segunda-feira, abril 24, 2006

O FIM DA CRIATIVIDADE OU PÓS-MODERNIDADE?

ONDE NASCE A VANGUARDA E CHORAM OS DEUSES
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Existe um fim para a criatividade? Ou a criatividade é um fim em si mesma?

Vivemos um tempo em que muito já foi dito e muito já foi experimentado; muitas formas já foram utilizadas, mas antes de tudo, os conteúdos e temas já foram batizados variadas vezes na foz do Rio Jordão;
Talvez tenhamos tido conflitos demais, assuntos demais para debater,
o que afugentou de certa forma o poeta e/ou artista induzido a imaginar que ainda poderia falar de tudo, sem antes cair no erro de que muito ainda falta; ou por outro caminho hipotético, os conteúdos e conflitos são sempre os mesmos, e tomam pouco espaço no rol textual; o que acontece que tudo o que já foi experimentado, reiterado, re-utilizado, já não imprime idéia de criatividade;
vivemos o fim dos tempos? Este problema é cientificamente abordado, criando o conceito de "crise do esgotamento".
Ao de se procurar novos signos para a arte; novas formas de combiná-los; formas de chamar atenção dos críticos e dos fruidores; Mas na crise do esgotamento que nosso aparato semiótico encontra-se, somente dois caminhos parecem, se não corretos, justos: a DESCONSTRUÇÃO ou o PASTICHE;
O primeiro é um sopro de renovação; prescinde do experimental e da ousadia;
tem como método evitar os clichês da estética, evitar o automatismo do belo consolidado pela cultura; desaperecer com as formas vencidas e qualificar o impresentificável; tem como técnica o neologismo; a criação de novos signos; o uso de signos que ainda não puderam ou não foram, de modo ousado, utilizados em contextos artísticos; criar novos cenários de criação para inserção de signos antigos, e criar signos novos em condições antigas; (talvez) seja a maneira técnica de criar uma nova língua artística; um novo idioma, onde o código secundário da arte possa novamente reerguer; somente a partir de um novo idioma, carregado da poeira de um idioma primeiro, poderemos ter ambiente favorável ao novo; Nessa desconstrução do verbal já vinham caminhando o simbolismo e concretismo; nesse esteio formado pelo ato transgressor do império de um novo código, caminha a propaganda, o desenho animado e o cinema;
A outra vértice do problema está no PASTICHE; sua proposta é sedutora, mas recai na responsabilidade de evitar a antropofagia da arte; comer a própria pele; evitar o consenso, o senso; Pegar o que já foi consolidado sempre é morbidamente um ato parasitário; novas roupagens são importantes quando preenchem as lacunas deixadas no momento da elocução primeira; seguida dos mesmos erros a arte re-feita ou re-elaborada é um profundo abismo de criatividade;
Reflexões lançadas, veremos o porvir;
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Seguem os links para estudo do Pós-modernismo e Pós-Modernidade:

PRESSUPOSTOS DA PÓS-MODERNIDADE

TÓPICOS PARA ENTENDER O PÓS-MODERNO

domingo, abril 09, 2006

A ESTÉTICA DA VIOLÊNCIA

Olá a todos!!!
epígrafes da semana:

"Ninguém vai me dizer, o que sentir, meu coração está disperso e é sereno o nosso amor e santo esse lugar(...)estive cansado, seu orgulho me deixou cansando, seu egoísmo me deixou cansado, minha vaidade me deixou cansado, não falo pelos outros, só falo por mim"(...) Marisa Monte & Renato Russo

“A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer
ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível”.
M. Foucault

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Esta postagem terá como âncora a primeira parte da trilogia de textos sobre a estética da violência; usando como objetos de análises três filmes, a saber: Clube da Luta, Laranja Mecânica e Assassinos por Natureza, a proposta inicial é instigar uma leitura estética das impressões causadas pelo arranjo semiótico das referidas construções cinematográficas; baseia-se na conjunção de forças interpretativas e representativas, para lançar luz ao desafio da violência como motivo estético; esta primeira parte compreende a análise do Filme Clube da Luta (1999);





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A ESTÉTICA DA VIOLÊNCIA


(Tyler Dunder)

você não é um ser bonito e admirável.
você é igual à decadência refletida em tudo.
Todos fazendo parte da mesma podridão.
somos o único lixo que canta e dança no mundo.
você não é sua conta bancária.
nem as roupas que usa.
você não é o conteúdo de sua carteira.
você não é seu câncer de intestino.
você não é o carro que dirige.
você não é suas malditas "gatinhas"
você precisa desistir.
você precisa saber que vai morrer um dia.
antes disso você é um inútil.


Mas!? E o que é a violência? Vc se descobrir falando mal do outro talvez seja um ato de violência? Como saber o peso das ações se estamos a fazê-las? Existe violência no presente para quem faz?

Romper sempre foi selar às avessas um novo modo de perceber as realidades. Perceber a realidade que nos circunda, em certo modo e grau, é derrubar barreiras instituídas à séculos: linguagem, simbologia, mitos, costumes e culturas. A realidade nua é a simples impressão direta. Um cheiro, um contato, um murro. Quantos contatos precisamos ter para sabermos que estamos vivos? Escondidos nas barricadas que construímos, barricadas de pseudo ideologias, pseudo comportamentos. Um abraço em um doente de câncer que perde seus testículos (Bob); chorar no ombro de um tuberculoso nos faz sentir vivos ou potencialmente próximos da morte? Bem, norteando a idéia inicial, tocar o real ou a realidade (concepção) é de certo modo deixar viver, deixar ser livre, ou deixar morrer. Mesmo que em modo de farsa. Mas, e quando tocar simplesmente não tira a insônia fantasmagórica do operário padrão? (Personagem de Edward Norton) Um soco seria muito mais consistente. Um soco acordaria o que sempre se manteve dormindo. Socos e socos trocados. Sangue e dentes caindo da boca; crateras abertas e simplesmente viver ou deixar viver; o soco acorda o Tyler Durden
perdido; sempre existiu maculado ou surgiu agora? Bem, a questão é que sentir não proporciona lugar estável com o parecer, e nem com o sucumbir; apanhar ou bater são simplesmente a mesma coisa (vide cena que Tyler se deixa apanhar pelo dono do estabelecimento, ou quando ele pede para que todos do clube saiam apanhando). Violência é bater? Violência ativa ou passiva? Receber a proposta de um modo de vida único, aceitar as regras de uma sociedade sem regras; macular a vontade de existir escondida dentro da simbologia de uma cultura atônita e desgovernada; a violência simbólica talvez seja mais intensa que a violência nua e crua; caçar na quinta avenida; espalhar carne de veado pela pista abandonada; que tipo de violência se permite sentir e tocar o tocável?
Bem, tudo são descobertas; sentir-se violentado não é maniqueísmo; sentir-se acorrentado à sistematização da cultura é acordar, e acordar é refletir, de certo modo; o que Jack fez foi acordar para o corte; negar o ter pelo ser é premissa por mais simplista; consumista e perturbado, Jack não tinha motivos senão escolher a dor e a morte; escolher o inconcebível no mais profundo do desespero; satisfazer a necessidade de vida é denegrir a vida em sua máxima possibilidade possível; não teme-la; não lhe ser escravo como se é dos móveis da moda; dos eletrodomésticos; do apartamento, do consumo; evitar a vida é cruzar a rua sem olhar para o lado, como fez apersonagem Marla. É soltar o volante e deixar o carro bater em outro carro, como na seqüência; escolher entre a geladeira e levar pontapés não distingue valores morais de nada em relação a nada; a discussão essencial é saber quem exatamente somos e o que podemos fazer sem perceber que fazemos; encontrar-se a si mesmo é levar um tiro na cabeça; Como diz o excentrico Tylor Dunde: "O desastre faz parte da minha evolução natural rumo à tragédia e à dissolução. Estou rompendo meus vínculos com a força física e os bens materiais, porque só destruindo a mim mesmo vou descobrir a força superior do meu espírito". Se deparar com Tyler no quarto é ver a fagulha da lembrança do ato impensado com a família, com o amigo ou com quem quer que seja; defrontar com nossas atitudes, tal qual se pudéssemos defrontar com nosso alter-ego, seria perceber todos os nossos defeitos e acertos, e isto é utópico; destruir o modo de vida americano é por demais fácil; toda megalomania tem brechas na própria excentricidade. O espetáculo de prédios caindo ao som de Pixies é por demais antológico; A noite, as luzes dos prédios são como olhos que deixam de ver; Mas, o difícil é se confrontar e saber que o rastro de sangue foi nós que deixamos;
Por outro lado, o projeto subfragra a mente; absorve o ser; existe ignorância na razão? O anonimato de um projeto comunista de revolução; pessoas que (des)nominalizam pelo “bem maior”; mesmo que o bem maior seja a própria realização de uma pseudo ideologia; as esquerdas e direitas são minorias na sociedade; não existe um por vir, existe um acto in actante; (tempo agora); a representatividade de fazer parte de algo maior, de fazer parte de algo que circule uma necessidade, um algo mais que ative a inatividade, um fazer bem sem resultado; é isso que sente aqueles homens que unidos à Tylor planejam os pequenos atos de vandalismo, terrorismos ou que quer que seja; quebrando obras de arte, pinxando, explodindo computadores, e colocando bombas em dez prédios; planejam sem planejar; são manobrados por uma mente diabólica que se acha no pique entre um certo e um errado; como faz toda ideologia; mas eu digo, argumento errado meu caro Jakc/Tylor!! o epicentro do tremor está na resolução da carne, no primitivismo que incitou tudo; na força que movimentou o grupo a se unir para brigar, unir para montar o projeto; esta força motriz que uniu o clube da luta não é ideológica; ela é puro instinto;
Bem, em suma, o sangue não é tão bonito assim; mesmo que as formas na violência sejam abertas, claras, braços em movimentos longitudinais cortando o espaço, tornando-se componentes sistemáticos desse mesmo espaço; cores e cortes abrindo mentes e cabeças; o sangue dá o ar espectral; mesmo que toda esta estética do sangue soe como um elemento americano; mesmo que ela soe como violência pela violência; mesmo que no subtexto seja uma crítica ao modo “americano” de viver; mesmo que seja a negação do parecer, a negação do possuir e do “representar”, este sangue não tem cheiro e nem cor ideológico; é só o sinal de que algo está aberto na carne; é como um aviso biológico quando a razão tarda e falha; mas será que este corte estanca, ou se faz necessário estancar?

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Uma boa dica de música, para este momento / instante é a ótima banda
"Clap Your Hands say yeah"; o furor melódico aponta para um caminho delicioso; Songs como "this it love" e "heavy metal" compensam à primeira audição; nascida do apontamento indie provocado pela maciça profusão de Blogs, mesmo que no volátil mundo da Net, onde tudo nada vive, a obra demarca um grito de criatividade em meio ao Pastiche / brincolage dos novos tempos; não é o "novo eon", mas é gostoso e simples, em suma, deliciosamente interessante;



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Só para retomar a onda pintura reinante aqui neste espaço,
e (ela não deve morrer jamais) coloquei estas duas telas de Miró,
artista ainda não comentado por aqui;
a efusão de cores alegres e sobressaldos de modelagem já apontam para um caminho da regularidade, mesmo que fugindo ao tom do primeiro momento abstrato; para Miró a arte deve ser feita com prazer; mas, meu caro Joan Miró, mais prazer é ver seus trabalhos, que soam como pontos luminosos no escuro da razão; magníficos; a conjunção entre o ser Pop e ser Belo;





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Abração à turma do Sétimo Período, que vive o momento
práxis da carreira; beijões;
rômulo

segunda-feira, abril 03, 2006

ALGUNS PILARES DA TEORIA DA LITERATURA CONTEMPORÂNEA

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Poema da Semana: e que semana!
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quando andamos no solo
seco solo tênue próximo
as linhas do caminho se fecham
e se cruzam por sobre elas mesmas;

fundem-se na pele o ferro e flutuando
o contorno da estrada circula no vento
e faz-se alto girando luminoso de fronte
formando uma auréola sufoca a cabeça que
pesada cai na terra da estrada
sem caminho formando o pó e mais nada

onde estaria no leito a acabar
sabendo que pedaços sensíveis
despedaçadas epidermes sofrem o peso
sufocante da escolha e da vida afora
correndo diante do vazio que agora

enegrecido pelas formas invisíveis
pedem um pouco de mim onde mim
mesmo estaria desperto a acordar
sem saber que o frio não corta
nem o fogo queima só o vazio silencioso
que marca o espaço, definha o sonho e
destrói a última gota de lembraça
ficando o resto, ainda, a contemplar
as sobras do tempo e da consciência
com a cara na lama, os pés na merda
a cabeça pendida ainda pedindo
e ainda mandando um recado à felicidade
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Conto: Ainda que dure a esperança!
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COMPRIMIDOS

A sacola comprimia meu peito. Estava cheia e pesada e por isso ficava a balançar, passando de banco em banco, olhando de soslaio a moça que estava atrás. Fazia um barulho infernal, um barulho de martelos e pregos. Os pregos comprimiam meu peito, por dentro. O sapato preto, respingado de lama falava do dia anterior, falava em preto e branco. Ainda lembro quando ganhei estes sapatos. Décadas talvez, tempos diferentes. Mulher e netos. Sentia-os nos pés mostrando-me lembranças fulgazes de mato, lama e crime. O sapato comprimia meus pés, acordavam meu inconsciente. Os sapatos estavam vivos em meus pés mortos. De longe olhei aqueles sapatos sujos de viagem: seria um trabalhador? Seria um ambulante, um andarilho? Bem, viajava. Ansiava por isso desde a infância. O dia em que iria sair de casa, destruir as últimas réstias de lembrança daquele lugar. Os murros, as lágrimas, os gritos. Já não agüentava ficar sentada, nem quieta. Já escutava aquela voz imperiosa a pedir, a ordenar, a mandar que fizesse alguma coisa. Mas eu nunca havia pedido favor algum para ninguém, porque tinha que fazê-los a todos?. Bem, pensar não é libertar-se. Pensar é amargurar-se. Os cabelos longos tocavam minhas costas. Tinha-os pintado. Ainda restava em mim algo de beleza, mesmo que ninguém falasse. Tocavam e pensava o que queriam? Mas. O que queriam todos ali? Uma mulher de cabelos longos, negros e com ar cansado. Perguntei-lhe: falta muito para chegar? Não respondeu, nem olhou. Devia estar cansada de responder aquela pergunta. Devia estar cansada de alguma coisa. Um velho segurava uma sacola. Como pesava aquela sacola. Como ele se agarrava a aquela sacola, de modo tão forte e tão intenso, que ela parecia que iria escorrer das suas mãos. As mãos tremiam e comprimiam a sacola contra o peito. Se todos aqueles soubessem o que me fazia bem e mal. Se todos aqueles soubessem o que tomo para escapar da dor. Já não via mais nada além da luz depois da curva. Todos viam aquela luz intensa, um farol em sentido contrário ou anjos?
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CONCEITOS CAPILARES DA TEORIA LITERÁRIA
Prof. Ms. Rômulo Giácome O Fernandes

1. A literatura está no rol das artes, e por ser antes e tudo expressão artística, ela não tem contato ou obrigatoriedade de o ter com a verdade ou até mesmo com a mentira. A arte possui apenas uma verossemelhança, ou seja, possui uma ligação estrutural ou dialética com a realidade, visto que ela imita (mimese) ou recria esta suposta realidade.

2. Por estar consolidada como arte, possui uma perenidade temporal inatingível; é sempre universal, uma espécie de novidade que permanece sempre novidade. A resposta para este poder universalizante está em alguns fatores, como: a) a literatura não fala de coisas, ou de elementos datados; ela fala por categorias: dores, dialéticas que sempre existiram em qualquer tempo ou espaço. b) é feita de linguagem e portanto é um jogo que pode sofrer mudanças nas regras e possibilitar novos sentidos em qualquer época, visto ser de código aberto (sistema modalizante secundário). f) Possui face metalingüística: está sempre falando dela mesma (em uma observação profunda) e está sempre discutindo a arte pelo simples fato de o ser.

3. A Arte evita funções definidas; mudam-se as teorias, os códigos políticos e humanos, mas a arte está sempre situada naquele espaço exigido pelo lúdico, pela fantasia, pela necessidade de algo mais que a cultura pode oferecer além das necessidades biológicas e afetivas. Ela é o supérfluo necessário da cultura humana.

4. A literatura é antes de tudo linguagem conotativa; um conjunto de códigos que juntos em organização estética tornam-se pulsares de novos sentidos e sensações. Esta linguagem opera no campo conotativo da interpretação. Portanto ela é passiva a criação de novos códigos inventivos, a novas definições e a possibilidade de alimentar enigmas de sentido. Para reforçar, o campo conotativo é o hemisfério dos múltiplos sentidos, além dos sentidos atribuídos categoricamente pela denotação.

5. Modulação: justamente o processo pelo qual o signo multiplica suas possibilidades, saindo dos graus primeiros da escritura, perpassando ao abstrato. Em outras palavras, evoluir o signo até o máximo grau possível de significado: do grau zero da escritura, onde, utilizando um exemplo simples, o lexema “prego” temos que no denotativo prego é prego de pregar, até a possibilidade do prego ser alguém muito idiota (ambigüidade) grau 1; subindo até o prego da cruz (grau 2), e o que representa nela (misericórdia) grau 3; Notem que esta evolução propicia ao texto ter polissemia, pois admite uma variedade maior de possibilidades interpretativas

6. polissemia: é a virtude lingüística que o texto possui de admitir variadas leituras, possibilitando ao signo agregar um maior número possível de significados mediante diversos contextos de significação; ora, cabe aqui lembrar que uma das grandes “operações” semióticas da literatura é a polissemia, visto que um poema não busca uma mensagem específica; na realidade as grandes obras habitam o céu do espaço cultural como estrelas que propiciam dezenas de leituras a quem as quer utilizar;

7. Interpretação e compreensão: Quando encaramos a interpretação como a operação de recepção e assimilação de conteúdos que podem ser descartados ou não, acrescentados ou não, segundo nossa idiossincrasia (nossa subjetividade) percebemos que diante de um poema que se apresenta carregado de sentidos até o máximo grau possível (POUND) a única alternativa possível é a interpretação; a compreensão total de um enunciado literário parte da crença de que um poema possui apenas um sentido e que este pode ser apreendido na íntegra; devemos evitar a compreensão do texto literário, naquilo que o termo tem de limitador das possibilidades de sentido.

8. Em literatura, o autor mesmo que esteja vivo, deve estar morto; não devemos nos preocupar com o autor; o sentimento proposto no momento inicial da enunciação já não é o mesmo no resultado final da leitura, uma vez que se está a séculos do momento do autor, o ímpeto autoral já não tem mais sentido. A única ambição do verdadeiro autor é a expressão; a representação de sensações que possam ser reproduzidas pelo leitor; ou senão criadas a partir de uma sugestão dos signos. Vejamos o que diz Fernando Pessoa a Carlos Drummond de Andrade: O poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente. (FP) Dizem que finjo ou minto / tudo que escrevo. Não. / Eu simplesmente sinto / com a imaginação / não uso o coração / Sentir? Sinta quem lê! (FP). Tua gota de bile tua cara de gozo. Isto ainda não é literatura. Tua infância (...) deixes tua cidade em paz. (CD).

9. A linguagem literária é um código por sobre um outro código ainda, assim sucessivamente. Este caráter modular da linguagem poética permite fazer referências onde ninguém faz por achar impossível. A literatura admite o que aparentemente é impossível pois para ela aquilo é apenas um recurso de expressão. “Ler poesia para mim é desaprender”. (Manoel de Barros). O fato da linguagem por sobre a linguagem; a forma sobre o conteúdo e logo depois o conteúdo passa a ser forma de um novo conteúdo são camadas já previstas por poetas como Fernando Pessoa. Ex: AUTOPSICOGRAFIA; ISTO. A dor sentida pelo poeta, a dor fingida, a dor lida (expressa) a dor do leitor e a dor não tida a dor do devir. O que falha ou finda em Pessoa é um terraço por sobre outra coisa ainda. Notem que ele afirma que esta coisa ainda é que é linda; o conteúdo por sobre a forma que já era um conteúdo por sobre outra forma, em uma relação intensa de imagem por sobre imagem, conceito por sobre conceitos.
10. A natureza da verdade e da imagem poética está na contradição; poesia é contradição; dialética com a realidade (os ombros suportam o mundo / e este pesa menos que a mão de uma criança, Carlos Drummond); ruptura com seu tempo através da novidade; perversão semântica (a cigana analfabeta / lendo a mão de Paulo Freire); desconstrução da imagem; (pingos de vc mancham a minha camisa branca, Rômulo Giacome)

11. O todo literário é formado pela junção de forma e conteúdo; a forma é o suporte material, o significante; aquilo que é organizado de forma sistemática com a intenção de atingir sentidos no leitor pressuposto; o conteúdo foi o resultado atingido pela forma e com ela (o significado); os sentidos, as suposições, os pensamentos, os sentimentos resultantes do processo; è bom frisar que as imagens constituídas na mente do leitor ainda são formas; “o campo de futebol com um elefante rosa”;

12. Literatura é pensar por imagens; não existe um poema sem a realização imagética;

13. Literatura como música e ritmo; o primeiro passo para evocar o sentido de um poema é lendo-o em voz alta; dessa forma vc percebe sua musicalidade (melodia e sonoridade) através da entonação e dos recursos como aliteração (predominância de sons consonantais), assonâncias (predominância de sons vocálicos) bem como silepses (sons de s, f e z); O ritmo é importante pois demarca onde o texto que acentuar;

14. Captamos o sentido do poema pelo visual, sonoro e conceitual; até chegarmos no sentido do poema devemos realizar sua parte material; suas imagens e seus sons, chegando até seu conteúdo; Ezra Pound chama essas faces de Melopéia (sons), fanopéia (imagens) e logopéia (conceitos);

15. Função Poética é a projeção de equivalência entre o eixo de seleção e o eixo de combinação; (Roman Jakobsom); é quando o poeta consegue cruzar forma e conteúdo de modo perfeito; a palavra “sais” Possui uma equivalência entre o seu som (sibilantes que lembram o sal) com o seu sentido denotativo.

16. Literariedade. É a característica essencial para que possamos afirmar que um texto é ou não literário; a literatura é uma eterna problematização; sempre estamos perguntando o que é literatura, como é a linguagem literária; para obter respostas devemos estabelecer critérios dentro da própria obra, do seu caráter inerente, da sua composição intrínseca (dentro do texto) mais do que extrínseca (fora do texto);

Aqui vão mais alguns conceitos importantes a serem eternamente lembrados:

- A linguagem literária está centrada sobre um impacto constante, uma mudança de valores, um trabalho sobre o código em que opera;
- O caráter paradoxal da linguagem literária é proveniente de seu caráter tensivo (oposições)
- "interpretar é escolher um percurso de leitura"
- "interpretar é substituir o signo por seu possível substituto"
- "a linguagem literária parte de pressuposições" (o signo pressuposto)
- "a linguagem literária é sofisticada porque admite o polissêmico com estilo"

- Aproveitem a obra poética como quem recebe um segredo;
a leitura de um poema é um ritual, assim como é qualquer recepção de arte;
um ritual que coloca a linguagem como grande portadora de sentidos;
um ritual que propõem na linguagem respostas às inacreditáveis dores do mundo; um ritual que procura descortinar os mistérios da obra;
um ritual que procura evoluir, desenvolver as imagens, os sons, as texturas;