quinta-feira, setembro 25, 2008

artigo - CULTURA KITSCH E REPRESENTAÇÕES ICONOCLASTAS

CULTURA KITSCH E REPRESENTAÇÕES ICONOCLASTAS
Rômulo Giácome de Oliveira Fernandes[1]


RESUMO
O que é cultura Kitsch? Qual o seu papel na indústria cultural contemporânea? Como ela integra os vácuos de saber e necessidades sociais que o consumo alimenta e propaga? Como as representações iconoclastas adentram no imaginário artístico social? Estas são as questões abordadas por este artigo, que tem como objetivo geral, apresentar a cultura Kitsch ao universo acadêmico regional e apresentar a relação equinânime entre sua forma de cultura e as representações iconográficas enquanto mecanismo de propagação.
PALAVRAS-CHAVE: Cultura Kitsch; Iconoclastia; Indústria Cultural;

ABSTRACT
What is Kitsch culture? What is your role in contemporary cultural industry? As it incorporates the vácuos to know and social needs that consumption feeds and spread? As the representations iconoclastas adentram artistic imagination in society? These are the issues raised by this article, which aims to general, the present culture Kitsch the academic world and regional equinânime make the relationship between culture and their way of the representations iconográficas as a mechanism for spreading.
KEYWORDS: Culture Kitsch; Iconoclasm; Culture Industry;


INTRODUÇÃO

O presente artigo procura vislumbrar, no contingente amplo da cultura contemporânea, uma definição prática de produção Kitsch e suas implicações no cenário artístico erudito, definindo a iconoclastia como mecanismo desmodrômico de proliferação do Kitsch na nova desenvoltura da produção intelectual de consumo.

1 A PRODUÇÃO DE ARTE KITSCH

Muitas vezes entendido como réplica de obra de arte e interpretado como diluição destas mesmas obras consagradas, o Kitsch é um fenômeno da cultura contemporânea, demarcado pela panicéia do consumo, do ter sobre o ser e da aparência sobre a essência.
Oriundo do verbo alemão kitschen/verkitschen (trapacear, vender alguma coisa em lugar de outra), o termos kitsch adquiriu o significado de "falsificação" a partir de 1860. Porém, o termo kitsch foi usado pela primeira vez na metade do século XX, na obra do sociólogo francês Edgar Morin (1987, p17) intitulada Esprit du Temps. Guimaraens & Cavalcanti (1979, p.9) encontraram outra possível origem para o kitsch, além de considerarem a etimologia alemã. Para esses autores há uma versão na língua inglesa, provinda da palavra sketch, significando esboço. (SÊGA, 2008)

Algumas formas artísticas tem propriedades que impossibilitam uma distinção entre arte e artesanato; enquanto a primeira tem o caráter universal e a perfomance da linguagem em estado sublime, a segunda é a constatação da técnica pela técnica; o ato de repetir um procedimento artístico e perpetuar a mesma mensagem pragmática; a exemplo podemos citar a escultura, a modelagem, a arquitetura, entre outras formas, incluindo, em certo grau, a pintura, modalidades artísticas que exalam confusões conceituais sobre sua natureza original.
Aos olhos do crítico, o dilema arte e artesanato parece simples e de fácil solução; já aos olhos das pessoas com menos erudição, a ausência de experiências com a arte canônica, desqualifica o intelector dos códigos culturais mais clássicos de compreender o que vem a ser um cânone artístico em função de uma obra artesanal. A exemplo do regionalismo brasileiro, que sustentado por obras extensamente universais (Graciliano Ramos e Guimarães Rosa), soam demarcadas e datadas a partir da década de 60 (vide Jorge Amado).
Quando a cultura de massa, conceito de Benjamim (1892-1940) e Adorno (1903-1969) decide por utilizar de signos e formas culturalmente clássicas (um quadro de Mondrian, Magritte ou Duchamp, como exemplo), buscando respaldo na “massa” intelectora, esta extensão de um signo universal e artístico consagrado e sua reverberação dentro da caverna da cultura de massa, constrói um procedimento Kitsch. Este uso pragmático, assombrado pelo fazer da linguagem de consumo e da Indústria Cultural, formata e impele à produção de réplicas, miniaturas, referências e mais referências à arte erudita e pop, de modo a construir uma teia de ramificações que convergem sempre a um mesmo propósito, gerar cultura de massa em campos áridos.
Um documentário em um programa popular de grande audiência, que coloca a importância do vaso de Duchamp para a arte contemporânea, incorpora ao circuito informativo de um dado grupo, informações artísticas que serão estendidas ao ato de fruir nas camadas modulares iniciais, ou seja, um consumo destes objetos que remetam a esta idéia artística veiculada; camisetas com a ilustração do vaso de Duchamp, réplicas do vaso para mesas de escritório, artigos de divulgação com conteúdos incipientes sobre o tema e, em certa medida, uma pequena convulsão de interesse pela matéria; comentários “exclusivos” sobre o artista em rodas regadas a vinho e a consolidação do mecanismo primário de propagação ideológica, as referências.
Quando em grande escala, temos fenômenos culturais como o já consagrado exemplo do quadro de Leonardo Da Vinci, a “Monalisa”, que reverbera dentro da consciência artística da sociedade, constituindo uma catálise de obras clássicas inacessíveis ao público comum, o que perpetua a idéia oblíqua de gosto e prazer estético falseado pela condição de ser cultuado. Em suma, uma obra que tornou-se, inocentemente e sem consentimento, esplendidamente Kitsch.
Mais do que os valores artísticos, um determinado elemento torna-se Kitsch quando agrega em seu bojo e contexto, valores que diferenciam e dissociam os indivíduos dentro de um dado grupo social; conhecer Duchamp é uma forma de apresentar-se em condição intelectível de discutir sobre arte em um patamar mais amplo que a cultura Pop; citar nomes de autores sem os ter lido é altamente Kitsch, e torna-se objeto de dominação a partir da sedução do conhecimento. Este fenômeno ocorre muito na juventude com as bandas de Rock and Roll, que quando recebem muitos fãs, deixam de interessar; ou quanto determinado cantor ou cantora regrava grandes sucessos de outrora, que consolida uma pseudo-visão cultural do processo musical, eximindo a culpa de “vender” que atormenta todos os cantores imersos na idéia ingênua de que música é apenas catarse; (vide Marisa Monte e seus sambas, Fernanda Takai e sua “homenagem” a Nara Leão).
A cultura Kitsch nos assola e determina nossa relação com o conhecimento cultural da “indústria cultural contemporânea”; tirados os elementos da cultura clássica por essência, aqueles ancorados nos panteões universais e amarrados às dificuldades da erudição, (Esculturas Helênicas, obras simbolistas como Mallarmé e os Cantos de Maldoror, a literatura Clássica do renascimento e Realismo, os sonetos greco-romanos desde Homero a Camões na contemporaneidade, dentre outras milhares de produções) todo o resto de elementos que temos enquanto obra, estão vinculados à uma industria cultural que sobrevive e se retro-alimenta de sua própria produção; qual a relação artística entre um Crime e Castigo e O código de Da Vinci? Qual é mais sinal de erudição? Qual é mais sinal de cultura? Como saber se o que gostamos na MPB é realmente a nata e pode ser considerado fora das regras convenientes do gosto musical vigente, e assim, podem nos assegurar estarmos corretos em nossa cultura? Marisa Monte é símbolo de qualidade musical? Ou faz música Kitsch? A progressão modular e a sombra causada pela arte culta emoldura e standartiza objetos de consumo que se tornam kitsch, pois a necessidade de consumir esta arte, não requer qualquer critério de escala.

Ainda que, muitas vezes, se fale no kitsch como um conceito universal - reconhecível portanto em qualquer época e estilo artístico - a maior parte dos estudiosos localizam-no no seio da sociedade industrial, de feitio burguês, o que faz do estilo kitsch um dos produtos típicos da modernidade. A pujança do kitsch, coincide com a expansão do mercado e com a emergência da sociedade de massas que impõem normas à produção artística ditadas pela difusão e possibilidades de aquisição de produtos artísticos - de modo geral, reproduções e cópias - em função dos baixos preços. Os grands magazins, que abrem suas portas a partir da segunda metade do século XIX, dão vazão aos novos produtos que visam agradar às classes médias: porcelanas, bibelôs, estatuetas, cromos com reproduções de estampas e/ou figuras célebres etc. O kitsch apresenta-se desse modo como a arte que está ao alcance do homem, disponível nas vitrines e casas comerciais. (MOLES, 1975, p18)

Como reconhecer o sêmen primeiro, o verbo que fez a nova linguagem e que proliferou arte? Como entender o que é original do que é cópia? O inovador do pastiche? A proliferação de imagens, fotos, camisetas, comentários e diálogos que falam de filmes, músicas, quadros e literatura não passam de uma mesma teia, datada de anos e anos do mesmo conhecimento cultural, arraigado pela educação escassa e pela propaganda ideológica que somos obrigados e ter e a consumir?
A tarefa de crítica e reflexão sobre a produção Kitsch tem sua práxis determinada não pela exclusão ou pelo ato niilista de reprimir e negar; na verdade, compreender o processo nos atinge com algumas soluções um tanto quanto inusitadas:
1ª – A indústria cultural de Adorno e a crítica que Walter Benjamin fez a todo este emaranhado pegajoso de cultura não é um elemento externo a nossa construção cultural; na verdade, somos parte dela porque compartilhamos e moldamo-nas de acordo com nossas necessidades; necessitamos de uma didática cultural para poder, sistematicamente, compreender e consumir nossa produção artística; temos pouco tempo e conhecimento e, portanto, a diluição é inevitável; Jorge Luis Borges metaforizou esta condição em seu conto a “Biblioteca de Babel”, onde ele categoriza que as obras são exponenciais em suas bifurcações de produção e leitura; portanto, é impossível termos e adentrarmos ao todo;
2º – Vivemos em uma era de fetichismo pela imagem no bojo da linguagem; este fetichismo nos impede de ver o todo e de aprofundarmos dentro do conhecimento cultural; assim, temos ícones de cultura, fragmentos de saber artístico, pequenas imagens que representam o que gostamos e, assim, o que somos; é neste gancho que inserimos a iconoclastia contemporânea;

2 O AMÁLGAMA DA CULTURA KITSCH NA ICONOCLASTIA

Na era do design, as formas e as cores nunca foram categorias tão intensas de representação; o que outrora eram conhecidas formas de conhecimento e estruturação cognitiva do indivíduo cognoscente (dialética, estruturalismo, contraposição, metáforas, lógica) agora dão lugar ao pensamento / memória visual, expressão sensorial e raciocínio paramétrico, entre outras;
A forma sistematizada do conhecimento em pequenos pacotes (quantas de informação e saber) e a possibilidade de compartilhamento destas informações são percebidas na própria eclosão e propagação do conhecimento por meio do saber em infográficos, gráficos sinópticos, listas e estruturas, bem como na forma mais consistente e básica de organização do conhecimento hoje: as pastas e janelas; nunca uma perspectiva tecnológica conseguiu afetar tão profundamente o modo como a sociedade e a comunidade humana como um todo encara e organiza o saber quanto a informática e seus sistemas operacionais conseguiu determinar, baseados em plataformas multimídia e multitarefas; é a perfeita simbiose entre um conhecimento estruturado e didático, a imagem (ícones) e a forma (janelas), em um sistema orgânico e diluído de informações (Google).
Desta forma, o ícone é a lápide ou síntese totêmica de um dado conhecimento, feito por imagens, desenhos, ou qualquer outra forma visual, sucinta, sistemática e organizada, que tem a capacidade, enquanto elemento semiótico, de substituir uma informação e provocar outras.
Por outro lado, os ícones têm o potencial defeito de diluição da capacidade significativa de uma informação, da transposição de seu caráter axiológico para outro. Este desfacelamento da informação pura e completa dada pelo ícone, ocorre uma vez que sua representação é compacta, como uma pílula de saber.
Por esta característica assinalada acima, o ícone é um elemento Kitsch dentro do sistema cultural abrangente, servindo como condutor de cultura, mas de uma cultura resumida, amarrada ao contingente ideológico necessário à sobrevivência da lógica cultural do capitalismo tardio.
A iconoclastia é esta propagação de dado sistema cultural dentro da lógica total da Indústria de Cultura contemporânea, feita por imagens representativas do universo Kitsch. A moda tomou de assento esta premissa por meio da pirataria, emanando os ícones que constituem a alta-costura: bolsas falsificadas da Prada e Louis Vuiton são vendidas na rua 25 de março; perfumes Yves Sant Lauret e Ferrari, propagados para aqueles que se sentem próximos do Saara da sofisticação, do exclusivo e diferente, quase “cult”; poder acreditar que ao consumir o produto pirata, o indivíduo está compartilhando não os atributos reais e concretos do objeto adquirido (sua qualidade, por exemplo), mas sim o “saber” esta sofisticação, conhecer os nomes, as “marcas”, os ícones desta cultura interessante e atrelada ao exclusivo. É uma luta por valor agregado e não pela qualidade material, por isso que o fato da falsificação não interessa ao consumidor, pois o que ele devora não é o produto, mas a marca, o signo, o ícone da cultura.
O fato mais interessante ocorre quando existe uma intermediação entre o artístico canônico erudito com o popular coloquial; na pintura, podemos ver o uso do espectro de artistas consagrados, resumidos e sintetizados em sua forma mais comum e popular; o lado Pop de Mondrian; o lado Pop de Kandinski; o lado Pop de Miró; a crítica, enquanto ferramenta a serviço de qualquer sistema político / ideológico, consegue diluir estratégias artísticas complexas e apenas deixar as linhas fáceis, as arestas mais oblíquas, o aspecto mais convencional e popular, para construir a sensação de “poder ter” necessário aos menos abastados que querem consumir arte.
Para construir uma arte Kitsch no cenário das representações, nada melhor do que conhecer a forma de Silk Screen criada por Wandy Warhol com sua “Liz Taylor”; a réplica, a nuance do conhecido, a cópia exaustiva das feições célebres de uma beleza social, comunitária, genérica, mas sublime, usufruída por todos, popularizada, replicada e copiada a tanto e extremo, que fica apenas o que é de essencial, as formas perfeitas do ícone, que neste processo de múltiplas repetições, socializado e instituindo, vira símbolo de uma cultura. (o processo que imita o carbono, de tanto executar, o desgaste da quantidade de repetições consegue criar um efeito espectral da forma mais sintética e sublime do rosto da modelo). Esta cópia exaustiva até construir um símbolo é a premissa Kitsch, estatizada pela iconografia. Wandy chegava a copiar milhares de vezes uma mesma fotografia em busca do espectro do Pop.
Por um outro prisma mais complexo, a minimização dos processos de conhecimento do indivíduo quanto a sua própria história ficam diluídos na proliferação das imagens Kitsch do jornalismo publicitário e panfletário; a iconoclastia substituiu o profundo conhecimento histórico na medida em que a imagem passou a representar uma alteração social por completo, como um ícone semiótico; esta substituição da informação vertical pela horizontalidade da imagem, afeta o modo como as pessoas compreendem a história, consequentemente suas próprias vidas em sociedade; A queda do muro de Berlim pode ser traduzida por uma imagem de um jovem com uma picareta na mão e outro pichando o muro; a guerra do Kuaite pode ser compreendida pela tela de um vídeo-game, tal é sua extensão virtual (ou sensação de); grandes acontecimentos co-existem no imaginário Kitsch da maioria das pessoas, misturados às cenas que não fazem parte da mesma categoria; esta profusão iconoclasta mistura a imagem da queda da Bastilha com The Trooper do Iron Maiden; a guerra do Vietnã com um Helicóptero decolando ao som dos Creedence; este caos afeta a visão ideológica que temos de nosso próprio sistema político e social; fotos do Che convivem com logos da Nike e imagens de latas de Coca Cola; o universo iconoclasta é caótico e bombardeado a todo momento por mais e mais propagandas ideológicas e novos produtos que querem seu espaço neste filão cultural. Assim, atrelar um produto a um modo de vida é um grande passo à criação de um símbolo.

CONCLUSÃO

Se a proposta deste pequeno artigo for entendida como uma explicação dos conceitos propostos pelas palavras-chave, diga-se de passagem bem resumidos, o que interessa mesmo a este texto é dimensionar a importância da Iconoclastia dentro do processo de produção Kitsch, uma vez que o acesso a cultura erudita e canônica, bem como aos produtos sofisticados de uma elite abastada, tornaram-se possível pela diluição ocasionada pelo imaginário iconoclasta: imagens, réplicas, falsificações, reproduções, refilmagens e todo um contingente de mecanismos para a profusão e proliferação da cultura de consumo.


BIBLIOGRAFIA


BENJAMIN, W. Obras escolhidas: magia, técnica, arte e política. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. São Paulo: Ed. Brasiliense, Vol. I, 1985.
ECO, U. Apocalípticos e integrados. São Paulo: Perspectiva, 1987.
GUIMARAENS, D. e CAVALCANTI, L. Arquitetura e kitsch. Rio de Janeiro: FUNARTE,1979.
MOLES, A. O kitsch. São Paulo: Perspectiva, 1975.
MORIN, E. Cultura de massa no século XX – o espírito do tempo. Vol I e II, Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1977 / 1987.
SÊGA, C. M.P. O kitsch e suas dimensões. Brasília: Casa das Musas, 2008.
TEIXEIRA COELHO ,J. O que é indústria cultural. São Paulo: Brasiliense, 1981.

[1] Professor de Língua Portuguesa e Literatura, mestre em Teoria Literária pela UNESP / SP e pesquisador / coordenador do grupo de Pesquisa TEOLITERIAS.

Resenha - "LÍNGUA E LIBERDADE" - CELSO PEDRO LUFT

RESENHA CRÍTICA – LÍNGUA E LIBERDADE

Helem Cristiane Aquino dos Anjos Fernandes[1]

LUFT, Celso Pedro. Língua e Liberdade. São Paulo: Ática. 6ª edição. 1998.

A obra “Língua e Liberdade” de Celso Pedro Luft é composta por uma série de artigos jornalísticos publicados em diferentes épocas e tratam de um mesmo assunto: a importância da reformulação do ensino de língua materna. Esses artigos se colocam contra o ensino gramaticalista e purista da língua, que segundo o organizador só promove a insegurança e a opressão, pois ao invés de desenvolver as habilidades linguísticas dos alunos, os reprimem frente aos desvios cometidos em relação à norma culta da língua. Isto porque consideram apenas aquilo que é prescrito pela Gramática Normativa, não levando em conta os conhecimentos prévios internalizados, ou seja, conhecimentos que os alunos já chegam na escola sabendo.

De um modo amplo, esta obra fomenta a necessidade de um ensino de língua materna que ajude o aluno a desenvolver-se pessoalmente e criticamente; pessoalmente pelo fato de dar ao discente a liberdade necessária para que ele desenvolva livremente sua criatividade e competência, sem os tolhimentos causados pelos frequentes apontamentos dos erros gramaticais. E criticamente, pois acreditam que o ensino de língua deve propiciar o máximo de experiências de leitura, escrita e fala para que os alunos possam desenvolver seu espírito crítico e comunicativo, tornando-os assim, sujeitos ativos do processo educacional.
Na primeira parte da obra é analisada a crônica de Luis Fernando Veríssimo “O gigolô das palavras”. Luft retira seus principais fragmentos e explica-os de acordo com a sua visão de ensino de língua materna.
Defende que a língua é uma entidade viva e, portanto, deve ser vista, analisada e ensinada como tal. Assinala, também, que o crucial na linguagem é comunicar da forma mais clara possível. Defende que devemos respeitar apenas as regras básicas da Gramática, pois existem regras totalmente dispensáveis para o uso eficiente da língua.
Os autores convergem seus textos na crença de que a língua é autodeterminada pelos seus usuários, isto é, só o costume pode determinar o que é certo e o que é errado. Dessa forma, a sintaxe da língua seria determinada pelo uso, não comportando, regras pré-determinadas. Isso quer dizer que seria desnecessário o longo e cansativo estudo das regras sintáticas.
Enfatiza que o ensino de Língua Portuguesa deve passar por mudanças radicais, a começar com a mudança de postura dos docentes frente ao alienado e alienante ensino gramaticista, que vê o aluno como um ser que não sabe.
É necessária uma prática sem opressão e sem medo, em que professor e aluno possam trabalhar em conjunto, para que assim o aprendiz possa liberar com total segurança suas capacidades, pois vê o professor como um guia motivador, e não como um ditador de regras, muitas vezes infundadas.
O ensino de língua materna deveria, em vez de ensinar os alunos a decorar conceitos e regras gramaticais, propiciar, em primeiro lugar, condições para eles desenvolverem a expressão oral; conscientizá-los como donos da língua, resgatando assim a confiança dos mesmos como falantes nativos.
Ao mesmo tempo, seria necessária a conscientização da importância da escrita, introduzindo e aperfeiçoando-a, ensinando-os realmente a escrever com demonstrações de como se estrutura um texto, de como as frases podem ser melhoradas, enfim, de técnicas de expressão para que eles tornem-se capazes de usar a língua falada e escrita com desembaraço e segurança, em qualquer situação.
Tudo isso é de essencial importância para resgatar o interesse dos alunos pelo aprendizado de Língua Portuguesa, pois até então o que vemos são alunos com aversão a essa disciplina.
É válido ressaltar que a proposta de Celso Pedro Luft é a reformulação do ensino de Língua Portuguesa. Quando ele critica o ensino normativista presente em grande arte das escolas ele não quer dizer que devam ser abolidas as Gramáticas. Luft defende a necessidade de se ensinar à língua de acordo com o que ela é, ou seja, uma entidade viva e em constante evolução. Portanto, que as gramáticas devam passar rapidamente por mudanças profundas, pois não condizem mais com a língua que hoje os alunos falam e conhecem.
Essa visão é totalmente lúcida, pois como continuaremos ensinando aos alunos regras gramaticais que há muito tempo não fazem mais parte da nossa língua? Ou que são totalmente desconhecidas por eles, como por exemplo: conjugações de tempos e modos verbais, pronomes de tratamento arcaicos, enfim, uma série de regras que a cada dia se tornam mais complicadas e infundadas.
Luft discorre e defende um ensino que elimine o excesso de regras, deixando somente as essenciais para o aprendizado da língua. Importante para ele é que o aluno aprenda e, acima de tudo, produza e pratique a leitura, a escrita, a oralidade. Que ele seja capaz de dominar a língua para se comunicar efetivamente por meio de todas as modalidades comunicativas.
O ensino da língua materna deve ser atraente, intrigante, interessante, prático para ser usado em nossa vida cotidiana; deve ser produtivo, para que os alunos possam aprender a sua real função e utilidade.
O ensino normativista, pautado em aulas enfadonhas em que os alunos precisam decorar regras gramaticais, bem como escrever dissertações que normalmente voltam recheadas de correções e que não há a menor expectativa de serem corrigidas pessoalmente, parecem ser úteis apenas para as avaliações. Não ensinam realmente ninguém, pelo contrário, geram cada vez mais aversão a essa disciplina, pois é um ensino opressor que parece querer mostrar apenas uma coisa: que os alunos não sabem de nada, ou melhor, o quanto os alunos são fracos.
Por fim, a leitura desta obra engendrará no profissional das letras e nos iniciantes acadêmicos, um pólo da dialética oposição entre gramática e língua social engendrada nos esteios acadêmicos e práticos. O certo é que, a dinâmica da língua não nos permite ensiná-la encubada. É preciso um ensino que considere seu movimento, suas especificidades. E para isso é preciso repensar este ensino. Suas metodologias e práticas devem estar situadas mais no plano pedagógico / linguístico do que no antigo método decora regras. Uma nova dinâmica da prática textual avança a passos largos, tais como o uso interativo da norma na prática social, novos vocabulários e áreas lexicais, novas formas semânticas de uso da língua aplicada em situações distintas e avaliativas (concursos por exemplo) novos mecanismos de produção textual focados nos gêneros e na funcionalidade. Assim, é preciso sincronizar uma nova língua, por um novo ensino, com novos usos e práticas sociais.

[1] Graduada em Letras pela UNESC, pós-graduanda em Metodologia e Didática do ensino Superior (UNESC), professora Universitária e colaboradora efetiva do TEOLITERIAS.

quinta-feira, setembro 11, 2008

MOSAICO CULTURAL

Rômulo Giacome de Oliveira Fernandes

Nestas notas gerais sobre cultura e comunicação, não poderia iniciar este post sem deixar de seguir a esteira da mass media deflagrada a partir de alguns filmes interessantes que vão justamente tocar o ponto da relação cultura de massa, comunicação e pragmatismo;
Assim, a fórmula atual para conquista das massas está centrada no poder de representação e representatividade; ou seja, a força necessária para algo tornar-se símbolo e a necessidade de ser ainda maior que símbolo; digamos que teríamos a fórmula semiótica:


-->ÍCONE (visualidade, design gráfico, força da logo), mais ÍNDICE (manifestação da ação, premissa, espectativa de agir), mais a legitimação social a partir da constante repetição, que constitui o SÍMBOLO;

Além da força de representação, constituída a partir da fórmula semiótica acima, será preciso a certificação dos detentores do poder de validar, a exemplo da mídia especializada; quando os aparelhamentos ideológicos sociais certificam o símbolo, ele passa a ter representatividade plena. O que lhe agrega força mítica e conceitual ao ponto de mudar valores e determinar ações.

O filme V de Vingança é um bom exemplo e possibilita excelentes análises:

Na trilha de V de Vingança, na cena onde V pede à Evey (Natalie Portman) uma dança, a música de fundo é "Bird Gerhl" que está no segundo álbum de Antony and the Jhonsons. Pois então, se o cinema não é uma opção para você, ficar em casa ao som do cd I’m a Bird Now,de Antony and Jhonsons Band, é simplemente magistral.

A capa do disco (foto acima) é uma homenagem à uma passagem onde entra o mito Lou Reed. Lou Reed chamou Antony para cantar com ele no "The Raven", último disco do ex-Velvet Underground. Daí foi convidado a viajar na turnê de lançamento, ficando conhecido por todos. A certa altura do show, Antony cantava a belíssima balada “Candy Says” que Reed escreveu para uma drag queen, sua amiga, que morreu aos 29 anos, lá no fim dos anos 70. Esta música Lou havia gravado mas nunca cantado em público. Ele viu em Antony um herdeiro legítimo das dores registradas na composição. O pupilo não se esqueceu da generosidade do mestre e estampou na capa de seu CD “I Am a Bird Now” ninguém menos que Candy Darling deitada numa cama de hospital

Antony toca algo próximo do puro estado de letargia epifânica, com aquele tom e necessidade de concentração básico em toda grande harmonia e delicadeza; as melodias são presentes, mas com uma sutileza e melancolia naturais, exalando tons de claro e escuro, com as dúvidas que sopejam nosso espírito musical; sem atropelos, ele conta as inquietações de modo resignado e sublime, atingindo algumas quimeras e perfeições por meio dos símbolos sinestésicos de sua música. Descubra Antony e the Johnsons Band.
Um breve retorno na linha do tempo nos permite indicar e pescar da memória musical a deliciosa e esperta banca ingleza Gomez. Com seu disco "Bring it On" Gomez (1998) fica na linha tênue entre o novo rock californiano e inspirado de um Wilco, com laivos enraivecidos do pós-grunge anglo-contemporâneo. Merece uma conferida. O rock inglêz nunca esteve tão produtivo quanto neste ano. Gomez é a tradução do modo acústico de encarar as baladas com o toque bem narrado e estruturado, belas melodias e estruturas instrumentais criativas. Compensa.
NO SENSE - Continuação ao mórbido-sujo II;





quinta-feira, setembro 04, 2008

Resenha - BATMAN “O CAVALEIRO DAS TREVAS” E O PODER DA REPRESENTAÇÃO (2008)

BATMAN “O CAVALEIRO DAS TREVAS” E O PODER DA REPRESENTAÇÃO (2008)
Rômulo Giacome de Oliveira Fernandes

Poderíamos iniciar esta resenha abordando a atuação maravilhosa de Heath Ledger e seu Coringa; falar que nunca se viu um vilão tão humano em suas patologias clínicas e sociais. Um psicopata do crime, que penetra e rompe a própria camada do tecido social mergulhando na epiderme criminosa, como um câncer do próprio câncer; ou também da atuação escandalosamente boa de Aaron Eckhart e seu promotor Harvey Kent, que ao transformar-se no “duas caras”, constrói, mais uma vez, ambigüidades letais nos vilões do filme, ambigüidades estas que vão rondar a constituição de quase todos os personagens: o bem e o mal é apenas uma questão de lado, discurso e momento; assim, já poderíamos concluir que Batman “O cavaleiro das trevas” é um filme de vilões e pouco de heróis, onde o próprio herói, figura esmaecida pela atuação in persona do curinga e do duas caras, vive sua ambigüidade e quase uma esquizofrenia ao tentar situar-se em meio ao caos gerado pelo vilão.
Mas, uma linha de análise que pode ser riquíssima é o poder de representação e suas relações com a comunicação de massa e a ideologia. O Batman desta película não é um Batman comum. É um Herói, da mesma forma com que se funde e confunde-se com a escuridão que o envolve, tornando-se apenas uma vaga forma fantasmagórica que o permite comunicar-se com o imaginário de todos, é agora um ente que consegue interagir, de forma simbólica, com outros símbolos. Ao representar o terror, passa a lidar e a manipular o medo dos bandidos, mas em certa medida, passa a representar o próprio medo da população em lidar com os limites e a linha tênue entre o bem e o mal. Este limite pouco definido e enegrecido pela visão do terror, gera o pânico social e as convulsões que são tão caras ao coringa, vilão manipulador destas condições. Por outro lado, é motivo de reflexão sobre a própria arte de ir tão à fundo nas representações e incitar aquilo que todos, eu digo todos, sem exceção, tem de recôndito nos resvalos da maldade e do oculto da alma. Emanar tão grande poder tem tudo a ver com ressuscitar valores coletivos escondidos por meio de um instrumento avassalador, a comunicação simbólica de massa. Usando de tal instrumento, o Batman é mais forte do que qualquer outro herói e consegue penetrar nos blocos sociais e na comunidade criminosa como um símbolo da onisciência e onipresença do vigilante eterno e determinado, sempre à espreita, confundido e agindo sem estar presente; (lembrem-se quando outros policiais vestem a máscara de Batman e o próprio holofote com o símbolo deste, projetado nos céus de Gotham);
A força simbólica enquanto instrumento de guerra, fato que nenhum outro filme abordou de modo tão significativo, é o próprio alvo da dúvida de Bruce, que se permite questionar a missão e o sucesso de Batman frente aos seus desígnios. Enquanto símbolo, o herói tem o poder de falar com outras instituições simbólicas como a ética, verdade e a justiça. O alinhamento entre estas instituições, permite singularizar o processo de comunicação em prol da necessidade de legitimar seus agentes, ou seja, quem a população legitimaria como executor da lei e da justiça? O Batman e sua figura ambígua ou o promotor, imbuído pelos ideais de pacificação social?
Estas tensões, que ao mesmo tempo colocam Batman como um herói e justiceiro, permitem a dialética letal do bem e do mal enquanto categorias análogas; este diálogo entre estas determinações categóricas impede o cavaleiro das trevas de ser instrumento de justiça; a distância entre os valores de um e outro determinam a criação de um novo símbolo que possa promover a tão aclamada pacificação social; este símbolo público novamente implica na comunicação de massa, ou seja, na construção de uma identidade social e institucional que possa acalentar os valores abstratos da sociedade. Assim, busca-se na figura do promotor o verdadeiro herói, aquele que realmente está do lado da justiça; e como poderíamos falar nos antigos filmes de super-heróis, do lado do bem. Logo, não basta o poder e o fazer ao prender os vilões; no contexto contemporâneo do filme é preciso a legitimação simbólica das instituições legais e sociais.
Por tratar de comunicação do início ao fim desta breve resenha, é salutar entender a ideologia como os ventos que sopram as velas do navio, que ora são invisíveis, mas que suas forças são totalmente materiais; Umberto Eco (1995) afirma que a (...) ideologia é como um vírus, que altera o movimento do sistema e consegue realinhar este movimento para outra dinâmica. Em outras palavras, o Coringa é um vilão ideológico e muito mais complexo do que aparenta ser; por trás de sua loucura existe um manipulador ideológico cônscio de que para demover a estabilidade que permite à sociedade certa noção de tranqüilidade e segurança, basta provocar o caos no sistema por meio de ações ilógicas, rompendo com qualquer possibilidade de previsibilidade; esta condição de imprevisibilidade e ruptura do andamento natural do sistema é o maior e mais moderno instrumento de controle e comunicação que existe; controle, pois manipula pelo medo e pela instabilidade dos eventos (quando teremos outro ataque? A quem?); e de comunicação, pois inaugura um imperativo de insegurança estampado nas ações coletivas; o chamado silêncio gritante do medo e da ansiedade, que provoca instabilidade e ações impulsivas; (o medo faria os tripulantes e passageiros das balsas apertarem o detonador?). Este tema é amplamente discutido em virtude do terrorismo trabalhar com os mesmo princípios de comunicação e controle. O próprio fato de o coringa utilizar apenas gasolina e dinamite é um forte indício de referência ao terrorismo enquanto condicionador da sociedade e, inclusive, uma forma de controle contemporâneo.

Quando entendemos ideologia como a direção a que o sistema de pensamento, sistema axiológico e iconográfico de uma coletividade caminha e se direciona, entendemos também que a comunicação de massa, com seus meios e fins (símbolos, mitos, etc.) é sua constituidora e gestora, salvaguardando seus princípios salutares; em Batman, é inaugurado de forma enfática e até de certo modo didática, a categoria ideológica que extrapola o símbolo e vai no nível mais amplo e interessante; o caos. A desfragmentação do sitema e o tilt ao elemento controlado induzem a sociedade ao erro coletivo. Bem, então nos fazemos a pergunta: Será que estamos preparados para viver sem controle? Estamos preparados para perder a estabilidade de alguém que pensa por nós?
O filme Batman não é só primoroso por ter sido bem dirigido e interpretado; nem por ter construído lendas a cerca das mortes e acidentes provocados, o que por si só já poderia ser considerado um instrumento midiático da produção; mas também é valoroso por situar no espaço e no tempo a força de representação da comunicação de massa e afirmar que, mais forte que os poderes ou os equipamentos tecnológicos de um super-herói, em tempos de internet e iconografia aguçada, é o símbolo estampado no peito e a forma como este herói vai conseguir trabalha-la na sociedade que determinará seu sucesso e permanência.

Links de resenhas que eu recomendo pela profundidade e especificidade com que abordam e analisam o filme: (confiram)

http://veja.abril.com.br/160708/p_162.shtml

O mito sobre a representação e a morte do ator que fez o coringa:

http://www.screamyell.com.br/cinemadois/heath_ledger.htm