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sexta-feira, setembro 06, 2013

"O CRÍTICO AUTOR E O AUTOR CRÍTICO" com EVANDO NASCIMENTO E MARCOS SISCAR

O CRÍTICO AUTOR E O AUTOR CRÍTICO
by Rômulo Giácome

Qual a relação do crítico com sua própria obra? Quais os limites e intervenções da criação a partir do crítico-autor? Qual a convivência destas duas ações e personalidades? O presente texto discute estas questões a partir das respostas dadas pelos escritores / críticos Evando Nascimento e Marcos Siscar, na ocasião da mesa-redonda em que participei, ocorrida no 4º SILIC, em Vilhena, no dia 22 de Agosto de 2013. 

Com mãos sujas no tecido branco da criação o crítico autor escreve com medo. Medo da sua própria linguagem e do seu próprio projeto de literatura não se enquadrar no “projeto” de literatura desenquadrado de todos. A composição ou esta divisão entre o ato criador e o ato crítico parece que pode sim, caber em um mesmo corpo. O que muda é talvez a postura, ou a práxis que cada ação desencadeia. Assim ocorre com os renomados e sagazes professores / críticos / autores Marcos Siscar e Evando Nascimento. A pergunta central é: “onde liga o crítico e desliga o criador”; ou “onde liga o criador e desliga o crítico”, ou ainda “o crítico ligado junto ao criador” modula entre várias nuances de respostas possíveis.
Talvez para Evando Nascimento o ponto central é saber quando o “Crítico atua na própria composição”, intervindo na mente criadora ou no próprio produto final. Assim, constitui-se do querer saber os limites e (des)limites desta intervenção ao nível da composição, efetuada por ação de uma mente crítica, que na modernidade tem sido cada vez mais niilista. Parênteses meu (vivendo da evasão, o discurso crítico sobre a crise torna-se um circunlóquio ad infinitum, que não deixa outra razão senão escrever e produzir. A tensão provocada por esta angústia de entender a produção atual, seu pensamento e pensar, faz da criação a melhor forma de fazer crítica. A crítica na própria produção da obra. O que poderíamos entender como a práxis perfeita, na estreita relação entre o refletir e o fazer. No entanto, a criação nem sempre desemboca nas confluências da crítica literária e do pensar a arte. Muitas vezes ela é produto de sínteses de vozes, modulações ou emulações próprias e inerentes à própria arte, como é o caso do memorialismo ou auto-ficção).  


            Por outro lado, a posição de Marcos Siscar acabou por se moldar na premissa de que não são exatamente conflituosas as posições de crítico e produtor. Na verdade são complementares e intercambiáveis. Isto porque elas não atuam de modo independente. Elas se consolidam em momentos que podem se interseccionar, seja quando acontece o refinamento da produção final, seja no próprio pensar o projeto literário. O entendimento da criação enquanto diálogo crítico é uma situação de escritura original e formadora, constituindo as pontes com a literatura do passado e presente, definindo as vanguardas do futuro.
            Entre o crítico autor e o autor crítico, também surge a ideia do leitor ideal, tão amplamente revolvida por pensadores como Umberto Eco e Roland Barthes. Esta figura virtualizada na mente do criador de arte é uma identidade nos murais do marketing literário. Entender este perfil de leitor, livre, não açoitado pela ideologia acadêmica, livre da docência e suas marcas ideológicas, abstêmio das teorias e sistemas teóricos da esquerda e direita, dos fluxos de poder, das formações discursivas que criam empatia, dos recursos midiáticos de compra e proliferação da cultura livreira neste país, talvez seja a grande utopia do criador em busca do seu leitor.

            Talvez o leitor ideal é aquele que consome a literatura sem propósito, livre de pragmatismo e bandeiras. Frui o texto com a atenção do gozo e se alimenta dos diálogos com o prazer.  Bancários e Contadores, leitores de Rubem Fonseca e Dalton Trevisan. Juristas que se deliciam com Camus e Kafka. Mesmo que não queiramos, o fio fino de náilon liga um perfil a uma coisa, e esta coisa é o livro.
            O leitor ideal não fundamenta estruturalmente a obra que lê, mas conta sua experiência com o maior dos entusiasmos ao todos; esta obra vagueia pelas mesas de bar e pode entrar em casas antes não acessadas; podem parar na mão de adolescentes e, de repente, não mais que de repente, chegar em um programa de entrevistas aparentemente culto de um canal fechado.
            O leitor ideal dialoga com o hoje: o econômico e o cultural, como assim queiram os partidários de Jameson. O autor de hoje nem sempre é o crítico literário. O autor de hoje nem sempre compartilha academicamente da literatura. Mas não o pode ser se nunca fora um crítico. Crítico na melhor acepção possível. Talvez na acepção romântica que Benjamin trata em seu estudo “O conceito de crítica de arte no romantismo alemão”. Crítico no átimo da acepção “pensar a criação literária”.


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