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segunda-feira, fevereiro 22, 2010

LETRAS: HABILIDADES E COMPETÊNCIAS

O PROFISSIONAL DA ÁREA DE LETRAS E SEU PERFIL
by Rômulo Giacome

"Texto dedicado aos alunos do 1º período de Letras, que nesta caminhada rumo à profissionalização, ficarão encantados com o poder e a beleza de lecionar, bem como a transformação que a leitura e a escrita promovem silenciosamente em nosso ser. Abraços"

Qual o perfil do profissional de Letras? Qual profissional de Letras a sociedade quer? Qual nossa importância técnica, funcional e social?

Discutir as habilidades e competência do curso de Letras é antes de tudo discutir sua essência acadêmica e funcionalidade. Essencialmente Letras é um curso para formação docente. Ou seja, formar professores. Qual a importância disso?

Em primeiro lugar,
ensinar alguém é um ato extremamente técnico e humano, onde nesta simultaneidade surge a cumplicidade, interesse mútuo e interação. É impossível um professer que se destaque não ter conseguido interação com a turma, proximidade e legitimidade para ensinar seus conhecimentos. Muitos optam pela autoridade, deixando nítido que o respeito deve vir pela força. Outros, mais sábios, preferem o caminho da igualdade, onde o verdadeiro respeito se dá pelo conhecimento verdadeiro e não pela autoridade.
Em segundo lugar quando se aprende algo para ensinar se aprende mais e melhor. Quando ensinamos algo à alguém é porque conseguimos dominar aquele conhecimento profundamente. logo, quando o objetivo é o ensino, absorvemos mais e melhor as informações, transformando-as em algo cognitivo para nós e nossos alunos.
Assim, podemos antever que um profissional de Letras adquire, no curso, vetores de habilidades inerentes á sua profissão, tais como: relações humanas, inter-comunicação, expressão, técnicas de comunicação, gestão humana, comunicação oral e escrita, bem como domínio da língua em sua forma culta e flexível, articulando a fala e a escrita de modo mais científico e detalhado.

É bom sustentar o pressuposto de que habilidades estão concentradas no plano técnico, procedimental, enquanto que competência é processual e ampla.
É inegável que o profissional de Letras é capacitado para a realidade do agora. Este ser que necessita trabalhar em grupo, gerir pessoas (sala de aula), construir uma comunicação a partir de técnicas eficiente e eficazes. Qualquer campo profissional prioriza estas habilidades letradas, valorizadas por este curso brilhante e histórico.
Logo, o perfil do profissional de Letras é mais humanizado, adequado à qualquer situação relacional.
Assim, adjacente à formação importantíssima de lecionar, da formação docente, existe um amplo aspecto de habilidades (citadas acima) que constróem não somente um professor, mas um profissional completo, dotado de requisitos para atuar em outros campos.

Por outro lado, aprender algo para ensinar é um combustível valioso, que se traduz em maior assimilação dos conteúdos específicos. Mais do que a habilidade de conhecer as normas da língua portuguesa culta (habilidade caríssima nos dias de hoje), existe também a competência linguística e discursiva de compreender os mecanismos da língua para ensinar.
Esta competência é a essencial fusão entre a prática do ensino e suas necessidades didáticas com o aprofundamento do conteúdo que o curso de Letras oferece.
Muitas habilidades podem ser adquiridas com cursos rápidos, como técnicas de expressão, revisão textual; mas sua eficácia só será determinada pela prática e aprofundamento, elementos obtidos via de um curso de Letras que valorize a leitura e a pesquisa como fontes primordiais de conhecimento pleno e puro. Logo, além das habilidades localizadas e específicas, o profissional de Letras sairá do curso com a competência ampla de dominar a língua e suas linguagens.
Um outro elemento ligado à competência e habilidade do curso de Letras consiste na prática de leitura e escrita. Uma mudança vagarosa e sutil ocorre em todo acadêmico de Letras que consegue transpor a barreira que impede a leitura e inicia esta atividade. A leitura transforma em grau profundo, não só nas habilidades de decodificação (passagem dos olhos pelo texto e melhor assimilação das construções frasais, oracionais, etc) mas também pela habilidade de interpretação e compreensão de textos simples e complexos. Além destas habilidades, a leitura promove a valiosa competência intelectual, ou seja, o interesse e curiosidade pela informação, seu processamento e cognição. Ou seja, a competência de aprender a aprender, que impulsiona qualquer profissonal para a vitória.

Nestas breves linhas, trocando em miúdos, a capacitação que o curso de Letras oferece é específica, intensa e técnica, quando falamos em habilidades, mas também é integral, formacional, chamada de competências.
Aquele que tem interesse em vencer neste mundo cada vez mais relacional, complexo, lotado de informações textuais, seja pela linguagem, seja pela língua materna, este indivíduo só terá um arrependimento, não ter sentado no banco acadêmico do curso de letras e ter explorado tudo que ele proporciona.

Abaixo segue informativo sobre o curso.


O curso
O curso de Letras da Unesc é articulado para construir profissionais que dominem a teoria e a prática docente para o exercício do magistério nas disciplinas de Língua Portuguesa, Língua Inglesa e respectivas literaturas. Para isso, sua matriz curricular apresenta disciplinas práticas e metodológicas, que fornecem laboratórios, oficinas produção, análise, confecção e crítica para o uso constante e regular da língua e linguagens efetivadas na realidade imediata, tornando o profissional de Letras um especialista prático e teórico da comunicação em suas variáveis.

Letras ainda proporciona disciplinas teóricas para o domínio dos conceitos, operadores e princípios que regem a Língua e linguagem em suas particularidades dentro dos vários tipos de comunicação.
Para a aproximação da teoria com a prática, o curso de Letras possui um estágio supervisionado especial, com acompanhamento e convênio com as melhores escolas e instituições para atender aos requisitos da experiência docente necessária ao futuro profissional.

O Profissional
O curso tem como finalidade formar profissionais com competências e habilidades para o exercício da atividade de professor em Língua Portuguesa e de Língua Inglesa, no ensino fundamental, médio e superior, bem como para lidar com as diversas linguagens nos campos: empresarial, comercial, vendas, do direito, da publicidade, do marketing, do jornalismo, além de ser intérprete internacional, revisor textual e redator.
Assim, ao final do curso, o aluno terá domínio teórico e prático dos componentes da língua e da linguagem, podendo aplicar estes conhecimentos em várias áreas da comunicação, tais quais: empresarial, marketing, jurídica, artística, bem como na prática educacional, reconhecendo e utilizando as metodologias didáticas do ensino de língua portuguesa, literaturas e língua Inglesa.

MATERIAL BASE PARA AS AULAS DE TEORIA LITERÁRIA

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O ato criador Verbal

Estética Literária e Subjetividade

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Disco – OTTO - HOJE ACORDEI DE SONHOS INTRANQUILOS

QUANDO PERDER É GANHAR!!
By Rômulo Giácome

O nordeste sempre construiu uma excelente veia poético / musical, cravando em belas melodias excelentes letras, tais quais algumas antológicas, já enumeradas em nosso memorial coletivo: “Dia Branco”, de Geraldo Azevedo; “Avohai” de Zé Ramalho; exemplos só para lembrarmos do rol fascinante de composições que conseguem ampliar a excelência poética da canção brasileira, fornecendo subsídios culturais para perceber a riqueza nordestina. Em fases mais contemporâneas, avançando por sobre Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Alceu Valença e outros, caímos nas majestosas cânforas da geração Lenine, Chico Cézar e Zeca Balero. Nesta trinca de grandes poetas / músicos, Chico Cézar é com certeza um injustiçado, com uma produção desmedidamente mais profunda e completa que os outros dois. “Aos vivos” é uma obra prima de criação poética, de ladrilhar a palavra e encravá-la semioticamente em novos contextos. Neste cenário protéico de produção, erigido na década de 90 e início de 2000, uma lacuna se prestou neste momento até o presente (ontem) quando falamos de letras poéticas, ao contrário do ritmo e sua pesquisa, vertente verdejante na produção nortista. A presença forte da poesia de traços líricos / construídas na música popular brasileira feita no nordeste ficou novamente representada a partir deste disco do Otto “Hoje acordei de sonhos intranquilos”.
Um dos princípios da literariedade é o equilíbrio entre forma e conteúdo, projeção dos termos em inversões sintático / semânticas de modo a manter uma harmonia de sentido, e deslindramento de efeitos a partir do pulsar de uma construção (enunciado) poeticamente e milimetricamente levantado. Pequenos versos como “Há sempre um lado que pese / e outro que flutua”; esta preciosidade poética é a criteriosa elevação do equilíbrio enunciativo com força extremamente alegórica (a imagem da balança) que representa em seus pólos o desequilíbrio e a tensão fórica (flutua, feliz, êxtase) para a disfórica (peso, tristeza). Assim, projetado o simulacro poético dentro da realidade emotiva, temos a régua que mede as dores do perder e a virtude de ganhar; o maniqueísmo da relação, onde seu término exala uma vitória e uma derrota; a derrota é amargada pelo torpor da lembrança e sua dificuldade de extirpação “Dificilmente se arranca a lembrança / por isso da primeira vez dói”. O prisma do relacionamento findado, deixado de lado e as feridas amarguradas dão a tônica da letra desta canção “Crua”. Um eixo entre o sentimento a carne são implicitamente desenhados, quando da enunciação “tua pele é crua”. Esta acentuada referência à crueldade da pele torna simbiótica a fusão e profusão de sentidos entre a crueldade da pele, a crueldade do corpo e crueldade do desejo. O desejo não tem pena do sentimento. “Mas naquela noite que eu chamei você, fodia. Fodia”.
Otto constrói um percurso gerativo do ato findo da relação amorosa. O amor termina ou as marcas do amor mudam e ferem? A dor do término são confessadas e professadas de forma poética. Na canção “Leite derramado”, (aquele que não se pode chorar), Otto reinvindica seu quinhão profético “quando eu perdi você ganhei a aposta”; a imersão em um relacionamento profundo, denso e repleto de idealismo deixa o rastio de pólvora da profética visão que um dia pode acabar; nitidamente o eu persona duvida da sua condição de aceitação do término “quando eu saí da tua vida bati a porta / saí morrendo de medo do desejo de ficar”; o magnetismo do desejo é antagônico à vontade; “num dia assim calado você me mostrou a vida / e agora você vem dizer pra mim que é despedida”.
A musicalidade deste disco está repleta de referências múltiplas, não só vinculado ao binarismo e beat do disco anterior “
A sonoridade de “Janaína” está com um groove em baixa, tocado na batida de um chocalho extremamente brasileiro e de religiosidade afro nítida. De longe alguns metais que implicam em uma nostalgia e composição popular, das formas musicais antigas da Bahia e região do recôcavo. Em “meu mundo” é abandonado a musicalidade do rio vermelho, com seu batuque e chocalho para uma sonoridade moderna e astral, de ambientação e estereofonia. Esta dimensão de trabalho sonoro em busca de experimentações sempre foi uma marca especial de Otto e de seu trabalho.
Umas das grandes canções do disco é “6 minutos”; um blues com uma guitarra eletrostática delirante, abrindo a melodia que clama “não precisa falar / nem saber de mim / se até para morrer / você tem que existir”. A quantidade de referências de veia existencialista / humanista detalha o tipo de analogia literária aparente, principalmente à Albert Camus e Franz Kafka. “6 minutos” é um manancial de belos detalhes, como a imagem pós-moderna / natureza morta, lúgubre e intensa “Nasceram flores num canto de um quarto escuro /
Mas eu te juro, são flores de um longo inverno”. E por fim a imagem mais bela do disco, “bem junto, na cama de um quarto de hotel / que você me falou / de uma casa pequena / com uma varanda / chamando as crianças para jantar”. Em seu epíteto “isto é pra viver / isto é pra morrer”.
Alguns podem falar que a chama apaga e finda; para a poesia e a grande arte, o estremecer da chama e seu desfacelamento é apenas o vazio que será preenchido pela criatividade contaminada do grande artista. Otto consegue brilhar a partir da dor, construindo não um disco de lamentações, mas uma obra reflexiva sobre o êxtase do perder. A parceria com a cantora argentina Julieta Venegas em “lágrimas negras” é um belo momento acústico e sonoro do disco, com uma variação sofisticada do refrão construindo uma melodia inusitada.
Otto reconstrói o fazer poético original perdido na veia nordestina. Ele recoloca a música nordestina nos trilhos novamente, construindo um disco conceitual sem ser clássico, amarrado em potências enunciativas de literariedade, sem exageros, sem clichês e com muita originalidade e inspiração.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

LITERATURA DE CORDEL - CORDEL DO "BIG BROTHER"


A simplicidade da Literatura Cordel advém de sua estrutura simples, musical e da monotemática narrativa construída nos livros pendurados em varais.
A representatividade do Cordel está ligado à construção de grandes mitos e símbolos da cultura nordestina, catalizados e compilados a partir da mescla religiosiosa e cangaceira de sobreexistir do sertanejo. Patativa do assaré é um dos grandes representantes desta cultura. Inicialmente, neste post, eu iria PUBLICAR o texto do poeta cordelista Antônio Carlos de Oliveira Barreto, uma grande dica da minha orientanda Nicy. Mas devo também fazer uma homenagem ao grande poeta Zé da Luz. Com o seu irrenarrável poema AI SE SESSE. Imortalizado e eternizado pelo maravilhoso CORDEL DO FOGO ENCANTADO. Leiam que irão gostar. É uma crítica popular ao BIG BROTHER da Globo, mas que assinala fortes verdades.
Acessem a página deste autor sagaz e mantenedor da cultura do cordel:

http://www.barretocordel.wordpress.com/

http://barretocordel.blogspot.com/2010/01/big-brother-brasil-um-programa-imbecil_21.html#comments


Autor: Antonio Barreto, natural de Santa Bárbara-BA,
residente em Salvador.

Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão.

Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.

Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.

O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.

Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.

Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.

Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Dar muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.

Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.

Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.

A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.

Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.

Talvez haja objetivo
“professor”, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.

Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.

É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.

Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.

A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.

E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.

E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.

E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.

A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.

Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.

Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?

Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal…
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal...

FIM

Salvador, 16 de janeiro de 2010


ZÉ DA LUZ

(pra queles qui acha que pra falar di amor tem qui fala difirci)

Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caisse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse


sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Livro - A INVENÇÃO DE MOREL - Resenha

A INVENÇÃO DE MOREL - Adolfo Byou Casares
by Rômulo Giacome
Muitos têm oportunidade de ler grandes obras clássicas. Obras de Machado de Assis e sua trilogia “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Quincas Borba” e “Dom Casmurro”. Obras palatáveis, até compreensíveis ao ponto de vista do leigo iniciante no mundo da literatura. Mas existe um patamar acima de leitura. Um patamar, polêmico eu sei, mas que do ponto de vista do leitor depreende mais esforço, mais trabalho, paciência e energia intelectual. É o caso de minhas experiências com Guimarães Rosa. Grande Sertão Veredas foi meu grande desafio. Demorei dois anos para ler e quando terminei, senti uma lacuna, como se a obra pudesse me dizer mais. O início da estória estava ficando cada vez mais distante; a trama central era simples, mas os enleios psicológicos, filosóficos e verbais me fizeram tatear pelas palavras como em um limbo de compreensão. Faltou alguma coisa, mensagem que nunca estará completa, pois Grande Sertão é um enigma perfeito, uma obra literária modular e que nunca será esgotada. Um nível semelhante entendo e sinto em Jorge Luís Borges. Sua literatura fantástica é fascinante. Criar histórias, construir mundos ficcionais, universos que se confrontam com a realidade, se multiplicam e se coadunam, como em uma espiral criativa é algo grandioso. Adolfo Byou Casares está neste plano. Em um nível superior de leitura, quase contemplativa. A invenção de Morel é uma etapa que todo leitor experiente ou não deve empreender para entender realmente a boa literatura.
A leitura de toda obra latina, de verve fantástica, exala um ritual e até mesmo uma liturgia por sobre o real valor da palavra e da trama, re-conhecida pela sua construção criativa e potencialmente ampla.
São cascatas de novas formas, cores e ações, desenroladas por sobre uma verossimilhança ímpar, traçada com detalhes fantásticos. Personagens personalíssimos, criativos e cheios de temperamentos e excentricidades.
A linhagem dos fantásticos latinos, tais como Gabriel Garcia Marques, Vargas Llosa, Júlio Cortazar, além de Borges e Adolfo Byou Casares é construir e montar grandes estórias, estórias prodigiosas, interessantes, trafegando entre os limites da realidade e a da ficção, enriquecendo nosso universo ficcional. Portanto, tropos literários como espelhos, sonhos, imagens, projeções, textos em jornais que não existem, matérias em revistas que supostamente foram lançadas, diários que supostamente foram escritos, decidem a literariedade a partir do “se”, destituindo de importância a realidade factual e a invenção, tendo em vista que esta última é sempre mais interessante.
Na invenção de Morel a perspectiva criativa perpassa pela primeira pessoa narrada por um possível diário, onde o personagem é um fugitivo da polícia que se esconde em uma ilha deserta. Por se tratar de um diário, as informações podem ou não ser verdadeiras, assim como outras pessoas podem ter manipulado aquelas informações, o que acaba surgindo copiosamente a partir das notas do editor, “implantadas” por ali.
A questão é que esta obra é um scien fie brilhante, escrita em 1967 e lida até hoje com prazer.
Em uma ilha aparentemente deserta, algumas construções humanas se avolumam: uma pequena igreja, um museu, um hotel e uma piscina. Sobrevivendo escondido, sempre a espreita, este solitário morador da ilha se depara com o isolamento das dependências, abandonadas, e com uma casa das máquinas aparentemente intacta; supostamente aqueles motores captariam o trabalho das ondas e forneceriam energia, o que realmente ocorreu quando colocados em funcionamento.
A partir dali, um grupo de pessoas chegaram/surgiram na ilha e iniciaram sua hospedagem. Uma alta espanhola, diariamente, no mesmo horário, vinha tomar sol próximo à praia. O que promoveu uma paixão repentina no solitário fugitivio. Estra paixão, aliado às reflexões e loucuras adjacentes que são descritas no diário, são cruciais para entender os motivadores que fizeram com que o fugitivo tentasse uma aproximação. Este grupo sofisticado permanecia até altas horas bebendo e conversando
O nosso fugitivo da justiça, voz que aparece pelo diário encontrado anos depois, narra seu desespero morando nos baixios alagados, seus sobressaltos quanto das marés mortíferas que assolam determinados dias. Mas o que mais intriga o personagem – diário é a existência daquelas pessoas. Em um pequeno momento de análise mais lúcida, nosso fugitivo compara a antiga piscina, lotada de sapos e cobras, enegrecida pelo musgo, com esta que lhe se apresentou em milésimo de segundos, limpa, clara e refrescantes, onde os habitantes recém surgidos do nada se divertem.
Aqueles habitantes que apareceram por ali, naquela ilha deserta e distante, seriam projeções da mente debilitada do habitante solitário da ilha? Estas projeções seriam fruto das raízes e folhas que ele consumia? O tempo ia passando e a presença dos turistas e suas diversões noturnas e diurnas tornavam-se comuns e corriqueiras ao nosso observador. No entanto, não existia comunicação entre o observador e seus turistas. Pareciam que não o viam, que estava morto ou invisível. A adoração pela espanhola ia aumentando, ao ponto de tentar um diálogo, fato vão. Nesta plataforma ficcional, Casares introjeta a condição da dúvida, que perpassa por todos os questionamentos possíveis: estavam mortos e eram espíritos? O fugitivo solitário que nos conta a estória está morto? São delírios de um ermitão já doente pela solidão?
A perfeição milimétrica da narração de Casares sincroniza a possibilidade de ler a obra duas ou três vezes em busca das pegadas desta situação. Desde o momento onde os turistas surgiram até a reiteração das mesmas cenas, dos mesmos atos dos habitantes festivos, das mesmas conversas com os mesmos conteúdos. Esta repetição cíclica possui uma trajetória narratológica paralela à narração principal, que é deixada como rastros pelo decorrer da leitura.
Mas “A invenção de Moreau” é uma obra de ficção científica, onde a matéria e a tecnologia são decodificadoras das inquietações. A grande descoberta e sagacidade da trama é a própria invenção do doutor Moreau, um daqueles turistas efusivos e contentes, que conta sua invenção e posição filosófica sobre os amigos. O que acontecia na ilha eram experimentos científicos. Experimentos que buscavam captar a própria vida e eternizá-la por meio das imagens e sons sincronizados. As projeções eram repetições das ações dos turistas, registradas em um imenso disco que era colocado em movimento pelo balanço das marés. Apriosionadas no disco, as imagens, movimentos e sons das pessoas eram repetidas initerruptamente, revivendo a condição de existência, simulando e tornando o ser presente neste plano.
Casares é um gênio. Ele propõem um olhar transgressor sobre a reprodução e reprojeção da existência a partir da tecnologia. Nossas fotografias e filmagens são parte de nossa existência real neste plano? A vida pode ser apriosionada e captada, sendo retida permanece “vida”?
A Invenção de Moreau é a viagem mordaz a uma ilha abandonada e perdida, onde a vida simulada e projetada procura vencer a morte, inundando o ambiente pelos auto falantes e projetores. É um local misterioso, marcado por descobertas que devem acontecer, mas também pela presença fantasmagórica da solidão.
Uma obra imperdível.