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terça-feira, julho 14, 2009

Literatura - A ARTE DE PRODUZIR EFEITOS SEM CAUSA



A ARTE DE PRODUZIR EFEITOS SEM CAUSA - LOURENÇO MUTARELLI
por Rômulo Giacome


Traído pela esposa e abandonado pelo filho, Júnior vai à casa do pai, um senhor aposentado, que tem alugado um quarto a uma estudante de arte, Bruna, bela garota que também passa pelas intempéries deste encontro. Atordoado, Júnior e sua mente, sua perspectiva e seu olhar ébrio sobre sua realidade são os nossos olhos ao ler o romance, a própria dimensão que penetramos ao ler a primeira página. Do momento em que passa dias e dias dormindo, bebendo, se apagando da realidade, percebemos ocorrer esta miopia em nós, leitores desafisados e afogados nos próprios pensamentos do personagem. 124578RR; 123457SS; os códigos de peças do serviço de Júnior, gravados em sua mente, soam como mantras de sua loucura, o crepúsculo de uma noite eterna.
A literatura psicológica, de introspecção, calcada em primeira pessoa e com laivos de fluxo da consciência sempre foi sinônimo de modernidade. O romance moderno teve seu grande apogeu nos territórios áridos da consciência e da inconsciência. Mas, muitas vezes a inconsciência é vista como uma visão dionisíaca estereotipada, clara e dimensionada, fruto da visão onírica do surrealismo. É como se da consciência para a inconsciência, existisse apenas uma linha tênue que diferencia o excesso, o superlativo, o grandioso, o incoeso do inconsciente em suas formas translúcidas. Em Mutarelli, a passagem da consciência para o inconsciente é o silêncio, a escuridão, e a falta de controle do ser. Esta sensação de falta de controle, ausência dos mecanismos básicos de auto gestão, de auto determinação vão se esvaindo em causas aparentemente simples: stress, depressão, angústia, que depois tornam-se cada dia mais hipotéticas e catastróficas, gerando uma esquizofrenia crônica que constrói um personagem atônito e com uma semi-imagem de si mesmo. A técnica narrativa de Lourenço é excelente, e nos deixa com a real perspectiva do apagão progressivo, da falta de controle que fará Júnior cada vez mais míope de sua realidade.
Miopia progressiva e constante, acelerada rumo à escuridão é a figura alegórica que possibilitaria mergulhar na mente de Júnior por algumas páginas, e perceber a força deste autor contemporâneo. Lourenço Mutarelli também é autor da obra Cheiro do Ralo, adapatado ao cinema com atuação de Selton Mello.
A arte de produzir efeitos sem causa é uma obra que enseja tatear em uma primeira pessoa riquíssima e ao mesmo tempo, marcada por indícios, aversa a grandes fatos, grandes acontecimentos, mas sim a nuances da realidade cotidiana simples, impregnada pela vida - ou morte.

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