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sexta-feira, novembro 06, 2009

INFORMAÇÃO, CONHECIMENTO E SABER: DISTINÇÕES SOB A PERSPECTIVA DA LINGUAGEM


O presente ensaio enseja introduzir a questão da informação, conhecimento e saber, tanto no mundo acadêmico / científico, quanto no universo individual do sujeito cognoscente, ou seja, todos nós que lidamos com conhecimento. A separação terminológica e a classificação destas três categorias contribuem para a discussão sobre como utilizamos as informações que adquirimos, o que é e como se dá o conhecimento e a importância da autonomia para o conceito de saber, todos conectados pelo cimento da linguagem enquanto suporte da informação.


Vivemos em uma era de muita informação. As informações estão espalhadas por todos os lados, seja de modo digital, seja de modo material. No entanto é fato que a criação de um novo suporte barato para a informação, como foi o avanço da era da informática, proporcionou um gigantesco número de gigabytes de dados em forma de textos, música, vídeo e outras formas de manifestação desta informação. Isto indica que, temos mais suporte de armazenamento de dados, incluindo aí a internet, e de veiculação destes dados do que propriamente informação. Assim, é fato que teremos um nível absurdo de fragmentação da informação, de descaracterização de seu conteúdo e ainda de desformatação de sua essência primeira. É a época da diluição da informação complexa para a informação rápida e metafórica que vivemos. Livros que diluem a obra de filósofos e grandes pensadores (Quando Nietzsche Chourou), obras ficcionais que incorporam uma pseudo-historicidade que passa a ser uma teoria para os leigos (O código de Da Vinci, Anjos e Demônios). São dezenas de formas híbridas de saberes e informações que escapam aos nossos dedos todos os dias; formas recauchutadas de informação, formas re-feitas, recicladas. É o pastiche e brincolage na arte. Em suma, existe muito mais informação do que capacidade para processá-la.
Porém, a informação não é sinônima de conhecimento. Quantos terabytes são derramados sobre nós e não geram aplicabilidade ou formas novas de pensamento, técnicas ou novos pontos de vista? Assim, é concluso que o conhecimento está a um nível acima, ou seja, é a informação aplicada. Quando aplicamos aquela informação estamos construindo conhecimento.
A comunicação é uma forma estupenda de aplicabilidade da informação e, portanto, é uma forma cognitiva específica e eficaz. Quando falamos de algo estamos segmentando um conhecimento que é nosso, mas pode não sê-lo no futuro. Isto quer dizer que ao falar sobre qualquer assunto a alguém, propomos um processo complexo de busca, seleção e combinação destas informações, além de todo o aparato formal da representação (discurso) que irá transmutar esta informação em conhecimento; assim, escolhemos formas de enunciação (gestos, atos, melhores maneiras de representar o que queremos transmitir) e formas de enunciados, como a criação de metáforas, figuras que tentem retratar aquela informação primeira. Assim, ao se comunicar, gerimos as informações que estão armazenadas em nosso aparato memorial e construímos conhecimento ao fecundá-las no discurso produzido.
Levando em conta o conceito de que o conhecimento é a forma aplicada de informação, e uma destas formas aplicadas é a comunicação, por derivação é bom salientar que o próprio ato de gerir o rol imenso de informações que nos rodeiam pela aplicabilidade do discurso é um dos princípios absolutos do conhecimento.
Em uma tri-dimensão onde informações são trocadas em milésimos de segundo, a recepção destas informações e o arquivamento são meras etapas procedimentais burocráticas. É preciso mecanismos claros de pertinência, classificação e funcionalidade, bem como critérios lúcidos para qualificar estas informações.
Ressaltando o que já foi dito anteriormente, dos procedimentos enumerados acima, a comunicação é a forma mais apropriada e eficaz de segmentar conhecimento, ou seja, aplicar uma informação no campo concreto ou teórico. Por outro lado caminha a possibilidade de gestão do conhecimento, ou seja, a seleção das informações relevantes, transpassadas pelo crivo da aplicabilidade e pertinência e sua organização sistemática dentro dos campos práticos e teóricos.
Ao perceber e descrever o processo de aquisição da informação e aplicação desta (conhecimento) é perceptível, neste interregno, a necessidade de autonomia do individuo em buscar esta informação e transformá-la em conhecimento. É preciso traços de motivação e vontade para impulsionar o ser cognoscente no rumo da informação e mais ainda no campo da aplicação desta informação. Esta autonomia é mais importante do que a própria informação, pois esta, descontextualizada do discurso do cognoscente, passará ao largo do conjunto otimizado de informações chave que constroem novas informações.
Também é importante ressaltar que o sujeito cognoscente, além de conhecedor e ser que busca a informação, deve também ter a consciência de que além de sujeito ele é objeto do próprio conhecimento. Sujeito e objeto do processo cognitivo.
Não é garantia de sucesso profissional o fato de um acadêmico ter recebido muitas informações na graduação. Na prática, a capacidade de buscar mais informações e aplica-las falará mais alto do que aquelas informações teóricas apreendidas durante o processo acadêmico. Ou seja, a autonomia de saber onde buscar informação e como aplica-la é habilidade imprescindível ao que denominamos como saber.
A semiótica consegue explicar este processo de informação que traz nova informação quando da relação do signo com o outro signo, na permuta constante de novas leituras a partir do interpretante. Pela teoria semiótica, o sentido de um signo é outro signo. Nesta permuta constante de um signo que procura outro signo, em um processo ad infinitum dá-se o nome de semiose. Assim, forma e conteúdo convivem lado a lado, assim como informação e suporte. Aplicando tal premissa na sistemática da linguagem da informação e do conhecimento, uma informação é concretizada por outra informação complementar, meta-explicativa ou suplementar. É inconcebível não encarar a informação enquanto desdobrável e escamoteável, pois ela é uma espécie de informação da informação, pois pensamos determinado dado de maneira particular e podemos utilizá-la também de maneira particular.
Assim, nesta autonomia para buscar mais e mais informação, com vontade e motivação própria, temos o conceito de saber enquanto práxis (trabalho sobre a realidade).
De forma geral, a informação é um dado solto, um signo dentro de um complexo cognitivo amplo. Quando aplicada, torna-se conhecimento. Fechando a tríade, a autonomia para buscar mais informações e aplicá-las é possível denominar de saber.
Em uma escala processual terminológica do andamento e desenvolvimento entre a informação e a autonomia, teremos este panorama: informação, conhecimento e saber.

3 comentários:

Fabrício Andrade disse...

Rômulo, veja o que eu encontrei no blog 'ojardim.net'. Não é absolutamente pertinente com o que você escreve nesse seu texto?

“Em geral estudantes e estudiosos de todos os tipos e de qualquer idade têm em mira apenas a informação, não a instrução. Sua honra é baseada no fato de terem informações sobre tudo, sobre todas as pedras, ou plantas, ou batalhas, ou experiências, sobre o resumo e o conjunto de todos os livros. Não ocorre a eles que a informação é um mero meio para a instrução, tendo pouco ou nenhum valor por si mesma, no entanto é essa a maneira de pensar que caracteriza uma cabeça filosófica. Diante da imponente erudição de tais sabichões, às vezes digo para mim mesmo: Ah, essa pessoa deve ter pensando muito pouco para poder ter lido tanto!” (Arthur Schopenhauer, A arte de escrever, apud direitosfundamentais.net)

Prof. Romulo Giacome O Fernandes disse...

Com certeza! esta tricotomia progressiva entre informação, conhecimento e saber forma a base do processo cognitivo amplo e efetivo; muito bom esta tua indicação do site O Jardim; bons textos e excelente propósito

Laurindo Fernandes disse...

Eu entendo como "conhecimento" o tanto de informação que um indivíduo consegue interiorizar de tal maneira que é capaz de expressar isso com um toque pessoal. Eu tenho acesso a um tipo de informação/dado e o assimilo de uma maneira que, ao ser inquirido sobre tal, consigo me expressar de forma convincente. Se o consigo, logo tenho conhecimento sobre determinada coisa, posso falar dela com alguma propriedade. Conhecer tem que ser diferente de decorar, memorizar apenas. À informação recém adquirida é adicionada outras informações que se entrecruzam e colidem, lapidando-se mutuamente, até chegarem a um consenso - que é o quanto conhecemos de algo. O que chamamos de Saber é esse conhecimento em ação, é a maneira como somos capazes de esgrimar nosso conhecimento, feito um espadachim. Creio eu que ter grande conhecimento não é ser sábio assim como simplesmente ter informação não é conhecer: a relação entre o que conhece e o que se dá a conhecer tem que ser dinâmica, transformadora.