segunda-feira, julho 28, 2008

NO-SENSE

Por. Rômulo Giacome
O no-sense é uma ruptura com a lógica discursiva e ideológica, que amarrada em sua linearidade, consegue desviar e constituir humor; o no-sense tem a marca da ausência, do desvio e, inclusive, do devir, pois demarca o pico ou clímax que não existe, senão na própria sátira ao gênero;
É um negar o óbvio pela obviedade e trazer originalidade pelo comportamento torpe dos seres envolvidos;


É mais do que a caricatura, tendo em vista que esta apenas amplia e estereotipa os traços e amarra às formas; o no-sense aglutina, deturpa e ironiza, constrói e desconstrói para o fim mais sagaz, o escárnio;

No no-sense, o absurdo toma proporções cinematográficas e determina o estranho e o espantoso no silêncio;

O no-sense é um sarro na cultura erudita, pop e qualquer outro tipo de sistema representativo, pois é, essencialmente, o pensamento niilista do contemporâneo e o caráter do pós-moderno.
Não a nada mais literariemente puro que o no-sense dentro da cultura contemporânea de massa; ele tem em seus "gens", o puro germe da cultura Pop, enfabulado e embalado pelos picos de fantástico e surpreendente que brota de sua construção. Por fim, a estreita relação entre o real e o imaginário é a linha tênue da desgraça e do sofrimento alheio, os elementos mais engraçados que já foram criados;

sexta-feira, julho 11, 2008

CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS: A FORÇA DO ATO E A ALEGRIA DO SILÊNCIO

CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS: A FORÇA DO ATO E A ALEGRIA DO SILÊNCIO
Por Rômulo Giácome de Oliveira Fernandes SINOPSE
Em 1942, no meio do sertão nordestino, dois homens vindos de mundos diferentes se encontram. Um deles é Johann (Peter Ketnath), alemão fugido da 2ª Guerra Mundial, que dirige um caminhão e vende aspirinas pelo interior do país. O outro é Ranulpho (João Miguel), um homem simples que sempre viveu no sertão e que, após ganhar uma carona de Johann, passa a trabalhar para ele como ajudante. Viajando de povoado em povoado, a dupla exibe filmes promocionais sobre o remédio "milagroso" para pessoas que jamais tiveram a oportunidade de ir ao cinema. Aos poucos surge entre eles uma forte amizade.
“Cinema aspirinas e urubus” é um filme que pode ser fatalmente chamado de um monólogo: um monólogo a dois e um espaço côncavo (o sertão), que encobre o mundo todo pelo ícone da tragédia que este representa, mas que é recortado e colado no contexto da película; isto porque o foco da câmara está no foco restrito, no caminho trilhado pela representação dos personagens e não pela dinâmica da ação e o desenrolar da trama.
Esta ausência de movimento e velocidade imprime à película um minimalismo significativo e alicia a uma plena entropia, que sintetiza a necessidade do mínimo como forma comunicativa do poder semântico, a partir do corte de informações e da abertura da ambigüidade, elemento marcante na simplicidade e evasividade nas falas dos personagens Ranulpho e Johann;
Dirigido por Marcelo Gomes, com atuação de João Miguel na figura de Ranulpho e do ator alemão Peter Ketnath na pele de Johann, a trama está estrutura sobre o encontro e manutenção relacional entre um vendedor alemão de aspirinas, que viaja o Brasil inteiro em um caminhão, levando seu produto e projetando filmes que persuadem aos moradores das pequenas cidades a comprar seu remédio para a dor; por outro lado, Ranulfo é um personagem nordestino, morador característico do sertão agreste, que tenta fugir daquela pobreza e ir ao Rio de Janeiro construir uma nova vida.
A movimentação do enredo torna-se análoga e simétrica no momento em que os personagens fogem de seus meios e se encontram em sentidos diversos; um está do centro para a periferia, fugindo da Alemanha (em plena segunda guerra mundial), saindo do Rio de Janeiro para penetrar agudamente no interior do Brasil em busca de vender suas aspirinas (ou de se encontrar?) e o outro da periferia para o centro, saindo do sertão agreste e indo ao Rio de Janeiro em busca de uma nova vida, promovendo uma colisão em dado momento, que permite a troca de conheceres e saberes que são importantes informações ideológicas sobe o filme.
O conflito da trama possui o ponto de equilíbrio centralizado sobre a fuga de cada um, mas esbarra na falta de dados mais consistentes e informações mais agudas para apresentar este conflito; o processo de auto-conhecimento promovido pelo conhecimento mútuo entre os personagens, não evidencia de modo nítido a carga dramática de quando o alemão abandona tudo e vai para a Amazônia, trabalhar como soldado da borracha; o ápice não existe, propositalmente, a busca por este momento sublime está salvaguardado em cena de menor impacto literário, mas de grande impacto visual, quando suas naturezas se re-encontram em um bordel de interior, com prostitutas sujas e mal afeiçoadas, que deixam entrever a virilidade que ambos compartilham.
Longe do contexto do cinema empolgante, talvez por isso venha sua artisticidade, Cinema e Aspirinas e Urubus é um filme para ser visto com lupa ou luneta, perpassando grau a grau as possíveis entranhas de falas, imagens com a mesma cor, este cinza do nordeste que adensa o sertão e constrói o bojo ideal do nascer trágico, do miserável e do pouco; é um filme para ir construindo a leitura e afugentando a monotonia com criatividade fruitiva, ou seja, não basta ser um bom interlocutor para assistir ao filme, aqueles que querem entrar nesta jornada pictórica, devem estar atentos ao discurso total, construindo sentidos a partir da observação clara da simplicidade dos gestos, da languidez dos movimentos, da evasividade dos temas e da sensação próxima dos rostos e desenhos semióticos das feições.
Por fim, se o entretenimento não é a mola mestra que mantém o equilíbrio artístico do filme, porque ele é tão elogiado pela crítica e foi premiado em Cannes?
A construção de um tecido discursivo, que promova a criação de um símbolo ou metáfora que possa servir de simulacro às discussões políticas e filosóficas, encontramos na própria idéia de aspirina no sertão, como a “cura de todos os males”; os males físicos e os males espirituais; Como curar os males de um povo tão sofrido, que vive além da linha da dor ou do prazer? Este mal que a aspirina procura curar, no filme, é o símbolo que cura as dores espirituais a partir do cinema, nas projeções do alemão Johann, que cura mais do que o remédio. Muitos, depois de assistir às seções de cinema do alemão, compram apenas por manutenção daquele benefício, e pedem mais filmes; a noção da arte como cura física, a idéia do cinema como intervenção benéfica na carne, suprimindo a fome e a dor, o sofrimento e a lástima, encontram respaldo na necessidade humana de fantasia, neste quinhão de fábula que esclarece o espírito, rejuvenesce a alma e provoca a consciência;
Assim, vendo a produção cinematográfica brasileira atual, com seus temas e seu devir grandiloquente, bem como a proximidade deste cinema brasileiro com a televisão aberta (novelas), “Cinema aspirinas e urubus” é uma contracorrente a isso tudo, uma vez que nasce com uma proposta diferente; incluindo aí, certa dose de contra-cultura, uma forma apurada, mas despojada de trama e ausência de movie action que estamos acostumados; no processo todo, este filme se encaixa como o pote de café que nos utilizamos para “resetar” os vários cheiros que confundem nosso olfato quando vamos comprar perfumes; é um zerar de experiências, uma busca interior de reflexão e resignação, é um estar subjetivamente consciente da interação artística que o filme promove, e por isso o filme é bom, não soa datado e nem com aquela quantidade louca de clichês que estamos acostumados a ver no cinema brasileiro.

sexta-feira, julho 04, 2008

PALESTRA EM BURITIS: O OFÍCIO DO PROFESSOR E A ALEGRIA DE ENSINAR

O foco da palestra é a alegria: aqui entendida como o estímulo que une, vende e, porque não, educa também;

Professora Lurdes;
O símbolo da modernidade urbana: o semáforo;
Meu amigo Gustavo, arrebentando;

Dia 28 de Junho, eu e meu grande amigo e parceiro Gustavo Costa Reis, diriginimo-nos até o município de Buritis para ministrar uma palestra à educadores e profissioanis da educação do município e região; a viagem em si mesma já é instigante, pois o município de Buritis é famoso por estar no epicentro de confitos por madeira e terras, inclusive sendo palco de ações da LCP (Liga dos Camponeses Pobres); Mas a impressão sobre o município foi a melhor possível; gente muito amistoza e franco desenvolvimento, o que não me é estranho, uma vez que sou nativo deste estado e aprendi a conviver com estes movimentos exploratórios e desenvolvimentistas;

Veja abaixo a manchete institucional sobre a palestra:
UNESC informe
Informativo acadêmico da UNESC – Faculdades Integradas de Cacoal
03/07/2008
UNESC OFERECE PALESTRA A EDUCADORES NO MUNICÍPIO DE BURITIS




Com a finalidade de aproximar as regiões quanto às questões educacionais, bem
como estreitar as relações entre a comunidade educacional de Buritis e a UNESC,
no sábado, dia 28 de junho, os professores Ms. Gustavo Costa Reis e Ms. Rômulo
Giácome de Oliveira Fernandes, a convite da professora Maria de Lurdes Lacerda,
Diretora do Instituto de Ensino Educar, palestraram para um público de
educadores e profissionais da área da educação. A palestra sobre o tema “O
Ofício do professor: a alegria de ensinar”, proferida pelo professor Rômulo
Giácome, tratou da alegria como elemento contextual imprescindível ao ofício do
educador, uma vez que a alegria é ingrediente que une, consolida e inclusive
educa. A segunda palestra, proferida pelo professor Gustavo Reis sobre o tema
“Administração de carreira: é possível ser feliz no trabalho?”, tratou dos
requisitos indispensáveis ao professor de sucesso, abordando as habilidades do
professor contemporâneo. Por fim, segundo os professores, o saldo do encontro
foi muito positivo, pois viabilizou o intercâmbio de experiências e a troca de
informações relevantes ao processo educacional.

quinta-feira, julho 03, 2008

LIVRO: MANOEL DE BARROS E SUAS IGNORÂNÇAS

Manoel de Barros - A palavra que goteja sentido
Por Rômulo Giacome O Fernandes
19/08/2005

A leitura de Manoel de Barros precede a leitura dos códigos, precede a leitura dos símbolos e precede a leitura do verso. Sua condição de vácuo entre o sentido / ser / significante propõe mais do que a própria teoria. Nele, ela se perde e se reencontra no desconhecer da palavra.
"Ocupo muito de mim com o meu desconhecer"
Não é a palavra nova, não é a nova forma ou velha forma em pastiche. É o verbo em estado de coisa. Verbo em estado de essência, que fala através dos seres, animais, pequenos pedaços de pedaços de signos soltos.
"Ninguém que tenha natureza de pessoa pode esconder suas natências"
A forma como cada palavra recebe a dádiva da indicação e como cada indicação, por mais simples que seja, perde seu sentido imediato e passa a significar aquilo que nunca / sempre significou. A perfeita relação semântica entre indicadores em potencial faz com que sua poética consiga aproximar as antigas noções das simples nominalizações.
"Sou o passado obscuro destas águas?"
Uma natureza semântica, sem a beleza das imagens, não comporia a perfeita visão poética. Mais do que encabalar o verbo, crucificar os nomes, Manoel deixa a imagem, por si mesma, alavancar os sentidos, ruminando tal qual o boi no pasto pantaneiro.
O mínimo, diriam alguns, seria a marca predatória de uma readaptação dos antigos modernos, Drummond e Bandeira. Na realidade, o mínimo está na concepção, o mínimo está na perda da grandiloqüência verbal para uma grandiosa contemplação essencial. A palavra vale enquanto suporte de constatações, que fincadas no verde, fincadas no ato de repetir até ficar diferente (Repetir repetir, até ficar diferente), formam o imaginário de Barros. Não se inventa palavras. Não se cria novas constatações. A realidade semântica de Manoel está em sua forma de recitar um idioma novo, onde o que ficou de resto de suas lembranças expressam referências que são todas nossas. Usar algumas palavras que não tenham idioma.
Nesta criação e lapidação de um idioma novo, correlacionamo-os ao grande Guimarães Rosa, como o próprio Manoel de Barros afirmou, certa feita: "Temos que enlouquecer o verbo, adoecê-lo de nós, a ponto que esse verbo possa transfigurar a natureza. Humanizá-la."
Mas: por que ler Manoel de Barros? Por que ler esta obra que procura apalpar as intimidades do mundo de maneira verbal? Ler para reconhecemos o lirismo recôndido nos vãos das pequenas impressões.Ler para sustentar a palavra em seu estado latejante de sentido, onde ela se nega a ser simplesmente lagartixa, rio, sapo, pasto, boi, mosquito. Ler para reabrir um rol de experiências sutis dentro da própria experiência sutil.Ler para penetrar na poesia de maneira bruta, e sair levemente, de soslaio, assustando-se com versos, assustando-se com a nova condição do mundo, depois da leitura.

Fonte: http://www.leialivro.sp.gov.br/texto.php?uid=5507