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quarta-feira, junho 20, 2012

O FOCO NARRATIVO NO CONTO “ÊXTASE” DE KATHERINE MANSFIELD

Na escrita desta pequena análise descritiva sobre o narrador, ainda estávamos sob a sombra da não leitura de “A Imitação da Rosa”, de Clarice Lispector. Um paralelo entre estes dois contos, assinalados e crivados pela visão da mulher na esteira do cotidiano familiar, nos permite entender uma parábola, um movimento circular, que inicia a partir do êxtase de Bertha, atingindo seu vórtice e ápice na felicidade extenuante desta protagonista de “Êxtase”, tendo seu equilíbrio em “Felicidade” de Virginia Wolf, culminando com o retorno ao solo do conto de Clarice, já citado: justamente na prostração diante da própria felicidade (Laura, sentada, sem encostar no sofá, com as mãozinhas cruzadas, olhar perdido); talvez imitando seu lado livre, ou o único lado que lhe conserva a vida. (flores silvestres);
Teoricamente, somente obras abertas, fugidias do que chamamos estado “alegórico fechado”, podem se comunicar de modo tão intenso e completo; isto porque fogem do tematismo, da figuração metafórica que empobrece as relações literárias; em suma, as obras abertas se comunicam intensamente em nível de discurso; as obras alegóricas se comunicam abertamente ao nível temático, prejudicial e simplista.  A presente análise é descritiva e aponta elementos narratológicos, especialmente do foco narrativo, discriminando suas ocorrências.

a) CUIDADO AO SEPARAR NARRADOR DE FOCO-NARRATIVO; Levando em conta a distinção, sempre cautelosa e racional, entre narrador (pessoa, personificação, personagem que narra) e Foco-narrativo (voz, opção e decisão narratológica), no presente conto, existe uma analogia e, senão, fusão entre estes dois elementos. 

b) NARRADORA: FEMININO (COMPARTILHA AS MESMAS INDIOSSICRAZIAS). Em virtude desta fusão e do jogo provocador posto pelo narrador, enquanto outra pessoa discursiva é provável e verificável a hipótese de uma narradora. Feminina porque existe uma voz autobiográfica falando pelas “costas” da personagem, como um alter-ego. Tanto esta narradora pode ser instituída por um “outro ser discursivo”, quanto pode ser a própria consciência livre de Bertha. Aquela consciência crítica que dialoga com as infâmias e vilanidades que afligem à protagonista, determinada pela antinomia de uma possível personificação maléfica do que é tratado no conto como “Esta Civilização”.

c) ARQUINARRADOR: TRANSVERSAL E INVASIVO;

[...] o que denominamos arquinarrador intruso: arqui-narrador, por se tratar de um narrador que, fugindo das tipologias convencionais, extrapola o plano diegético em um singular procedimento de auto-referencialidade; e intruso porque, tal como o narrador machadiano, interpela o leitor, levando-o a não se esquecer de que o mundo que tem perante os olhos, embora se ancore no real, é fictício. (ANDO, Revista USP, 2008, p.03)

Pode-se citar a dupla “objetividade – subjetividade”: enquanto para alguns é considerada objetiva a narrativa em que o narrador é representado, para outros a objetividade está na apresentação de um narrador externo, não representado, que se intromete no relato. (CINTRA, 1981, P.21)

d) NEUTRO E IDEOLÓGICO;

NEUTRO: DESCRIÇÕES IMPRESSIONSTAS; afastamento da câmera e do foco para ampliar a cena objetiva e descritiva, constituir ambientação.

E os outros? Careta e Coroa, Eddie e Harry, colheres subindo e baixando, guardanapos tocando lábios, migalhas de pão, tilintar de garfos e copos e conversas.

Havia tangerinas e maçãs tocadas por manchas avermelhadas. Havia pêras amarelas lisas como seda, uvas brancas cobertas por uma floração prateada, e um cacho repleto de uvas vermelhas, comprado especialmente para combinar com os tons do novo tapete da sala.

IDEOLÓGICO: PARTICIPAÇÃO E PARCIALIZAÇÃO. O narrador emite sua opinião; legitima ou não as escolhas de Bherta:
“Você é um amor - um amor!” disse beijando o seu bebê tão quentinho. “Eu gosto muito de você. Eu gosto muito de você.” E realmente, ela amava tanto a pequena B

e) FOCO NARRATIVO: DIFUSO E CONFUSO; misturam-se a voz com a pessoa; narrador com personagem; Divergência entre a personagem e o foco narrativo; Vozes de posições diferentes:

Que idiota que é a civilização! Para que então ter um corpo se é preciso mantê-lo trancado num estojo, como um violino muito raro? “Não, isso de violino, não é bem o que eu quero dizer”, pensou Bertha correndo escada acima e catando na bolsa a chave [...]

f) INSCRIÇÃO GRÁFICA DE MARCAS DE IRONIA; O narrador registra as marcas de ironia e as escolhas tensivas decisivas da trama. É prazeroso ao narrador ver as intempéries da protagonista.

“Telefone para a senhora” - era a babá que voltava triunfante e agarrava a sua pequena B. Voando escada abaixo. Era Harry.

g) IMERSÃO EM BHERTA E MISS FULTON. O narrador não só tem o poder de introjeção na protagonista, mas como contempla, com sua consciência onisciente, a consciência também de Fulton; o que pode ser um blefe do narrador.

“Você, também?” - que Pearl Fulton, ao mexer a bela sopa vermelha no prato cinza, estava sentindo exatamente o que ela estava sentindo (Bherta).


h) NARRADOR INFLUENCIA A TRAIÇÃO. Participando deste jogo, a narradora leva Bherta a onisciência da traição; uma vez que a verossimilhança não permitia que escutasse a voz de Fulton de Harry (esposo), sua consciência roçou na consciência de ambos os traidores, conduzidas pelas mãos perniciosas da narradora.

[...] inclinada para o lado. Harry afastou bruscamente o casaco, pôs as mãos nos ombros dela e a virou com violência. Seus lábios diziam: “Eu te adoro”, e Miss Fulton pousou seus dedos cor de luar no rosto dele e sorriu seu sorriso sonolento. As narinas de Harry tremeram; seus lábios se crisparam num esgar horrível ao sussurrarem: “Amanhã”, e com um bater de olhos Miss Fulton disse: “Sim”.

i) ARQUINARRADOR: A consciência plena de um narrador ideológico, decisivo e imprescindível à existência de Bherta, se dá na prova cabal da relação estreita entre ambas – Bherta e Narradora – que aflora no campo indicioso do discurso. A quem Bherta exclama? Quem é sua interlocutora algoz? O acaso?

“E agora, o que vai acontecer?”

   

terça-feira, junho 12, 2012

"SEMIÓTICA POÉTICA": AULA DE AGUINALDO JOSÉ GONÇALVES

O presente conteúdo é fruto das reflexões promovidas em sala de aula, na disciplina de "SEMIÓTICA DISCURSIVA", ministrada pelo professor Dr. Aguinaldo Josá Gonçalves, no curso de Doutorado em Teoria Literária, promovido pela UNESP / UNIR. As informações são resultantes de anotações de sala, com pequenas inferências.

I QUESTÕES INCIDENTAIS

Os presentes aforismo teóricos emergiram das aulas de semiótica discursiva. Estão construídos pela esteira de saberes literários da teoria poética, sob eixos de discussão binários: o temático e o discursivo. O Poético e o metalinguístico. A similitude e a contiguidade.

A questão da metalinguística na poética contemporânea pode ter sustentação na posição da crítica e teoria dentro do “escrever”; o artesão / escritor / teórico que escreve e “inscreve”, inserindo sua dicção e práxis dentro da produção. Com  que imbuída da criatividade na produção, inerente está a própria reflexão da arte na pós-modernidade, que coloca a produção em suspense, dialogando fora do corpo da poesia, constituindo sua criação. Sinteticamente, o discurso crítico e a reflexão teórica ficam parte da criação poética. Uma aporia desafiadora.

Do clássico até o romantismo é Alegórico e Analógico. Após, demarca-se a evolução para o Eixo da contiguidade no Realismo, inserido por Flaubert, Manet e Baudelaire.   

A similaridade é horizontal. Ela procura contato com o “ao lado”, o símile, o correspondente. A substituição dos termos por elementos não inerentes. A contiguidade é vertical. Ela implica uma decomposição em queda ou inclusão, como a escada.

Leitura obrigatória. “Alegoria no drama Barroco Alemão”. Walter Benjamim.

Autores da Modernidade. Edgar Alan Poe. “Um homem na multidão”; Baudelaire filtrou e catalizou grande arte da produção moderna, incluindo Poe. A exemplo do grande clássico "O Pintor da vida moderna".

Literalidade vem da força centrífuga. Literariedade é centrípeta. Centrífuga lembra Nortrop Fry em sua Teoria dos símbolos. Link com  “Marxismo e filosofia da linguagem” de Bakhtin. O signo refratário da literatura compõe o que chamamos gagueira (dicção literária). 

PERIGO. Tomar a leitura pelos mitos e símbolos. Semantizar ou diluir. O grande escritor tenta destruir os mitos e símbolos. Desviar destes. Procurar o signo estético que é o signo refratário, contrário ao signo reflexivo, que implica um sentido pobre.

O leitor deve estar preparado para receber a ruptura da literatura. A mobilidade do discurso literário é decantada pelo leitor. Requer a nossa mobilidade enquanto analista e professor de literatura. Segundo Aguinaldo, não devemos ser “apenas” professores de Literatura em tom menor. Interpreto que a atitude do leitor literário é a desconstrução do texto e sua reconstrução pela peneira dos recursos e processos inerentes à arte e suas especificidades, levando em conta “caminhos” teóricos e procedimentais.

O que é a teoria do imagismo? Correlativo objetivo, ou seja, a construção da imagem insólita. A imagem construída do conhecido pelo desconhecido ou do desconhecido pelo conhecido. Ex: “Dentro da perda da memória” de João Cabral de Melo Neto; é um traço da modernidade e não da pós-modernidade. Em outras palavras, similitude pela disjunção. Na pós-modenidade é o contíguo. O verso da pós-modernidade é a desconstrução contígua.

II QUESTÕES DE PRÁTICA DE LEITURA (MACHADO DE ASSIS, DOM CASMURRO)

Ler Dom Casmurro pela ótica do olhar. Função conativa constituindo o anti-romance. Os capítulos iniciais procedem distanciando narrador de narrado; autor de narrador; tudo pela função fática. Relação espaço e tempo em Bachelart. “A poética do espaço”. A espacialidade da casa. Casa da caverna do engenho novo.

Relacionar Fry e suas categorias narrativas por arquétipos com Dom casmurro e as estações do ano.

No capítulo II de Dom Casmurro, a casa do Engenho Novo é reconstruída para consolidar a cena, que simbólica, indica o caminho da traição. Construída o contexto, como inferido por Binho, o Simulacro abre-se e constrói-se para a encenação ou estrelato do narrador, que irá incitar suas “cenas”, não memorialistas, mas presentificações, reminescências a partir de uma condição psicológica ad quo. A construção da casa prenuncia a “vivência” para melhor constituir o autor / narrador, que depois quer transmigrar para um narrador / autor.

Discutir a enfabulação (tematização) em Dom Casmurro é limitante e no máximo pode chegar até o processo de composição de uma ambiguidade sublime. No mais, fica tudo: a discursividade como força motriz de elementos literários que, perseguidos, levam à literariedade.   

No capítulo “O PENTEADO”, o cabelo age como potência narrativa de uma sinédoque que leva à narratividade. O entrelaçar os fios, alisá-los procurando a linearidade, a bagunça para a manutenção da tensão fórica, traduz uma alegora clássica dentro da literatura universal.


III OSWALD DE ANDRADE: SOB A ÓTICA DO SEU RADICALISMO (Aguinaldo Gonçalves)

Fusionismo dos gêneros. Contribuição da radicalidade de Oswald dentro de seu projeto de modernismo. Mix hapening style. (estilos misturados e sintetizados).

Lirismo desconstruído. Anti-lirismo. Advindo de uma sucata. Manuel de Antônio de Almeida em “Memórias de um sargento de milícias”.

Degraus do verso Livre. Walt Whitman? Simbolistas e pós-simbolistas (Mallarme). TS Elliot e Ezra Poud e a consciência do verso livre e a imagística.