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quarta-feira, setembro 30, 2009

POEMAS - RECORTES SUBJETIVOS


Me dispo da miséria
Corando-me da mágoa
A indiferença me resseca
E a coragem me abstém da sorte
Não existe medo onde não há perigo
Não há perigo onde tudo é des-importante
Não há importância onde tudo não é meu
Não há nada meu onde nada me detém:
Os olhos, a vontade e o coração
Tudo me (des)ocupa a mente
E foge aos olhos e mãos
Não quero nada
Que ainda
Possa
Ferir-me
O coração
Deixo as virtudes para os outros
Procurarei apenas os sentidos
Na inscrição
Que me habita
O desinteresse
(Rômulo Giacome - 2006)


Pra quem?

Se me perguntarem, o que?
Responderia ou não só: uma folha dissolvendo-se ao vento
Se me perguntarem, para que?
O toque árido ao solo, a fome, a seca
O desassossego e a dissonância
Distância talvez
Se me perguntarem, de quem?
Do invisível que me fere o peito
E o por que? (se ainda me perguntarem)
Sim. A solidão que devora o último pedaço de mim que ainda fica
E agora? silêncio,
O ensurdecedor e maldito silêncio.
(Rômulo Giacome - 2006)

clAMOR / clAMAR
eu clamo pela palavra
palavra-grito
a palavra fome
um ponto no rosto, a lágrima-palavra
a fuga e o sonho,
o peso e o pesadelo
um velho senhor tombando
na rua de lama com platéia
caindo e tocando o solo com o rosto
e a criança por demais criança, agachada olha
e ninguém nada faz pelo nada e mais nada
simplesmente a doença contagiosa e diferença
o ódio e o rancor respingam de sangue a blusa branca
indiferença
e um corpo na calçada, jazido e jaz(z)
ainda que ninguém espere ser
eternamente o próximo
sempre serei eu
(Rômulo Giacome - 2006)

o desejo e sua morada
na chama amarga e seca do fogo
dois corpos queimam
e as mãos saindo da cortina de fumaça pedem
com os dedos abertos, anéis e alianças se cruzam
as mãos se encontram e se tocam
em espasmos de dor se condicionam
corpos que dilacerados pelas lâminas vermelhas
gritam e perfuram o silêncio da noite
aponta um dedo em riste no norte
e tombam ainda sobrando de trapos
sangue, pele, ossos e desejos
incompreendidos.
(Rômulo Giacome - 2006)

sexta-feira, setembro 18, 2009

PCH RONDON II - USINA HIDROELÉTRICA DO VALE DO APERTADO

Tive a grata oportunidade de conhecer, no dia 26 de Julho de 2009, mais um empreendimento energético em nosso estado e região. Com apenas quatro turbinas, a usina hidroelétrica do vale do apertado é um complexo de construção sobre o rio Comemoração, no município de Pimenta Bueno. Foi uma grande experiência, onde pude obter uma melhor percepeção do crescimento do nosso estado maravilhoso. Vejam as fotos que fiz do local com a descrição leiga (rsrs):


LOCALIZAÇÃO
O Aproveitamento Hidrelétrico Rondon II está localizado no trecho do rio Comemoração denominado “Apertado da Hora”, a cerca de 94 km, pelo rio, da confluência com o rio Pimenta Bueno, próximo à cidade de mesmo nome, com as seguintes as coordenadas geográficas aproximadas do eixo do barramento: 12o00’ Latitude Sul e 60o41’ Longitude Oeste.

(fonte Themag Engenharia)



Parede da barragem com Lago: Duto para saída da água do leito do lago principal; este duto mantém o rio no leito natural;
Curso do rio natural após saída do duto;

Visão interna da barragem do lago principal;
Lago ainda vazio, mas cheio de árvores; segundo alguns teóricos, estas árvores poluem muito, pois estão em decomposição, liberando monóxido de carbono;


Visão geral da construção do canal artificial que leva a água até as turbinas nível abaixo;

Canal com parede de contenção de concreto; gigante; ficará muito bonito este circuito das águas pelo canal;


Terra retirada do canal que levará a água até as turbinas; quantidade exorbitante de entulho;

Rocha perfurada com dinamite para passagem da água que vai até as turbinas; contribuição natural para a passagem da água;
Casa de força; local onde ficam as máquinas;



Rio Apertado em seu curso natural; ele não será alterado e nem algumas belezas serão tocadas, como tem sido divulgado; os locais de banho ainda existem;

CULTURA AMBIENTAL: O EDUCOSISTEMA

CULTURA AMBIENTAL: O EDUCOSISTEMA
Rômulo Giacome
O meio ambiente, antes de um problema material, é de ordem cultural. Não é difícil perceber que os efeitos e desgastes ambientais já eram visíveis pelos cientistas a muitas décadas.
Mas o que isto afetaria o nosso sistema cultural? Quais os efeitos destas sequelas em uma comunidade global que experimenta o sabor da economia de mercado? Os bens (in duráveis) que assolam(vam) nosso universo vetorial de vontades e desejos seriam refeitos? Absortos em nosso modo de vida não poderíamos ter nada atrapalhando. O ideal de modernidade e conforto está totalmente vinculado ao ideal de excessos, exageros e muito lixo. Uma sociedade volátil que constrói valores volúveis e solúveis, não consegue sobreviver sem poluir. O lixo é o código da grandiosidade globalizada, encartada nos ícones do merchandising e da publicidade a todo custo. Assim, faz sentido ouvirmos falar em efeito estufa desde a década de 80, mas nunca uma criança ou pai de família discutir este assunto.

Neste novo cenário que se dedobra sobre o absurdo do fim, o novo "aon" é tomado por um sentimento de tempo perdido, uma espécie de força repressiva que busca anular a consciência ambiental em prol de uma práxis mais acentuada.
O que muda hoje?

A presença maciça de uma cultura ambiental revelada por entre os dedos de uma indústria cultural poderosa, deve ser analisada também pela possibilidade esclarecedora dos ideais que norteiam qualquer projeto global de crescimeto. Pode ser suspeito e deve ser analisado por uma ótica mais ideológica do que político / ético / moral. Não é escopo deste pequeno texto esta inquieta suspeita. O nosso trabalho tem o fito de apresentar, em linhas gerais, o processo de linguagem empreendido na comunicação ecológica, de forma que a preocupação ambiental afetou nosso mundo.

A primeira etapa deste contínuo processo de esclarecimento ambiental parte da construção de uma "linguagem especial" para evocar e presentificar esta noção abstrata de meio ambiente. Conceitualmente o termo meio ambiente seria de difícil cognição em todos os seus meandros. Nao que o devesse ser, mas que é preciso uma visão lúdica e icônica de meio ambiente, para a posteriori termos qualquer ação sobre ele. Em outras palavras, a linguagem sofisticada e semiótica da propaganda e seus recursos conseguem produzir um efeito sinestésico e memorial de meio ambiente, que é o primeiro passo rumo ao seu entendimento e valoração.

A segunda etapa é a inserção desta linguagem especial sobre o meio ambiente acoplada à linguagem universal da mídia. Uma vez lá, esta linguagem irá proliferar seu vocabulário a todos, contaminando lexicograficamente um público de massa. Palavras como preservação, ecosistema, proteção, são nuances deste processo.

A terceira etapa é o entendimento que qualquer valor (axiológico) que uma sociedade constrói sobre algo é fruto de uma sugestão advinda da indústria cultural, instrumentalizada por seus aparelhos ideológios e midiáticos. Logo, o sentimento protetivo e restaurador que temos sobre uma árvore é a construção valorativa evocada por meio de uma sugestao ou atribuição que alguém efetua. O nacionalismo, ufanismo e xenofobismo são valores constituídos por meio de propagandas ideológicas, não necessariamente valores inerentes ao ser.

Assim, construída uma cultura ambiental por meio da linguagem e dos seus recursos modernos, tem-se a consolidação de que, agregado ao vocabulário, oculta-se uma ação. Portanto, quando assimilamos culturalmente uma palavra, assimilamos com ela sua efetivação. Lexicografias verbais tais quais: proteção, preservação, manutenção, conservação e economia não são só palavras, são efetivações interventivas sobre a realidade imediata.

Em suma, uma revolução prática parte do domínio da linguagem e dos seus mecanismos modernos de comunicação e, principalmente, de um educosistema, ou seja, uma construção efetiva cultural de valores dentro da escola.

Este sistema de valores será fruto da própria percepçao da realidade imediata da criança, que já preparada cognitivamente, irá celebrar o aprender a preservar e proteger.

Este aprender ambiental é o próprio nascer no contexto constelatório de referências e co-referências sócio / ambientais efetivas. É sobreexistir em um universo que troca códigos vocabulares, efetua permutas de valores ecologicamente satisfatórios.
De um modo geral, fecha sobre a educação nacional e global a necessidade de implementação de uma nova linguagem, com novo vocabulário, assim como novos pressupostos cognitivos e metodológicos para atingir um objetivo que realmente toque o imediato real.

sexta-feira, setembro 11, 2009

FESTIVAL DE ROCK CASARÃO – PORTO VELHO

FESTIVAL DE ROCK CASARÃO – PORTO VELHO
Por Rômulo Giacome


As trombetas (guitarras) do rock and roll soaram nas margens do Rio Madeira.
Na convulsão do rio e da história, às margens da(s) madeira(s) que decem vagarosamete no leito marrom das águas, a criatividade rompeu as teias do mais do mesmo.
Sob a luz alucinógena das kaiser quentes (quase trocadilho infame com Kaiser Kiefs) a brisa do madeira estava vaporífera. Eu e Helem trocávamos olhares às bordas do caldeirão.


Mas exalava uma noite linda, aberta, que pronunciava e prenunciava seu maravilhoso interregno. A primeira banda a literalmente “tocar” a todos com uma energia feminina e sensual, totalmente paralisante e anestésica foi a banda de mato grosso do sul (Campo Grande) Dimitri Pellz. A vocalista interpretava o imenso devaneio de ideais comunistas, alicerçadas teoricamente por uma boa costura de guitarra e bateria. O tecladista, icônico, estampava no peito a camiseta “quase!” clássica do Velvet and Nico; placa icônica para estabelecer um contato com a cultura indie da velha guarda. E o arranjo comia o ferro, estabelecendo uma conexão que beirava o punk e o rock metal, quase Iggy Pop, quase tudo que é bom, muito bom. Nesta letargia e profunsão de sensações, Dimitri revelava por entre as cortinas da performance, um bateirista ensadecido (que nos bastidores ficamos sabendo que é casado com a vocalista, e ambos são formados em rádio e TV). Um baixista no bate cabeça que dava gosto e um guitarrista em posição guitar air mas que em seu monólogo foi extremamante competente. O som estava claro, só não estava claro o open bar da festa, que revelava, em suas frestas, cerveja quente transpirando pelos poros dos copos descartáveis. Dimitri Pellz teve seu nome referendado na revista Roling Stones como uma banda que merece ser ouvida. E como merece.




Correndo por fora, duas moças meigas e delicadas desfilavam seus vestidos longos e com temas woodstock; guitarras e baixos poderiam ser a fuga dos punks e siber punks que estivessem por alí, mas o prelúdio da catarse veio com estas meninas, aparentemente frágeis e anacrônicas. O bate cabeça veio ao som doce e multifacetado daquelas vozes, ora meigas e ora fortes, ora com falsetes e trejeitos lindinhos; era a surpreendente e extasiante banda MINI BOX LUNAR. O bateirista e baixista concentravam sobre si o peso quase singelo, mas a levada e a forma encantadora com que as músicas iam se desdobrando, confirmaram a idéia de que vibração muitas vezes não é sinônimo de peso. Cantando como um mutantes infantilizado (no melhor e nais sincero dos elogios) a viagem à lua ia rápida, embalada por flertes de marchinhas, cirandas, rodas e outras formas de rock pulsante, com teclados e baixos fortes e atuantes, com letras que falam de soldados amarelos, despertadores que lembram ainda mais você, piqueniques lunares e tudo de bom.


Ao acabar o sonho, que não acabou, fui atropelado pelo acordar, quase compromissado em conhecer o head line da noite, motivo da viagem de 500 kms que eu, helem, meu amigo Bernardo e Mariana enfrentamos até aqui: a banda Mop Top. E conseguimos entrar no camarim (vantagem obtida via de contato anterior e perseverança e sagacidade do amigo Bernardo). Lá dentro encontramos o baixista e o guitarrista, e logo após chegou o bateirista, conhecido virtual que comentou um post aqui do TEOLITERIAS. O interior do camarim, com seu sistema refrigerado, seu silêncio e seu caráter protetivo, a luz forte branca, me fizeram entrar em outro tempo, em um time lento, paralelo aos acontecimentios anteriores e futuros, as fotografias com os caras da banda, a chegada séria do vocalista Gabriel;

Quando saí da sala, o Bernardo já estava com uma bolsinha na mão e dentro aparentemente um CD (que viria ser mesmo um CD, pois naquele momento não era) e do lado a moça frágil, a diva do fora do eixo, aquela que cantava o melhor heavy metal com uma marchinha deliciosa, sincera e intensa, a década de 60 que nunca foi e agora realmente era. E aí está materialização daquele segundo sonho, tempo / momento / instante que a euforia da bebida, a sensação de criatividade que exalava dali, somente o céu nos proporcionaria.

Após aquela pausa de mim mesmo, fui rever as fotos com o MOPtop e o que eu vi foi um homem ficando calvo; eu;;;



Mas (mais) algumas kaisers quentes com gelo e a combinação auricular e crítica me envolveram na seguinte frase “você tira a roupa / você tem uma tatuagem de cicatriz”. E lá no palco a cena estava completa: um percusionista ensandecido, e um vocalista “per forma action” que plantava bananeira, trocava o microfone e olhava com fogo nos olhos e o coração em epítetos de palavras e paronomásias; perfeito;

Relembrando o show dos PORCAS BORBOLETAS agora consigo definir toda aquela sensação louca que tive em vê-los tocando. Está na enunciação, está na enunciação meus caros linguistas e analistas do discurso; no modo como a palavra falada se enviesa na palavra cantada, dita e redita, exclamada, palavra com grito, coro e choro, palavra expressão com expressão, com força e interpretação; mas não é só a palavra falada / cantada, é a intervenção de guitarra na hora certa, o feeling de “MENOS’ musicasssssaaaa; segredo revelado, força pop / cult / hit, música grande e completa, sutil, tudo; que música esta “menos”!!!!! eu acho que é isso mesmo, ‘viver menos para viver mais”; viverei menos então; do mesmo naipe e da “forma” pop vem “EU” do disco Carinho com os dentes (2005); é o limite de Arnaldo Antunes, o limítrofe limite entre Arnaldo e sua fórmula convencionada pelos álbuns maravilhosos O SOM e o SILÊNCIO; é o limite entre isto e outro ainda grande e novo, eles mesmos; PORCAS BORBOLETAS tem assinatura própria, tem peso próprio e forma própria; da lavra maravilhosa de “nome próprio” e “estrela decadente” que ouvi em Porto Velho e nunca mais esqueci e esquecerei.

Link do blog e local para download do disco A PASSEIO
http://www.porcasborboletas.com.br/
Pude “dividir um chiclete” com os caras da banda e a coisa estava muito maluca, que os próprios espíritos queriam sair na foto; a intervenção espiritual só foi contornada a partir da terceira foto; acalentados pela missão cumprida, os espíritos já previam que o MOPTOP não ia demorar.



A surpresa era querer ver aquilo que eu já havia previsto; a banda MOPTOP no show arrasa; o peso é maior na bateria, o vocal é muito bom e o trabalho de guitarra pontilhando “a lá novo rock pós-punhk” os momentos de solo são uma grande sacada. Destaque para a “minha música” “Aonde quer chegar” e a intensidade com que ficou “Contramão”.
Ao final, um show interrompido pelo horário, as meninas satisfeitas mas cançadas, a sensação de que poderia ter escutado mais uma e tomado mais uma (...)
Acho que fui atropelado por um trem...estive em meio à fina nata do novo rock original basileiro.