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sexta-feira, agosto 12, 2011

NOTAS TEÓRICAS SOBRE EDGAR ALAN POE


MODELO POÉTICO DA MODERNIDADE


By Rômulo Giácome





Poe foi um legítimo filho da loucura. Sua vida imita a obra, ou a própria obra imita a vida, construindo sua maior especialidade: equilibrar-se, por meio da linguagem, entre a verdade e a mentira; entre o natural e o sobrenatural; entre a lógica e o devaneio.
Se perguntares se existe sobrenatural em Poe, aquele sobrenatural entendido como o místico em situações que ferem a ordem da existência, ou a exteriorização dos terrores e seus protagonistas, podemos afirmar que não.
Tanto em O Gato Negro como Manuscrito encontrado em uma garrafa, não existe uma frente exterior de elementos extra-humanos, ou efeitos ilógicos que sobressaem da realidade. Ou seja, um terror externo, personificado. Na realidade, é uma dialética entre crenças e superstições simbólicas equilibradas frente à lógica e a razão, sobre o viés da loucura. Existem motivos psicológicos e espirituais, sugeridos pelas estratégias narrativas, por simbologias, valores depreendidos por situações e não por conceituações. Não existem definições, mas situações de enunciação que constroem enunciados polifônicos. Logo, o terror de Poe é fruto de uma larga, silenciosa e contínua força psicológica.
O elemento mágico depreendido pela narrativa de Poe não está concentrado no enunciado, mas sim na enunciação, nas estratégias narrativas utilizadas, em uma comunicação direta que exprime o fluxo da lucidez / insanidade. Assim, mágica é o trabalho com a narrativa, com sua estruturação e adequação, o que torna Poe vanguardista e influente no meio modernista / simbolista da poesia e prosa. O trabalho com o símbolo permite várias facetas de leitura e realização narrativa. (gato preto, plutão, desenhos insignes, ossos humanos em fossos profundos, etc)
Logo, por meio de um jogo, configurado por truques da linguagem, ele vai tirando véus da realidade. Em um eterno movimento, a narrativa lança o elemento mágico e depois o substitui, pondera ou minimiza, até atingir a verossimilhança. No manuscrito, o navio efetua ações impensadas, tais como manter-se no turbilhão, vagar a velocidades impensadas e a existir com materiais tão antigos (madeiras porosas). No entanto, estas perspectivas mágicas estão emolduradas pela solidão e a possível alienação a qual o personagem se encontra, o que pode justificar esta visão onírica. Uma causa psicológica para um efeito místico. Ele suscita que o navio é de outras eras, não existente neste plano, quando afirma que o formato deste era “lembrado” em contos seculares. No entanto, a sugestão de Poe é maior que a definição, o que o faz influente no meio simbolista.
Edgar Alan Poe deve ser lembrado como um gigante do conto. Naquilo que este tem de mais maravilhoso. O poder de atrair, culminar em um clímax ardoroso, sugerir e impactar. Em enunciados e motes ricos, se constrói um tratado sobre o fazer literário, com técnicas contemporâneas de criação de verossimilhança (os contos têm sempre uma justificativa prévia). Como é o caso e Leonor, que Poe divide em dois momentos: um de lucidez, mesmo que eivada de inocência pueril. E outro de loucura, onde os fatos não podem ser marcados como válidos.
O forte conteúdo moral ou (amoral) também pode ser vislumbrado em O barril de Amontillado. Neste, obcecado pela vaidade, Fortunato se perde na escuridão e na própria insensatez, pois só descobre muito tarde que era uma cilada. A pequena câmara que sepultou o personagem é a passagem e o pesadelo dos vaidosos, obcecados pela própria existência.
Com uma morte rodeada de mistérios (1849), Poe descortinou a narrativa moderna para a posterioridade. Inaugurou um cânone não tão considerado erudito, recebendo críticas e censuras. Mas sua obra permanece, atingindo em cheio dois amplos campos da arte moderna: o flanco da cultura pop e o campo da técnica literária. Poe é leitura obrigatória em qualquer carreira letróloga.

8 comentários:

Joice Stêfani disse...

Obrigada Professor. Este texto será de grande ajuda, principalmente por recapitular a ótima aula que vc deu sobre Poe na semana passada.

Tássyla Fernanda disse...

Faço minhas as palavras da Joice! Acrescento apenas:
Edgar Alan Poe é, e percebemos isso graças a sua matéria, um excelente escritor; sabe brincar com as palavras e jogar com os leitores.

Prof. Romulo Giacome O Fernandes disse...

Joice e Tássyla. Obrigado pelos comentários. Vocês são muito talentosas. Tem muita facilidade com a literatura e as artes. Tem sensibilidade e poder interpretativo. Abraços

Prof. Romulo Giacome O Fernandes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jéssica disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jéssica disse...

Professor, apesar da sua linguagem, que está muito acima dos meus níveis de compreensão, consegui entender o quão criativo e 'viajado' é Poe. Entretanto, produz um terror que não atravessa a essência humana, uma prova disto é que no início de "O gato preto" o autor enuncia: "(...)No entanto, não estou louco, e com toda a certeza não estou a sonhar(...)"
Ao decorrer das suas narrativas Poe cria um contexto instigante, que relata a história do seu personagem analisando o seu psicológico, ou melhor, sua mente perturbada.

Aluna da 2ª série plus, Daniel Berg.
Jéssica Lays F. Ribeiro

Jéssica disse...

(continuação...)
Não só descreve o perfil psicológico,
mas também faz com que o interlocutor compreenda exatamente como este personagem está se sentindo.

[Jéssica Lays F. Ribeiro]
2ª série plus, Daniel Berg

Prof. Romulo Giacome O Fernandes disse...

Valeu Jéssica. Não só você está apta a esta linguagem como está apta a entender perfeitamente a arte literária com louvor. Parabéns por ser esta aluna maravilhosa.