MENU PRINCIPAL

quinta-feira, março 24, 2005

A TEORIA LITERÁRIA: Pontuando Acízelo

SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura. 5.ª ed. Ed. Ática: São Paulo, 1995.

PONTOS NODAIS
Por. Prof. Ms. Rômulo Giácome O Fernandes


1.Sem uma teoria, a literatura é o óbvio. (pág 05)

A literatura é um objeto científico que possui variadas formas. Por ser construída pela linguagem e, esta possui uma configuração variável, depende de vastos fatores para uma teorização competente. Em primeira instância poderíamos considerá-la como aberta a lacunas. Estas lacunas devem ser preenchidas pela teoria. O discurso literário se constrói através de um discurso que o sustente. Analisar a obra, ver suas possibilidades de leitura, explicar seu funcionamento são práticas da teoria literária. A teoria literária faz com que a obra tenha um sentido científico. Pois a considera objeto de pesquisa e para tanto procura metodologias que consigam estudá-la.

2. Pode-se teorizar sobre a literatura? (pág 08)

O problema de encontrar respostas ou conceitos para literatura está no fato de que ela é um problema aberto a vários questionamentos. Como tal, também está aberta a várias metodologias. O dia que a resposta à pergunta: O que é literatura?, for dada em definitivo, ela deixará de ser literatura e perderá sua importância. A literatura está como uma pergunta ao mundo e não uma resposta. Sendo assim, problematizar a cerca da obra literária e teorizá-la, pois se abre questionamentos a fim de respondê-los. Logo, a literatura é um dos objetos científicos de maior teorização.

3. Normativismo versus Descritivismo. (pág 12)

Normatizar é impor regras de construção da poética, ou tanto quanto apresentar conceitos que indicam um “certo” ato de escrever. Foi muito utilizado antes do Romantismo e principalmente antes das novas concepções de arte como “ofício da linguagem”.
Descrever é reconstruir e explicar os processos que foram utilizados no ato da criação poética. Teve seu apogeu no Romantismo, quando a criação era livre, sem normas, e principalmente na inovação dos estudos da linguagem.

4. Estudo: O estudo é entendido como a explicação científica e metodológica a cerca do objeto literário. Analisa-se, compara, explica e descreve sistematicamente o objeto artístico verbal. A fruição é a leitura desinteressada das questões científicas, uma leitura pelo prazer do texto, pela necessidade individual.

5. As disciplinas que estudam a literatura descendem de uma história científica sobre o assunto. Seguem a ordem cronológica:

a) Poética: Formação clássica (greco-romana) com Platão e principalmente Aristóteles. Criou os primeiros conceitos para o estudo da literatura. Era mais normativista e dependia diretamente das obras (limitadas) da época clássica. Perdurou por vários séculos, um pouco depois do renascimento.
b) História da Literatura: Com o advento do Renascimento e a valorização do saber científico, sistemático e racional, bem como com as eternas lutas entre os poderes, a sociedade, as religiões, a história passou a ser uma disciplina dominante no estudo literário. O século de 1700 já iniciou a rachadura nas visões poéticas clássicas, demarcando que era ora de uma nova modalidade de estudos literário entrar na questão. A história literária poderia ser compreendida em suas três vertentes mais fortes: O biográfico-cronológico e depois biográfico-psicológico no século XIX (1800); O sociológico e o Filológico. O apogeu das vertentes agora citadas foi o século XIX. É bom ressaltar que os estudos literário também passaram a ter mais importância científica, surgindo o nome Ciência da Literatura.
c) Crítica Literária: “Em vez de a reflexão estabelecer normas relativas à literatura, o que se busca é descrever os fatos, ao mesmo tempo em que se desenvolveram esquemas explicativos sobre suas origens e causas, bem como sobre seu processo de transformação” (pág 31) A crítica literária viria a ser a grande disciplina da literatura até um pouco antes do surgimento do termo Teoria Literária. Ela era responsável (nos fins do século XIX até os dias de hoje, salvo as suas modificações) por não só interpretar a obra, mas também por dar-lhe condições de propor mais sentidos, de explicar como estes sentidos surgem, como a obra foi construída e comparar as obras entre si para erigir um discurso crítico.
d) Teoria da Literatura: O nascimento deste nome não marca apenas uma nova terminologia das ciências que estudam a literatura. É também uma mudança de postura frente à obra: uma postura mais científica, mais enriquecida pelas novas ciências e mais posta a tratar somente do objeto literário, com status de nova ciência. O emprego deste termo surge com o lançamento da obra Teoria da Literatura (1942) de Austin Warren e René Wellek. Não sem antes terem sido publicadas obras como Teoria da Literatura (1925) de Boris Tomachevski e Notas para uma teoria da Literatura (1905) de Alexander Portebnia. Esta disciplina chamada Teoria da Literatura evoluiu até os dias de hoje, sendo uma ciência com métodos e objetos bem definidos.
e) Andando paralelo às disciplinas citadas acima, ora contribuindo ora limitando as visões literárias, temos duas disciplinas específicas: a retórica e a estética. A retórica lida com os recursos e elementos constitutivos da argumentação, da persuasão. A estética lida com a categoria do belo.

5. A Literariedade. Existe uma dificuldade muito grande no ato de detectar uma obra literária. Saber o que é e o que não é literatura sempre foi motivo de muitas discussões. Olhamos um texto e perguntamos: é literatura? Detectar a literatura em sua porção externa é procurar literatura no lugar errado. Por esta imprecisão de método, muito se tem errado no diagnóstico literário. Você pode muito bem fazer uso da crítica já existente, pois quando lhe perguntarem se tal texto é literatura ou não, basta saber se alguém já o analisou antes. Drummond é literário em primeira instância porque a crítica já o avaliou. Mas quando não temos muitos subsídios externos para avaliação, o ponto de partida é a linguagem. Então não perguntamos se aquele conto é literatura, mas sim se ele é literário. Ou seja, se ele possui todos os requisitos essenciais que a obra de arte verbal deve conter. Se existe trabalho com a linguagem, uso da seleção e combinação, polissemia e toda a gama de conceitos da Teoria da Literatura. Logo, ao conjunto dos elementos que fazem com que a obra seja literária chamamos de LITERARIEDADE.

sexta-feira, março 04, 2005

Semiótica e Literatura: uma parceria perfeita

Olá a todos os leitores;
Já faz tempo que não escrevo e pretendo tirar um pouco do atraso;

O título fala muito aos nossos ouvidos letrados: a combinação semiótica e literatura data já de algumas décadas e fica cada vez mais forte; Vejamos quais são as causas disso:
Quando a arte literária tentou romper com o clássico, que de regra traz sobre si toda a plataforma da retórica, (uma espécie de normatividade da linguagem), traços de um humanismo racionalista elitista, e de uma estética amarrada aos valores míticos e harmônicos, o homem tentou lidar melhor com a liberdade criadora e leitora; esta liberdade de criação já estava prevista no Romantismo, período que tem seu cânone amarrado à "liberté";
o problema é que o Romantismo ainda não possuía uma linguagem que estivesse à altura do projeto de liberdade; esta linguagem ainda representava muito próximo o real e o verbal. É possível acreditarmos que o verbal tinha pequenas imperfeições como linguagem artística. Foi nesta lacuna aberta pelo Romantismo, problematizada pelos simbolistas que entra a voz forte de Mallarmé: ele percebeu as imperfeições da língua verbal como portadora de sentido poético, e tentou criar uma nova unidade de significação que fosse mais forte do que o aparato verbal. Acreditava Mallarmé que esta unidade tinha que possuir uma polifonia, tanto na esfera formal quanto da constituição dos conteúdos a ela veiculados. Logo, temos o surgimento do Símbolo (simbolismo) na literatura: uma unidade que tivesse porções verbais, sonoras e visuais, em um cruzamento sinestésico de sensações que possibilitasse o engendramento de todos os recursos da linguagem.
È possível percebermos que no discurso de Mallarmé, no seu grandioso poema Lance de Dados, o simbolismo vinha para destruir a língua na arte literária, destruir o verbal e possibilitar a nova linguagem.
Ora, tínhamos então a concatenação de interesses comuns entre a semiótica moderna e literatura de vanguarda: uma linguagem desengajada da noção antiga de língua, pautada na diversidade da linguagem polifônica, seria o objeto ideal para o estudo semiótico, visto que esta disciplina passou a dedicar-se a qualquer tipo de linguagem que possuísse uma constituição sistêmica, oriuda das definições estruturais de signo e sentido.
A fome com a vontade de comer teve seu ápice com as novas teorias concretas e neo-concretas de Décio Pignatary, Haroldo e Augusto de Campos; Em sua obra "A arte do horizonte do Provável" Augusto disseca as possibilidades de aplicação da semiótica para uma nova visão de linguagem, de crítica literária e de teoria de suporte ao objeto artístico.

A desfragmentação na linguagem artística fez com que a crítica se pautasse não somente em estilo, mas também na composição, teoria do arranjo, onde os componentes devem fazer parte do sistema, determinados por uma dominante nítida, operando nas estruturas.
Escolas literárias como o concretismo, pós-concretismo, simbolismo, modernismo de 45, poesia marginal, e pós-modernidade de 80 não poderiam estar sendo estudadas pela antiga "lingüística" do código verbal, visto que a linguagem verbal era apenas uma "parte" do poema;
A semiótica, pela sua lida insana com os códigos não-verbais, passou a vislumbrar os sistemas e suas composições, criando um discurso crítico pautado na metalinguagem e desconstruindo e reconstruindo a poética através de modelos estruturais.

Nesta concatenação de ideais, a semântica foi a disciplina que mais cresceu na atividade crítico-literário, visto que o estudo dos sentidos não estava mais arbitrariamente ligado ao sistema histórico-crítico, ou seja, a eterna luta pelos conteúdos sociais e humanitários que tinham por obrigação um fundo lógico operacinal sobre o real. Agora, o sentido faz parte do individual-coletivo do leitor, fecundando o que a arte tem de geradora no interior das assimilações e leituras, abrindo as possibilidades de interpretação.

Os autores que tiveram maior influência nos estudos semióticos para a compreensão do objeto literário artístico podem ser descritos na lista abaixo, (que está extremamente incompleta):

Levy-Strauss --> Fecundou a noção de arquétipos para o entendimento dos sistemas literários;
Todorov --> Alimentou os estudos estruturalistas dentro da poética, descortinando as possibilidades da narrativa e da poesia; continuou fazendo crítica semiótica-estruturalista;
Roland Barthes --> Crítico eclético, que muitas vezes compunha crítica tendo em vista polos Marxistas e Psicanalíticos, utilizou a semiologia com ferramenta mor.
A. J. Greimas --> Criou os sistemas de significação literária; os conceitos de modulação; as relações actanciais; O quadrado semiótico e a semiótica das paixões;
Claude Zilberberg --> Criou o sistema binário de significação, as relações tensivas, o proto-sujeito, o proto-discurso;
Tinianov --> Remodelou os estudos semióticos estruturalistas; implantou a noção de cultura dinâmica e sistemas correlatos;
Lotman --> Redefeniu a noção de elementos pré-simbólicos; aludiu aos sistemas de contenção de sentidos; a intermediação da cultura e do saber semiótico;

Atualmente, estudar a semiótica é uma necessidade básica do lingüista que deseja compreender o fenômeno pós-moderno da língua; A língua perdeu parte de seu poder comunicativo, que hoje se dá por intermédio de mais elementos sinéticos e alegóricos, convencionados em milésimos de segundo e depois destruídos; culturas inteiras, complexas que nascem e morrem em menos tempo do que demoramos para aprendê-las; a vacuidade da língua e a nova dimensão da linguagem faz da semiótica a disciplina mor da nova era da comunicação, incluído aí as artes.
Prof. Rômulo Giacome Oliveira Fernandes (04/03/2005)