segunda-feira, novembro 30, 2009

Cinema - BASTARDOS E INGLÓRIOS - QUENTIN TARANTINO

BASTARDOS E INGLÓRIOS: UM CULT SOB UM RÓTULO POP OU UM POP SOB UM RÓTULO CULT?

por Rômulo Giacome
Um filme de guerra maravilhoso, com um contexto histórico rico e uma trama interessante. Uma cena final apoteótica com um personagem perfeito (Coronel Landa), que magnetiza a todos com sua presença. Cenas finas e bem acabadas, com diálogos densos mas com grande expectativa. Doses de violência e referências pop com a música final de David Bowie. Tudo isso orquestrado pelo Nerd cinéfilo Quentin Tarantino. É para contemplar ou não?
Uma pergunta que intriga, mas que a resposta é muito fácil: o que o Pop tem de essencial? Bem, além da qualidade mágica de ser acessível, o Pop é uma referência constante. È a retransformação de um produto, o pastiche, a re-estilização da arte, a renovação de formas, tudo isso e uma coisa meio “Kitsch”. Meio arte da cor e da forma, do Layout. Nada mais do que uma maneira de nos acharmos sofisticados, atuais, modernos. Bem, mas o que isso tem a ver com Bastardos e Inglórios, um filme da segunda guerra mundial que fala de um major caçador de Judeus, que logo de início trava um diálogo magistral onde apresenta sua tese sobre ratos e caçadores, ódio e nojo, onde nazistas e judeus estão enquadrados.

O fim desta cena é o fuzilamento de uma família de Judeus que estavam escondidos sob o assoalho da casa. Tem a ver que Bastardo e Inglórios é um filme de Quentim Tarantino e este é um diretor que já ganhou um oscar “pulp fiction” e possui um mundo próprio, uma dimensão de referências que usa quando quer. Uma dimensão pop do cinema, que passa na composição das personagens, dos lugares, das formas, do enquadramento, da duração das cenas e da trilha sonora. Tarantino opta pela insígnia de referências aos filmes de velho Oeste, à duração das cenas, longas, com diálogos tensos, fortes, marcados pela sugestão e pela beleza do silêncio que antecede a ação. São exemplos marcantes destes momentos a primeira cena, onde o caçador de judeus, Hans Landa, interroga um camponês em busca de uma família Judia, (Dreyfus) e interpela de modo forte, intenso, implementando uma astúcia sutil que vai crescendo, uma ingenuidade em acreditar que ali não havia ninguém até a certeza de que a casa escondia Judeus (Ratos segundo Landa).

O movimento do filme inicia com a apresentação dos Bastardos, comandados pelo capitão Aldo Rayne (mistura de atores como Aldo Ray e John Wayne). É um grupo pequeno de soldados judeus americanos e alemães que se infiltravam entre os agrupamentos do terceiro Reich e matavam muitos deles, sendo uma forte arma de boato e informação, alastrado como pólvora pelos contingentes nazistas. Rayne (Brad Pitt) é cômico, um canastrão montado sobre trejeitos básicos dos cowboys americanos. O grupo embosca uma milícia alemã e no interrogatório de um capitão nazista, Rayne apresenta um de seus combatentes. A estratégia de apresentação lembra os filmes japoneses, onde os atributos de cada lutador são apresentados em uma construção a parte. A fama dos bastardos cresce à medida que vão emboscando e matando mais nazistas, até que novamente surge a menina (Shoshana) que conseguiu fugir do massacre. Agora ela possui uma nova identidade, proprietária de um cinema para 350 pessoas no centro de Paris. A trama alcança seu auge quando Shoshana incita um jovem soldado alemão, herói de guerra que matou mais de 300 russos, a se interessar por ela de tal modo que a convida para almoçar com o poderosíssimo ministro da propaganda nazista, senhor Goebbels, que estava realizando um filme sobre o soldado herói. A cena aqui construída é magistral. A arrogância do ministro é moldada pela tradução da francesa, vista como muito mais do que tradutora, talvez amante. Na reunião combinam onde será a premier do filme do soldado herói. Tudo fica amarrado na doce e enigmática face de Shoshana, a fugitiva judia que passa por proprietária de uma sala de cinema em Paris. Está tudo acertado, a premier será em sua sala de projeção. O que não está acertado é a presença súbita de Landa, o coronel caçador de Judeus, que surge e pousa a pão sobre o ombro de Shoshana. Um arrepio esvai da espinha da doce moça até o próprio espectador da película, que prostrado, contempla mais um tensivo diálogo, marcado pela desconfiança, o medo, o asco e a astúcia. Daí em diante, caro leitor, o filme proporcionará um mar de tensão e melodia fina do suspense e da intriga, estruturada por sobre as etapas do projeto Kino, "vamos queimar estes porcos nazistas dentro do meu cinema / se podemos proteger os filmes da chama / podemos quimá-los".


Um belo trabalho é ensimesmado, se traduz na própria técnica. O empreendimento é explicado em seus detalhes. Desde o movimento da câmara no almoço, até a tensão provocada pelas armas apontadas entre o coronel alemão e os soldados ingleses. Tarantino soou magistral. Não precisa muito talento crítico para perceber quando estamos diante de uma grande obra. Construída em si mesma, arquitetada e engenhada por capítulos, onde apresentam sua unidade dramática, plástica e sonora. A vingança, último capítulo, é um show a parte. Tem comicidade, tragédia e drama na dose certa, no crescente da música pop de Bowie, nas chamas, na beleza dos figurinos, a estalo das projeções e o tempo que dilui os empecilhos, até que aparece a grande imagem de Shoshana, imagem fantasmagórica, daquela que iria evocar todos os espíritos rumo à vingança final, onde americanos bastardos atiram suas metralhadoras sobre um reich prostrado e inerte pela violência da traição do coronel Landa, agora um americano tatuado com a suástica em sua testa. Perfeito.

terça-feira, novembro 24, 2009

A CONCEPÇÃO DE JUSTIÇA EM SÓCRATES

A CONCEPÇÃO DE JUSTIÇA EM SÓCRATES A PARTIR DA PEÇA "ANTÍGONA" DE SÓFOCLES
Rômulo Giacome
1.1 Perfil filosófico de Sócrates (469-399 a.C)Filho de Sofrônico, escultor e Fenáreta, parteira, nasceu Sócrates, 469 anos antes de Cristo, em Atenas. Moldado pela reflexão e pela cultura helênica de Péricles, Sócrates foi um rígido Magistrado e valoroso soldado. Não participou ativamente da vida pública, mas sua convicção na força das polis lhe rendeu méritos filosóficos.

Segundo H. Pandovani e L. Castagnola[1] Sócrates dedicou-se às questões práticas da espiritualidade e ao mundo humano e sua dimensão moral. Ele se apresenta cético em relação à metafísica. Para o filósofo, as questões práticas devem ser abordadas e conduzidas aos valores universais. Os vetores principais de sua filosofia podem ser condensados na perspectiva da gnosiologia e da ética, sendo que o fim da filosofia é a moral.

A gnosiologia de Sócrates partia de um método dialógico, de perguntas e respostas, bem como da maiêutica, faculdade epistêmica pela qual ocorrem os partos da alma, ou o saber propriamente dito através do diálogo e da ironia. É fundamental ao conhecimento o voltar um olhar para si.

1.2 A concepção de Justiça em Sócrates

A filosofia tanto tem demonstrado seus métodos de investigação a cerca da realidade empírica e ainda material, quanto em pontos capilares da conduta humana e que não estão mensurados através da realidade tangível. Princípios como moral, virtude e ética não podem ser delineados sobre a forma da materialidade, mas se fazem sentir na prática das relações sociais, na conduta profissional e nos códigos que determinam o bem estar de dada comunidade.

A partir deste ponto, e estabelecendo alguns contatos da própria epistemologia filosófica de Sócrates com a realidade moral e ética, podemos perceber suas contribuições para o avanço de uma discussão positiva a cerca da justiça.

Alguns estudiosos aproximam a identidade peculiar de Sócrates em fazer uso de gêneros diversos como os enunciados filosóficos e literatura com a tragédia grega, especificamente a de Sófocles em sua obra Antígona. Nesta relação, percebe-se uma preocupação com as leis, o que irá suscitar as problematizações a cerca do seu uso e encadeando reflexões sobre a própria estrutura social e seu bem estar. Observemos o contexto em que estão engendradas estas proposições segundo Jean Pierre Vernant e Pierre Vidal Naquet (1999, p.03):
(...) os gregos não tem a idéia de um direito absoluto, fundado sobre
princípios, organizado sobre um sistema coerente. Para eles, há como que graus
de direito. Num pólo, o direito se apóia na autoridade de fato, na coerção; no
outro, põem em jogo potências sagradas; a ordem do mundo, a justiça de Zeus.
Também coloca problemas morais que dizem respeito à responsabilidade do homem.
Desse ponto de vista, a própria Díke pode parecer opaca e incompreensível:
comporta, para os humanos, um elemento irracional de força bruta.
A representação da deusa da Justiça (Díke) acentua a idéia da citação acima, nos oferecendo uma visão de justiça irracional, moldada em valores voláteis, categorizados pela religião e pela sociedade. Esta dubiedade de justiça, ora violenta e irracional, ora proposta dentro de situações díspares, irá determinar a importância de Sócrates para a implantação dos seus valores de ética e virtude no seio da concepção de justiça.

Isto porque fará o filósofo refletir sobre a situação das leis no corpo social, dentro da vida cotidiana das cidades. Como se dá a implantação destas leis, sua obediência ou não por parte dos cidadãos, as penas devidas ao seu não cumprimento e tudo que estará diretamente ligado a justiça. Partir deste problema da concepção de leis e obediência social perante elas, é o ponto forte da filosofia de Sócrates no que tange a concepção de justiça. Fato que também é poeticamente abordado em Antígona. Na obra de Sófocles, Antígona estabelece uma relação de desobediência ao edito publicado pelo Rei Creonte, seu tio. (este edito proibia qualquer cidadão tebano de oferecer honras funerárias ao morto Polinices, assassinado em combate contra o próprio irmão do Rei Creonte).

As leis a que os cidadãos das Polis estavam inseridos eram emanadas de dois pólos: um religioso (deuses) e outro das próprias cidades-estados (Polis). Desrespeitar um é o mesmo que desrespeitar o outro, tendo em vista que a as leis dos deuses alicerçava a conduta no cosmos e as leis dos homens serviam para manter a ordem das cidades. O cidadão das polis tinha que se flexibilizar entre estes dois pólos, tendo em vista que era considerado cosmo-politas. Um cidadão da cidade enquanto universo. Podemos sintetizar este parágrafo afirmando que existiam as leis divinas e as leis humanas regendo a comunidade das polis.

Na tragédia de Sófocles, quando Antígona decide desobedecer o edito de Creonte e oferecer as honras funerárias a Polinices, ele passa a desobedecer a lei humana. Levado pelos guardas, argumenta em sua defesa que pela lei dos Deuses, qualquer morto deve e tem como direito receber as honras funerárias. Nesta medida, percebe-se que existe a transgressão de Creonte aos princípios e leis dos Deuses, quanto erige a nómos da proibição das honras funerárias. Por outro lado, Antígona rompe com a nómos da pátria, ao desobedecer uma lei do Rei e sua representação dentro da cidade grega. É o primeiro momento narrado onde existe um conflito entre a lei humana e a lei divina, conflito que se desdobrará na própria condição de direito público e privado. É o confronto entre o mundo divino e humano, entre a condição social e a condição religiosa, ou da própria representação de Díke e a dureza de sua espada.

A necessidade de descrever o ponto nodal desta tragédia de Sófocles é para ilustrar os princípios de confronto das leis no que tange sua acepção religiosa e humana. Isto porque em Sócrates, precisamente em sua obra "Apologia" (sua defesa em relação aos “acusadores antigos” e “acusadores atuais”) o filósofo remete a dubiedade de aceitar o contrato firmado com os Deuses, Apolo no caso, e um contrato de aceitação da ordem jurídica social, representada pelos juízes, suas leis e suas interpretações, bem como de suas sentenças. Este confronto fica ainda mais claro quando dado a restrição a Sócrates de uma possível sentença onde o mesmo não poderia mais filosofar, e entre esta e beber o veneno mortal, o filósofo afirma que enquanto respirar, não acatará a sentença proferida, uma vez que tinha um contrato divino com a verdade. Esta negação da ordem das leis no que tange a sociedade em prol de uma lei universal, esta busca da verdade, implica em uma concepção de justiça ligada à virtude e a moral individual. Acusado por “perscrutar o que está sobre a terra e sob o céu[2]”, em um sistema legal de sua própria criação, ofereceu-se como exemplo da própria atuação das leis. A questão é que sua obediência está ligada ao princípio ético universal, a verdade. Para Sócrates a lei é o limite entre a civilização e a barbárie.

O pensamento socrático, como afirma Bittar e Almeida (2005, p.65), é profundamente ético. Esta preocupação com a ordem social, com as atitudes de um coletivo em função de uma moral individual permeiam toda a sua obra, que está engendrada sob uma perspectiva prática, tanto nas ações do próprio filósofo, quanto no seu modo de pensar a justiça e interação social.

Esta preocupação com as leis e a convivência nas cidades-estado (polis) é responsável por oposições centrais ao pensamento dos sofistas, que viviam atrelados à retórica e à denominada “razão menor”; bem como aos pré-socráticos, que investigavam a natureza e a constituição íntima das coisas.

Para compreender sua concepção de justiça é antes necessário perceber como o filósofo encarava a ética. Em uma leitura de Bittar e Almeida (2004, p.65) indica que sua ética estava ligada ao conhecimento e a felicidade. Um julgamento convincente do que vem a ser bem e mal passará indissociavelmente pelo conhecimento, assim como a felicidade é proveniente dos deuses, baseada na virtude. Sócrates considera a virtude com o controle efetivo das paixões e a condução das forças humanas rumo ao saber.

[1] PANDOVANI, Humberto e CASTAGNOLA, Luís. História da Filosofia. 3ª edição. São Paulo: Melhoramentos, 1958.
[2] Símbolo dos sofistas, que procuram a razão menor (sofisma) em detrimento da razão maior, plena.

segunda-feira, novembro 23, 2009

música - PORCAS BORBOLETAS - A PASSEIO

PORCAS BORBOLETAS - "A PASSEIO"
por Rômulo Giácome
Quem me conhece pessoalmente sabe que falo muito em PORCAS BORBOLETAS; Não por menos;; eles merecem muito; os conheci em Porto Velho, no festival Casarão. Fui abduzido. Geniais, eles revigoram a atmosfera Rock do nosso parco repertório nacional contemplado pela mídia. É tudo uma grande mistura entre Titãs de Cabeça Dinossauro (fases áureas) com Arnaldo Antunes da fase poética (solo), com performances inusitadas, mas muita força, feeling e vontade, elementos que fazem falta no poser/faker que o mainstream tem proporcionado.
O meu primeiro contato com o Porcas veio ao ver / entrever a performance de "Nome Próprio"; a forte enunciação letra / refrão, o entusiástico elemento verbo e guitarra me fizeram mordiscar a isca e contemplar mais um pouco; absurdamente criativos e legais, no bom sentido; um experimento bom, tal qual mistura de bebida no encandescimento das já tomadas; "Nome Próprio" é a segunda música do muito bom álbum "A passeio"; sua história está ligada à fatos, referências e filmes (e mais alguns ingredientes) que fazem uma banda estar na hora certa no lugar certo e pronto; esta forma plástica de grito do refrão, este eufórico processo de cantar "quando ela tira a roupa / algo se revela / ela tem uma tatuagem / de cicatriz" além de construir a linha veloz / violenta do refrão, demarca a ritmia e sonoridade das consoantes e vogais sibilantes, sonoras, ríspidas, tal qual a materialidade da tatuagem, sua rusticidade envolvida no acidente (cicatriz); o ritmo demarcado pela brasilidade do bumbo referenda algo na linha da Nação Zumbi com acidez e espírito loser. Música incansável e intensa, que não respira, só termina, no ar, pois fica na mente;

"A passeio" é um álbum distribuído por um selo independente e disponibilizado na Internet. Como música de abertura, "menos" traduz a letra inquietante e pós-moderna de Clara Averbuck. A sacada poética de "Pra viver mais / eu sei que é preciso viver menos", construída sobre a relação anti-análoga entre viver mais e viver melhor traduz a voravidade poética da palavra, seu trato, mas além disso, uma ideologia, um mote, uma virtude pop de construir um modo de vida, uma percepção sobre esta. A narrativa deslancha e cresce a medida que o baixo constrói um refrão / riff maravilhoso, esperado e ansiando a próxima "rodada"; é bem rock and roll, chegando a ser rock star, performático com ares guitar hero (quantos adjetivos rockers!!). Maravilhosa! é o meu sigle preferido. O disco também consegue incorporar estruturas melódicas na linha "Antuniana"; é o exemplo de "A passeio"; com levada psicodélica de teclado, ela incorpora um vocal claro e objetivo; o refrão faz um trocadilho com "nada no lugar / let it be / deixa estar"; uma bela canção, mesmo que não empolgue; Em "Dinheiro" a veia irônica e sarcástica do Porcas é mais acentuada; a capacidade narrativa de tecer crônicas humorísticas da realidade circundante tem vazão nesta canção; sua estrutura ritmica e melódica lembra, novamente, Arnaldo Antunes, mas incorpora alguns ingredientes pop que funcionam muito bem, como a valorização sonora do termo "dinheiro"; "gastei dinheiro / com você".
No entanto, o ápice do disco realmente está em "estrela decadente"; a marca máxima desta banda de Uberlândia está na enunciação desafiadora, lancinante, aguda e afiada com que desfere os golpes: "você sabe qual é o seu signo? / você não é escravo dos astros"; a força crítica do conteúdo encontra corpo na forma insendiária do refrão: "você não vai pro céu / nem vai ser estrela"; a música possui uma unidade, uma manifestação quase teatral, estruturada, o que a torna uma peça original; desde as micro inserções do programa do Sílvio, até a sacada que Sílvio Santos morreu em 1984 "o sílvio santos que você vê é de plástico"; perfeita; se porcas borboletas tivesse um logo musical, este seria "Estrela Decadente". Por fim, merece estreita análise e obervação o riff genial e marcado de "O Rato"; é impossível não materializar a encenação vocal, a forma cantada do "Rato", sua perfídia e insinuação; as formas do rato na voz e ritmo, cruzada pela guitarra e bateria enlouquecida; uma hora ou outra um piano microfônico invade, em pequenos pontos ensandecidos; o Rato, em sussurros, caminhando pela Sala, deixando rastros na canção; excelente faixa;
Porcas Borboletas é uma banda honesta em um cenário honesto de circuito alternativo; busca a criatividade e encontra muitas vezes bons momentos, como em "Dinheiro" e "Menos"; mas também constrói canções originalíssimas e antológicas, acima da média, como "O Rato" e "estrela decadente"; porcas borboletas não muda o mundo da música, mas pega o bastão e conduz com maestria o rock original brasileiro.

quinta-feira, novembro 12, 2009

A VIDA TEM SEUS MOTIVOS... QUAIS OS NOSSOS PARA VIVER?

Um tronco de Ipê foi usado como poste; Mal sabiam que a vida tem seus motivos para sobre-existir sempre, e este tronco procurou o que lhe restava de forças e renasceu.


O DEVIR

A vida procura seus motivos. A vida paira por onde existe a força. Não aquela força inócua da imagem embrutecida da resistência, da intolerância. É a força sensível da lágrima e a força do gesto. A força que degenera a opinião através da imagem, do arder da consciência, aquele queimar velho e intenso do peso e da culpa. O refluxo da dor, do perder. Esta dor imperceptível que não está no músculo mas está na aura, no ânimo, no desenho rotineiro do seu dia, na sua motivação, na vontade. A força do riso, que nasce de pronto, do nada, do limpo, que é caro e raro.

O ato involuntário, invólucro da alegria, a anti-resistência, a plenitude, a busca pela consciência tranquila, pelos excessos de aucomiseração e critério, ausência de auto-resistência, sabendo que quem se leva muito a sério tem a si como rival. Buscar no olhar do outro a reprovação e reprová-lo antes, evitar tudo e saber que é como queremos, e se queremos alguma coisa se não que nos amem e nos adorem, totem e tabu.

Muitas forças se entrecruzam, em abraços e convicções. A força do saber e do poder contar, chamada amizade. Em tudo isto paira um bruto e constante movimento, uma inércia que nos move rumo à intensidade da vida, rumo aos seus porões profundos, ao máximo e ao ápice, amando, tendo, perdendo e obtendo. Um processo rápido e veloz que nos conduz como em uma longa montanha russa, batendo do lado em balanços frenéticos, um devir, um vir a ser.



Mas, na claustrofobia da vida, no "close me" da personalidade, na busca de parecer-ser esquecemos que a vida ainda pressiona nossas artérias rumo aos nossos próprios motivos. Motivos de soslaio, coelhos que irrompem de um conto que inventamos, estórias belas e outras feias que vamos confeccionando, e incluindo em orifícios de vida, lacunas de vontade, protegendo-se sempre de nós mesmos, estabelecendo uma conexão distante entre o que queremos e que realmente somos.


A VIDA NÃO FLUI....
FRUI DE CANTO
NAS BORDAS E O INTERIOR, DISSIPA
CARREGA,
DILACERA A PRESA, CARNE LIMPA SANGRA
E ESVAI, EXAURE
AS DIFICULDADES ROLAM
TROMBAM E PARAM,
PAREDE PEDRA PURA
PARA NAQUILO QUE VEM DE ONDE SE ENXERGA
COM AS MÃOS

É LUMINOSO O MOVIMENTO QUE CARREGA A FOLHA
É AUSTERO E RESERVADO AS PREMISSAS DO SÁBIO
QUE MORTAS, NÃO VIVEM
RESISTEM
AO SABOR E CALOR DO TOMBO

NA VELOCIDADE INFINITA DA QUEDA

BASTA ESTAR PARA SER
SER E ESTAR
NA PESSOALIDADE DA IMPRESSÃO DIGITAL
O DEDO, SOLTO DO CORPO, RESPONDE POR ELE
A MENTE, DESPREENDIDA DO CRÂNIO
DELIRA NO PALCO, RASGA A ROUPA E INANE A RAZÃO
ENQUANTO NOS BASTIDORES OS OUTROS VIVEM
RESPEITANDO A CERCA
VOLTANDO LENTAMENTE DO SONHO
E CAINDO NA RESSACA INTENSA DA MORTE
Rômulo Giacome (2009)

sexta-feira, novembro 06, 2009

INFORMAÇÃO, CONHECIMENTO E SABER: DISTINÇÕES SOB A PERSPECTIVA DA LINGUAGEM


O presente ensaio enseja introduzir a questão da informação, conhecimento e saber, tanto no mundo acadêmico / científico, quanto no universo individual do sujeito cognoscente, ou seja, todos nós que lidamos com conhecimento. A separação terminológica e a classificação destas três categorias contribuem para a discussão sobre como utilizamos as informações que adquirimos, o que é e como se dá o conhecimento e a importância da autonomia para o conceito de saber, todos conectados pelo cimento da linguagem enquanto suporte da informação.


Vivemos em uma era de muita informação. As informações estão espalhadas por todos os lados, seja de modo digital, seja de modo material. No entanto é fato que a criação de um novo suporte barato para a informação, como foi o avanço da era da informática, proporcionou um gigantesco número de gigabytes de dados em forma de textos, música, vídeo e outras formas de manifestação desta informação. Isto indica que, temos mais suporte de armazenamento de dados, incluindo aí a internet, e de veiculação destes dados do que propriamente informação. Assim, é fato que teremos um nível absurdo de fragmentação da informação, de descaracterização de seu conteúdo e ainda de desformatação de sua essência primeira. É a época da diluição da informação complexa para a informação rápida e metafórica que vivemos. Livros que diluem a obra de filósofos e grandes pensadores (Quando Nietzsche Chourou), obras ficcionais que incorporam uma pseudo-historicidade que passa a ser uma teoria para os leigos (O código de Da Vinci, Anjos e Demônios). São dezenas de formas híbridas de saberes e informações que escapam aos nossos dedos todos os dias; formas recauchutadas de informação, formas re-feitas, recicladas. É o pastiche e brincolage na arte. Em suma, existe muito mais informação do que capacidade para processá-la.
Porém, a informação não é sinônima de conhecimento. Quantos terabytes são derramados sobre nós e não geram aplicabilidade ou formas novas de pensamento, técnicas ou novos pontos de vista? Assim, é concluso que o conhecimento está a um nível acima, ou seja, é a informação aplicada. Quando aplicamos aquela informação estamos construindo conhecimento.
A comunicação é uma forma estupenda de aplicabilidade da informação e, portanto, é uma forma cognitiva específica e eficaz. Quando falamos de algo estamos segmentando um conhecimento que é nosso, mas pode não sê-lo no futuro. Isto quer dizer que ao falar sobre qualquer assunto a alguém, propomos um processo complexo de busca, seleção e combinação destas informações, além de todo o aparato formal da representação (discurso) que irá transmutar esta informação em conhecimento; assim, escolhemos formas de enunciação (gestos, atos, melhores maneiras de representar o que queremos transmitir) e formas de enunciados, como a criação de metáforas, figuras que tentem retratar aquela informação primeira. Assim, ao se comunicar, gerimos as informações que estão armazenadas em nosso aparato memorial e construímos conhecimento ao fecundá-las no discurso produzido.
Levando em conta o conceito de que o conhecimento é a forma aplicada de informação, e uma destas formas aplicadas é a comunicação, por derivação é bom salientar que o próprio ato de gerir o rol imenso de informações que nos rodeiam pela aplicabilidade do discurso é um dos princípios absolutos do conhecimento.
Em uma tri-dimensão onde informações são trocadas em milésimos de segundo, a recepção destas informações e o arquivamento são meras etapas procedimentais burocráticas. É preciso mecanismos claros de pertinência, classificação e funcionalidade, bem como critérios lúcidos para qualificar estas informações.
Ressaltando o que já foi dito anteriormente, dos procedimentos enumerados acima, a comunicação é a forma mais apropriada e eficaz de segmentar conhecimento, ou seja, aplicar uma informação no campo concreto ou teórico. Por outro lado caminha a possibilidade de gestão do conhecimento, ou seja, a seleção das informações relevantes, transpassadas pelo crivo da aplicabilidade e pertinência e sua organização sistemática dentro dos campos práticos e teóricos.
Ao perceber e descrever o processo de aquisição da informação e aplicação desta (conhecimento) é perceptível, neste interregno, a necessidade de autonomia do individuo em buscar esta informação e transformá-la em conhecimento. É preciso traços de motivação e vontade para impulsionar o ser cognoscente no rumo da informação e mais ainda no campo da aplicação desta informação. Esta autonomia é mais importante do que a própria informação, pois esta, descontextualizada do discurso do cognoscente, passará ao largo do conjunto otimizado de informações chave que constroem novas informações.
Também é importante ressaltar que o sujeito cognoscente, além de conhecedor e ser que busca a informação, deve também ter a consciência de que além de sujeito ele é objeto do próprio conhecimento. Sujeito e objeto do processo cognitivo.
Não é garantia de sucesso profissional o fato de um acadêmico ter recebido muitas informações na graduação. Na prática, a capacidade de buscar mais informações e aplica-las falará mais alto do que aquelas informações teóricas apreendidas durante o processo acadêmico. Ou seja, a autonomia de saber onde buscar informação e como aplica-la é habilidade imprescindível ao que denominamos como saber.
A semiótica consegue explicar este processo de informação que traz nova informação quando da relação do signo com o outro signo, na permuta constante de novas leituras a partir do interpretante. Pela teoria semiótica, o sentido de um signo é outro signo. Nesta permuta constante de um signo que procura outro signo, em um processo ad infinitum dá-se o nome de semiose. Assim, forma e conteúdo convivem lado a lado, assim como informação e suporte. Aplicando tal premissa na sistemática da linguagem da informação e do conhecimento, uma informação é concretizada por outra informação complementar, meta-explicativa ou suplementar. É inconcebível não encarar a informação enquanto desdobrável e escamoteável, pois ela é uma espécie de informação da informação, pois pensamos determinado dado de maneira particular e podemos utilizá-la também de maneira particular.
Assim, nesta autonomia para buscar mais e mais informação, com vontade e motivação própria, temos o conceito de saber enquanto práxis (trabalho sobre a realidade).
De forma geral, a informação é um dado solto, um signo dentro de um complexo cognitivo amplo. Quando aplicada, torna-se conhecimento. Fechando a tríade, a autonomia para buscar mais informações e aplicá-las é possível denominar de saber.
Em uma escala processual terminológica do andamento e desenvolvimento entre a informação e a autonomia, teremos este panorama: informação, conhecimento e saber.

segunda-feira, novembro 02, 2009

O "NO SENSE" COMO REFERÊNCIA COMUNICATIVA

O NO SENSE POSSUI UMA CAPACIDADE ABISSAL DE ENTENDIMENTO E PODER DE ATRAÇÃO, GRAÇAS À SUA CRIATIVIDADE E HUMOR SAGAZ, SARCÁSTICO E HIPERBÓLICO. ELE JÁ NÃO DEVE SER CONFUNDIDO COM "BOBAGEM" ARTÍSTICA, MAS SIM COMO UM GÊNERO QUE VEICULA MUITA INFORMAÇÃO.


É impossível ficar absorto diante dos recursos que a mídia e seus aparelhamentos culturais tem utilizado para finalidades diversas. Muitas vezes a identidade de uma marca é constituída a partir do exagero ou do estilo, do absurdo ou de formas semióticas como velocidade, ousadia ou lisergia. No mais, um recurso que chama muito a atenção é a estética / roteiro do absurso, reconhecido mais popularmente como o no sense.
O no sense está estruturado sobre a plataforma semiótica da tensão entre o improvável e o provável, dialogando com o exagero, o absurdo, construindo uma plasticidade única e envolvente, veloz e caracterizada pela emoção. É mais do que um sonho, é a sobremodalização das capacidades não óbvias, das impossibilidades acontecerem com uma grandeza e improbabilidades únicas. É um delírio.
Na literatura, Lewis Carol promove esta estética ao escrever seu Alice no País das Maravilhas. No entanto é bom salientar que, perder a linha da lógica, a linha do provável e previsível, constitui o no sense em seu aspecto essencial.
As propagandas tem feito uso do no sense como forma de identificação da marca com a ousadia, a criatividade, elementos que sugerem exclusividade e inteligência. Este grau de delírio é possível de ser identificado, a exemplo da sequência de propagandas da Axe. Belíssimas. Obras-primas do no sense publicitário:








Esta última é um delírio total e puro no sense. A genética POP está arraigada no delinear o astro, na fórmula estrutural do arquétipo e do estereótipo; neste segundo vídeo, o exagero e o absurdo deslocam do humor linear com a ruptura imprevista da sequência cômica, para um espetáculo no sense, onde a comicidade surge da sátira, do impossível, da hipérbole.
A AXE tem desenvolvido propagandas nesta linha, respondendo à altura do contexto de referências criativas que o universo midiátivo e artísticos tem propiciado. Mais e mais desenhos animados tem feito uso de personagens no sense, procurando o "feeling" no sense nos comportamentos excêntricos e loucos.
No vídeo abaixo segue um curta totalmente no sense, fundado em estereótipos e modelos conjecturais de tipos clássicos no motociclismo. Parte das tensões básicas, como da rivalidade dos grupos de motoqueiros, mas vais além; traduz o espírito da "sujeira" e "improvável", reduzindo a informação central que é a motocicleta, deslocando o foco ao impossível, ao impensável, que traduz o espírito no sense da "bobagem" elevada ao máximo possível. Obra prima do no sense. Contemplem: