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segunda-feira, novembro 30, 2009

Cinema - BASTARDOS E INGLÓRIOS - QUENTIN TARANTINO

BASTARDOS E INGLÓRIOS: UM CULT SOB UM RÓTULO POP OU UM POP SOB UM RÓTULO CULT?

por Rômulo Giacome
Um filme de guerra maravilhoso, com um contexto histórico rico e uma trama interessante. Uma cena final apoteótica com um personagem perfeito (Coronel Landa), que magnetiza a todos com sua presença. Cenas finas e bem acabadas, com diálogos densos mas com grande expectativa. Doses de violência e referências pop com a música final de David Bowie. Tudo isso orquestrado pelo Nerd cinéfilo Quentin Tarantino. É para contemplar ou não?

Uma pergunta que intriga, mas que a resposta é muito fácil: o que o Pop tem de essencial? Bem, além da qualidade mágica de ser acessível, o Pop é uma referência constante. È a retransformação de um produto, o pastiche, a re-estilização da arte, a renovação de formas, tudo isso e uma coisa meio “Kitsch”. Meio arte da cor e da forma, do Layout. Nada mais do que uma maneira de nos acharmos sofisticados, atuais, modernos. Bem, mas o que isso tem a ver com Bastardos e Inglórios, um filme da segunda guerra mundial que fala de um major caçador de Judeus, que logo de início trava um diálogo magistral onde apresenta sua tese sobre ratos e caçadores, ódio e nojo, onde nazistas e judeus estão enquadrados.

O fim desta cena é o fuzilamento de uma família de Judeus que estavam escondidos sob o assoalho da casa. Tem a ver que Bastardo e Inglórios é um filme de Quentim Tarantino e este é um diretor que já ganhou um oscar “pulp fiction” e possui um mundo próprio, uma dimensão de referências que usa quando quer. Uma dimensão pop do cinema, que passa na composição das personagens, dos lugares, das formas, do enquadramento, da duração das cenas e da trilha sonora. Tarantino opta pela insígnia de referências aos filmes de velho Oeste, à duração das cenas, longas, com diálogos tensos, fortes, marcados pela sugestão e pela beleza do silêncio que antecede a ação. São exemplos marcantes destes momentos a primeira cena, onde o caçador de judeus, Hans Landa, interroga um camponês em busca de uma família Judia, (Dreyfus) e interpela de modo forte, intenso, implementando uma astúcia sutil que vai crescendo, uma ingenuidade em acreditar que ali não havia ninguém até a certeza de que a casa escondia Judeus (Ratos segundo Landa).

O movimento do filme inicia com a apresentação dos Bastardos, comandados pelo capitão Aldo Rayne (mistura de atores como Aldo Ray e John Wayne). É um grupo pequeno de soldados judeus americanos e alemães que se infiltravam entre os agrupamentos do terceiro Reich e matavam muitos deles, sendo uma forte arma de boato e informação, alastrado como pólvora pelos contingentes nazistas. Rayne (Brad Pitt) é cômico, um canastrão montado sobre trejeitos básicos dos cowboys americanos. O grupo embosca uma milícia alemã e no interrogatório de um capitão nazista, Rayne apresenta um de seus combatentes. A estratégia de apresentação lembra os filmes japoneses, onde os atributos de cada lutador são apresentados em uma construção a parte. A fama dos bastardos cresce à medida que vão emboscando e matando mais nazistas, até que novamente surge a menina (Shoshana) que conseguiu fugir do massacre. Agora ela possui uma nova identidade, proprietária de um cinema para 350 pessoas no centro de Paris. A trama alcança seu auge quando Shoshana incita um jovem soldado alemão, herói de guerra que matou mais de 300 russos, a se interessar por ela de tal modo que a convida para almoçar com o poderosíssimo ministro da propaganda nazista, senhor Goebbels, que estava realizando um filme sobre o soldado herói. A cena aqui construída é magistral. A arrogância do ministro é moldada pela tradução da francesa, vista como muito mais do que tradutora, talvez amante. Na reunião combinam onde será a premier do filme do soldado herói. Tudo fica amarrado na doce e enigmática face de Shoshana, a fugitiva judia que passa por proprietária de uma sala de cinema em Paris. Está tudo acertado, a premier será em sua sala de projeção. O que não está acertado é a presença súbita de Landa, o coronel caçador de Judeus, que surge e pousa a pão sobre o ombro de Shoshana. Um arrepio esvai da espinha da doce moça até o próprio espectador da película, que prostrado, contempla mais um tensivo diálogo, marcado pela desconfiança, o medo, o asco e a astúcia. Daí em diante, caro leitor, o filme proporcionará um mar de tensão e melodia fina do suspense e da intriga, estruturada por sobre as etapas do projeto Kino, "vamos queimar estes porcos nazistas dentro do meu cinema / se podemos proteger os filmes da chama / podemos quimá-los".


Um belo trabalho é ensimesmado, se traduz na própria técnica. O empreendimento é explicado em seus detalhes. Desde o movimento da câmara no almoço, até a tensão provocada pelas armas apontadas entre o coronel alemão e os soldados ingleses. Tarantino soou magistral. Não precisa muito talento crítico para perceber quando estamos diante de uma grande obra. Construída em si mesma, arquitetada e engenhada por capítulos, onde apresentam sua unidade dramática, plástica e sonora. A vingança, último capítulo, é um show a parte. Tem comicidade, tragédia e drama na dose certa, no crescente da música pop de Bowie, nas chamas, na beleza dos figurinos, a estalo das projeções e o tempo que dilui os empecilhos, até que aparece a grande imagem de Shoshana, imagem fantasmagórica, daquela que iria evocar todos os espíritos rumo à vingança final, onde americanos bastardos atiram suas metralhadoras sobre um reich prostrado e inerte pela violência da traição do coronel Landa, agora um americano tatuado com a suástica em sua testa. Perfeito.

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