema orgânico e diluído de informações (Google).
Desta forma, o ícone é a lápide ou síntese totêmica de um dado conhecimento, feito por imagens, desenhos, ou qualquer outra forma visual, sucinta, sistemática e organizada, que tem a capacidade, enquanto elemento semiótico, de substituir uma informação e provocar outras.
Por outro lado, os ícones têm o potencial defeito de diluição da capacidade significativa de uma informação, da transposição de seu caráter axiológico para outro. Este desfacelamento da informação pura e completa dada pelo ícone, ocorre uma vez que sua representação é compacta, como uma pílula de saber.
Por esta característica assinalada acima, o ícone é um elemento Kitsch dentro do sistema cultural abrangente, servindo como condutor de cultura, mas de uma cultura resumida, amarrada ao contingente ideológico necessário à sobrevivência da lógica cultural do capitalismo tardio.
A iconoclastia é esta propagação de dado sistema cultural dentro da lógica total da Indústria de Cultura contemporânea, feita por imagens representativas do universo Kitsch. A moda tomou de assento esta premissa por meio da pirataria, emanando os ícones que constituem a alta-costura: bolsas falsificadas da Prada e Louis Vuiton são vendidas na rua 25 de março; perfumes Yves Sant Lauret e Ferrari, propagados para aqueles que se sentem próximos do Saara da sofisticação, do exclusivo e diferente, quase “cult”; poder acreditar que ao consumir o produto pirata, o indivíduo está compartilhando não os atributos reais e concretos do objeto adquirido (sua qualidade, por exemplo), mas sim o “saber” esta sofisticação, conhecer os nomes, as “marcas”, os ícones desta cultura interessante e atrelada ao exclusivo. É uma luta por valor agregado e não pela qualidade material, por isso que o fato da falsificação não interessa ao consumidor, pois o que ele devora não é o produto, mas a marca, o signo, o ícone da cultura.
O fato mais interessante ocorre quando existe uma intermediação entre o artístico canônico erudito com o popular coloquial; na pintura, podemos ver o uso do espectro de artistas consagrados, resumidos e sintetizados em sua forma mais comum e popular; o lado Pop de Mondrian; o lado Pop de Kandinski; o lado Pop de Miró; a crítica, enquanto ferramenta a serviço de qualquer sistema político / ideológico, consegue diluir estratégias artísticas complexas e apenas deixar as linhas fáceis, as arestas mais oblíquas, o aspecto mais convencional e popular, para construir a sensação de “poder ter” necessário aos menos abastados que querem consumir arte.
Para construir uma arte Kitsch no cenário das representações, nada melhor do que conhecer a forma de Silk Screen criada por Wandy Warhol com sua “Liz Taylor”; a réplica, a nuance do conhecido, a cópia exaustiva das feições célebres de uma beleza social, comunitária, genérica, mas sublime, usufruída por todos, popularizada, replicada e copiada a tanto e extremo, que fica apenas o que é de essencial, as formas perfeitas do ícone, que neste processo de múltiplas repetições, socializado e instituindo, vira símbolo de uma cultura. (o processo que imita o carbono, de tanto executar, o desgaste da quantidade de repetições consegue criar um efeito espectral da forma mais sintética e sublime do rosto da modelo). Esta cópia exaustiva até construir um símbolo é a premissa Kitsch, estatizada pela iconografia. Wandy chegava a copiar milhares de vezes uma mesma fotografia em busca do espectro do Pop.
Por um outro prisma mais complexo, a minimização dos processos de conhecimento do indivíduo quanto a sua própria história ficam diluídos na proliferação das imagens Kitsch do jornalismo publicitário e panfletário; a iconoclastia substituiu o profundo conhecimento histórico na medida em que a imagem passou a representar uma alteração social por completo, como um ícone semiótico; esta substituição da informação vertical pela horizontalidade da imagem, afeta o modo como as pessoas compreendem a história, consequentemente suas próprias vidas em sociedade; A queda do muro de Berlim pode ser traduzida por uma imagem de um jovem com uma picareta na mão e outro pichando o muro; a guerra do Kuaite pode ser compreendida pela tela de um vídeo-game, tal é sua extensão virtual (ou sensação de); grandes acontecimentos co-existem no imaginário Kitsch da maioria das pessoas, misturados às cenas que não fazem parte da mesma categoria; esta profusão iconoclasta mistura a imagem da queda da Bastilha com The Trooper do Iron Maiden; a guerra do Vietnã com um Helicóptero decolando ao som dos Creedence; este caos afeta a visão ideológica que temos de nosso próprio sistema político e social; fotos do Che convivem com logos da Nike e imagens de latas de Coca Cola; o universo iconoclasta é caótico e bombardeado a todo momento por mais e mais propagandas ideológicas e novos produtos que querem seu espaço neste filão cultural. Assim, atrelar um produto a um modo de vida é um grande passo à criação de um símbolo.

CONCLUSÃO

Se a proposta deste pequeno artigo for entendida como uma explicação dos conceitos propostos pelas palavras-chave, diga-se de passagem bem resumidos, o que interessa mesmo a este texto é dimensionar a importância da Iconoclastia dentro do processo de produção Kitsch, uma vez que o acesso a cultura erudita e canônica, bem como aos produtos sofisticados de uma elite abastada, tornaram-se possível pela diluição ocasionada pelo imaginário iconoclasta: imagens, réplicas, falsificações, reproduções, refilmagens e todo um contingente de mecanismos para a profusão e proliferação da cultura de consumo.


BIBLIOGRAFIA


BENJAMIN, W. Obras escolhidas: magia, técnica, arte e política. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. São Paulo: Ed. Brasiliense, Vol. I, 1985.
ECO, U. Apocalípticos e integrados. São Paulo: Perspectiva, 1987.
GUIMARAENS, D. e CAVALCANTI, L. Arquitetura e kitsch. Rio de Janeiro: FUNARTE,1979.
MOLES, A. O kitsch. São Paulo: Perspectiva, 1975.
MORIN, E. Cultura de massa no século XX – o espírito do tempo. Vol I e II, Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1977 / 1987.
SÊGA, C. M.P. O kitsch e suas dimensões. Brasília: Casa das Musas, 2008.
TEIXEIRA COELHO ,J. O que é indústria cultural. São Paulo: Brasiliense, 1981.

[1] Professor de Língua Portuguesa e Literatura, mestre em Teoria Literária pela UNESP / SP e pesquisador / coordenador do grupo de Pesquisa TEOLITERIAS.

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