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quarta-feira, dezembro 16, 2009

MPB (MÚSICA POP BRASILEIRA) PORQUE O TERMO "MPB" É UMA FRAUDE IDEOLÓGICA

O TERMO MPB FOI CUNHADO PARA SER DIDÁTICO E IDEOLÓGICO

Existe uma música popular brasileira? O que é realmente popular? O que andam escutando os estivadores do porto, os ribeirinhos, o pessoal das favelas e dos círculos e recôncavos nordestinos? O que a música popular brasileira significa quando ecoa nos ouvidos de nossa população?
Hoje, MPB é mais signo de “sofisticação” do que produção de massa. O povo gosta de música popular brasileira? Não. Quem gosta de MPB não é o “Povo”. O alvo de Adorno e os filósofos serialistas da arte (a famosa Massa de McLuham) gosta de forró, (Aviões do Forró, Cavaleiros do Forró) e outros nomes mais. Gostam de Eduardo Costa no sertanejo, nos falecidos Zezé (nome Gay) e Chitãozinho e Xororó (como ainda alguém pode se chamar xororó na época do Capslook, Webdesigner e delete)? A massa gosta de rasquiado e lambadão vendido em coletânea de Cd´s nas bancas da feira. A massa gosta de tecnobrega, calypso, zugui e outras cositas mais. A massa acredita piamente que escutar Roberto Carlos é MPB.

Eu, (na minha porção massificada) como massa, acredito neste tipo de música como catarse do corpo, como terapia do riso e da alegria espontânea, e a uso como forma de luxúria intelectual, uma espécie de esbórnia ou crack da existência livre e plena do peso do gosto, do peso da crítica. Vivo e escuto estas músicas livremente, como uma criança. E sou feliz por isso.

No entanto, o que temos que analisar profundamente é o conceito de MPB. O que ele abrange, quem congrega, o que congrega e como. Quando um artista não gosta de nada e não quer parecer burro ele fala que escuta MPB. Falar que gosta de MPB é tão específico quanto falar que gosta de World Music ou música em língua portuguesa. Ou seja, gosta de tudo ou nada ao mesmo tempo. A diferença entre o groove de Mombojó e Mundo Livre S/A é gigantesca entre o pseudo pernambuquismo de Zeca Balero e Lenine, ambos muito fracos de criatividade. Ou querer comparar Caetano Veloso com Chico Buarque é o mesmo que comparar Ivete Sangalo com Olodum ou Carlinhos Brow. Quem cria, como e para quem? MPB é algo abstrato, que consegue loucamente colocar no mesmo prato Titãs e Ana Carolina, Seu Jorge e Luís Melodia. Um pouco de Jorge Ben com Emílio Santiago. Definitivamente, MPB não pode ser considerada como gênero ou estilo. É muito pequena para congregar tanto. Por isso, eu tenho uma sugestão, com a mísera experiência de crítica musical e literário que me considerei. A MPB tem um problema terminológico que está na sua essência, sintetizada pela declaração de uma musicalidade brasileira, sua sonoridade e mensagem cultural, sob a ótica culta ou massificada, ou seja, alguns meios de divulgação de cultura definem o que é MPB e todos compram a idéia. Mas a sonoridade do Brasil, estatisticamente (sem precisar de tabular dados) é composta de: produções regionais possibilitadas pela inclusão digital (forró, brega, dance, lambadão, rasqueado, chote, pancadão, etc) e os heróis da resistência mainstream midiática, tal qual Ana Carolina (mais de oito temas de novela), Nando Reis, Ivete Sangalo ou Cláudia Leite (esta última uma criação da mídia para sublimar nossa vontade de ídolos femininos, belas e com voz de baiana negra).

Silogisticamente a MPB é um rótulo vazio que só leva em conta seu público. Um público arredio ao “povão”, que se considera extemporâneo aos fenômenos da massa que se auto-intitula sofisticado. A ausência de uma nomenclatura específica para todo tipo de música “melhorzinha” produzida no Brasil fez do termo MPB uma constante no vocabulário dos intelectualóides de plantão.

Nomes do novo samba, como Rômulo Froes, estão largados à margem de um estigma musical que não evolui. A MBP selecionada, ou “os escolhidos dos canais de comunicação” não andam e não inovam, e quando criam, faz “mais do mesmo”. Parou na bossa nova e afundou nos nomes já consagrados. A MPB, na verdade, é um conceito mercadológico para todo tipo de música que não é rock e sertanejo, estes sim, gêneros.

A MPB que realmente é “popular” não tem encarte e muito menos CD com capa. A MPB de sangue, genuína, está suportada pelos CD´s piratas, vendidos nas feiras, trocados e tocados em aparelhos “I phodes” pretos da “foston”. É o tecnobrega do maderito, o homem alucinado do Pará, ou no fenômeno Dejavu. No DJ maluquinho ou no gaviões do forró, Luan Santana e João Bosco e Vinícios. Todos podem se retorcer na cadeira, mas quando o Amado Batista começa a tocar, muitos lembram tempos áureos ou cantam suas canções com humor, mas que no fundo não é mais do que um tributo à uma produção que se imortalizou na memória popular.

Eu até indico o documentário “BREGA S/A”, disponível para download gratuito em que encerra a questão do tecnobrega enquanto um parêteses cultural em nosso universo brasileiro musical. Esta “janela” gerida pelo brega, proporciona um tipo extremamente particular de composição, produção, distribuição e comercialização a partir da rede informal e paralela aos grandes managers da cultura nacional. Além disso, o filtro do “brega” cataliza qualquer outra forma musical de sobre-existir, amordaçando o forró, o dance e sua batida binária (pancadão ou hip hop) com melodias conhecidas e teclado programado ao “tosco designer”.

Em suma, não é a música popular brasileira que está em crise. É o antigo tipo de veiculação e distribuição de cultura que está rompido e destituído. O jabá cedeu lugar às grande corporações que patrocinam os clipes e os shows em grandes eventos. TIM Festival, Nokia Trends, só para citar dois dos grandes festivais. Mas a manutenção de um status quo onde a TV e o Rádio indicam, solitários, o que devemos escutar e comprar, é um retrocesso, tendo em vista que a Internet já proporciona a virtualização da composição e sua distribuição, sendo extremamente mais democrática.

O conceito de MPB é uma criação simplista de uma ideologia comercial que tem que didatizar para ser entendida. Diluir para ser fruída (gozo do objeto estético). Certa vez, em entrevista, Arnaldo Antunes afirmou que era impossível separar música em gavetinhas. Impossível separar “Pérola Negra” do Lúis Melodia com “Tábua das Esmeraldas” de Jorge Bem.

Esta é a real essência da MPB: um conceito que tenta classificar tudo, mas não define nada.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

conto - ATRÁS DA MONTANHA NUNCA ESTIVE


ATRÁS DA MONTANHA NUNCA ESTIVE
por Rômulo Giacome







Atrás dos montes havia riqueza, afirmavam alguns. Muitos acreditavam que sempre depois das montanhas as terras eram mais férteis. É fácil, para todo mundo, acreditar que do outro lado verdeja mais e as águas são mais puras e cristalinas. No entanto, a subida era íngreme e marcada pelo gelo que descia a montanha, carregado de riqueza protéica para o florescimento e crescimento das uvas.
Atrás a planície conhecida e re-conhecida, anos de permanência naquela retidão imaculada, tranquila, que se estendia pelos altiplanos a uma distância quase secular, horizontal.
Mas às costas tudo é conhecido e esta planície fatiga as vistas ainda não cansadas, ávidas por novas descobertas, ávidas por conhecer o que realmente está por detrás daqueles montes, não tão longe, mas nem tão perto, à distância da vontade e motivação.

Quase no topo do monte habitava soturnamente uma antiga igreja gótica, marcada pelo abandono, que imponente deitava ao largo o seu legado, sob a forma de uma sombra mística que exalava de sua torre longilínea.


As comemorações e a vida fugidia da comunidade não permitia acreditar que subindo as montanhas era possível descer e conhecer novas terras e pessoas, novos ares e novidades pungentes. Canções e imagens passavam nos sonhos de cada um, trafegando entre o limite do desejo e da apreensão.

Não havia um Rio, córrego, riacho ou pequeno vão de água, nem aquele límpido e azul, com uma pequena ponte de madeira envergada, cantando ao ser transpassada, imagem onírica onde Ofélia navegava deitada com seu nenúfar na mão. As crianças iam contemplá-la, de pano e cera, conversavam com ela algumas, outras talvez, os adultos não.

Do outro lado haveria o mar?

De lá o vento era mais frio e provavelmente encantador, assim como todo o mistério cria-se uma lenda e da lenda uma força sólida advinda da curiosidade. Séculos de manutenção de um estado aparente de certeza e absolutez, pairando sobre a liturgia da razão, entre o instintivo sentimento animal de busca.

Nas noites escuras e chuvosas de inverno, a ruína do templo chorava morro abaixo, respigando em cada um seu quinhão de culpa, alagando o vale e, pelas costas, a água levava outras lágrimas.

Escorria da torre esquerda da igreja, uma pequena resina que a cada dia tomava a forma de uma gota. Nas noites festivas, onde o milho comemorava seu júbilo junto aos humanos, nas noites de graça e alegria da música, a gota brilhava a luz acumulada da lua. Mas distante, não mais ali, os sons dos pianos nas marchas lúgubres dos funerais atiçavam a mocidade a escrever contos de amor, procurando na tristeza o ópio e a lágrima sagrada da autocomiseração. Miseráveis de vida, os invejosos comiam e bebiam para não se sentirem vazios. E o milho rodopiava sobre as cabeças e embalados ao vento, atravessam o monte rochoso imponente, avistavam o que tinha do outro lado, mas não voltavam para contar, assim como as labaredas que subiam, fumaça e rastilhos de cinzas e pequenas luzes festivas que habitavam somente o imaginário celestial.

Muitos passaram e o tempo findou quando amanheceu para ela, moça, estrangeira. A montanha continuava lá, cortesã do tempo e do vento. As manhãs eram frias, e tinha que buscar água no córrego que passava ao largo do vale, corcoveando e circundando como uma serpente azul benigna, um nilo de vida e flor. As mesmas ansiedades do relógio palpitam nela, e nela estavam todas as dores femininas.

Desejos incontidos esmorecem a compreensão. No recôndito de qualquer seio ofegante. Recostada no aparador da janela, olhava a grande igreja imponente sobre o monte, suas formas plenas, fiscalizando e impugnando os atos profanos.

O que teria atrás daquelas montanhas?

Talvez o mar. O céu daquele lado brilha mais, as terras são mais férteis...

Uma vez por ano ela contemplava fagulhas e cinzas que de lá vinham, com rostos de pessoas e lágrimas de alegria: comovida esperava sem ser compreendida.
Nos dias de sol quente, solstício, já era uma tradição: fenos rolavam do topo até o pé da montanha e corriam como cavalos pela pradaria verde, arremessados ao rio como barcos que navegam até à índia em busca de belas mulheres, que só povoavam a imaginação da cintura para baixo.

Sem rostos, os habitantes do lado de lá eram improváveis, e tais quais os atlântidas, tinham o tamanho do boato, o fluxo discursivo que carrega os fatos mais loucos.

A igreja, de costas, não olhava para ela. Não olhava para ninguém daquele lado; apenas olhava para o lado de lá da montanha; ela sabia o que tinha do lado de lá. O mar talvez? Bem, deste lado não tem mar, pensava.

A ruína hoje estava ainda mais indiferente. Pelas suas costas manifestava a renúncia, abandono? Como o móvel abandonado, sem fala e vontade. Pegou um bilhete escrito a letras longas:

“Queria ser olhado, admirado. Visto, não por todos, apenas pelo dono. Mas se viram as costas sem cumprimentos. Dias sem uma fala, dias sem palavras legais. A música daqui lá não escuta. Dois mudos são amantes incrédulos; amantes mudos são desejos incompreendidos. A distância provoca incompreensão e medo. Viravam as costas constantemente sem se cumprimentarem. Faltavam palavras e as palavras eram desejadas, ansiadas”.

Um peso dentro dela assinalava que estava ansiosa; existo ou apenas insisto?

As estrelas acordaram mais cedo hoje. Iluminaram os dois lados da montanha. As estrelas iluminam a todos. É impossível ficar indiferente a elas. Elas estão em todos os lugares, estão em dois corações, em duas planícies verdejantes.

Hoje a igreja manifestou-se. Os sinos dormiram e acordaram tocando com força; depois mais lentamente, profeticamente; um turbilhão voraz de água desceu por sobre os prados, sujando tudo, assolando os becos, as salas e ante-salas, as cadeiras e seus suportes, sujando paredes e manchando de lama sedas indianas; desceu veloz e grandiloquente, água, muita água, turbilhões, ondas incessantes em pulsos, força, arrastava a todos, tudo, depredando, penetrando a solidão, permeando o medo, água escura, protéica, alagou a todos.

Já dentro da igreja protetora, (fugindo da lama e da água), forte e inquestionável, uma ruína verde de musgo e folhas, enfeitada por ciprestes rosados que caíam em cachos, grandes tijolos olhavam de soslaio. Na ante-câmara, iluminada por dentro, dentro de cada um, ao abrir a pesada porta, que a tanto tempo protegia e cerrava os punhos protetores, lá estava ela, de branco, vestida de noiva, molhada, com um olhar ansioso, o bilhete na mão, uma face alegre e surgindo espontâneo, esperando o presente e o futuro.