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quinta-feira, dezembro 10, 2009

conto - ATRÁS DA MONTANHA NUNCA ESTIVE


ATRÁS DA MONTANHA NUNCA ESTIVE
por Rômulo Giacome







Atrás dos montes havia riqueza, afirmavam alguns. Muitos acreditavam que sempre depois das montanhas as terras eram mais férteis. É fácil, para todo mundo, acreditar que do outro lado verdeja mais e as águas são mais puras e cristalinas. No entanto, a subida era íngreme e marcada pelo gelo que descia a montanha, carregado de riqueza protéica para o florescimento e crescimento das uvas.
Atrás a planície conhecida e re-conhecida, anos de permanência naquela retidão imaculada, tranquila, que se estendia pelos altiplanos a uma distância quase secular, horizontal.
Mas às costas tudo é conhecido e esta planície fatiga as vistas ainda não cansadas, ávidas por novas descobertas, ávidas por conhecer o que realmente está por detrás daqueles montes, não tão longe, mas nem tão perto, à distância da vontade e motivação.

Quase no topo do monte habitava soturnamente uma antiga igreja gótica, marcada pelo abandono, que imponente deitava ao largo o seu legado, sob a forma de uma sombra mística que exalava de sua torre longilínea.


As comemorações e a vida fugidia da comunidade não permitia acreditar que subindo as montanhas era possível descer e conhecer novas terras e pessoas, novos ares e novidades pungentes. Canções e imagens passavam nos sonhos de cada um, trafegando entre o limite do desejo e da apreensão.

Não havia um Rio, córrego, riacho ou pequeno vão de água, nem aquele límpido e azul, com uma pequena ponte de madeira envergada, cantando ao ser transpassada, imagem onírica onde Ofélia navegava deitada com seu nenúfar na mão. As crianças iam contemplá-la, de pano e cera, conversavam com ela algumas, outras talvez, os adultos não.

Do outro lado haveria o mar?

De lá o vento era mais frio e provavelmente encantador, assim como todo o mistério cria-se uma lenda e da lenda uma força sólida advinda da curiosidade. Séculos de manutenção de um estado aparente de certeza e absolutez, pairando sobre a liturgia da razão, entre o instintivo sentimento animal de busca.

Nas noites escuras e chuvosas de inverno, a ruína do templo chorava morro abaixo, respigando em cada um seu quinhão de culpa, alagando o vale e, pelas costas, a água levava outras lágrimas.

Escorria da torre esquerda da igreja, uma pequena resina que a cada dia tomava a forma de uma gota. Nas noites festivas, onde o milho comemorava seu júbilo junto aos humanos, nas noites de graça e alegria da música, a gota brilhava a luz acumulada da lua. Mas distante, não mais ali, os sons dos pianos nas marchas lúgubres dos funerais atiçavam a mocidade a escrever contos de amor, procurando na tristeza o ópio e a lágrima sagrada da autocomiseração. Miseráveis de vida, os invejosos comiam e bebiam para não se sentirem vazios. E o milho rodopiava sobre as cabeças e embalados ao vento, atravessam o monte rochoso imponente, avistavam o que tinha do outro lado, mas não voltavam para contar, assim como as labaredas que subiam, fumaça e rastilhos de cinzas e pequenas luzes festivas que habitavam somente o imaginário celestial.

Muitos passaram e o tempo findou quando amanheceu para ela, moça, estrangeira. A montanha continuava lá, cortesã do tempo e do vento. As manhãs eram frias, e tinha que buscar água no córrego que passava ao largo do vale, corcoveando e circundando como uma serpente azul benigna, um nilo de vida e flor. As mesmas ansiedades do relógio palpitam nela, e nela estavam todas as dores femininas.

Desejos incontidos esmorecem a compreensão. No recôndito de qualquer seio ofegante. Recostada no aparador da janela, olhava a grande igreja imponente sobre o monte, suas formas plenas, fiscalizando e impugnando os atos profanos.

O que teria atrás daquelas montanhas?

Talvez o mar. O céu daquele lado brilha mais, as terras são mais férteis...

Uma vez por ano ela contemplava fagulhas e cinzas que de lá vinham, com rostos de pessoas e lágrimas de alegria: comovida esperava sem ser compreendida.
Nos dias de sol quente, solstício, já era uma tradição: fenos rolavam do topo até o pé da montanha e corriam como cavalos pela pradaria verde, arremessados ao rio como barcos que navegam até à índia em busca de belas mulheres, que só povoavam a imaginação da cintura para baixo.

Sem rostos, os habitantes do lado de lá eram improváveis, e tais quais os atlântidas, tinham o tamanho do boato, o fluxo discursivo que carrega os fatos mais loucos.

A igreja, de costas, não olhava para ela. Não olhava para ninguém daquele lado; apenas olhava para o lado de lá da montanha; ela sabia o que tinha do lado de lá. O mar talvez? Bem, deste lado não tem mar, pensava.

A ruína hoje estava ainda mais indiferente. Pelas suas costas manifestava a renúncia, abandono? Como o móvel abandonado, sem fala e vontade. Pegou um bilhete escrito a letras longas:

“Queria ser olhado, admirado. Visto, não por todos, apenas pelo dono. Mas se viram as costas sem cumprimentos. Dias sem uma fala, dias sem palavras legais. A música daqui lá não escuta. Dois mudos são amantes incrédulos; amantes mudos são desejos incompreendidos. A distância provoca incompreensão e medo. Viravam as costas constantemente sem se cumprimentarem. Faltavam palavras e as palavras eram desejadas, ansiadas”.

Um peso dentro dela assinalava que estava ansiosa; existo ou apenas insisto?

As estrelas acordaram mais cedo hoje. Iluminaram os dois lados da montanha. As estrelas iluminam a todos. É impossível ficar indiferente a elas. Elas estão em todos os lugares, estão em dois corações, em duas planícies verdejantes.

Hoje a igreja manifestou-se. Os sinos dormiram e acordaram tocando com força; depois mais lentamente, profeticamente; um turbilhão voraz de água desceu por sobre os prados, sujando tudo, assolando os becos, as salas e ante-salas, as cadeiras e seus suportes, sujando paredes e manchando de lama sedas indianas; desceu veloz e grandiloquente, água, muita água, turbilhões, ondas incessantes em pulsos, força, arrastava a todos, tudo, depredando, penetrando a solidão, permeando o medo, água escura, protéica, alagou a todos.

Já dentro da igreja protetora, (fugindo da lama e da água), forte e inquestionável, uma ruína verde de musgo e folhas, enfeitada por ciprestes rosados que caíam em cachos, grandes tijolos olhavam de soslaio. Na ante-câmara, iluminada por dentro, dentro de cada um, ao abrir a pesada porta, que a tanto tempo protegia e cerrava os punhos protetores, lá estava ela, de branco, vestida de noiva, molhada, com um olhar ansioso, o bilhete na mão, uma face alegre e surgindo espontâneo, esperando o presente e o futuro.

2 comentários:

Thonny Hawany disse...

Ops, passei por aqui e li o seu texto. Para mim, trata-se de uma grande metáfora de vida e morte: o que há antes da montanha (vida), o que há depois (morte). O texto é rico e possibilita ao leitor diversas construções à medida que se aprofunda no processo de leitura. Há nele lacunas que serão inevitavelmente preenchidas de acordo com o contexto de cada leitor. A própria montanha, a igreja e as outras alegorias são mundos dentro de outros mundos - Mas vou deixar isso para os entendidos críticos literários. Parabéns pelo blog, pelo texto.

Prof. Romulo Giacome O Fernandes disse...

Obrigado pelo comentário Thonny
A literatura, para mim, deve ser uma palavra com várias faces sob a estranha face neutra. A possibilidade de leitura engrandece a discussão sobre um texto que, na busca da inesgotabilidade semântica, aponta para a maior ausência de referências possíveis. Quanto mais inonimada a palavra, mais livre da contaminação cultural que ela já carrega sobre, mais limada, melhor ficará. Abraços.