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segunda-feira, agosto 31, 2009

MEMORIAL DO CONVENTO - JOSÉ SARAMAGO "HISTÓRIAS QUE (SE) CONFUNDEM"

MEMORIAL DO CONVENTO (JOSÉ SARAMAGO, 1982): HISTÓRIAS E ESTÓRIAS QUE SE CONFUDEM Por Rômulo Giacome O Fernandes

José Saramago é reconhecido principalmente por sua obra Ensaio sobre a cegueira e não tanto por Memorial do Convento. A primeira vista o título “memorial do convento” exala a idéia de uma temática tipicamente portuguesa, na medida em que iconiza a força da igreja no homem e nesta sociedade. Muitas vezes a religiosidade molda ações e convenções, o que pode ser percebido na produção literária do realismo e romantismo português. O certo é que esta obra é muito mais do que ações e convenções religiosas; são os efeitos literários e fantásticos que esta força religiosa constrói em indivíduos e grupos. A história tem como trama principal a construção do convento de Mafra, no pequeno povoado homônimo, que dada as proporções da época, consolidou-se como uma obra fantástica e onerosa aos cofres reais, quase impossível de execução. No início eram apenas acomodações para poucos religiosos; até quanto o regente na época, D. João V, imbuído pelo espírito da grandeza e fé irresoluta, decide ampliar para duzentas acomodações. A obra passa a ser a grandeza do povoado.

Milhares de trabalhadores, de sol a chuva, pedra por pedra, iniciam a construção apoteótica deste templo da fé. E o que vai se construindo, literariamente por detrás desta ambição religiosa do monarca (o que merece um parágrafo de explicação) é o desdobramento do simulacro poético entre a fantástica força, sobre-humana, de um bloco de trabalhadores rudes e miseráveis, em construir um símbolo da fé, calcado pela ordem do luxo e da ostentação, tal qual às formas mais icomensuráveis de resignação religiosa.
Esta força do rito religioso, esta grandiloquente inquietação de fé torna os atos mais loucos e insanos, totalmente desvirtuados da lógica social e das possibilidades de cada indivíduo. São momentos que comprovam tais alegorias, como a imensa pedra, que necessitou de mais de 600 homens para o transporte, incluindo a morte de alguns trabalhadores em prol do seu translado. A imensa e grandiosa comitiva real, com suas dezenas de coches, de carroças às maravilhosas carruagens, com a nobreza toda a viajar no luxo, acima da lama que entupia os pés dos serviçais, que na força da fé e da devoção ao monarca, empurravam, limpavam, tampavam buracos e lama em prol da grande megalomania real, a inauguração parcial do convento de Mafra. Saramago consegue, em sua forma narratológica contemporânea, descrever a loucura e a grandeza dos rituais religiosos, de uma forma que funde sensações e formas, em uma profusão narrativa que beira a carnavalização[1] estudada e difundida por Bakhtin. O frenesi da força idealizadora com que o ser real serve e é servido pelo povo pobre português. Este recurso de carnavalização pode ser vislumbrado em todo o seu apogeu na cena da procissão do corpo de Deus, ou até mesmo nas touradas. São formas religiosas que tomam a nuance de ritos pagãos, onde os homens chicoteiam-se, e o sangue reverbera da pele, mancha as ruas, tornando os corpos ensandecidos pela atração do chicote, o êxtase da dor, enquanto as mulheres, olhando pelas janelas aquele momento de tensão corporal e sanguínea, onde o corpo busca e deseja a dor, loucas gritam em frenesi, botam as línguas de fora, lambem os lábios e roçam as mãos entre as pernas. Esta forma alegórica e rica de descrever os ritos religiosos, as procissões, as riquezas dos ornamentos, dos enfeites, os detalhes artísticos e psicológicos dos momentos de fé, são formas carnavalizadas de entender cenas importantes de devaneio e busca inconvicta da fé como forma de transcender a existência comum e buscar mais.
É importante ressaltar que a carnavalização de memorial do convento é engendrada pela disposição de papeis inversos, onde determinados padrões sociais são revistos e re-ordenados. É o caso do dia da paixão de cristo, onde as mulheres podem sair às ruas para se confessar enquanto os maridos ficam em casa. Na ocasião, elas aproveitam e procuram homens para sanar seus desejos, em rituais sugeridos pelo signo literário de Saramago, na confissão da carne, voltando para os seus lares resignadas e austeras, do modo como saiam. O exemplo forte desta fé que emoldura e motiva a carnavalização dos elementos religiosos na obra está na própria gênese da construção do convento de Mafra. D. João V queria muito um filho. A ordem dos franciscanos, percebendo o interesse e a confissão de D. Ana, antecipou a notícia da gravidez de modo a fazer com que o rei prometesse a construção do convento. A potência do ato de saber e acreditar na gravidez consolidou a criação do símbolo máximo do devaneio religioso de essência portuguesa, construindo os elementos teóricos e literários que fundam Memorial do Convento.
Em oposição dialética ao sonho de fé da construção do convento, temos a fantástica (estória) história de Bartolomeu de Gusmão e sua passarola voadora. Sete sóis e Blimunda, personagens protagonistas que permeiam toda a obra, são os construtores e realizadores do grande sonho de fé do padre Bartolomeu, que ansiava por voar em sua estranha mistura de máquina e caravela alada.


Alimentada pelas vontades que iam sendo coletadas por Blimunda no decorrer dos caminhos por onde passavam, a passarola tinha como princípio de vôo a alquímica relação entre as vontades, o âmbar e o sol. Uma vez este último tocasse as esferas preenchidas de vontades humanas, a nave voaria. Como o fez. Em um lapso de instante, como um raio, a passarola cruzou os céus de Portugal sobre as cabeças dos trabalhadores de Mafra, que dias depois contavam a grande peripécia dos anjos. Em êxtase, mas acometido da loucura dos gênios, o padre voador já demonstrava sinais de seu delírio. Com medo do santo ofício, Bartolomeu de Gusmão foge e desaparece, ensandecido pela grandeza da força humana em relação à força divina. Esta, alimentada pelas palavras dos franciscanos e monges que habitavam aos milhares os habitáculos reais, eram chuva perante à força devota de um povo gigante, retratado com maestria por Saramago, nos induzindo a perguntar: aonde vai a força e a vontade humana? E quando esta vontade é direcionada aos caminhos de uma fé sulreal? Vagando sobre a lama e a pobreza, sobre a grandiloqüência e a loucura, pairam as palavras de memorial do convento, ardendo nas chamas do santo ofício, postulando as grandes inquietações da humanidade.
Jorge Luis Borge e Casares, mestres da realidade fantástica na literatura argentina, preconizam a arte de criar a verdade a partir da mentira, ou misturar ambas, fazendo com que a ficção invada o espaço real, tornando este mais interessante e belo. Nesta obra Saramago consegue construir grandes estórias a partir da maravilhosa história portuguesa, ressucitando mitos e depultando outros não tão menos importantes.
Assim, de uma maneira fantástica e bem contada, Memorial do Convento é uma contemporânea obra que abre nosso universo cultural rumo à um grande país, à uma grande tradição e suas vertentes, nos fazendo refletir sobre o que Nietzshe já denotava em seus escritos, onde a realidade imediata, a força e o trabalho sobrepujavam-se ao contingente imaterial de palavras e aforismas falsos, que muitas vezes pairam acima da lama, mas em algum momento será sujo por ela.


[1] N.A. “A Obra de François Rabelais e a Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento” (1956) e "Problemas da Poética de Dostoiewski”.

2 comentários:

Valdenice disse...

"Memorial do Convento" é realmente fantástica e interessante devido a riqueza de detalhes do narrador e sua linguagem moderna.Recomendo a leitura!

Prof. Romulo Giacome O Fernandes disse...

é verdade Nice
não resta dúvida que é uma obra grandiosa