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quarta-feira, abril 29, 2009

CRÍTICA CULTURAL: QUEM TEM MEDO DO NOVO?Por Rômulo Giacome de O Fernandes

O presente texto trata do medo que temos em aceitar a produção artística muito diferente daquela que estamos acostumados a contemplar: um novo filme, uma nova música, etc. Ele aponta como fatores ao mesmo tempo problemáticos e soluções, a questão da dificuldade em fruir o complexo, a ausência e importância de referências da cultura e a necessidade de apoio teórico para entender a arte.

A crítica cultural é uma atividade que visa estudar ou analisar um objeto, produto de um pensamento artístico ou midiático, atribuindo juízo de valor ou divulgando sua existência a partir de produções escritas, tais quais: resenhas/sinopses ou outros textos. Este tipo especial de crítica tem sido importante meio de divulgação de novas formas artísticas e expressivas, assinalando presença atual na produção de hoje, elevando o pensamento daqueles que se interessam pelas diversas novas formas de expressão, a exemplo dos blog´s.
Com o avanço das novas formas de comunicação, baseadas em informação por IP, os blogs e sites tornaram-se uma grande ferramenta de proliferação de novas idéias e visões atuais sobre os acontecimentos e a produção artística. Antes tínhamos um retardo de informação muito grande. Os livros demoravam a ser escritos e o processo de atualização de novas técnicas e tecnologias apresentavam grande delay, ou seja, um tempo entre a informação e sua leitura, assimilação e aplicação. Hoje, os blogs celebram a possibilidade de atualizar a informação escrita e visual diariamente e até, dependendo, em real time. Assim, o que ocorre politicamente no país, como exemplo, pode ser refletido, opinado, criticado e divulgado a uma grande massa em menos de horas, o que antes demorava dias.
Para a arte e novas formas de expressão artística, os blogs e sites de cultura são portais não só de exercício da atividade crítica, ajuizando ou não determinada produção, bem como local de aplicação de técnicas e métodos de análises pertinentes; mas uma forma de distribuição da arte nova, consolidação de um público crítico e receptor de nova arte, afetando o entendimento do novo como forma comum de fruição do elemento artístico.
É notório que, em face da tradição, temos medo do novo. Diversos fatores podem determinar este medo. Dentre eles podemos citar a dificuldade de fruição do ente artístico em seus detalhes; a falta de referência contextual que implica na aceitação do Pop; a ausência de um suporte teórico quando a expressão artística apresenta-se muito vanguardista.
De plano, assimilar uma nova música ou novo filme, principalmente quando este se apresenta vanguardista ou com um conteúdo reflexivo, é tarefa difícil. Isto porque temos dificuldade de perceber os recursos utilizados na composição, pois o nosso acervo de conhecimento a cerca de recursos melódicos, por exemplo, muitas vezes é pequeno. Por outro lado, na música, vamos ao encontro daquelas que apresentam homologias com melodias e ritmos já conhecidos , tanto inconscientemente quanto conceitualmente (Kitsh). Quando tateamos pelo desconhecido, em ritmos ou andamentos que não estão constituídos em nosso arcabouço cultural, temos dificuldade de assimilação e fruição. É o caso do contato rítmico diferenciado em sub-gêneros do Rock, como o progressivo ou o Punk; dificilmente a elaboração progressiva pode suprir a necessidade veloz e atroz do Punk com seus três acordes. O ideal é estarmos abertos e receptivos a novas experiências, deixando que nossos mecanismos de fruição captem os arranjos, o vocal, as melodias, no caso da música, e passem a representar valores e projeções destas experiências em outras audições.
O segundo elemento elencado nas problemáticas referentes ao contato com o novo é a questão da referência. Já tenho dito que o Pop e a cultura de um modo geral vive de referências. Influências, regravações, adaptações, pastiche, brincolage, é a estrutura do Pop, que moldado sobre a mesma matéria, vai se metamorfoseando em novas formas, sem perder o fio condutor. Logo, quanto maior o conhecimento referencial a cerca da produção artística, maior é sua assimilação ao novo. No cinema isto é muito comum. Perceber influências, processos de composição, estratégias homológicas entre artistas, adaptações de obras clássicas, é estar atento ao novo. As obras cinematográficas de Denis Arcand, que vislumbram uma trilogia sobre o império americano, traçando alguns contatos com a literatura Beat. O próprio processo dialógico entre Tarantino e toda a produção de massa, o Mangá japonês ao cult americano de Western. Mas de onde provêm as referências? De leitura crítica de obras e textos críticos e o entendimento diacrônico da tessitura orgânica da colcha de retalhos chamada cultura Pop. Este último entendimento só é proveniente do contato direto com produção cultural das últimas décadas.
Por fim, o medo ao novo traz como prerrogativa a falta de teoria de apoio ao entendimento da obra de vanguarda. Um novo livro, uma nova banda, um novo ensaio ou filme, precisa de uma antecipação prévia de seu teor. Algum apoio sobre o tema, área, o que fala, ou até mesmo uma breve sinopse. O que seria da obra do Beck para mim sem o entendimento da perfeição com que ele re-integrou o Pop no conceito de colagem? O sublime em Arcade Fire, destroçando andamentos em progressivo easy listness? Assitir a um filme sem entender o grande fator teórico de sua composição: ter critério para perceber uma grande atuação; o grande desenrolar de uma trama; o andamento de uma cena; a beleza de uma fotografia; tudo prescinde de um conhecimento teórico, que quando aplicado, configura-se prático.
De um modo geral, aceitar o novo é expandir novas experiências sensitivas e intelectuais. Quem aceita assimilar e fruir novas composições de qualidade, consegue evoluir seus instrumentos receptores ao ponto de conseguir maior produtividade na fruição. De um modo mais simples, quem lê mais consegue evoluir mais em qualidade de leitura; quem escuta mais música consegue ampliar parâmetros sonoros, estando apto a receber novas formas de composição; quem assiste mais filmes celebra mais a composição e entende mais a qualidade daqueles que realmente tem qualidade.
Evoluir como ser humano não é apenas evoluir do ponto de vista financeiro, estético ou evoluir do ponto de vista profissional; é antes de tudo, conseguir retirar prazer de tudo isso; muito tem “muito”, mas não retiram prazer do que tem, pois estão vazios de sensibilidade e contemplação; só a arte e a cultura exercita nossa sensibilidade e nos torna aptos a perceber melhor as belas e prazerosas coisas que nos rodeiam.

4 comentários:

jarles castro alves disse...

professor Rômulo sempre surpreendendo, que palavras inteligentes, parabéns! sempre que acesso seu blog me surpreendo com suas publicações; são textos altamente científicos, outros nem tanto, porém todos muito bem lapidados; tudo frutos de suas imaginação como literário. Fico de boquiaberto com seu talento como profissiaonal, que tem habilidade de emitir juízos de valores nas mais diversas áreas, principalmente relacionado a arte: cinema, poesia, crítica literária,entre outras. Este seu comportamento me inspira a ler, a pesquisar, produzir; para que daqui a pouco eu possa dominar alguns conhecimentos de áreas afins, principalmente relacionado a arte.
Talvez tenha ficado muito meloso tudo isto, porém somente quero deixar transparecer minha admiração pelo seu trabalho. Um abraço

silvino disse...

Parabéns professor, a sua linguagem está um pouco mais tecnicista, teórica e ziguezagueante e bem menos livre, solta e literária, depois que começou a estudar direito à tarde, mas continua agradável, bem fundamentada e gostosa de se ler. Parabéns querido!!!! Abraços!!!!

Anônimo disse...

To me it's an incredibly attractive content. I'd love to study more concerning this specific issue.

Anônimo disse...

As being a brand-new blogger I come across this information very helpful, many thanks for conveying