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terça-feira, dezembro 18, 2007

PROJETO LENDO O MUNDO PELA LEITURA DA PALAVRA

O projeto Lendo o Mundo pela Leitura da Palavra foi escrito para ampliar as atividades do estágio junto à comunidade. Quando eu o idealizei, não imaginei a força e o alcance que ele iria tomar. Sua dimensão superou as expectativas, graças ao empenho dos estagiários de Letras e do apoio das instituições atendidas e UNESC. Assim também os projetos realizados pelos acadêmicos do 4º período nos polos do PETI (Teixeirão e Vista Alegre) mostrou uma grandiosidade maravilhosa.

Veja a notícia veiculada sobre o assunto:

PARCERIAS DE ESTÁGIO EM CACOAL SE CONVERTEM EM AÇÕES SOCIAIS
Projeto “Lendo o mundo pela leitura da palavra”

O Estágio de Letras tem firmado importantes parcerias com instituições em diversos setores da comunidade Cacoalense. Dessas parcerias têm surgido projetos de interesse pedagógico e social, que contribuem para a formação integral dos acadêmicos, bem como constitui contribuição ao coletivo. O projeto “Lendo o mundo pela Leitura da Palavra”, coordenado pelo prof. Rômulo Giácome, tem socializado a leitura e a escrita em seus diferentes níveis a apenados do regime semi-aberto na Casa de Detenção de Cacoal, com aulas ministradas por quatro estagiários Letras / UNESC (Messias, Geisy, Inara e Andressa); o projeto também está em execução em diversos outros locais, como na Casa de Internação de Cacoal, no próprio presídio, onde as estagiárias Roseli e Ângela atendem aos adolescentes infratores; no PETI (Programa de Erradicação ao Trabalho Infantil) do pólo Teixeirão, coordenado pela professora Ana, local em que os estagiários Deloir e Fairuse atuam com as crianças do programa oferecendo cultura por meio do HIP HOP, unindo dança, grafite e poesia; no Agente Jovem, executado pelas estagiárias Ronilse e Maria das Graças, além da parceria com a Loja Maçônica Gonçalves Ledo, tendo como agentes de proliferação e socialização da leitura e da escrita as acadêmicas / estagiárias Helem, Elizabeth e Sirlene.

O projeto Lendo o mundo pela leitura da palavra pretende utilizar a experiência de vida das pessoas como fonte geradora de elementos para a escrita; possibilitar a socialização da escrita é o maior objetivo do projeto;

Somado a este projeto, a turma do quarto período de Letras da UNESC, vem desenvolvendo dois novos projetos nos pólos do PETI: “A melodia da palavra no universo infanto-juvenil”, que aplica a música e a dança como elementos de integração e ludicidade no pólo do Bairro Teixeirão; e o projeto “Clássicos às avessas: recontando um conto” que faz uso da dramatização e do humor como forma inteligente e eficiente de valorizar a leitura e a escrita. Este último é executado no pólo Vista Alegre. Ambos, tanto o projeto do bairro Teixeirão quanto do bairro Vista Alegre, trabalha com crianças de 6 a 14 anos atendidas pelo programa. Segundo o coordenador de estágio de Letras / UNESC, prof. Rômulo, além da contribuição dos projetos nos programas, o crescimento profissional e humano dos estagiários é inestimável, pois ensinar também é aprender, na medida em que consiste em uma troca de experiências.


























terça-feira, novembro 06, 2007

ATIVIDADES DO MÊS DE OUTUBRO

O mês de outubro possibilitou uma série de oportunidades de expandir a idéia da semiótica e da literatura no cenário científico / cultural da região; Eventos, seminários e outras atividades oportunizaram a discussão e o debate sobre literatura e semiótica, sempre na confluência dos estudos sobre a linguagem. Eis as atividades:



PARTICIPAÇÃO NO XII SELL - SEMINÁRIO DE ESTUDOS LINGÜÍSTICOS E LITERÁRIOS - VILHENA, RO. 04 e 05 de outubro, 2007.



Este evento contou com a participação de pesquisadores, estudantes e professores de todo o estado de Rondônia; Teve como estrelas o professor livre-docente Aguinaldo José Gonçalves, Dr. Celso Ferrarezi Jr e o poeta André Carneiro; Eu participei com um mini-curso de 8 horas, cujo título foi: "Semiótica Literária: técnicas de leitura poética - Ms. Rômulo Giacome Fernandes"; Esta é a terceira oportunidade de apresentar o encaminhamento das pesquisas do TEOLITERIAS no plano da semiótica e literatura: o primeiro mini-curso foi realizado em 2002, em Porto Velho, na ocasião do CEREU; Em 2003 tive a oportunidade de ministrar mais um mini-curso sobre semiótica literária na UNESC; e agora, em Vilhena, neste conceituado evento; Lá, pude ampliar as definições sígnicas e explorar mais a relação da semiose para a eternidade do texto literário, bem como a noção de sistema indicial dentro da dominante poética;



Visão Geral da Sala: 35 alunos inscritos

Visão do Quadro da sala de sula







Perspectiva do teacher; (Eu)








Aproveitando, fotos com os amigos: meu orientador do mestrado, Dr. Aguinaldo José Gonçalves (camisa branca)) e meu professor e mestre, Eduardo Martins de Barros;






Eu e o professor Celso Ferrarezi e o professor e músico Rubens vaz, o Binho da cidade de Porto Velho, que lançou seu mais novo CD "Isca Arisca";


PARTICIPAÇÃO NA V JORNADA DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA - UNESC 22 a 29 de outubro, 2007.


A UNESC realiza todo ano um dos maiores eventos de propagação e veiculação de pesquisa do estado, onde participam pesquisadores de várias instituições e cidades da região;


O grupo TEOLITERIAS apresentou o andamento de suas atividades de pesquisa expondo sua linha metodológica de atuação que já remonta quatro anos de atividades com semiótica aplicada a imagem, à literatura e a propaganda; A acadêmica Lilian Naitzel Siring, ex-pesquisadora do grupo e orientada por mim, apresentou sua pesquisa "Do ídolo ao Mito: a semiose da transcedência no caso Ayrton Senna" na sala temática de "Mídia e Linguagens"; esta pesquisa foi defendida em Banca no ano de 2004; a partir dela, a semiótica foi tomando forma na instituição, crescendo e dando espaço a outras pesquisas, como o caso da Acadêmica Andress Avilla Mendonça, que apresentou seu trabalho "Relaçoes entre texto e imagem: Cândido portinati e Os sertões de Euclides da Cunha"na mesma sala temática; Esta pesquisa foi defendida em 2005 e obteve nota máxima; Neste ano de 2005 outros trabalhos obtiveram muito êxito, como o caso da pesquisa da acadêmica Leandra Turrini "O fetiche como elemento semiotizante nos layouts de lingerie"; Em 2006, a semiótica visual e entre-textos foi novamente aplicada no cânone barroco, relacionando às imagens de Aleijadinho e poemas de Gregório de Matos. Esta pesquisa da acadêmica Elizabeth Cavalcante de Lima manteve o decurso de evolução da metodologia entre-textos, que aborda as relações entre visual e textual; defendido em 2006, este trabalho continuou provocando e insitando às possibilidades de relação entre pintura e literatura dentro de cânones propostos; Ainda em 2006, o grupo TEOLITERIAS teve sua evolução mais significativa no que concerne às práticas metodológicas da semiótica para com a produção literária; utilizando conceitos importantes da semiótica francesa, como o quadrado semiótico e as relações actanciais, bem como alicerces da semiótica visual na tripartição do representamen, a acadêmica Priscilla Gomes de Oliveira conseguiu importantes resultados na abordagem na obra Noites do Sertão de Guimarães Rosa; Com a pesquisa "A arquitetura narrativa do desejo: o signo sensual e o limite da sugestão", o método semiótico e suas aplicabilidades conseguiram todas as potencialidades necessárias diante do texto poético; com a conceituação e regulação de critérios eficientes, as técnicas e recursos de análise conseguiram resultados límpidos e válidos, alimentando o campo da pesquisa nas relações entre signo, sugestão e sensualidade; É bom frisar que este trabalho também obteve nota máxima; Por fim, com a pesquisa concluída e defendida com nota máxima, a acadêmica Geisy Emiliana Maurício apresenta o desfecho parcial destes quatro anos de pesquisa semiótica com o trabalho "Espaço e Fragmento na poética de murilo mendes: um recorte em guernica"; A pesquisadora do grupo TEOLITERIAS conseguiu aproximar as homologias técnicas-formais da linguagem empregada em dois sistemas comunicativos diferentes (visual e verbal) usando como ponto de apoio a intersecção de um motivo artístico: a guernica; fazendo amplo uso da teoria entre-textos (Aguinaldo José Gonçalves) e construindo uma teia de análises a partir das teorias semióticas (americanas e russas) sua pesquisa atua efetivamente no campo do código formal, preconizando as estratégias homológicas do trabalho; Bem, no exposto, percebemos a importância de manter uma linha de atuação que seja coerente com os propósitos e objetivos do grupo de pesquisa e sua linha e, nestes quatros anos de atuação, ampliamos bibliografias, recursos metodológicos e perspectivas de abordagem;


PÓS-GRADUAÇÃO


Este mês de outubro possibilitou-me atuar em duas disciplinas na pós-graduação; Localizada no município de Ouro Preto, a UNIOURO possui várias turmas de pós-graduação espalhadas pela região; lecionei na turma de Psicopedagogia Analítica e Institucional com duas disciplinas de grande importância curricular e prática. São elas:


Prática de intervenção psicopedagógica: avaliação (nos dias 06 e 07 de outubro)


Prática de intervenção psicopedagógica: pesquisa (nos dias 20 e 21 de outubro)


A turma é maravilhosa e permite uma troca de informações fantástica; são todos alunos com grande experiência docente e prática, incluindo formação em outras pós-graduações; aprendi muito e consegui dialogar sobre temas relevantes com grande produtividade;


(foto do dia 21 de Outubro; eu e a turma de Ouro Preto citada acima)


terça-feira, julho 10, 2007

POR QUE LER OS CLÁSSICOS?


POR QUE LER OS CLÁSSICOS? (livro)
por Rômulo Giácome de Oliveira Fernandes

CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos. 9ª reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

O que podemos dizer quando fazemos uma resenha de um livro de resenhas? Parafrasear o método e técnica de análise? Parafrasear as idéias discorridas a partir de uma leitura experiente dos textos visados? Ou simplesmente alimentar o nosso gosto e curiosidade pela leitura? A terceira alternativa é a mais vibrante. Calvino teoriza e analisa com leituras interessantes grandes clássicos da cultura mundial, tanto do ocidente quanto do oriente, apresentando-as sobre um enfoque do “novo” e do “curioso” aperfeiçoando a perspectiva do fantástico tanto no ocidente quanto no oriente, apresendo-as sobre um enfoque estético como elemento maior de toda a literatura.

Como bem diz Ítalo Calvino (1991), um clássico é sempre uma obra que nunca ninguém está lendo, e sim re-lendo; faz parte da nossa formação intelectual uma antologia variada de grandes clássicos, obras que marcam uma época e que aceitam ser objeto de dissecação das mais variadas formas de crítica: sociológica, psicológica, psicanalítica, etc. Falar sobre um clássico é antes de tudo estabelecer um critério para caracterizar uma obra como tal; uma das grandes marcas das obras clássicas é a atemporalidade, ou seja, esta universalidade que lhe é própria, marcada e determinada por falar de temas que não se esgotam e nunca são datados ou remarcados, sendo assim, não “esfriam”. Por outro lado, como podemos chegar a um clássico pela sua linguagem, pelo seu campo semiótico de representação sem perceber sua literariedade como marca fundamental, seja na inesgotável riqueza de conteúdos possíveis através do arranjo de signos, seja pela possibilidade de encantar e tornar grande qualquer coisa que o discurso literário toque, recriando os mistérios que nos aprazem e nos fazem ir além do padrão. Pensar nos clássicos é de certa medida lembrar daquelas leituras que nos marcaram, que fazem parte da nossa história intelectual, demarcando os momentos e situações que fizeram dos textos, marcos vividos. Lembro-me da proeza de ler a trilogia de Machado de Assis (memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro) com uma certa sensação ritual de respeito e devoção que devemos ter a um clássico. Diante deste, nada se discute; nem os motivos que nos levaram à leitura, nem a função desta. Um clássico se completa por si mesmo. Mas nada pode ser mais indescritível que estar defronte a baluartes da crítica literária universal, como uma Madame Bovary (Flaubert) ou a Mulher de Trinta Anos (Balzac). Leituras que provocam a experiência, que clamam pela atenção e justificam seus argumentos. De um modo geral, enquanto crítico literário, não posso alegar que minha história de leitura seja um liame de categorização para um clássico. Por outro lado, alguns critérios artísticos, semióticos e filosóficos me fazem pensar em uma lista de obras brasileiras que realmente são clássicas. (naquela limitação essencial que me permite a ausência de várias leituras).
Um dos elementos primordiais a um clássico é sua existência coletiva enquanto objeto de crítica; esta força positiva as vezes e destrutiva em outros momentos, é salutar para a formação de um clássico. O acolhimento da crítica, somado a um atencioso mercado editorial com sucesso de público é um primeiro patamar de um clássico.
Um outro critério “clássico” de existência á a universalidade, já citada acima, e reforçada como marca em espiral de discutir “os tempos” em qualquer que seja este tempo. Talvez uma obra clássica tenha tido o privilégio de trafegar em um tempo paralelo a este, em um tempo de catarse absoluta, de depuração, onde as horas não passam e a experiência é algo fixo e uno, o máximo e o ápice de todas as outras experiências. A obra clássica nos olha de fora, é uma perspectiva exterior, de uma outra dimensão, que pode perceber e afirmar com propósito. A obra de Shakespeare entende o drama humano como se não estivesse nele, e nesta isenção, o júri do homem é sua criação, que autônoma, no espia e avalia, sentenciando o fim comum.
Por fim, o gênero narrativo é escolhido para este propósito por ser mais uno e centrado sobre um começo, meio e fim do que a própria poesia. Não poderíamos afirmar que a obra de Drummond esteja centrada sobre um poema; mas podemos afirmar que Machado pode ter escrito apenas uma obra clássica.
Bem, sinteticamente segue uma pequena lista e descrição dos motivos da classificação.

Dom Casmurro. (Machado de Assis) Tudo o que for falado sobre esta obra é redundante. Já a analisaram por dezenas de aspectos e ela ainda consegue manter-se viva e pulsante. A técnica realista evoluída com laivos de profundidade da herança russa, perpassam uma universalidade impar de discussões e provocações que esta obra engendra. Provocante e insinuante, de uma sensualidade sutil e desavergonhada. Um clássico.

Vidas Secas. (Graciliano Ramos) Muito se tem dito sobre o regionalismo ser um gênero no Brasil, e não um período ou escola. Desapegado ao tempo, amarrado ao espaço, e filiado ao filão da literatura que mantém comprimida dentro do peito o grito, o regionalismo pode ser totalmente condensado em Vidas Secas. O que existe de mais seco, da tessitura narrativa mais singular e bem acabada, dos desvios narratológicos e seus recursos mais bem empregados, da força das personagens mais poderosas e singulares, faz de Vidas Secas um elo entre toda a produção antes de 1950. A profundidade do tema sertanejo é quase a categorização do ser humano em sua totalidade histórica. Um clássico.

Grande Sertão Veredas. Guimarães Rosa publica em 1956 uma obra prima da literatura brasileira e universal. Completa em todos os níveis, desde a efabulação composta de criações imagéticas, contextuais e espaciais de primeira grandeza, como a própria trama, tracejada no percurso do sertanejo e seus códigos de valores, sua conduta e a forma singular de ver o mundo. O enredo possibilita a incursão nas aventuras de um bando liderado por Medeiro Vaz contra Ricardão e Demóstenes, os traidores que mataram o grande líder Joca Ramiro e fogem para a Bahia e são o grande objetivo do grupo onde encontra-se Riobaldo. Este, narrador em primeira pessoa, observador e testemunha, acompanha extrinsecamente e intrinsecamente a trama, fomentando uma viagem no interior do cangaço mineiro, vivenciando como leitor as intempéries psicológicas deste mundo regional. Balizado em personagens fortes, como Zé Bebelo, antigo inimigo de Joca Ramiro, defensor do governo e que é julgado justamente e volta para vingar-lhe, estes personagens, bastante retratados e caracterizados, pulsam autônomos na esfera narratológica para a vida e para a própria experiência existencial e simbólica do sertão. Além disso, um andrógino personagem, que marcadamente surge masculino e posteriormente feminino (Diadorim) irá reverter a noção de amor e sentimento em um mundo de rochas, seca e mandacarus. Os temas e as discussões povoadas em Rosa são do ponto vista filosóficas e antropológicas rasgos de profundidade na epiderme da existência social enquanto núcleo formador de um espécime humano. Sem sombra de dúvidas, a leitura de Grande Sertão Veredas é um mergulho em um mundo léxico e constituído com sólidas paredes regionais. Um clássico.

A Resenha
Muitos caminhos podem ser percorridos ao resenhar Calvino nesta obra Por que ler os clássicos. Podemos escolher o caminho da novidade, selecionando obras desconhecidas ao público leitor mediano, como Orlando o Furioso de Ariosto, exemplar clássico italiano que cultivava a modernidade dos sonetos e a vanguarda da narrativa épica clássica. Ou Gerolamo de Cardano, De consolatione, que segundo Calvino, pode ser a obra que Hamlet lê ao ter encontro com Polônio, e o mesmo lhe pergunta o que estais a ler e ele responde “palavras, palavras, palavras”, com ironia. Isto porque no ato seguinte Hamlet fala sobre o sonho, com aquela idéia de que o sonho mais doce é o mais profundo, referendando a morte, temas discutidos em De consolatione. Ainda outras obras desconhecidas do senso comum, O pasticciaccio de Carlo Emilio Gadda, Eugênio Motale, com o seu “Forse um marttino andando”. Poderíamos ainda escolher o caminho dos clássicos da narrativa realista em todas as suas matizes, como Dickens, Conrad, Pasternak, Hemingway, Ponge, Faubert, Tolstoi, Henry James e entrecruzando os fios da realidade e da imagem, costurar um diálogo entre formas fixas e soltas, demarcando a riqueza humana da literatura ocidental.
Calvino remonta na literatura nossa sede por ficção. Esta sede e fome pelos encantos do devir do sonho e do encantamento, faz coro com a construção medida, demarcada e sofisticada pela linguagem perfeita da literatura. Em Ovídio, Metamorfoses, segundo Calvino, as transformações do universo clássico, dos objetos, de Aracne em Aranha, depois de desafiar Minerva ao tecer temas das desventuras e orgias dos deuses no Olimpo, ou de Palas incitada por Apolo e Netuno, vão construindo uma narrativa forte, cinematográfica, onde cada cena estará completa de estímulos prontos a explodir na face do leitor. Esta rapidez descritiva e enunciativa mostra a força atual de Ovídio, até mesmo quando descreve o acidente do carro solar, destruído pelo raio de Júpiter. A cena é construída a partir do relato cinético do movimento do carro espatifando-se, até a descrição anatômica dos pedaços de gente expostos na rua. Ainda com esta sede de ficção e fantasia, um degrau a mais, Calvino aporta em sua análise Anábase de Xenofonte. Um épico às avessas, que mostra o movimento epopéico de um grupo de gregos, que em uma missão à Ásia Menor para combater o príncipe Artaxerxes II, são derrotados e sem líderes, mais de dez mil soldados estão no meio das linhas dos povos inimigos, tendo que voltar à sua pátria atravessando cidades de outros povos, levando consigo destruição, mulheres e saqueando. O detalhamento com que Xenofonte descreve toda a movimentação de guerra, da ausência de generais a líderes emergentes, das estratégias de guerras e reuniões marcadas em atas. Um monstruoso corpo de homens armados, que querem voltar para a casa em meio a neve, deserto e outras civilizações fazem de Anábase um clássico de guerra, uma obra prima que deve ser lida por aqueles que gostam do tema e também, principalmente, por aqueles que não gostam, uma vez que rememora a noção plena de união enquanto atributo de sobrevivência física e moral: física pois todos dependem de todos para manterem-se vivos; e moral pois a noção de pátria e identidade é montada a partir da conjunção entre eles, da noção de unidade e nação. Esta idéia de unidade grupal é acentuda quando da reiteração dada ao signo “gafanhotos” exposta por Calvino. Uma nuvem de gafanhotos em busca de um retorno e tentando manter uma integridade helênica dentro do barbarismo externo (outras civilizações) e o barbarismo existente dentro de cada soldado.
O capítulo intitulado Cyrano na Lua (pág. 96) Calvino brilhantemente contempla o maravilhoso mundo científico do renascimento, tempo onde princípios da incipiente física e astronomia se misturam aos elementos alquímicos e míticos de verdades ainda fabulares e lendárias. Este mundo precursor da ficção científica, antecipou uma série de elementos centrais deste tipo de narrativa. Como o astronauta que se livra da força da gravidade utilizando gotas de orvalho, que são atraídas para o sol possibilitando uma contra força. Do mesmo modo que vislumbrou os “livros sonoros”, onde se colocava uma agulha e o conteúdo era dito em uma boca de metal. Estas visões modernas e tecnológicas, são fundamentadas em princípios Lucrecianos de atomismo, como forma de entender o cosmo através de sua unidade, ou suas unidades nos quatro elementos de Empédocles. O que percebemos no clássico Histoire comique dês éats et empires de la lune, de Cyrano de Bergerac é uma necessidade de compreensão sistêmica no universo, esquivando-se da forma teocentrica do medieval, que apenas vai ser referendado no momento em que se satiramente desconstrói as noções de paraíso terrestre ou celestial. É o caso da teoria de Giordano Bruno, onde o cosmo é uma imensa cebola (metaforicamente) feito por camadas que brotam de um núcleo vital e essencial, que sendo unidade criogênica, é o sol, que emana o sal da vida. O enredo deste clássico narra a aventura de Cyrano rumo à lua, o que torna interessante entender os sistemas utilizados para cumprir tal empreitada. Enoch utiliza-se de dois vasos amarrados às suas axilas, que utilizados para sacrifícios, expurgam fumaças, lançando-o ao espaço; o profeta Elias usou uma embarcação de ferro, que lançada por uma bola imantada, foi arremessada pela forma de atração universal empreendida pelo sol. Já Cyrano fez uso de ungüentos de cérebros de animais, que segundo os mitos da época, eram sugados pela lua. Uma vez lá, descobre que é o paraíso terrestre, perdido no tempo. Cai sobre a árvore do pecado e amassa maçãs formando uma papa. A serpente do pecado, segundo narração do profeta Elias, foi introduzida dentro do homem, passando a ser o intestino, órgão que enrolado sobre ele mesmo, é responsável pelos impulsos e desejos primários na humanidade. Cyrano brinca que a serpente também passou a ficar no ventre do homem, que procura a mulher e cospe dentro dela, deixando-a inchada por nove meses. A inclinação do autor deste clássico em fecundar uma aproximação do amor divino a todos os seres, animais e vegetais, racionais e irracionais, contempla a noção de inteligência universal proposta pela estrutura inicial, de um mundo construído a partir de uma estrutura sistêmica, dotado de um todo muito além das filosofias, mas de uma concentração única de vida. Sem sombra de dúvida, o autor escreveu um um clássico renascentista, que segundo Calvino foi extremamente censurado e acima de tudo, um libertino de idéias e ações.
Uma questão sempre pautou minhas reflexões sobre Jorge Luís Borges. O mergulho em seu universo ficcional era precedido de uma imensa e criativa intelectualidade, que ítalo Calvino consagra como “... uma idéia de literatura como mundo construído e governado pelo intelecto” (pág 247). É como se fosse possível criar todo um cosmo literário a partir da criação, antepondo-se ao mundo caótico real da existência. No conjunto de referências da obra de Borges existe um espelho que reflete um outro mundo, não este ainda, mas um mundo do porvir. E esta peripécia artística tem a consagração estilística na escrita concisa, precisa e sucinta, o que Calvino classifica como economia expressiva, que difere de minimalismo. O mecanismo fundamental desta precisão colossal, que eleva sua arte a grandes patamares, segundo Calvino, situa-se no fato de que Borges parte de um livro maior, um livro grandioso, escrito em outra língua e por outro autor, e que ele, Borges, resume, simplifica, finge que remonta. Este efeito cria a ilusão da ficção sobre a ficção. Com sagacidade, a clássica obra O Aleph remonta esta prática na escrita, influenciando a literatura Italiana a partir da década de 50 e promovendo uma conexão intensa entre Borges e toda a trajetória literária da Itália.
Uma relação entre uma obra já escrita que é remontada a partir de outro texto (Borges), temos uma mesma estrutura de lâminas sobrepostas entre o lembrar e o esquecer que circula uma variável da obra Odisséia de Homero, resenhada de modo brilhante por Calvino (pág. 17). Calvino afirma que o mais importante em Ulisses é não esquecer de casa e de todas as suas coisas deixadas, e antes de tudo, perder o fio que leva a sua casa e ao seu mundo, pois é o eixo de sua sobrevivência. Tanto que Penélope tricota de dia e a noite desfia, o que denota indicialmente a necessidade do fio condutor, do eixo que liga os dois planos, o plano central da epopéia (social) com o plano final da odisséia (heróica).
Muito se pode discutir dos clássicos e da própria percepção de clássico envolta nos ramos teóricos da teoria literária e da tradição poética de séculos. Mas o que devemos entender, além da proposta desta obra necessária e intrigante, assim como estimuladora que é Por que Ler os Clássicos, é o universo humano que está escondido nas linhas e envolto nas imagens, diálogos, personagens e vivências experimentares que contemplamos e absorvemos nas obras mais importantes da literatura Universal. Universal porque contempla não qualitativamente um modo de escrever soberbo e único, mas porque sobeja a face cultural do homem em toda a sua diversidade. Ler os clássicos é poder partir rumo aos âmbitos mais intrigantes da língua, da cultura e do universo, interior e exterior da humanidade. Os sábios sabem reconhecer os clássicos e nós devemos ao menos tocar nesta sabedoria.

sexta-feira, junho 22, 2007

PROJETO PENSAMENTO E AÇÃO: LITERATURA E INCLUSÃO SOCIAL

As Acadêmicas de Letras / UNESC Fairuse Moreira e Maria das Graças desenvolveram um super projeto na escola Josino Brito que terá como desfecho um grande evento de cultura popular neste Sábado (23/06), às 19:30. Parabéns pelo grandioso projeto.




Cultura do Cordel


Cultura Hip-Hop


Apresentando: Declamações de poesias; teatros; danças; música; Cordéis;
AUDITÓRIO DA ESCOLA JOSINO BRITO 23 DE JUNHO - 19:30
Literatura é atitude Mental!


quarta-feira, junho 13, 2007

UMA LEITURA TEÓRICA DO MODERNISMO BRASILEIRO

Alguns princípios teóricos devem ser levados em conta quando vamos discutir o modernismo brasileiro. Estes princípios nos proporcionam uma visão estética e semiótica dos recursos de composição da arte moderna, inclusive com conexão nos cenários culturais e políticos. Seguem cinco itens importantes a esta análise:

1. As gerações de 30 e 45 foram abaladas pelas guerras mundiais que ampliaram a noção de humanismo, onde o corpo social passa a ter valor subjetivo, ou seja, o individual é deixado de lado em detrimento de um único corpo coletivo; este reflexo é visto na poesia de Drummond, na prosa de Clarice Lispector, etc.

2. Com a conclusão do último cânone (o simbolista) a literatura do modernismo de 22 sobrevive de idéias e projetos soltos, constituídos de experimentalismos e técnicas ousadas (vanguardismo) que acabaram por moldar o pastiche (o retorno constante a códigos canônicos e temas do passado para composição do novo); com o amadurecimento da nossa literatura regional, pós 22 e nos entremeios de 30 e 45, técnicas do realismo, formalismo, simbolismo, parnasianismo, e até romantismo foram utilizadas para construir uma literatura brasileira, que teve como força mestra o regionalismo;

3. O regionalismo pode ser considerado um gênero; isto porque não é somente uma aplicação específica de códigos de linguagem, ou temas reiterados dentro de um sistema alegórico próprio; na verdade o regionalismo é um gênero pois consegue abarcar em si mesmo uma multiplicidade de variáveis literárias que vão desde a temáticas universais e específicas até a aplicação de técnicas das mais tradicionais (O Quinze, Rachel de Queiroz) até as mais complexas (Grande Sertão Veredas, Guimarães Rosa).

4. O eixo do humor e da sátira são marcas do modernismo (Macunaíma); a evolução disto é a ironia, que posteriormente possui variações entre o sarcasmo e o cinismo; elementos que vemos em obras como "Triste fim de policarpo quaresma", "Clara dos Anjos" e a "Escrava que não era Isaura";

5. Os temas regionalistas se desdobram em muitas variáveis, que vão desde o sertanejo até o homem em sua essência, que luta pelo seu tempo e espaço; estes temas formam uma espiral profunda mirada para o infinito;

quinta-feira, maio 24, 2007

HERMENÊUTICA

Muito se tem falado da desinportância da Língua Portuguesa no âmbito social e cultural, prevalecendo a idéia de que o que importa é a comunicação; muitos tem acreditado que o professor de língua portuguesa apenas está "obstruindo" o caminho entre a informação e o detentor dela, como um obstáculo à linguagem fácil e chula, o que alguns acreditam ser motivo de "comunicação"; o que nem todos sabem, é que nosso conhecimento teórico está intrisecamente ligado ao nosso repertório vocabular; quem conhece mais palavras tem mais idéias teóricas, é mais espontâneo e consequentemente mais expressivo; por outro lado, quem conhece os mecanismo coesivos da gramática, articula mais as idéias e consegue representá-las com clareza e definição, evitando os embaraços da falta de objetividade; ao contrário do que alguns pensam, falar corretamente é ser mais objetivo do que aquele que fala truncado e demonstra ausência de objetividade quando não consegue um termo correto e adequado. Assim, devemos ter cautela quando falamos da desinportância da Língua Portuguesa culta, uma vez que esta é exigida pela mesma sociedade que a deteriora. Como exemplo de sua importância instrumental, inclusive para a prática jurídica, vemos sua relação com a Hermenêutica, que é senão uma aplicabilidade sistemática dos conceitos e terminologias da estrutura gramatical em uma redação aplicada (LEI) ao elemento pragmático da ordem comunicativa. (quem fala, para quem, por que, onde, quando, etc) no fato concreto.

HERMENÊUTICA
Prof. Rômulo Giácome de Oliveira Fernandes

A proximidade do termo interpretação com hermenêutica, diagnostica o grau de aplicabilidade de ambos os termos e sua necessária delimitação na orbe da leitura da redação da lei. Poderíamos dividir a interpretação como o resultado da ação de leitura engendrada por meio de alguns fatores sistematizados ou não, comportando uma opção estabelecida de informação resultante. Em outras palavras, um conjunto de fatores permite uma dada leitura, que é senão uma opção frente a outras opções possíveis e cabíveis a depender do contexto textual e social da aplicação da lei. Onde a hermenêutica entra neste processo? É a própria sistematização do ato de ler a redação da norma, o que é metodologicamente um processo estabelecido. As etapas comumente aplicadas pela hermenêutica enquanto método de leitura, pode ser sintetizada em quatro abordagens.
Gramatical ou filológica. Quando o leitor debruça-se em esmiuçar o léxico e sua estrutura sintática detalhadamente, bem como o seu comportamento representativo em sua literalidade, ou seja, sentido strictu. Insere-se também nesta prática o étimo, procurando os antigos usos terminológicos para com os atuais usos, sempre em busca da objetividade do termo, o que implica em uma análise mecânica e que não atenta à realidade circundante (social ao fato e a lei). É a preocupação com o vocabulário, com as palavras e seu sentido. Também uma busca de retratar as origens de certos vocábulos e seus princípios de utilização.
Lógico / sistemático. Neste caso procura-se estabelecer uma conexão com a lei em sua essência vocabular (o nível de representação dos vocábulos) com os pressupostos da própria lei em si na sistematização do ordenamento jurídico, estabelecendo conexões com outras leis. Além da busca das relações de coesão entre os termos alocados nos períodos ou frases que se aglutinam, concatenam ou se justapõem. Assim, um elemento coesivo com a conjunção OU, pode determinar uma variação na interpretação da lei, o que está longe da questão no fato concreto.
Histórica. Procura-se um diálogo com o momento de enunciação da norma e sua pragmática. Por quem ela foi proferida, qual a finalidade de sua existência, qual o contexto de necessidade de sua aplicação, quais os motivadores que levaram os legisladores a tal definição; busca-se com isso uma re-elaboração do instante da redação inicial e de sua aplicação (o espírito da lei), bem como o peso da norma no tempo em que foi engendrada.
Sociológica. Esta tem total relação com este trabalho, uma vez que trabalha na medida de uma realidade social que deve ser atendida, provocando um diálogo com vários conteúdos de ordem moral, ética, econômica, social, psicológica entre outros conteúdos que o sistema vai definir como variáveis. É a adaptação do sentido das leis à uma realidade social em que esta está interligada. Esta adaptação está prevista no art. 5º da Lei de Introdução ao Código Civil: "Na aplicação da lei o Juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum".
Teleológica. Prever e criar expectativas semânticas a cerca do fim a que vem a norma (on ration). Em outras palavras, perceber a reação da norma, seu efeito prático em dois ângulos de atendimento: o fim social e o bem comum. Efetuar uma interpretação, levando em conta a resultante prática da norma, é uma ação teleológica.

quarta-feira, maio 16, 2007

EASY RIDER - SEM DESTINO (filme)


(1969) Procurar duas pontas de caminhos tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo; discutir ideologia a partir da contra-ideologia, ou o que é pior, discutir ideologia onde ela mora enfaticamente: na cultura americana ou o seu american live; Easy Rider é um filme de motoqueiros para motoqueiros;

quarta-feira, abril 25, 2007

ANÁLISE DO POEMA "PÓ / ÉTICA"

Análise metodológica do Poema PÓ / ÉTICA;
Poema: Prof. Rômulo Giácome de Oliveira Fernandes
Autores: Andressa Gomes Borges, Deloir Schreiber, Fairuse Moreira Rodrigues, Geisy Emiliana Maurício, Inara Luiza Salvi Dallolmo, Jucilayne Regina Cambuí, Maria Andréia Garcia, Messias Pereira, Miriam Bomfim. (Acadêmicos do 7º período de Letras)
“PÓ/ ÉTICA”.
Digo não:
Ex-cravo
Não escrevo, encravo
No ex de tudo
Trono
De tono
Detrono a tibia
Verso meu de todo dia
De tudo isso
Não insisto
Apena:
IN saio
OU tudo
OU NADA
A nada
No D do dado
No ser do seio
Do próton ao nariz do pluto
A arte é sempre a mesma
Um pingo de ti e uma letra de mim
Um gesto, assim, desaforado.
Palavra da lava, mentira suja lavada
Prata e preto
Plutão e Plutarco
Quem arqueará meu arco?
Não sei se sabe
O se sabe não sei
Interno e Externo
Amparo e lumiar
Lumiei uma vontade de ser Ético
O engraçado é que cético
Não é ereto no teto.
Flúor e dente: Limpeza e arte
Cada um em um
Em bate, bate, bate,
Palavra VERSUS arte:
Todo combate
Reconhecem?
Signal
Signal amigos
Totalmente signal
O horóscopo neste signo
Naturalmente suspira sentido!
Metodologia à análise do poema concreto.
  • Identificar o binarismo na poesia: pares sonoros
  • Identificar os aspectos de vebicovisualidade:
Verbicovisual: visão (disposição, contraste); sonoro (binariedade, equivalência sonora e equivalência semântica); verbal (multi-dimensidade, equivalências semânticas).
  • Considerar as palavras como “coisas”: é preciso negar o caráter semântico e ler apenas a materialidade (a porção material, a porção concreta).
  • Observar a relação dicotômica: fundo/forma, pois o poema concreto possui várias expressões que se cruzam na produção do múltiplo;
  • Identificar a materialidade e unidade do constructo: as partes existem sem o todo, mas o todo não existe sem as partes;
  • Observar a disposição gráfica do poema;
  • Perceber os isomorfismos presentes;
  • Ler ao invés de interpretar: a redação
  • Não procurar os sentidos;
  • Observar a substituição da sintaxe pela arquitetura.
  • Observar cores;
  • Observar a disposição, traço;
  • Observar a espacialidade, proporção;
  • Observar a simetria (estabilidade), assimetria (instabilidade);
  • <!--[if !vml]--><!--[endif]-->Observar ícone (representação primeira, visual);
  • Observar índice (representação convencionada);
  • Observar símbolo (representação, socialização legítima);

Exemplo:
É o caso da cruz. Ela é um ícone (de um homem sendo torturado), um símbolo (da fé cristã) e pode ser um índice (quando chegamos a uma cidade e queremos saber onde fica a igreja).
  • Escolher uma direção de leitura e depois experimentar: o segredo da poesia concreta é saber onde ela começa e depois seguir sua leitura na seqüência, trata-se de uma poesia cíclica;
  • Valorizar a holografia;
  • Construir as imagens dos pontos e isomorfismos;
  • Ler os “sons”: porção significante sonora;
  • Perceber a tipografia.
Aplicação da metodologia no poema “PÓ/ÉTICA”
Pó Ética remete ao poder, enquanto PÓ, remete a poeira.
Escravo em seu sentido semiótico cria, remete a imagem no sentido cravado, uma vez que o escravo é cravado aos mandos de seu senhor.
Quando se observa o termo destrono a tíbia, pode representar ou significar, destruir a morte que é representada simbolicamente por duas tíbias cruzadas e duas cabeças. O nariz do pluto e o próton representam a sensibilidade da energia (próton) e o faro (nariz do pluto).
Ao falar de binariedade logo acima, pode-se retirar ou encontrar no poema em questão os seguintes trechos, que a representa:
Pó/ Ética
Esc/ cravo
De/ tono
Ou tudo/ ou nada
Prata/ preto
Plutão/ Plutarco
Interno/ externo
Flúor/ dente
Limpeza/ arte.
Outro aspecto a ser observado é o verbal denotativo, que tem como representantes no poema as palavras: digo cravo, escrevo, cravo, destrono, insisto. Arqueará, sabe, amparo, lumiar, ser, bate, reconhecem, suspirar.
Ao se propor a escolher a direção da leitura, essa pode ser feita em dois sentidos; tanto na forma vertical, quanto na forma horizontal. O visual neste poema é nulo e a leitura dos sons podem assim serem representadas:
Pó/Ética: poética, ex/cravo: escravo e de/ trono: detono.
<!--[if !supportLists]-->1- <!--[endif]-->A caneta, a tinta, o papel e a palavra, independente de verdade ou mentira são matérias-primas da poesia.
<!--[if !supportLists]-->2- <!--[endif]-->O poeta ao escrever, não sabe a quem vai comunicar a sua poesia, assim como também não sabe se quem vai ler, sabe o que está lendo; por isso o poeta concretista deixa pistas.
Não há contextualização na poesia concreta, ela basta por si mesma, descontextualizada. Isso implica na idéia de que a arte não serve para nada.
Outra leitura provável acerca da poesia “PÓ/ ÉTICA”, de Fernandes seria uma leitura metapoética, em que a poesia se vale por ela mesma e explica sua própria existência. Assim, podemos observar um confronto entre o novo e velho dentro da literatura, ora, pois entre o Clássico e o Concretismo. O clássico representado pela palavra “trono”, que pretende evidenciar o poder do tradicional e o Concretismo, por sua vez, representado a partir da palavra “De tono”, ou seja, o movimento concreto surgiu com o intuito de derrubar o poder até então concedido ao classicismo. Veio como a ruptura do “verso meu de todo dia”, quer dizer os sonetos e o emprego dos versos livres, rompendo com a sintaxe.
O Concretismo, portanto é um período complexo, mas com uma sistemática simples. “No D do dado”, percebe-se uma referência ao poema “Um lance de dados”, primeiro poema concreto que pode ser lido de todas as formas e que nunca se esgota, nota-se ainda, na figura do dado, as possibilidades de leitura que um poema concreto pode apresentar. E quando se diz: “Do próton ao nariz do pluto” novamente temos a idéia de projeção do tradicional (clássico) para o novo (concretismo).
Em: “A arte é sempre a mesma/Um pingo de ti e uma letra de mim/Um gesto, assim, desaforado”, observa-se uma alusão ao caráter múltiplo da poesia concreta, isto é, não é o sentido que é múltiplo e sim o código. Desse modo a pessoa que lê um poema concreto não obtém vários sentidos, mas sim várias leituras.
Observe a seguir:
Palavra da lava, mentira suja lavada
Prata e preto
Plutão e Plutarco
Quem arqueará meu arco?
Em se tratando desse fragmento, nota-se uma referência ao poeta e ao ato da escrita, ou seja, mostra-nos que àquilo que o poeta escreve não corresponde necessariamente àquilo que ele pensa; o poeta é, portanto, um fingidor, de modo que cabe ao leitor evidenciar a multiplicidade de leituras.
Ao falar “Não sei se sabe/ou se sabe não sei/Interno e Externo/Amparo e lumiar”, pode-se observar a relação entre o locutor e o interlocutor, a poesia concreta apresenta características internas (conteúdo) e oferece suporte para as leituras (externo), temos assim, uma poesia produto, que demonstra nessa estrofe a ironia, que acontece não no todo, mas no fragmento da poesia. Quando se diz: “Lumiei uma vontade de ser Ético/O engraçado é que cético/Não é ereto no teto, nota-se um recado do poeta é como se ele dissesse: “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, mostrando, pois que nem ele mesmo pratica àquilo que ele prega.
Observe agora, as duas últimas estrofes:
Flúor e dente: Limpeza e arte
Cada um em um
Em bate, bate, bate,
Palavra VERSUS arte:
Todo combate
Reconhecem?
Signal
Signal amigos
Totalmente signal
O horóscopo neste signo
Naturalmente suspira sentido!
Inicialmente, percebemos a característica da inovação defendida pelo concretismo, arraigada na palavra “limpeza”, de modo que o movimento nascia com a vontade de colocar o clássico em seu lugar: “cada um em um”, por meio de um conflito “em bate” estabelecido entre os mesmos. Quando se fala: “Palavra VERSUS arte: Todo combate”, é como se a palavra “versus” estivesse sendo utilizada com o sentido de verso, assim, a palavra versus, que quer dizer negação indica nesse contexto a contradição, a negação do verso dentro do concretismo. Temos, nesse sentido, a negação (VERSUS) do verso, representando aqui o combate dos concretistas em relação aos sonetos e a defesa do verso livre.
E por último, evidencia-se o signo (coisa que significa), bem como suas equivalências sonoras e semânticas, respectivamente. Em “o horóscopo neste signo” pode-se observar as possibilidades (previsões) dentro do concretismo, uma vez que o horóscopo não se repete e trabalha com as possibilidades de acontecimentos, temos assim o acaso, igualmente, as leituras do signo, enquanto objeto.

terça-feira, abril 10, 2007

MODERNISMO BRASILEIRO

Orientações do Prof. Rômulo Giácome

As vanguardas Européias:
Os "ismos" sempre foram considerados elementos chatos de serem compreendido pelos alunos iniciantes e completamente incensados pelos críticos conteudísticos sociais, uma vez que suas repercussões não reverberam na teia social brasileira do modo como deveria ser. Mas para aqueles literatas preocupados com a teia da linguagem que compõem o casulo da arte verbal, as vanguardas são o ponto máximo da evolução da literatura efetuada pelo simbolismo, uma vez que preconiza o signo como elemento mediador (demiurgo) do elemento sensível com o néctar na poesia, o conteúdo. Vindo ao encontro desta premissa, abordaremos as vanguardas por pequenas dicas intrínsecas a sua constituição semiótica que contribuíram sobremaneira ao entendimento e análise de fragmentos de poemas contemporâneos. Vejam o esquema abaixo:

Separaremos as vanguardas por percepções semiotizadas:

I Verbais

Enfoque nos termos da língua (palavras) que tem como referência a denotação em um movimento de modulação para a conotação.

DADAÍSMO:
Recortes interessantes a serem pontuados: neologismos; ilogismo semântico por meio de novos termos; paranomásia, ou seja, equivalência sonora; manipulação dos dialetos das línguas e referência a outras línguas;

FUTURISMO
Recortes interessantes a serem pontuados: velocidade rítmica da prosa e poesia; ausência de pontuação; violência simbólica a partir de um léxico forte e intenso; onomatopéia (imitação dos sons concretos); imitação da sensação de modernidade; busca de aliterações e assonâncias mecânicas;


II Visuais
Busca da projeção visual dos signos não-verbais descritos nos textos que propiciam a elaboração da "cena informativa";

SURREALISMO
Recortes interessantes a serem pontuados: bloqueio da razão e fluxo da consciência; inconsciência; sonho; elementos telúricos e oníricos; devaneios; abstrações; imagens não figurativas (sem forma definida pelo real); abuso das cores, sensações e emoções;

CUBISMO
Recortes interessantes a serem pontuados: desconstrução do figurativo; presença da imagem; formação geométrica; delineação de pontos oblíquos; definições em ângulos; recortes;

CASO IMPORTANTE:

EXPRESSIONISMO:
O expressionismo possui ambivalência comunicativa; tanto parte de postulados visuais quanto de verbais; ele pode ser facilmente confundido e deve estar classificado como uma categoria e não como uma marca de expressão; a tônica de sua classificação está na função emotiva, onde o sujeito discursivo emana traços expressivos através de expressões verbais na enunciação (interjeições, analogias, repetições) bem como visuais, criando relações entre emoções e sentimentos com cores, traços e formas.

QUESTÃO
O que torna a obra Macunaíma, de Mário de Andrade, modernista?

- O pastiche de uma mitologia racional, estruturada por sobre uma mitologia indígena primitiva, alicerçada em lendas e folclores de ficcionalidade e fantasia surreais;
- A bricolage do folclore indígena por um viés popular, com cores e tons sofisticados a partir da erudição e enciclopedismo de Mário de Andrade.
- Ausência de nexo na pontuação; esta negação permite o fluxo futurista, estruturado a partir do ritmo da prosa moderna de bases Joycianas.
- Tematização a cerca do elemento antropofágico, sugando a seiva da cultura (caldo cultural) como forma de recriação do novo;
- a METÁFORA DO ÍNDIO na perspectiva do anti-herói; a marca da ironia e humor popular de arestas modernistas;
- O vigor da narrativa em terceira pessoa com pessoalizações e internalizações de perspectivas;
- A ligação do campo com a cidade, através do elo indígena e do movimento de viagem e roteiro, dando ênfases épicas à narrativa localista;