quarta-feira, outubro 13, 2010

resenha literária - MILTON HATOUM - ÓRFÃOS DO ELDORADO


MILTON HATOUM E OS ÓRFÃOS DO ELDORADO - UMA SAGA DA MEMÓRIA SOBRE O DESENCONTRO
By Rômulo Giácome

Órfãos do Eldorado é uma história de desencontros (...). Arminto é um protagonista narrador que busca nos desvãos de sua memória a própria vivência (ou sobrevivência) que exala por um buraco na consciência, jorrando lendas, contos amazônicos, fragmentos de uma cultura ribeirinha aflorada. Arminto é descendente dos Cordovil, raça branca colonizadora e exploradora das margens do rio Amazonas. Seu avô já era um grande explorador, que buscava as riquezas minerais e vegetais das grandes matas e rios. Seu pai, Armando, é a grande polarização narrativa ou, o próprio grande vilão que estrutura a tensão do enredo sob o núcleo do filho que não se entende com o pai. Alicerçada por esta contradição simples e presente em vastas obras, Hatoum se diferencia deste tema a partir da própria morte de Armando bem no início, ou a sua des(presença). A forma como Armando afeta o personagem principal, seu filho, proporciona a estruturação sensível desta tensão disfórica. As mãos grandes do pai, a força, a altivez, a firmeza e a ganância. Mesmo após sua morte, Armando continua mais vivo do que nunca, presentificado por Arminto. A nível fabular, Arminto vai no caminho oposto do Pai. Este, construiu um patrimônio a partir do transporte de madeira e borracha pelos rios afluentes do Amazonas até o Pará. Conseguiu comprar barcaças de menor potencial, mas atingiu o maior limite adquirindo um grande cargueiro, cujo nome é Eldorado. (é interessante compreender o valor deste signo sob a face representativa do romance; isto porque o Eldorado barco é a face material / concreta da própria semantização e simbologia do Eldorado: a terra prometida, o por vir, o de vir; quando este grande barco afunda, inicia-se a derrocada da família Cordovil). Por outro lado, Arminto nunca se dedicou à empresa. Quando da morte do Pai, iniciou o processo de dispersão do patrimônio e de qualquer conduta que lembrasse o genitor. Foi relapso, negligente quando do naufrágio do Eldorado. Se manteve fugidio dos negócios, escondido de tudo na grande casa Branca de Vila Bela.
Esta espacialidade de Vila Bela é muito importante para qualquer leitura mais séria sobre a obra. É naquele terreiro de infância, em uma espécie de local natural de dispersão e inocência, que tanto Arminto Pai quanto Arminto Filho se sentem melhor, na famosa Casa Branca. É lá também que as fábulas indígenas se re-encontram no tecido narrativo, a partir da margem do rio, marcando a lenda da cidade encantada escondida debaixo das águas. O Eldorado submerso. É lá também que mora Florita, uma personagem indígena, esbranquiçada pelo processo de aculturação que o narrador promove; mãe de leite de Arminto, torna-se uma (quase) amante do filho de Armando. Ciumenta, não aceita as loucuras do jovem para com Dinaura.
É neste ponto que voltamos a falar de desencontros. Tanto a forma fugidia com que Arminto trata a empresa, Florita e sua cidade, é a própria forma como o jovem se dissipa vaporificamente nos desníveis de Dinaura. Órfã de Pai e Mãe, mora em um convento comandado por uma espanhola. Conhece Dinaura e a partir de então, se diluirá neste amor insano e variável, buscando nos cantos da razão até os desígnios da insanidade. Neste largo desencontro, uma única noite de amor. E nunca mais Dinaura apareceu, como outrora, fugidia, surgia e irrompia novamente às brumas do convento. Rogavam as lendas que Dinaura havia fugido para o fundo do Rio, e habitava a cidade encantada, referência icônica ao Eldorado. Louco e potencialmente corroído, Arminto explora no ódio àqueles que idolatravam seu pai, motivo de escárnio.
Do ponto de vista da construção ficcional, de espaço sobre espaços, cria-se uma formatação semiótica representativa do labirinto. Senão da própria construção de espelhos sobre espelhos, salas sobre salas. A própria espacialidade comportamental de Arminto é projetada nas visões do Rio, em seus subterrâneos, no sumiço de Dinaura, que corresponde a uma outra espacialidade, a das sombras, a do ideal. É a existência do "outro lado", o lado mítico, que abafa o lado lúcido. Louco e fortalecido pela insanidade, Arminto se propõem a gastar as últimas moedas na busca de Dinaura. É neste momento que o romance toma um frescor social advindo da retratação das meninas moças que habitam os margeados, possuídas contra vontade pelos pescadores e caçadores, vendidas ou doadas pelos pais como órfãs destas margens, órfãs dos rios.
Uma marca conclusiva deste romance é a tendência afunilada. Esta espiral narrativa é fruto da importante tradição oral dos contadores de estórias, tema caro ao escritor Hatoum. Neste ínterim, o desfecho se dá sobre dois fatos que merecem real atenção. O avô do autor (figura psico/real) contou esta estória jorrada da mente do Arminto, o próprio, e a transmitiu ao provável escritor. Esta transmissão se fez na esfera da representação da própria memória, como se advinda da consciência e inconsciência de Arminto, já velho. No entanto, na busca de mais detalhes sobre a prosa, o autor foi ao encotro de Arminto, o provável, que na ocasiaõ afirmou: só contei esta história uma vez e agora " minha memória anda apagada, sem força (...)
Por fim, o episódio final deixa resoluto a opção do texto em construir uma órbita semântica de leitura com possibilidades escamoteáveis e jogadas ao infinito. Arminto descobre, por intermédio do grande amigo de seu pai, Estelius (personagem ambíguo e misterioso, sem muitas qualificações dentro da própria narrativa, mas capaz de construir pontes entre o passado e o futuro, tal qual a cena a ser descrita) que Dinaura pode estar em Eldorado, uma cidade mítica, que repousa antigos descendentes dos soldados da borracha e cegos. Arminto toma para si a empreitada de encontrar Dinaura não em um local mágico, mas em um deserto real dentro da mata. Assim, a confluência poética de forças semânticas entre a Eldorado do fundo do mar e aquela que repousa Dinaura, deixa entrever o peso que é ser um órfão deste Eldorado. Um Eldorado naufragado e nunca dante encontrado. Outro escondido e apagado da memórica. Todos gerando uma potência do ato fórico do de vir, do aproximar-se e tentar aproximação. Da abusca da existência mítica da própria representação da cidade perdida. Ao fim, neste eterno retorno, somos todos órfãos do Eldorado. Não aquele, mas sim este nosso, deste lado da gente.

4 comentários:

T.S. Frank disse...

Olá! Encontrei o blog procurando sobre viagens baseadas no livro On The Road. Eu devia ter comentado no post do livro... Mas acheio melhor vir no mais recente.

O livro Órfãos do Eldorado parece ótimo. É uma ótima dica.

T.S. Frank
www.cafequenteesherlock.blogspot.com

Prof. Romulo Giacome O Fernandes disse...

Olá, agradeço a visita; apareça sempre por aqui; On the Road é um livro motivador e instigador; marca uma geração no meio século, mas continua marcando a geração inquieta; um clássico; Relatos de um certo oriente é ainda melhor que òrfãos do Eldorado, que já é muito bom; abraços cordiais

Anônimo disse...

o nome do pai é Amando, não Armando

Jorge Ramiro disse...

É um livro muito bom. Eu li isso, porque minha esposa comprou o livro e disse que era um bom trabalho. Eu vi o autor em um dos restaurantes na vila leopoldina.