sexta-feira, março 04, 2011

Resenha - TULIPA RUIZ – (EFÊMERA) – AGUDOS E AGUDEZAS SONORAS


Resenha - TULIPA RUIZ – (EFÊMERA) – INOCÊNCIA E SENSIBILIDADE NA TELA DO POP CRIATIVO BRASILEIRO
By Rômulo Giácome


Quando a música corta o peito e fixa, tal qual um pregador, grampo ou alfinete, um momento, um dado momento de nossas vidas, a outros momentos sentimentais, de igual intensidade, em camadas sobrepostas de sensações e imagens, forçando o peito a se encontrar, a amar e sentir, vejo que a arte realmente existe como a idealizo. Tulipa Ruiz foi um desses casos apaixonantes, de reconhecimento rápido, fixação e progressiva emoção. Tudo começou com a pesquisa; referência coletada e surge a audição; rápida, concreta e racional; mas é impossível ficar racional frente à forma de representação vocal e interpretativa de Tulipa; sua excentricidade de agudos é a mais perfeita tradução que Rimbaud fez em seu poema “Vogais”; “Agudo doce como o Oboé”; brotando de uma linearidade de harmonia e ritmo, uma leveza e lentidão sussurrada, Tulipa vai desenhando uma planície de sons adocicados e linhas protuberantes nos refrões sensacionais; marcados pela progressividade de versos e vocábulos bem estruturados e sintaticamente burilados; é o que ocorre em duas maravilhosas canções: “Do amor” e “Sushi” não são os hit´s extremos ou mais explorados pela cantora, mas os mais afetivos e desenhados; em “Sushi”, um arranjo de piano e guitarra constrói uma tensão e ambiente narrativo sussurrado e talhado em nuvens vocais; o crescente é construindo pela progressividade dos vocábulos que intercalam ritmo e melodia; sensível e tocante, sem perder o volume sonoro que torna a canção vibrante; este timbre narrativo é tensivo e segura para libertar-se no refrão intenso e rápido, que disparado voa e sobe, cavalga no céu e plaina balão, lá em cima, de nós; “Sushi, chá bar / e esse seu jeito de falar / Cantar, dançar, olhar pra mim / Viver, é não ter que transplantar… / Doar sangrar trocar chamar pedir mostrar mentir falar justificar (...)”. Em “Do amor”, o violão e o piano delineiam a cama branca que irá repousar sensíveis toques leves de notas agudas e sensíveis, que se avolumam como feixes luminosos e brilhantes, tomando forma e dialogando com o arranjo, que dirige as minuciosas notas sutis que se fortalecem e gritam (gritos sutis do silêncio da alma); nesse elevar de notas, ousadia, fragrância perfeita de uma evolução sonora e uma experiência musical magistral. Das várias vezes que escutei me emocionei e fiquei quieto, não querendo pensar nem falar, somente existir, ou não, ali dentro, de mim; ocasionalmente, estas canções tocaram em minha casa, no meu aniversário: marcaram a passagem espiritual dos 32 aos 33 anos; com a música, a vida faz sentido!
Em “Efêmera”, a faixa título, apresenta-se tropicália, como já mencionada pela cantora. Traduzida conceitual, talvez não represente a tônica do disco, pelo menos a meu ver; o diálogo de “Efêmera” é com uma construção de MPB com timbre datado nos anos 70, com uma dicção parecida com a de Gal Costa, ou qualquer onda de frequência até chegar na própria Marisa Monte; mas a letra é tocante, principalmente no minimalismo reservado à sensação do domingo, tal qual Drummond, em poema homônimo, que exalta o silêncio e bucolismo deste dia tão lento. Outra porção genial do disco são as composições com toque mais dançante e com arranjos serrilhados, suingados, que remetem à “Janaína” de Otto. Faixas como: “Aqui” e “Broquel dourado” representam esta porção trincada e vibrante. Por outro lado, assinalam o lado Gal, como no refrão de “Aqui”.
Mesmo após estas belas composições e quando achamos que o disco esgotou seu potencial de hit´s, lá vem “Ás vezes”; sutil, levada e (levada), dançante e meiga, Tulipa Ruiz pop, como uma menina má, nada de mais, mas ao mesmo tempo tudo que a gente precisa na nostalgia / euforia de uma pequena embriaguês, som alto e sintomático, êxtase; um riff pequeno de guitarra e ansioso, que irrompe de um cantarolar, refrões leves e variedade de condução. Sucesso absoluto. Por fim, Tulipa Ruiz lança, talvez, sua metáfora mais plana, alegórica e ampla, mas que representa a síntese do relacionamento, dos desdobramentos e reentrâncias da paixão à confiança “Só sei dançar com você” é um ensaio a esta confiança relacional, à transformação do amor e a cumplicidade. Aparentemente simples, discute em ondas semânticas curtas a complexidade da relação. Nem todos os tratados pode responder à convicção e peremptoriedade de uma alegoria ou parábola. Elas são muito mais explícitas.
Salve Tulipa. Salve sua música e sua vontade de qualidade. Em meio aos plastificados, necrofilias, remakes, reciclagens e pastiches, você urge por atenção da própria mídia. Vamos inundar o Pop pastel / ocre de pop rico e exuberante. Vamos iluminar as trevas da música pop. Tulipa Ruiz!!

Um comentário:

jr martins disse...

parabens pelo texto. Adorei sua maneira de enxegar o cd.
Não pare.