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terça-feira, abril 19, 2011

"GRANDE SERTÃO VEREDAS" - JOÃO GUIMARÃES ROSA - O MAIOR ROMANCE BRASILEIRO: POR QUE LER?

by Rômulo Giacome







Quando conclui a última página de Grande Sertão Veredas, senti que tinha acabado de percorrer a minha maior experiência literária. Não só porque o tema me apraz muito e, ao contrário do que falam, tem muitos conflitos e aventuras. Mas também, retiradas os arroubos pessoais, nunca havia me deparado com tal vigor narrativo, tal sugestão descritiva e simulatória, e tão grandes relações sígnicas entre o vocabulário, a tensão categórica das forças visíveis e invisíveis, com uma regionalidade impressionantemente universal. 


GRANDE SERTÃO VEREDAS É UM CLÁSSICO DA LITERATURA BRASILEIRA. Não só pela estatura de Guimarães Rosa, ovacionado pela crítica e elogiado no mundo todo; não só pela grandiosidade em volume, dimensão de páginas e mais páginas em um grande livro; mas também pela linguagem, ora universal, ora hermética; talvez hermética por ser universal.


Pela dimensão literária de sua linguagem extremamente polissêmica e elegante, regional e exótica, aliada à dificuldade de construir temas tensivos perfeitos, dialéticas essenciais e plenas de significação, como Deus e o Diabo, a crença filosófica no devir, por vir, vir a ser, elementos de uma inocência Teogônica de explicação do mundo e da religião pelos mitos, a obra ainda encontra fôlego para narrar ações e encadeamentos de fatos com belíssima técnica narrativa.

Em literatura, complicado se faz comparar textos magistrais, de diferentes perspectivas, em uma fórmula teórica única e parcial. Mas é possível, sem muitas contendas, afirmar que Grande Sertão Veredas tem mais vigor literário, mais enigmas poéticos, mais trabalho de linguagem (exótica), e mais nuances narrativas de enredo do que Dom Casmurro.


É um trabalho mais especializado a leitura de Rosa. É preciso uma iniciação para romper as primeiras longas páginas, que em modo fluxo da consciência, dialogam com verdades reais e regionais sobre Deus, Diabo, contendas e corpo fechado. Após transgredidas estas páginas iniciais, verdadeiras camadas epidérmicas da tônica do texto geral e do que vem a seguir, a trama começa a tomar volume e a saltar aos olhos a história de Riobaldo; um menino narrador, quase culto, quase construído pelas suas convicções, que constrói uma relação atípica com os jagunços, buscando explicações, convivendo com um universo totalmente sertanejo.




A trama narrada por Riobaldo é constituída por sorte e conveniência, onde Tatarana se vê envolvido pelos grupos rivais, desde o momento que ensina as primeiras letras ao grande Zé Bebelo; também após conhecer o grande Joca Ramiro, o chefe de todos, às margens do Rio São Francisco, no nascedouro; e, fundamentalmente, por conhecer Diadorim, o claro enigma, desvencilhado, de olhos verdes, no início da trama. A ambiguidade de Diadorim faz com que Riobaldo olhe para dentro de si, investigando o mistério resultante da combinação: amizade, dúvida, força afetiva: do que? É nítida a atração mútua. Improvável.


Com a morte de Joca Ramiro, a trama de vingança e jagunços armados inicia seu enleio. E uma ampla movimentação de turmas e grupos, confluindo, emergindo e submergindo do tecido do enredo. Desde a passagem na fazenda do tio de Riobaldo. Um epicentro de encontros do cangaço e seus protagonistas, atemporais, que submergem fantasticamente de uma trama mítica, sem tempo ou clichês, fortalecida por poderes morais e fabulares, onde guerreiros regionais, com vestes regionais, condutas regionais, ultrapassam o regional e tornam-se poderosos agentes de uma trama forte de lutas, atritos e conflitos armados, tiros e facas rangendo no sertão.


Dois grandes parceiros do grupo de Joca Ramiro, os Judas, Hermógenes e Ricardão, tomam as rédeas da fama e do poder do grupo, fugindo para as bandas da Bahia. Muito se fez para vingar a morte do grande Joca, enaltecido pelo menino/menina Diadorim.


A busca destes “Judas” canaliza um momento épico, ou uma trajetória de “travessia”, categoria literária onde o indivíduo se reconhece a partir da passagem. Esta passagem é a retomada da vingança pelos flancos do bando inimigo, atravessando o Liso do Sussuarão, nas principais e magnânimas veredas mortas. Local de resseguidão e sofreguidão, o bando, a esta altura já liderado por Zé Bebelo, tendo como grande atirador Tatarana, segue sua jornada homérica nos grandes mundos de terra seca dos vales fundiários de Minas, entrecortado por oásis no deserto, místicas veredas repletas de buritizais.


Uma página a parte de explicação da transmutação de Riobaldo à Tatarana, pode ser metaforizada no (des)encontro entre ele e o Dito Cujo, que aqui não é de bom alvitre revelar seu nome; na encruzilhada, à meia-noite, Riobaldo desafia a si mesmo procurando encontrar o dito nas entranhas do sertão ou na imensidão do deserto chamado noite. No entanto, o horário transgride o tempo e um vento pequenino e frio desemboca no chão, sobe e gira, pião, formando um pequeno redemoinho; aquele redemoinho que regorgita a existência prévia dele, nas entranhas eólicas. Com a sensação de nada ou de tudo, Riobaldo segue embora, praguejando contra o danado, cônscio de que o dito não existia ou o havia desdenhado na aparição da encruzilhada. Mas Riobaldo não era mais o mesmo. Na consciência narrativa, o movimento e o processo desencadeiam um Riobaldo interativo, um guerreiro à altura de Joca Ramiro, Zé Bebelo e Diadorim. Será que Riobaldo haveria de ter encontrado o cujo?


Na confecção de uma obra como esta, de imersão total no campo da ficção, com sedutora trama e enredo bem estruturado; na técnica narrativa dos conflitos, dos diálogos e da tessitura formal com que se apresentam os fatos fabulatórios, é impossível não afirma ser um dos maiores trabalhos de fôlego narrativo da literatura Brasileira. Há de se olvidar de um Érico Veríssimo, com sua trilogia o Tempo e o Vento, magistral narrativa de grandes dimensões. Mas a poeticidade com que um novo léxico é constituído, designado e destituído de seu poder representativo referencial, coadunando na criação de um mundo novo, meio real meio místico, determina a analogia entre outros grandes contadores de estórias, como Gabriel Garcia Marques e Jorge Luís Borges.
Talvez a fortuna crítica de um Machado de Assis seja maior e mais bem definida, por sua historicidade e marcas culturais e expressivas de uma política literária ou cultura literária brasileira. Assim como o eixo Rio / São Paulo determinou o epicentro das discussões literárias e canonizações poéticas na nação, cristalizando autores e possibilitando a estes estudos em nível nacional. No entanto, espera-se que Guimarães Rosa tenha sua obra prima uma esteira de popularizações que, não na tentativa de esgotá-la em suas potencialidades tensivas e formais, mas sim no intuito de torná-la, popularmente, a nossa maior obra, por enquanto.

3 comentários:

Anônimo disse...

Olá Professor!
Sou a Nádia do 1° de Psicologia, estou muito curiosa em ler este livro, a forma como o senhor expôs ficou bem interessante.

Anônimo disse...

Olá,

Passada a pressão do vestibular, fiquei com vontade de ler espontaneamente esse livro de tantas referências que Rubem Alves faz a Riobaldo em várias de suas crônicas!

Weigla Paes disse...

Interessante.
Adorei a resenha. Me Despertou o interesse em Ler.