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quarta-feira, dezembro 16, 2009

MPB (MÚSICA POP BRASILEIRA) PORQUE O TERMO "MPB" É UMA FRAUDE IDEOLÓGICA

O TERMO MPB FOI CUNHADO PARA SER DIDÁTICO E IDEOLÓGICO

Existe uma música popular brasileira? O que é realmente popular? O que andam escutando os estivadores do porto, os ribeirinhos, o pessoal das favelas e dos círculos e recôncavos nordestinos? O que a música popular brasileira significa quando ecoa nos ouvidos de nossa população?
Hoje, MPB é mais signo de “sofisticação” do que produção de massa. O povo gosta de música popular brasileira? Não. Quem gosta de MPB não é o “Povo”. O alvo de Adorno e os filósofos serialistas da arte (a famosa Massa de McLuham) gosta de forró, (Aviões do Forró, Cavaleiros do Forró) e outros nomes mais. Gostam de Eduardo Costa no sertanejo, nos falecidos Zezé (nome Gay) e Chitãozinho e Xororó (como ainda alguém pode se chamar xororó na época do Capslook, Webdesigner e delete)? A massa gosta de rasquiado e lambadão vendido em coletânea de Cd´s nas bancas da feira. A massa gosta de tecnobrega, calypso, zugui e outras cositas mais. A massa acredita piamente que escutar Roberto Carlos é MPB.

Eu, (na minha porção massificada) como massa, acredito neste tipo de música como catarse do corpo, como terapia do riso e da alegria espontânea, e a uso como forma de luxúria intelectual, uma espécie de esbórnia ou crack da existência livre e plena do peso do gosto, do peso da crítica. Vivo e escuto estas músicas livremente, como uma criança. E sou feliz por isso.

No entanto, o que temos que analisar profundamente é o conceito de MPB. O que ele abrange, quem congrega, o que congrega e como. Quando um artista não gosta de nada e não quer parecer burro ele fala que escuta MPB. Falar que gosta de MPB é tão específico quanto falar que gosta de World Music ou música em língua portuguesa. Ou seja, gosta de tudo ou nada ao mesmo tempo. A diferença entre o groove de Mombojó e Mundo Livre S/A é gigantesca entre o pseudo pernambuquismo de Zeca Balero e Lenine, ambos muito fracos de criatividade. Ou querer comparar Caetano Veloso com Chico Buarque é o mesmo que comparar Ivete Sangalo com Olodum ou Carlinhos Brow. Quem cria, como e para quem? MPB é algo abstrato, que consegue loucamente colocar no mesmo prato Titãs e Ana Carolina, Seu Jorge e Luís Melodia. Um pouco de Jorge Ben com Emílio Santiago. Definitivamente, MPB não pode ser considerada como gênero ou estilo. É muito pequena para congregar tanto. Por isso, eu tenho uma sugestão, com a mísera experiência de crítica musical e literário que me considerei. A MPB tem um problema terminológico que está na sua essência, sintetizada pela declaração de uma musicalidade brasileira, sua sonoridade e mensagem cultural, sob a ótica culta ou massificada, ou seja, alguns meios de divulgação de cultura definem o que é MPB e todos compram a idéia. Mas a sonoridade do Brasil, estatisticamente (sem precisar de tabular dados) é composta de: produções regionais possibilitadas pela inclusão digital (forró, brega, dance, lambadão, rasqueado, chote, pancadão, etc) e os heróis da resistência mainstream midiática, tal qual Ana Carolina (mais de oito temas de novela), Nando Reis, Ivete Sangalo ou Cláudia Leite (esta última uma criação da mídia para sublimar nossa vontade de ídolos femininos, belas e com voz de baiana negra).

Silogisticamente a MPB é um rótulo vazio que só leva em conta seu público. Um público arredio ao “povão”, que se considera extemporâneo aos fenômenos da massa que se auto-intitula sofisticado. A ausência de uma nomenclatura específica para todo tipo de música “melhorzinha” produzida no Brasil fez do termo MPB uma constante no vocabulário dos intelectualóides de plantão.

Nomes do novo samba, como Rômulo Froes, estão largados à margem de um estigma musical que não evolui. A MBP selecionada, ou “os escolhidos dos canais de comunicação” não andam e não inovam, e quando criam, faz “mais do mesmo”. Parou na bossa nova e afundou nos nomes já consagrados. A MPB, na verdade, é um conceito mercadológico para todo tipo de música que não é rock e sertanejo, estes sim, gêneros.

A MPB que realmente é “popular” não tem encarte e muito menos CD com capa. A MPB de sangue, genuína, está suportada pelos CD´s piratas, vendidos nas feiras, trocados e tocados em aparelhos “I phodes” pretos da “foston”. É o tecnobrega do maderito, o homem alucinado do Pará, ou no fenômeno Dejavu. No DJ maluquinho ou no gaviões do forró, Luan Santana e João Bosco e Vinícios. Todos podem se retorcer na cadeira, mas quando o Amado Batista começa a tocar, muitos lembram tempos áureos ou cantam suas canções com humor, mas que no fundo não é mais do que um tributo à uma produção que se imortalizou na memória popular.

Eu até indico o documentário “BREGA S/A”, disponível para download gratuito em que encerra a questão do tecnobrega enquanto um parêteses cultural em nosso universo brasileiro musical. Esta “janela” gerida pelo brega, proporciona um tipo extremamente particular de composição, produção, distribuição e comercialização a partir da rede informal e paralela aos grandes managers da cultura nacional. Além disso, o filtro do “brega” cataliza qualquer outra forma musical de sobre-existir, amordaçando o forró, o dance e sua batida binária (pancadão ou hip hop) com melodias conhecidas e teclado programado ao “tosco designer”.

Em suma, não é a música popular brasileira que está em crise. É o antigo tipo de veiculação e distribuição de cultura que está rompido e destituído. O jabá cedeu lugar às grande corporações que patrocinam os clipes e os shows em grandes eventos. TIM Festival, Nokia Trends, só para citar dois dos grandes festivais. Mas a manutenção de um status quo onde a TV e o Rádio indicam, solitários, o que devemos escutar e comprar, é um retrocesso, tendo em vista que a Internet já proporciona a virtualização da composição e sua distribuição, sendo extremamente mais democrática.

O conceito de MPB é uma criação simplista de uma ideologia comercial que tem que didatizar para ser entendida. Diluir para ser fruída (gozo do objeto estético). Certa vez, em entrevista, Arnaldo Antunes afirmou que era impossível separar música em gavetinhas. Impossível separar “Pérola Negra” do Lúis Melodia com “Tábua das Esmeraldas” de Jorge Bem.

Esta é a real essência da MPB: um conceito que tenta classificar tudo, mas não define nada.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

conto - ATRÁS DA MONTANHA NUNCA ESTIVE


ATRÁS DA MONTANHA NUNCA ESTIVE
por Rômulo Giacome







Atrás dos montes havia riqueza, afirmavam alguns. Muitos acreditavam que sempre depois das montanhas as terras eram mais férteis. É fácil, para todo mundo, acreditar que do outro lado verdeja mais e as águas são mais puras e cristalinas. No entanto, a subida era íngreme e marcada pelo gelo que descia a montanha, carregado de riqueza protéica para o florescimento e crescimento das uvas.
Atrás a planície conhecida e re-conhecida, anos de permanência naquela retidão imaculada, tranquila, que se estendia pelos altiplanos a uma distância quase secular, horizontal.
Mas às costas tudo é conhecido e esta planície fatiga as vistas ainda não cansadas, ávidas por novas descobertas, ávidas por conhecer o que realmente está por detrás daqueles montes, não tão longe, mas nem tão perto, à distância da vontade e motivação.

Quase no topo do monte habitava soturnamente uma antiga igreja gótica, marcada pelo abandono, que imponente deitava ao largo o seu legado, sob a forma de uma sombra mística que exalava de sua torre longilínea.


As comemorações e a vida fugidia da comunidade não permitia acreditar que subindo as montanhas era possível descer e conhecer novas terras e pessoas, novos ares e novidades pungentes. Canções e imagens passavam nos sonhos de cada um, trafegando entre o limite do desejo e da apreensão.

Não havia um Rio, córrego, riacho ou pequeno vão de água, nem aquele límpido e azul, com uma pequena ponte de madeira envergada, cantando ao ser transpassada, imagem onírica onde Ofélia navegava deitada com seu nenúfar na mão. As crianças iam contemplá-la, de pano e cera, conversavam com ela algumas, outras talvez, os adultos não.

Do outro lado haveria o mar?

De lá o vento era mais frio e provavelmente encantador, assim como todo o mistério cria-se uma lenda e da lenda uma força sólida advinda da curiosidade. Séculos de manutenção de um estado aparente de certeza e absolutez, pairando sobre a liturgia da razão, entre o instintivo sentimento animal de busca.

Nas noites escuras e chuvosas de inverno, a ruína do templo chorava morro abaixo, respigando em cada um seu quinhão de culpa, alagando o vale e, pelas costas, a água levava outras lágrimas.

Escorria da torre esquerda da igreja, uma pequena resina que a cada dia tomava a forma de uma gota. Nas noites festivas, onde o milho comemorava seu júbilo junto aos humanos, nas noites de graça e alegria da música, a gota brilhava a luz acumulada da lua. Mas distante, não mais ali, os sons dos pianos nas marchas lúgubres dos funerais atiçavam a mocidade a escrever contos de amor, procurando na tristeza o ópio e a lágrima sagrada da autocomiseração. Miseráveis de vida, os invejosos comiam e bebiam para não se sentirem vazios. E o milho rodopiava sobre as cabeças e embalados ao vento, atravessam o monte rochoso imponente, avistavam o que tinha do outro lado, mas não voltavam para contar, assim como as labaredas que subiam, fumaça e rastilhos de cinzas e pequenas luzes festivas que habitavam somente o imaginário celestial.

Muitos passaram e o tempo findou quando amanheceu para ela, moça, estrangeira. A montanha continuava lá, cortesã do tempo e do vento. As manhãs eram frias, e tinha que buscar água no córrego que passava ao largo do vale, corcoveando e circundando como uma serpente azul benigna, um nilo de vida e flor. As mesmas ansiedades do relógio palpitam nela, e nela estavam todas as dores femininas.

Desejos incontidos esmorecem a compreensão. No recôndito de qualquer seio ofegante. Recostada no aparador da janela, olhava a grande igreja imponente sobre o monte, suas formas plenas, fiscalizando e impugnando os atos profanos.

O que teria atrás daquelas montanhas?

Talvez o mar. O céu daquele lado brilha mais, as terras são mais férteis...

Uma vez por ano ela contemplava fagulhas e cinzas que de lá vinham, com rostos de pessoas e lágrimas de alegria: comovida esperava sem ser compreendida.
Nos dias de sol quente, solstício, já era uma tradição: fenos rolavam do topo até o pé da montanha e corriam como cavalos pela pradaria verde, arremessados ao rio como barcos que navegam até à índia em busca de belas mulheres, que só povoavam a imaginação da cintura para baixo.

Sem rostos, os habitantes do lado de lá eram improváveis, e tais quais os atlântidas, tinham o tamanho do boato, o fluxo discursivo que carrega os fatos mais loucos.

A igreja, de costas, não olhava para ela. Não olhava para ninguém daquele lado; apenas olhava para o lado de lá da montanha; ela sabia o que tinha do lado de lá. O mar talvez? Bem, deste lado não tem mar, pensava.

A ruína hoje estava ainda mais indiferente. Pelas suas costas manifestava a renúncia, abandono? Como o móvel abandonado, sem fala e vontade. Pegou um bilhete escrito a letras longas:

“Queria ser olhado, admirado. Visto, não por todos, apenas pelo dono. Mas se viram as costas sem cumprimentos. Dias sem uma fala, dias sem palavras legais. A música daqui lá não escuta. Dois mudos são amantes incrédulos; amantes mudos são desejos incompreendidos. A distância provoca incompreensão e medo. Viravam as costas constantemente sem se cumprimentarem. Faltavam palavras e as palavras eram desejadas, ansiadas”.

Um peso dentro dela assinalava que estava ansiosa; existo ou apenas insisto?

As estrelas acordaram mais cedo hoje. Iluminaram os dois lados da montanha. As estrelas iluminam a todos. É impossível ficar indiferente a elas. Elas estão em todos os lugares, estão em dois corações, em duas planícies verdejantes.

Hoje a igreja manifestou-se. Os sinos dormiram e acordaram tocando com força; depois mais lentamente, profeticamente; um turbilhão voraz de água desceu por sobre os prados, sujando tudo, assolando os becos, as salas e ante-salas, as cadeiras e seus suportes, sujando paredes e manchando de lama sedas indianas; desceu veloz e grandiloquente, água, muita água, turbilhões, ondas incessantes em pulsos, força, arrastava a todos, tudo, depredando, penetrando a solidão, permeando o medo, água escura, protéica, alagou a todos.

Já dentro da igreja protetora, (fugindo da lama e da água), forte e inquestionável, uma ruína verde de musgo e folhas, enfeitada por ciprestes rosados que caíam em cachos, grandes tijolos olhavam de soslaio. Na ante-câmara, iluminada por dentro, dentro de cada um, ao abrir a pesada porta, que a tanto tempo protegia e cerrava os punhos protetores, lá estava ela, de branco, vestida de noiva, molhada, com um olhar ansioso, o bilhete na mão, uma face alegre e surgindo espontâneo, esperando o presente e o futuro.

segunda-feira, novembro 30, 2009

Cinema - BASTARDOS E INGLÓRIOS - QUENTIN TARANTINO

BASTARDOS E INGLÓRIOS: UM CULT SOB UM RÓTULO POP OU UM POP SOB UM RÓTULO CULT?

por Rômulo Giacome
Um filme de guerra maravilhoso, com um contexto histórico rico e uma trama interessante. Uma cena final apoteótica com um personagem perfeito (Coronel Landa), que magnetiza a todos com sua presença. Cenas finas e bem acabadas, com diálogos densos mas com grande expectativa. Doses de violência e referências pop com a música final de David Bowie. Tudo isso orquestrado pelo Nerd cinéfilo Quentin Tarantino. É para contemplar ou não?

terça-feira, novembro 24, 2009

A CONCEPÇÃO DE JUSTIÇA EM SÓCRATES

A CONCEPÇÃO DE JUSTIÇA EM SÓCRATES A PARTIR DA PEÇA "ANTÍGONA" DE SÓFOCLES
Rômulo Giacome
1.1 Perfil filosófico de Sócrates (469-399 a.C)Filho de Sofrônico, escultor e Fenáreta, parteira, nasceu Sócrates, 469 anos antes de Cristo, em Atenas. Moldado pela reflexão e pela cultura helênica de Péricles, Sócrates foi um rígido Magistrado e valoroso soldado. Não participou ativamente da vida pública, mas sua convicção na força das polis lhe rendeu méritos filosóficos.

Segundo H. Pandovani e L. Castagnola[1] Sócrates dedicou-se às questões práticas da espiritualidade e ao mundo humano e sua dimensão moral. Ele se apresenta cético em relação à metafísica. Para o filósofo, as questões práticas devem ser abordadas e conduzidas aos valores universais. Os vetores principais de sua filosofia podem ser condensados na perspectiva da gnosiologia e da ética, sendo que o fim da filosofia é a moral.

A gnosiologia de Sócrates partia de um método dialógico, de perguntas e respostas, bem como da maiêutica, faculdade epistêmica pela qual ocorrem os partos da alma, ou o saber propriamente dito através do diálogo e da ironia. É fundamental ao conhecimento o voltar um olhar para si.

1.2 A concepção de Justiça em Sócrates

A filosofia tanto tem demonstrado seus métodos de investigação a cerca da realidade empírica e ainda material, quanto em pontos capilares da conduta humana e que não estão mensurados através da realidade tangível. Princípios como moral, virtude e ética não podem ser delineados sobre a forma da materialidade, mas se fazem sentir na prática das relações sociais, na conduta profissional e nos códigos que determinam o bem estar de dada comunidade.

A partir deste ponto, e estabelecendo alguns contatos da própria epistemologia filosófica de Sócrates com a realidade moral e ética, podemos perceber suas contribuições para o avanço de uma discussão positiva a cerca da justiça.

Alguns estudiosos aproximam a identidade peculiar de Sócrates em fazer uso de gêneros diversos como os enunciados filosóficos e literatura com a tragédia grega, especificamente a de Sófocles em sua obra Antígona. Nesta relação, percebe-se uma preocupação com as leis, o que irá suscitar as problematizações a cerca do seu uso e encadeando reflexões sobre a própria estrutura social e seu bem estar. Observemos o contexto em que estão engendradas estas proposições segundo Jean Pierre Vernant e Pierre Vidal Naquet (1999, p.03):
(...) os gregos não tem a idéia de um direito absoluto, fundado sobre
princípios, organizado sobre um sistema coerente. Para eles, há como que graus
de direito. Num pólo, o direito se apóia na autoridade de fato, na coerção; no
outro, põem em jogo potências sagradas; a ordem do mundo, a justiça de Zeus.
Também coloca problemas morais que dizem respeito à responsabilidade do homem.
Desse ponto de vista, a própria Díke pode parecer opaca e incompreensível:
comporta, para os humanos, um elemento irracional de força bruta.
A representação da deusa da Justiça (Díke) acentua a idéia da citação acima, nos oferecendo uma visão de justiça irracional, moldada em valores voláteis, categorizados pela religião e pela sociedade. Esta dubiedade de justiça, ora violenta e irracional, ora proposta dentro de situações díspares, irá determinar a importância de Sócrates para a implantação dos seus valores de ética e virtude no seio da concepção de justiça.

Isto porque fará o filósofo refletir sobre a situação das leis no corpo social, dentro da vida cotidiana das cidades. Como se dá a implantação destas leis, sua obediência ou não por parte dos cidadãos, as penas devidas ao seu não cumprimento e tudo que estará diretamente ligado a justiça. Partir deste problema da concepção de leis e obediência social perante elas, é o ponto forte da filosofia de Sócrates no que tange a concepção de justiça. Fato que também é poeticamente abordado em Antígona. Na obra de Sófocles, Antígona estabelece uma relação de desobediência ao edito publicado pelo Rei Creonte, seu tio. (este edito proibia qualquer cidadão tebano de oferecer honras funerárias ao morto Polinices, assassinado em combate contra o próprio irmão do Rei Creonte).

As leis a que os cidadãos das Polis estavam inseridos eram emanadas de dois pólos: um religioso (deuses) e outro das próprias cidades-estados (Polis). Desrespeitar um é o mesmo que desrespeitar o outro, tendo em vista que a as leis dos deuses alicerçava a conduta no cosmos e as leis dos homens serviam para manter a ordem das cidades. O cidadão das polis tinha que se flexibilizar entre estes dois pólos, tendo em vista que era considerado cosmo-politas. Um cidadão da cidade enquanto universo. Podemos sintetizar este parágrafo afirmando que existiam as leis divinas e as leis humanas regendo a comunidade das polis.

Na tragédia de Sófocles, quando Antígona decide desobedecer o edito de Creonte e oferecer as honras funerárias a Polinices, ele passa a desobedecer a lei humana. Levado pelos guardas, argumenta em sua defesa que pela lei dos Deuses, qualquer morto deve e tem como direito receber as honras funerárias. Nesta medida, percebe-se que existe a transgressão de Creonte aos princípios e leis dos Deuses, quanto erige a nómos da proibição das honras funerárias. Por outro lado, Antígona rompe com a nómos da pátria, ao desobedecer uma lei do Rei e sua representação dentro da cidade grega. É o primeiro momento narrado onde existe um conflito entre a lei humana e a lei divina, conflito que se desdobrará na própria condição de direito público e privado. É o confronto entre o mundo divino e humano, entre a condição social e a condição religiosa, ou da própria representação de Díke e a dureza de sua espada.

A necessidade de descrever o ponto nodal desta tragédia de Sófocles é para ilustrar os princípios de confronto das leis no que tange sua acepção religiosa e humana. Isto porque em Sócrates, precisamente em sua obra "Apologia" (sua defesa em relação aos “acusadores antigos” e “acusadores atuais”) o filósofo remete a dubiedade de aceitar o contrato firmado com os Deuses, Apolo no caso, e um contrato de aceitação da ordem jurídica social, representada pelos juízes, suas leis e suas interpretações, bem como de suas sentenças. Este confronto fica ainda mais claro quando dado a restrição a Sócrates de uma possível sentença onde o mesmo não poderia mais filosofar, e entre esta e beber o veneno mortal, o filósofo afirma que enquanto respirar, não acatará a sentença proferida, uma vez que tinha um contrato divino com a verdade. Esta negação da ordem das leis no que tange a sociedade em prol de uma lei universal, esta busca da verdade, implica em uma concepção de justiça ligada à virtude e a moral individual. Acusado por “perscrutar o que está sobre a terra e sob o céu[2]”, em um sistema legal de sua própria criação, ofereceu-se como exemplo da própria atuação das leis. A questão é que sua obediência está ligada ao princípio ético universal, a verdade. Para Sócrates a lei é o limite entre a civilização e a barbárie.

O pensamento socrático, como afirma Bittar e Almeida (2005, p.65), é profundamente ético. Esta preocupação com a ordem social, com as atitudes de um coletivo em função de uma moral individual permeiam toda a sua obra, que está engendrada sob uma perspectiva prática, tanto nas ações do próprio filósofo, quanto no seu modo de pensar a justiça e interação social.

Esta preocupação com as leis e a convivência nas cidades-estado (polis) é responsável por oposições centrais ao pensamento dos sofistas, que viviam atrelados à retórica e à denominada “razão menor”; bem como aos pré-socráticos, que investigavam a natureza e a constituição íntima das coisas.

Para compreender sua concepção de justiça é antes necessário perceber como o filósofo encarava a ética. Em uma leitura de Bittar e Almeida (2004, p.65) indica que sua ética estava ligada ao conhecimento e a felicidade. Um julgamento convincente do que vem a ser bem e mal passará indissociavelmente pelo conhecimento, assim como a felicidade é proveniente dos deuses, baseada na virtude. Sócrates considera a virtude com o controle efetivo das paixões e a condução das forças humanas rumo ao saber.

[1] PANDOVANI, Humberto e CASTAGNOLA, Luís. História da Filosofia. 3ª edição. São Paulo: Melhoramentos, 1958.
[2] Símbolo dos sofistas, que procuram a razão menor (sofisma) em detrimento da razão maior, plena.

segunda-feira, novembro 23, 2009

música - PORCAS BORBOLETAS - A PASSEIO

PORCAS BORBOLETAS - "A PASSEIO"
por Rômulo Giácome
Quem me conhece pessoalmente sabe que falo muito em PORCAS BORBOLETAS; Não por menos;; eles merecem muito; os conheci em Porto Velho, no festival Casarão. Fui abduzido. Geniais, eles revigoram a atmosfera Rock do nosso parco repertório nacional contemplado pela mídia. É tudo uma grande mistura entre Titãs de Cabeça Dinossauro (fases áureas) com Arnaldo Antunes da fase poética (solo), com performances inusitadas, mas muita força, feeling e vontade, elementos que fazem falta no poser/faker que o mainstream tem proporcionado.
O meu primeiro contato com o Porcas veio ao ver / entrever a performance de "Nome Próprio"; a forte enunciação letra / refrão, o entusiástico elemento verbo e guitarra me fizeram mordiscar a isca e contemplar mais um pouco; absurdamente criativos e legais, no bom sentido; um experimento bom, tal qual mistura de bebida no encandescimento das já tomadas; "Nome Próprio" é a segunda música do muito bom álbum "A passeio"; sua história está ligada à fatos, referências e filmes (e mais alguns ingredientes) que fazem uma banda estar na hora certa no lugar certo e pronto; esta forma plástica de grito do refrão, este eufórico processo de cantar "quando ela tira a roupa / algo se revela / ela tem uma tatuagem / de cicatriz" além de construir a linha veloz / violenta do refrão, demarca a ritmia e sonoridade das consoantes e vogais sibilantes, sonoras, ríspidas, tal qual a materialidade da tatuagem, sua rusticidade envolvida no acidente (cicatriz); o ritmo demarcado pela brasilidade do bumbo referenda algo na linha da Nação Zumbi com acidez e espírito loser. Música incansável e intensa, que não respira, só termina, no ar, pois fica na mente;

"A passeio" é um álbum distribuído por um selo independente e disponibilizado na Internet. Como música de abertura, "menos" traduz a letra inquietante e pós-moderna de Clara Averbuck. A sacada poética de "Pra viver mais / eu sei que é preciso viver menos", construída sobre a relação anti-análoga entre viver mais e viver melhor traduz a voravidade poética da palavra, seu trato, mas além disso, uma ideologia, um mote, uma virtude pop de construir um modo de vida, uma percepção sobre esta. A narrativa deslancha e cresce a medida que o baixo constrói um refrão / riff maravilhoso, esperado e ansiando a próxima "rodada"; é bem rock and roll, chegando a ser rock star, performático com ares guitar hero (quantos adjetivos rockers!!). Maravilhosa! é o meu sigle preferido. O disco também consegue incorporar estruturas melódicas na linha "Antuniana"; é o exemplo de "A passeio"; com levada psicodélica de teclado, ela incorpora um vocal claro e objetivo; o refrão faz um trocadilho com "nada no lugar / let it be / deixa estar"; uma bela canção, mesmo que não empolgue; Em "Dinheiro" a veia irônica e sarcástica do Porcas é mais acentuada; a capacidade narrativa de tecer crônicas humorísticas da realidade circundante tem vazão nesta canção; sua estrutura ritmica e melódica lembra, novamente, Arnaldo Antunes, mas incorpora alguns ingredientes pop que funcionam muito bem, como a valorização sonora do termo "dinheiro"; "gastei dinheiro / com você".
No entanto, o ápice do disco realmente está em "estrela decadente"; a marca máxima desta banda de Uberlândia está na enunciação desafiadora, lancinante, aguda e afiada com que desfere os golpes: "você sabe qual é o seu signo? / você não é escravo dos astros"; a força crítica do conteúdo encontra corpo na forma insendiária do refrão: "você não vai pro céu / nem vai ser estrela"; a música possui uma unidade, uma manifestação quase teatral, estruturada, o que a torna uma peça original; desde as micro inserções do programa do Sílvio, até a sacada que Sílvio Santos morreu em 1984 "o sílvio santos que você vê é de plástico"; perfeita; se porcas borboletas tivesse um logo musical, este seria "Estrela Decadente". Por fim, merece estreita análise e obervação o riff genial e marcado de "O Rato"; é impossível não materializar a encenação vocal, a forma cantada do "Rato", sua perfídia e insinuação; as formas do rato na voz e ritmo, cruzada pela guitarra e bateria enlouquecida; uma hora ou outra um piano microfônico invade, em pequenos pontos ensandecidos; o Rato, em sussurros, caminhando pela Sala, deixando rastros na canção; excelente faixa;
Porcas Borboletas é uma banda honesta em um cenário honesto de circuito alternativo; busca a criatividade e encontra muitas vezes bons momentos, como em "Dinheiro" e "Menos"; mas também constrói canções originalíssimas e antológicas, acima da média, como "O Rato" e "estrela decadente"; porcas borboletas não muda o mundo da música, mas pega o bastão e conduz com maestria o rock original brasileiro.

quinta-feira, novembro 12, 2009

A VIDA TEM SEUS MOTIVOS... QUAIS OS NOSSOS PARA VIVER?

Um tronco de Ipê foi usado como poste; Mal sabiam que a vida tem seus motivos para sobre-existir sempre, e este tronco procurou o que lhe restava de forças e renasceu.


O DEVIR

A vida procura seus motivos. A vida paira por onde existe a força. Não aquela força inócua da imagem embrutecida da resistência, da intolerância. É a força sensível da lágrima e a força do gesto. A força que degenera a opinião através da imagem, do arder da consciência, aquele queimar velho e intenso do peso e da culpa. O refluxo da dor, do perder. Esta dor imperceptível que não está no músculo mas está na aura, no ânimo, no desenho rotineiro do seu dia, na sua motivação, na vontade. A força do riso, que nasce de pronto, do nada, do limpo, que é caro e raro.

O ato involuntário, invólucro da alegria, a anti-resistência, a plenitude, a busca pela consciência tranquila, pelos excessos de aucomiseração e critério, ausência de auto-resistência, sabendo que quem se leva muito a sério tem a si como rival. Buscar no olhar do outro a reprovação e reprová-lo antes, evitar tudo e saber que é como queremos, e se queremos alguma coisa se não que nos amem e nos adorem, totem e tabu.

Muitas forças se entrecruzam, em abraços e convicções. A força do saber e do poder contar, chamada amizade. Em tudo isto paira um bruto e constante movimento, uma inércia que nos move rumo à intensidade da vida, rumo aos seus porões profundos, ao máximo e ao ápice, amando, tendo, perdendo e obtendo. Um processo rápido e veloz que nos conduz como em uma longa montanha russa, batendo do lado em balanços frenéticos, um devir, um vir a ser.



Mas, na claustrofobia da vida, no "close me" da personalidade, na busca de parecer-ser esquecemos que a vida ainda pressiona nossas artérias rumo aos nossos próprios motivos. Motivos de soslaio, coelhos que irrompem de um conto que inventamos, estórias belas e outras feias que vamos confeccionando, e incluindo em orifícios de vida, lacunas de vontade, protegendo-se sempre de nós mesmos, estabelecendo uma conexão distante entre o que queremos e que realmente somos.


A VIDA NÃO FLUI....
FRUI DE CANTO
NAS BORDAS E O INTERIOR, DISSIPA
CARREGA,
DILACERA A PRESA, CARNE LIMPA SANGRA
E ESVAI, EXAURE
AS DIFICULDADES ROLAM
TROMBAM E PARAM,
PAREDE PEDRA PURA
PARA NAQUILO QUE VEM DE ONDE SE ENXERGA
COM AS MÃOS

É LUMINOSO O MOVIMENTO QUE CARREGA A FOLHA
É AUSTERO E RESERVADO AS PREMISSAS DO SÁBIO
QUE MORTAS, NÃO VIVEM
RESISTEM
AO SABOR E CALOR DO TOMBO

NA VELOCIDADE INFINITA DA QUEDA

BASTA ESTAR PARA SER
SER E ESTAR
NA PESSOALIDADE DA IMPRESSÃO DIGITAL
O DEDO, SOLTO DO CORPO, RESPONDE POR ELE
A MENTE, DESPREENDIDA DO CRÂNIO
DELIRA NO PALCO, RASGA A ROUPA E INANE A RAZÃO
ENQUANTO NOS BASTIDORES OS OUTROS VIVEM
RESPEITANDO A CERCA
VOLTANDO LENTAMENTE DO SONHO
E CAINDO NA RESSACA INTENSA DA MORTE
Rômulo Giacome (2009)

sexta-feira, novembro 06, 2009

INFORMAÇÃO, CONHECIMENTO E SABER: DISTINÇÕES SOB A PERSPECTIVA DA LINGUAGEM


O presente ensaio enseja introduzir a questão da informação, conhecimento e saber, tanto no mundo acadêmico / científico, quanto no universo individual do sujeito cognoscente, ou seja, todos nós que lidamos com conhecimento. A separação terminológica e a classificação destas três categorias contribuem para a discussão sobre como utilizamos as informações que adquirimos, o que é e como se dá o conhecimento e a importância da autonomia para o conceito de saber, todos conectados pelo cimento da linguagem enquanto suporte da informação.


Vivemos em uma era de muita informação. As informações estão espalhadas por todos os lados, seja de modo digital, seja de modo material. No entanto é fato que a criação de um novo suporte barato para a informação, como foi o avanço da era da informática, proporcionou um gigantesco número de gigabytes de dados em forma de textos, música, vídeo e outras formas de manifestação desta informação. Isto indica que, temos mais suporte de armazenamento de dados, incluindo aí a internet, e de veiculação destes dados do que propriamente informação. Assim, é fato que teremos um nível absurdo de fragmentação da informação, de descaracterização de seu conteúdo e ainda de desformatação de sua essência primeira. É a época da diluição da informação complexa para a informação rápida e metafórica que vivemos. Livros que diluem a obra de filósofos e grandes pensadores (Quando Nietzsche Chourou), obras ficcionais que incorporam uma pseudo-historicidade que passa a ser uma teoria para os leigos (O código de Da Vinci, Anjos e Demônios). São dezenas de formas híbridas de saberes e informações que escapam aos nossos dedos todos os dias; formas recauchutadas de informação, formas re-feitas, recicladas. É o pastiche e brincolage na arte. Em suma, existe muito mais informação do que capacidade para processá-la.
Porém, a informação não é sinônima de conhecimento. Quantos terabytes são derramados sobre nós e não geram aplicabilidade ou formas novas de pensamento, técnicas ou novos pontos de vista? Assim, é concluso que o conhecimento está a um nível acima, ou seja, é a informação aplicada. Quando aplicamos aquela informação estamos construindo conhecimento.
A comunicação é uma forma estupenda de aplicabilidade da informação e, portanto, é uma forma cognitiva específica e eficaz. Quando falamos de algo estamos segmentando um conhecimento que é nosso, mas pode não sê-lo no futuro. Isto quer dizer que ao falar sobre qualquer assunto a alguém, propomos um processo complexo de busca, seleção e combinação destas informações, além de todo o aparato formal da representação (discurso) que irá transmutar esta informação em conhecimento; assim, escolhemos formas de enunciação (gestos, atos, melhores maneiras de representar o que queremos transmitir) e formas de enunciados, como a criação de metáforas, figuras que tentem retratar aquela informação primeira. Assim, ao se comunicar, gerimos as informações que estão armazenadas em nosso aparato memorial e construímos conhecimento ao fecundá-las no discurso produzido.
Levando em conta o conceito de que o conhecimento é a forma aplicada de informação, e uma destas formas aplicadas é a comunicação, por derivação é bom salientar que o próprio ato de gerir o rol imenso de informações que nos rodeiam pela aplicabilidade do discurso é um dos princípios absolutos do conhecimento.
Em uma tri-dimensão onde informações são trocadas em milésimos de segundo, a recepção destas informações e o arquivamento são meras etapas procedimentais burocráticas. É preciso mecanismos claros de pertinência, classificação e funcionalidade, bem como critérios lúcidos para qualificar estas informações.
Ressaltando o que já foi dito anteriormente, dos procedimentos enumerados acima, a comunicação é a forma mais apropriada e eficaz de segmentar conhecimento, ou seja, aplicar uma informação no campo concreto ou teórico. Por outro lado caminha a possibilidade de gestão do conhecimento, ou seja, a seleção das informações relevantes, transpassadas pelo crivo da aplicabilidade e pertinência e sua organização sistemática dentro dos campos práticos e teóricos.
Ao perceber e descrever o processo de aquisição da informação e aplicação desta (conhecimento) é perceptível, neste interregno, a necessidade de autonomia do individuo em buscar esta informação e transformá-la em conhecimento. É preciso traços de motivação e vontade para impulsionar o ser cognoscente no rumo da informação e mais ainda no campo da aplicação desta informação. Esta autonomia é mais importante do que a própria informação, pois esta, descontextualizada do discurso do cognoscente, passará ao largo do conjunto otimizado de informações chave que constroem novas informações.
Também é importante ressaltar que o sujeito cognoscente, além de conhecedor e ser que busca a informação, deve também ter a consciência de que além de sujeito ele é objeto do próprio conhecimento. Sujeito e objeto do processo cognitivo.
Não é garantia de sucesso profissional o fato de um acadêmico ter recebido muitas informações na graduação. Na prática, a capacidade de buscar mais informações e aplica-las falará mais alto do que aquelas informações teóricas apreendidas durante o processo acadêmico. Ou seja, a autonomia de saber onde buscar informação e como aplica-la é habilidade imprescindível ao que denominamos como saber.
A semiótica consegue explicar este processo de informação que traz nova informação quando da relação do signo com o outro signo, na permuta constante de novas leituras a partir do interpretante. Pela teoria semiótica, o sentido de um signo é outro signo. Nesta permuta constante de um signo que procura outro signo, em um processo ad infinitum dá-se o nome de semiose. Assim, forma e conteúdo convivem lado a lado, assim como informação e suporte. Aplicando tal premissa na sistemática da linguagem da informação e do conhecimento, uma informação é concretizada por outra informação complementar, meta-explicativa ou suplementar. É inconcebível não encarar a informação enquanto desdobrável e escamoteável, pois ela é uma espécie de informação da informação, pois pensamos determinado dado de maneira particular e podemos utilizá-la também de maneira particular.
Assim, nesta autonomia para buscar mais e mais informação, com vontade e motivação própria, temos o conceito de saber enquanto práxis (trabalho sobre a realidade).
De forma geral, a informação é um dado solto, um signo dentro de um complexo cognitivo amplo. Quando aplicada, torna-se conhecimento. Fechando a tríade, a autonomia para buscar mais informações e aplicá-las é possível denominar de saber.
Em uma escala processual terminológica do andamento e desenvolvimento entre a informação e a autonomia, teremos este panorama: informação, conhecimento e saber.

segunda-feira, novembro 02, 2009

O "NO SENSE" COMO REFERÊNCIA COMUNICATIVA

O NO SENSE POSSUI UMA CAPACIDADE ABISSAL DE ENTENDIMENTO E PODER DE ATRAÇÃO, GRAÇAS À SUA CRIATIVIDADE E HUMOR SAGAZ, SARCÁSTICO E HIPERBÓLICO. ELE JÁ NÃO DEVE SER CONFUNDIDO COM "BOBAGEM" ARTÍSTICA, MAS SIM COMO UM GÊNERO QUE VEICULA MUITA INFORMAÇÃO.

terça-feira, outubro 27, 2009

PECULIARIDADES DA LINGUAGEM NA PRÁTICA JURÍDICA


PECULIARIDADES DA LINGUAGEM NA PRÁTICA JURÍDICA: A QUESTÃO DA INTERPRETAÇÃO DO TEXTO LEGAL
Por Rômulo Giacome


Texto apresentado como parte do mini-curso "Hermenêutica aplicada à leitura do texto Jurídico" em 21 de Outubro de 2009. (VII Jornada de Iniciação Científica da UNESC)

O movimento codificador, erigido a partir do pensamento de Hobbes, Montesquieu e Beccaria promoveram uma epistemologia da linguagem e do texto jurídico com sérias distorções, não do ponto de vista do Direito, uma vez que a verdade revelada por entre os dedos desta postura é o estado liberal, que necessita do state quo e das leis como instrumento de pacificação. Mas sim da forma como a linguagem era visualizada, entendida e aplicada no direito.
A crença que o texto legal é denotativo e pleno, preconizava o uso de estratégias de leitura e aplicação com alto teor lógico-formal, e intensamente silogístico, pois estabelecia uma condição material de relação entre o fato e a norma, tal qual a mesma tinha que referendar as situações possíveis, sem ampliar ou limitar o uso concreto. Em outras palavras, a subsunção como aproximação do texto ao fato dava-se por um caminho extremamente formal e calculado, levando à um raciocínio silogístico de exclusão e completude, ferindo as múltiplas possibilidades.
Ideologicamente, a escola das exegetas surgiu sobre este bojo. Nada mais propício, uma vez que os próprios exegetas não interpretavam, apenas compreendiam a lei e estabeleciam uma conexão material com a situação e circunstâncias. O princípio que direciona o tipo de leitura legal da exegese é o mesmo que sustenta a leitura dos textos canônicos e religiosos. Na medida em que a interpretação reproduz e reconfigura o conteúdo de textos imantando e definindo um posicionamento personalíssimo, da esfera do leitor, parte essencial da mensagem original se desvirtualiza. Assim, uma diacronia mais extensa permite verificar que os textos vão perdendo a definição original do emissor e passam a viver as intempéries do contexto de leitura e do leitor, transmigrando para novas mensagens. A exegese, como um modo lógico-formal de leitura, identifica a mensagem principal, consegue protege-la e mantê-la viva, relacionando sua essência ao contexto de leitura e produção devido. Assim, a exegese é um processo de leitura que não permite a liberdade interpretativa, mas sim potencialmente relações de leitura do texto com o universo fático. Os estudos bíblicos são sustentados pela exegese, uma vez que o próprio texto religioso, ao passar pelo crivo profundo de uma leitura hermenêutica / semântica, teria suas bases e postulados essenciais reconfigurados ao passar do tempo, perdendo seu sentido dogmático.
Por tudo isso, assim como Derrida afirma “todo direito vem precedido de uma força opressiva”, ideologicamente o codificadores não permitiam a subjetividade ativa do Juiz, cristalizada pela forma da interpretação, uma vez que “o direito fala pela boca do Juiz” (MONTESQUIEU).
É um erro crasso, do ponto de vista da própria estrutura tensiva da linguagem, povoada de referências ambíguas e lacônicas, considerar o texto legal perfeito em si mesmo. O texto jurídico, feito de material poroso, “(...) aprioristicamente, possui significado apenas potencial; é somente à luz dos fatos emergentes do caso concreto que se realiza a interpretação, produzindo-se a norma” (NEVES).
Assim, em uma análise semiótica mais profunda, o texto jurídico é icônico e indicial, quase nunca simbólico. Mesmo que constituído socialmente e instaurado como um discurso de conhecimento de todos, a lei sugere uma circunstância semio-semântica a partir do contexto.
O uso do inter-pretario jurídico possibilita ao Juiz a versatilidade e vinculação da lei ao caso concreto pelas vias subjetivas. Juridicamente o magistrado aplica suas articulações sêmicas e jurídicas. mas também usa aspectos externos como as veleidades do espírito e da passionalidade, uma soma que possibilita um constructo de leitura que dificilmente pode não ser considerado como fonte auxiliar do direito.
Esta capacidade do magistrado em arbitrar, que a cada dia expande seu leque de abrangência, propicia a visão subjetiva de um tipo específico de leitura (denominado de interpretação) fortalecendo o princío da "iconicidade" do texto legal, reconhecido cientificamente pelos estudos linguísticos e semióticos que mostram a tessitura do discurso e suas possibilidades polissêmicas, desde a dificuldade das referências, a amplitude das conjunções, bem como a disritmia e ritmia semântica da pontuação.
Assim, muito se tem caminhado rumo às interpretações do texto legal como forma de flexibilização da norma ao fato concreto. Em uma prática jurídica, aspectos peculiares da linguagem escrita e da complexidade de uma entidade chamada texto, além da própria doutrina, tem concebido postulados que sustentem, na prática, a aplicação de entremeios interpretativos de leitura. Para Eros Grau (2001), existem duas ideologias de interpretação jurídica: uma estática e outra dinâmica.
A estática parte do princípio de que a norma não altera sua expressividade e, portanto, é imutável. Ela é linear e plena, tanto em plano como em profundidade, além de lastro teórico de sustentação.
A dinâmica postula que a interpretação é atividade que adapta o direito às necessidades presentes e futuras da vida social. Para esta vertente ideológica, a atividade interpretativa é criadora.
Na commow law, a postura dos juízes frente ao texto legal tem forte ruptura com a visão positivista da civil law. Na primeira, muitos são os casos em que o Juiz se posiciona contra o estado e reflete visão diferente daquela apregoada pela norma legal. Em uma fase de composição da prática jurisdicta o magistrado recolhe os dados que lhe cabem no quinhão de aplicabilidade, resultando em sua intervenção sobre o concreto. Dentre “estes dados” está o texto legal. é observável que este texto é dado, e não cânon (norma como instrumento de medida).
É importante ressaltar que quanto maior o uso dos recursos semânticos e semióticos para a leitura, o inverso não é verdadeiro, quanto da escrita da norma na face porosa do discurso textual. A materialização da norma e da sua intenção consubstancializada na matéria textual, face da linguagem em que o gênero discursivo do texto é mais estruturalizado e formal, transmigra a potencialidade da intenção para a limitação natural da palavra escrita. Esta, agastada ou não pelo uso, aberta ou fechada pelo propósito, dissimulada ou sincera pelo contexto, em um véu ou desnuda, contempla sobre si um sentido que pode não ser seu, uma face neutra sobre uma face complexa.
A atividade de leitura jurídica é o perscrutar camadas semânticas de texto que estão culturalizados, contextualizados e abalizados por forte apelo do uso, da prática e da natureza anfíbia e escamoteável da língua.

Assim como o ato de interpretar, já discutido e aplicado pela commow law e na pauta das decisões da civil law, é atividade jurídica que celebra o inter-texto (outras fontes semãnticas complexas, como doutrinas e jurisprudêcias), o ato semiótico da leitura perpassa o respeito conotativo da palavra escrita, seu contexto de reprodutor de sentidos e seu poder expressivo. Somente levando em conta que o texto legal é diferente de norma, que esta é imaterial e está gaugada na intenção enquanto que a segunda está materializada na imperfeição conotativa da linguagem e sua porção expressiva, a interpretação será um instumento mais eficiente para a teleologia da justiça.


LINKS PARA ARTIGOS IMPORTANTES SOBRE O TEMA:


Sistema Commow Law e Civil Law



Vinculação do Juiz à Lei




sexta-feira, outubro 23, 2009

VERTENTES DA LITERATURA CONTEMPORÂNEA - SELL XIV - UNIR VILHENA

Produção apresentada em Mesa Redonda no XIV SELL, Seminário de Estudos Linguísticos e Literários da UNIR, Vilhena, em 08 de Outubro de 2009, com a participação do professor, Dr. Aguinaldo José Gonçalves e Rubens Vaz Cavalcante, ambos com histórias tranversais em minha carreira literária. O professor Aguinaldo devo a satisfação e o conhecimento necessário de ter sido seu orientando no Mestrado, e sem ele não teria conseguido. E o "Binho", por ser incansável companheiro na busca do "novo" e do seu entendimento.

VERTENTES DA LITERATURA CONTEMPORÂNEA
por Rômulo Giácome
1 DESFACELAMENTO DOS MODOS DE PRODUÇÃO E RE-ADAPTAÇÃO E MIGRAÇÃO AOS NOVOS SUPORTES

Com a digitalização dos conteúdos, novas formas de ver e veicular o conhecimento tornaram o próprio entendimento cultural diverso daquele que se estabelecia com o mercado editorial comum. Agora, novas formas artísticas e criativas riscam o céu cybernético em busca de um aporte de leitura.

2 É POSSÍVEL PERCEBER UMA VERTENTE?A falta de uma localização geográfica para a produção literária, que antes era celebrada pelo eixo Rio / São Paulo / Nordeste e hoje, com o advento da rede Web diluiu fronteiras, complicou para a crítica degludir toda a produção poético / literário brasileira. Assim, também do ponto de vista do fazer poético, os temas aproximam-se do urbano popular, cristalizam-se o interesse policial e fica, ainda fortalecido, o verbi-voco-visual inaugurado pelos irmãos Campos e Pignatary na década de 50, além da aproximação da subjetividade individual, privada, focada no eu para com a antagonia do ser universal, neutro e sem diversidade própria. De certo modo, vertentes são unidades temáticas, estruturais e modos de produção poético. No entanto, a fragmentação das unidades é reflexo da liberdade contemporânea e da forma individualizada do fazer poético. Liberdade demarcada desde a forma semantizada de um Everaldo Moreira Veras, em Cantos de Sal, até o Marçal Aquino, com sua narrativa hiper-realista.


3 ONDE ESTÁ A GRANDE MUDANÇA?
A grande mudança concentra-se na substituição do Suporte verso para o novo suporte, SIGNO POÉTICO; inaugurado por Mallarmé, no poema um “Lance de dados”, depois ressaltado pelos simbolistas / cubistas como Apollinaire, desconstrucionistas como Pound e James Joyce. O ápice do movimento é o plano piloto do movimento concreto, tendo como baluartes as teorias do provável dos irmãos campos e Décio Pignatary. O hoje demarca as novas formas de comunicar e construir uma poesia estrutural, voltada ao signo e suas potencialidades comunicativas, como Arnaldo Antunes e sua poética da interface. Esta poética estruturalista e sígnica, suportada pelo signo poetencial, constrói uma poética da performance, onde a significação irrompe de vários ângulos e formas e das mais inquietantes sugestões, como a própria tendência no core. Ou seja, narrativas desconexas, em fluxos randômicos e constantes de representação, utilizadas na linguagem jovem.


4 CONCEITO DE INTERFACE LITERÁRIAO texto literário tem sido matriz de formas artísticas midiáticas, como a música, o vídeo-clip, a moda e o cinema, o grande cume desta linha de possibilidades. As várias facetas que a palavra consegue produzir neste celeiro de suportes digitais e visuais é um processo concêntrico e, mutatis mutandis, será progressivo, determinando o fim dos gêneros poéticos conhecidos como tal. Esta possibilidade de apresentação dos textos em novos suportes chamamos de interfaces poéticas, que acaba constituindo uma tendência espiralada de criação e seus desdobramentos. Os exemplos nítidos desta produção rumo à interface texto / verbo para o cinema, podem ser referendados na obra de Lourenço Mutarelli, O Cheiro do Ralo e Nome Próprio, baseado na produção da Clara Averbuck.




5 FRANCISCO ALVIM: “ELEFANTE” ANGÚSTIA DA INFLUÊNCIA?
A obra de Francisco Alvim é um retrato das novas formas de encarar a influência. O determinismo fatalista que afirmava a influência ser danosa à produção estética, problematizada por Harold Bloom na obra “Angústia da Influência” pode ser revista na obra de Francisco Alvim como um processo de referência. Esta substituição conceitual de Influência para referência mostra o quanto o diálogo entre produções criativas deva ser encarado como situação corriqueira do nosso tempo. A proximidade de Alvim com Drummond é uma proximidade de trabalho a ser completado, parafraseado e re-constituído do ponto de vista do novo artesão, sob uma nova forma e uma nova ferramenta.

quarta-feira, outubro 14, 2009

PROJETO "TALENTOS DA POESIA" ESCOLA JEAN PIAGET (ESPIGÃO DO OESTE)

O projeto "Talentos da Poesia" já é um grande sucesso no município de Espigão do Oeste. Veja notícia vinculada:























O projeto “Talentos da Poesia” já é uma referência no município de Espigão do Oeste. Promovido pela escola Jean Piaget e coordenado pelo professor Agilson da Silva, esta iniciativa possibilita a valorização e aplicação da poesia como recurso humanizador e educativo. No evento ocorrido no dia 24 de Setembro, última quinta-feira, os professores Rômulo Giacome e Carlos Suniga foram convidados a proferir palestra sobre literatura e crítica literária. No evento, o escritor homenageado foi o professor Carlos Alberto Suniga dos Santos, que teve suas composições declamadas pelos alunos do ensino fundamental e médio. O evento contou com a presença de lideranças e dirigentes da educação em Espigão do Oeste, a exemplo do Secretário Municipal de Educação, Manfred Saibel; da Representante da Seduc, profª Nilce Barela; diretores de escolas, professores e supervisores que acompanham/acompanharam o projeto, bem como a vice-diretora da escola Jean Piaget, professora Rute Gimenez. Enriquecendo o evento, o professor Jean Pierre proferiu palestra sobre a identidade visual entre João Cabral de Melo Neto e Miró, contribuindo com a formação artística dos alunos. Ocorreram apresentações musicais e mostras poéticas. Ao final das atividades, todos se confraternizaram e receberam os certificados de participação no evento. Segundo a vice-diretora da escola Jean Piaget, professora Rute, a parceria entre a UNESC e a referida escola é uma realidade pedagógica que contribui e agrega valor, pois soma forças em prol de uma educação de qualidade. Na ocasião ela agradeceu ao empenho dos acadêmicos e estagiários de Letras, Alessandra, José Carlos e Vilmar, pela dedicação no andamento do evento e das atividades da escola.

Fonte: Plantão Infoletras, UNESC.













Palestrar neste ambiente, onde todas as forças poéticas voltam-se para a palavra, palavra viva e palavra força é encandescer o rastro de pólvora que a arte permite faiscar dentro de cada um, na busca do belo-palavra, da força motriz da nossa língua / linguagem. Um sensação única apoderou-se de mim, uma vez que neste instante / momento, várias lembranças de vários segmentos da minha vida profissional e pessoal riscaram o escuro plácido da consciência. Meus professores e colegas, alunos e contemporâneos, amigos marcados pela mesma escola, de tanto tempo, um tempo menino que não cabe mais na mente, pregresso no coração vivo, coração alma que bombeia recordações de uma época sem fim, sem término, suspensa no colo da família. Os mestres que fizeram a minha cabeça, circulando em faces pela sala e, ali mesmo, um contingente de idealismo cristalino me conduzia a falar de poesia com força, com expressão, como se o grito fosse a forma primeira de acordar para a palavra, viarar para a trás, olhar para o chão ou olhar para o lado: cuidado, não pise na flor, não toque fogo nesta palvra que ainda protege nosso solo cáustico. Uma grande oportunidade de falar do que vivo e gosto, que pulsa na artéria, incosciência e consciência. Procurei mostrar que ainda existe uma forma de pensar com a língua, que esta língua quando respira transita entre o belo e sublime, nascendo a poesia, aquela que bate com luvas de pelica, aquela mesmo que acorda os homens e adormece as crianças, como bem escreveu Drummond. Inesquecível.

PÓS GRADUAÇÃO EM OURO PRETO - UNEOURO

TURMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM GESTÃO AMBIENTAL E EDUCAÇÃO

Ministrei a disciplina de Processo de Colonização e Meio Ambiente (16 de Agosto, Ouro Preto)
A turma de Ouro Preto é uma turma experiente, acessível e simpática, efusiva ao conteúdo e extremamente participativa.

Em linhas gerais, o processo de colonização, em suas marcas regionais, deve levar em conta elementos econômicos, sociais e culturais, uma vez que a apropriação dos recursos naturais conduz à um modo de produção específico, estruturando uma sociedade cultural, com bases fincadas nos princípios deste modo de produção. Na pós foi possível perceber os grandes ciclos migratórios e suas consequências, desde o primeiro ciclo da borracha, o ciclo do ouro, o segundo ciclo da borracha e o ciclo da agricultura. Tanto nas antigas PIC´s quanto nos PA´s, o processo de apropriação, domínio e manutenção econômica da sociedade por meio da terra vive suas intempéries culturais. No entanto, o contexto colonizatório de Rondônia proporcionou uma situação sui generis, pois permitiu um forte avanço econômico e desenvolvimentista pela produção agrícola, circunstância não visível em estados como Roraima e Acre.


TURMA DE PÓS EM METODOLOGIA E DIDÁTICA DO ENSINO SUPERIOR

Ministrei a disciplina de Avaliação Educacional (27 de Setembro, Ouro Preto)

Esta turma é uma turma com excelente senso crítico, boa interação e muita vontade de profissionalizar cada vez mais a educação de ensino superior.



Em linhas gerais a avaliação deve ser vista como um instrumento complexo de diagnóstico e intervenção, onde a relação tempo / aplicação deve ser, na medida do possível, simultânea. A ação reguladora é uma forma interativa e eficaz de aplicação do conhecimento, pois permite a re-configuração do procedimento no momento da aplicação.

Os sujeitos do processo avaliativo devem estar configurados de forma dual e dialógica, onde cada um exerce seu papel, refletindo formas de ensinar e aprender. Assim, auto-avaliação é uma forma perfeita de auto-regulação, pois permite refletir sobre o que aprendemos e intervir, procurando melhores formas de aprender. Sugiro, como bibliografia para a avaliação no ensino superior, os textos:

BORDENAVE, Juan Díaz; PEREIRA, Adair Martins. Como avaliar a aprendizagem. In: Estratégias de ensino-aprendizagem. 29ª ed. Rio de Janeiro: ed. Vozes, 2008.

PERRENOUD, Philippe. Avaliação. Da Excelência à Regulação das Aprendizagens Porto Alegre: Artmed Editora, 1999

quarta-feira, setembro 30, 2009

POEMAS - RECORTES SUBJETIVOS


Me dispo da miséria
Corando-me da mágoa
A indiferença me resseca
E a coragem me abstém da sorte
Não existe medo onde não há perigo
Não há perigo onde tudo é des-importante
Não há importância onde tudo não é meu
Não há nada meu onde nada me detém:
Os olhos, a vontade e o coração
Tudo me (des)ocupa a mente
E foge aos olhos e mãos
Não quero nada
Que ainda
Possa
Ferir-me
O coração
Deixo as virtudes para os outros
Procurarei apenas os sentidos
Na inscrição
Que me habita
O desinteresse
(Rômulo Giacome - 2006)


Pra quem?

Se me perguntarem, o que?
Responderia ou não só: uma folha dissolvendo-se ao vento
Se me perguntarem, para que?
O toque árido ao solo, a fome, a seca
O desassossego e a dissonância
Distância talvez
Se me perguntarem, de quem?
Do invisível que me fere o peito
E o por que? (se ainda me perguntarem)
Sim. A solidão que devora o último pedaço de mim que ainda fica
E agora? silêncio,
O ensurdecedor e maldito silêncio.
(Rômulo Giacome - 2006)

clAMOR / clAMAR
eu clamo pela palavra
palavra-grito
a palavra fome
um ponto no rosto, a lágrima-palavra
a fuga e o sonho,
o peso e o pesadelo
um velho senhor tombando
na rua de lama com platéia
caindo e tocando o solo com o rosto
e a criança por demais criança, agachada olha
e ninguém nada faz pelo nada e mais nada
simplesmente a doença contagiosa e diferença
o ódio e o rancor respingam de sangue a blusa branca
indiferença
e um corpo na calçada, jazido e jaz(z)
ainda que ninguém espere ser
eternamente o próximo
sempre serei eu
(Rômulo Giacome - 2006)

o desejo e sua morada
na chama amarga e seca do fogo
dois corpos queimam
e as mãos saindo da cortina de fumaça pedem
com os dedos abertos, anéis e alianças se cruzam
as mãos se encontram e se tocam
em espasmos de dor se condicionam
corpos que dilacerados pelas lâminas vermelhas
gritam e perfuram o silêncio da noite
aponta um dedo em riste no norte
e tombam ainda sobrando de trapos
sangue, pele, ossos e desejos
incompreendidos.
(Rômulo Giacome - 2006)

sexta-feira, setembro 18, 2009

PCH RONDON II - USINA HIDROELÉTRICA DO VALE DO APERTADO

Tive a grata oportunidade de conhecer, no dia 26 de Julho de 2009, mais um empreendimento energético em nosso estado e região. Com apenas quatro turbinas, a usina hidroelétrica do vale do apertado é um complexo de construção sobre o rio Comemoração, no município de Pimenta Bueno. Foi uma grande experiência, onde pude obter uma melhor percepeção do crescimento do nosso estado maravilhoso. Vejam as fotos que fiz do local com a descrição leiga (rsrs):


LOCALIZAÇÃO
O Aproveitamento Hidrelétrico Rondon II está localizado no trecho do rio Comemoração denominado “Apertado da Hora”, a cerca de 94 km, pelo rio, da confluência com o rio Pimenta Bueno, próximo à cidade de mesmo nome, com as seguintes as coordenadas geográficas aproximadas do eixo do barramento: 12o00’ Latitude Sul e 60o41’ Longitude Oeste.

(fonte Themag Engenharia)



Parede da barragem com Lago: Duto para saída da água do leito do lago principal; este duto mantém o rio no leito natural;
Curso do rio natural após saída do duto;

Visão interna da barragem do lago principal;
Lago ainda vazio, mas cheio de árvores; segundo alguns teóricos, estas árvores poluem muito, pois estão em decomposição, liberando monóxido de carbono;


Visão geral da construção do canal artificial que leva a água até as turbinas nível abaixo;

Canal com parede de contenção de concreto; gigante; ficará muito bonito este circuito das águas pelo canal;


Terra retirada do canal que levará a água até as turbinas; quantidade exorbitante de entulho;

Rocha perfurada com dinamite para passagem da água que vai até as turbinas; contribuição natural para a passagem da água;
Casa de força; local onde ficam as máquinas;



Rio Apertado em seu curso natural; ele não será alterado e nem algumas belezas serão tocadas, como tem sido divulgado; os locais de banho ainda existem;

CULTURA AMBIENTAL: O EDUCOSISTEMA

CULTURA AMBIENTAL: O EDUCOSISTEMA
Rômulo Giacome
O meio ambiente, antes de um problema material, é de ordem cultural. Não é difícil perceber que os efeitos e desgastes ambientais já eram visíveis pelos cientistas a muitas décadas.
Mas o que isto afetaria o nosso sistema cultural? Quais os efeitos destas sequelas em uma comunidade global que experimenta o sabor da economia de mercado? Os bens (in duráveis) que assolam(vam) nosso universo vetorial de vontades e desejos seriam refeitos? Absortos em nosso modo de vida não poderíamos ter nada atrapalhando. O ideal de modernidade e conforto está totalmente vinculado ao ideal de excessos, exageros e muito lixo. Uma sociedade volátil que constrói valores volúveis e solúveis, não consegue sobreviver sem poluir. O lixo é o código da grandiosidade globalizada, encartada nos ícones do merchandising e da publicidade a todo custo. Assim, faz sentido ouvirmos falar em efeito estufa desde a década de 80, mas nunca uma criança ou pai de família discutir este assunto.

Neste novo cenário que se dedobra sobre o absurdo do fim, o novo "aon" é tomado por um sentimento de tempo perdido, uma espécie de força repressiva que busca anular a consciência ambiental em prol de uma práxis mais acentuada.
O que muda hoje?

A presença maciça de uma cultura ambiental revelada por entre os dedos de uma indústria cultural poderosa, deve ser analisada também pela possibilidade esclarecedora dos ideais que norteiam qualquer projeto global de crescimeto. Pode ser suspeito e deve ser analisado por uma ótica mais ideológica do que político / ético / moral. Não é escopo deste pequeno texto esta inquieta suspeita. O nosso trabalho tem o fito de apresentar, em linhas gerais, o processo de linguagem empreendido na comunicação ecológica, de forma que a preocupação ambiental afetou nosso mundo.

A primeira etapa deste contínuo processo de esclarecimento ambiental parte da construção de uma "linguagem especial" para evocar e presentificar esta noção abstrata de meio ambiente. Conceitualmente o termo meio ambiente seria de difícil cognição em todos os seus meandros. Nao que o devesse ser, mas que é preciso uma visão lúdica e icônica de meio ambiente, para a posteriori termos qualquer ação sobre ele. Em outras palavras, a linguagem sofisticada e semiótica da propaganda e seus recursos conseguem produzir um efeito sinestésico e memorial de meio ambiente, que é o primeiro passo rumo ao seu entendimento e valoração.

A segunda etapa é a inserção desta linguagem especial sobre o meio ambiente acoplada à linguagem universal da mídia. Uma vez lá, esta linguagem irá proliferar seu vocabulário a todos, contaminando lexicograficamente um público de massa. Palavras como preservação, ecosistema, proteção, são nuances deste processo.

A terceira etapa é o entendimento que qualquer valor (axiológico) que uma sociedade constrói sobre algo é fruto de uma sugestão advinda da indústria cultural, instrumentalizada por seus aparelhos ideológios e midiáticos. Logo, o sentimento protetivo e restaurador que temos sobre uma árvore é a construção valorativa evocada por meio de uma sugestao ou atribuição que alguém efetua. O nacionalismo, ufanismo e xenofobismo são valores constituídos por meio de propagandas ideológicas, não necessariamente valores inerentes ao ser.

Assim, construída uma cultura ambiental por meio da linguagem e dos seus recursos modernos, tem-se a consolidação de que, agregado ao vocabulário, oculta-se uma ação. Portanto, quando assimilamos culturalmente uma palavra, assimilamos com ela sua efetivação. Lexicografias verbais tais quais: proteção, preservação, manutenção, conservação e economia não são só palavras, são efetivações interventivas sobre a realidade imediata.

Em suma, uma revolução prática parte do domínio da linguagem e dos seus mecanismos modernos de comunicação e, principalmente, de um educosistema, ou seja, uma construção efetiva cultural de valores dentro da escola.

Este sistema de valores será fruto da própria percepçao da realidade imediata da criança, que já preparada cognitivamente, irá celebrar o aprender a preservar e proteger.

Este aprender ambiental é o próprio nascer no contexto constelatório de referências e co-referências sócio / ambientais efetivas. É sobreexistir em um universo que troca códigos vocabulares, efetua permutas de valores ecologicamente satisfatórios.
De um modo geral, fecha sobre a educação nacional e global a necessidade de implementação de uma nova linguagem, com novo vocabulário, assim como novos pressupostos cognitivos e metodológicos para atingir um objetivo que realmente toque o imediato real.

sexta-feira, setembro 11, 2009

FESTIVAL DE ROCK CASARÃO – PORTO VELHO

FESTIVAL DE ROCK CASARÃO – PORTO VELHO
Por Rômulo Giacome


As trombetas (guitarras) do rock and roll soaram nas margens do Rio Madeira.
Na convulsão do rio e da história, às margens da(s) madeira(s) que decem vagarosamete no leito marrom das águas, a criatividade rompeu as teias do mais do mesmo.
Sob a luz alucinógena das kaiser quentes (quase trocadilho infame com Kaiser Kiefs) a brisa do madeira estava vaporífera. Eu e Helem trocávamos olhares às bordas do caldeirão.


Mas exalava uma noite linda, aberta, que pronunciava e prenunciava seu maravilhoso interregno. A primeira banda a literalmente “tocar” a todos com uma energia feminina e sensual, totalmente paralisante e anestésica foi a banda de mato grosso do sul (Campo Grande) Dimitri Pellz. A vocalista interpretava o imenso devaneio de ideais comunistas, alicerçadas teoricamente por uma boa costura de guitarra e bateria. O tecladista, icônico, estampava no peito a camiseta “quase!” clássica do Velvet and Nico; placa icônica para estabelecer um contato com a cultura indie da velha guarda. E o arranjo comia o ferro, estabelecendo uma conexão que beirava o punk e o rock metal, quase Iggy Pop, quase tudo que é bom, muito bom. Nesta letargia e profunsão de sensações, Dimitri revelava por entre as cortinas da performance, um bateirista ensadecido (que nos bastidores ficamos sabendo que é casado com a vocalista, e ambos são formados em rádio e TV). Um baixista no bate cabeça que dava gosto e um guitarrista em posição guitar air mas que em seu monólogo foi extremamante competente. O som estava claro, só não estava claro o open bar da festa, que revelava, em suas frestas, cerveja quente transpirando pelos poros dos copos descartáveis. Dimitri Pellz teve seu nome referendado na revista Roling Stones como uma banda que merece ser ouvida. E como merece.




Correndo por fora, duas moças meigas e delicadas desfilavam seus vestidos longos e com temas woodstock; guitarras e baixos poderiam ser a fuga dos punks e siber punks que estivessem por alí, mas o prelúdio da catarse veio com estas meninas, aparentemente frágeis e anacrônicas. O bate cabeça veio ao som doce e multifacetado daquelas vozes, ora meigas e ora fortes, ora com falsetes e trejeitos lindinhos; era a surpreendente e extasiante banda MINI BOX LUNAR. O bateirista e baixista concentravam sobre si o peso quase singelo, mas a levada e a forma encantadora com que as músicas iam se desdobrando, confirmaram a idéia de que vibração muitas vezes não é sinônimo de peso. Cantando como um mutantes infantilizado (no melhor e nais sincero dos elogios) a viagem à lua ia rápida, embalada por flertes de marchinhas, cirandas, rodas e outras formas de rock pulsante, com teclados e baixos fortes e atuantes, com letras que falam de soldados amarelos, despertadores que lembram ainda mais você, piqueniques lunares e tudo de bom.


Ao acabar o sonho, que não acabou, fui atropelado pelo acordar, quase compromissado em conhecer o head line da noite, motivo da viagem de 500 kms que eu, helem, meu amigo Bernardo e Mariana enfrentamos até aqui: a banda Mop Top. E conseguimos entrar no camarim (vantagem obtida via de contato anterior e perseverança e sagacidade do amigo Bernardo). Lá dentro encontramos o baixista e o guitarrista, e logo após chegou o bateirista, conhecido virtual que comentou um post aqui do TEOLITERIAS. O interior do camarim, com seu sistema refrigerado, seu silêncio e seu caráter protetivo, a luz forte branca, me fizeram entrar em outro tempo, em um time lento, paralelo aos acontecimentios anteriores e futuros, as fotografias com os caras da banda, a chegada séria do vocalista Gabriel;

Quando saí da sala, o Bernardo já estava com uma bolsinha na mão e dentro aparentemente um CD (que viria ser mesmo um CD, pois naquele momento não era) e do lado a moça frágil, a diva do fora do eixo, aquela que cantava o melhor heavy metal com uma marchinha deliciosa, sincera e intensa, a década de 60 que nunca foi e agora realmente era. E aí está materialização daquele segundo sonho, tempo / momento / instante que a euforia da bebida, a sensação de criatividade que exalava dali, somente o céu nos proporcionaria.

Após aquela pausa de mim mesmo, fui rever as fotos com o MOPtop e o que eu vi foi um homem ficando calvo; eu;;;



Mas (mais) algumas kaisers quentes com gelo e a combinação auricular e crítica me envolveram na seguinte frase “você tira a roupa / você tem uma tatuagem de cicatriz”. E lá no palco a cena estava completa: um percusionista ensandecido, e um vocalista “per forma action” que plantava bananeira, trocava o microfone e olhava com fogo nos olhos e o coração em epítetos de palavras e paronomásias; perfeito;

Relembrando o show dos PORCAS BORBOLETAS agora consigo definir toda aquela sensação louca que tive em vê-los tocando. Está na enunciação, está na enunciação meus caros linguistas e analistas do discurso; no modo como a palavra falada se enviesa na palavra cantada, dita e redita, exclamada, palavra com grito, coro e choro, palavra expressão com expressão, com força e interpretação; mas não é só a palavra falada / cantada, é a intervenção de guitarra na hora certa, o feeling de “MENOS’ musicasssssaaaa; segredo revelado, força pop / cult / hit, música grande e completa, sutil, tudo; que música esta “menos”!!!!! eu acho que é isso mesmo, ‘viver menos para viver mais”; viverei menos então; do mesmo naipe e da “forma” pop vem “EU” do disco Carinho com os dentes (2005); é o limite de Arnaldo Antunes, o limítrofe limite entre Arnaldo e sua fórmula convencionada pelos álbuns maravilhosos O SOM e o SILÊNCIO; é o limite entre isto e outro ainda grande e novo, eles mesmos; PORCAS BORBOLETAS tem assinatura própria, tem peso próprio e forma própria; da lavra maravilhosa de “nome próprio” e “estrela decadente” que ouvi em Porto Velho e nunca mais esqueci e esquecerei.

Link do blog e local para download do disco A PASSEIO
http://www.porcasborboletas.com.br/
Pude “dividir um chiclete” com os caras da banda e a coisa estava muito maluca, que os próprios espíritos queriam sair na foto; a intervenção espiritual só foi contornada a partir da terceira foto; acalentados pela missão cumprida, os espíritos já previam que o MOPTOP não ia demorar.



A surpresa era querer ver aquilo que eu já havia previsto; a banda MOPTOP no show arrasa; o peso é maior na bateria, o vocal é muito bom e o trabalho de guitarra pontilhando “a lá novo rock pós-punhk” os momentos de solo são uma grande sacada. Destaque para a “minha música” “Aonde quer chegar” e a intensidade com que ficou “Contramão”.
Ao final, um show interrompido pelo horário, as meninas satisfeitas mas cançadas, a sensação de que poderia ter escutado mais uma e tomado mais uma (...)
Acho que fui atropelado por um trem...estive em meio à fina nata do novo rock original basileiro.

segunda-feira, agosto 31, 2009

Literatura MEMORIAL DO CONVENTO - JOSÉ SARAMAGO

MEMORIAL DO CONVENTO (JOSÉ SARAMAGO, 1982): HISTÓRIAS E ESTÓRIAS QUE SE CONFUDEM Por Rômulo Giacome O Fernandes

José Saramago é reconhecido principalmente por sua obra Ensaio sobre a cegueira e não tanto por Memorial do Convento. A primeira vista o título “memorial do convento” exala a idéia de uma temática tipicamente portuguesa, na medida em que iconiza a força da igreja no homem e nesta sociedade. Muitas vezes a religiosidade molda ações e convenções, o que pode ser percebido na produção literária do realismo e romantismo português. O certo é que esta obra é muito mais do que ações e convenções religiosas; são os efeitos literários e fantásticos que esta força religiosa constrói em indivíduos e grupos. A história tem como trama principal a construção do convento de Mafra, no pequeno povoado homônimo, que dada as proporções da época, consolidou-se como uma obra fantástica e onerosa aos cofres reais, quase impossível de execução. No início eram apenas acomodações para poucos religiosos; até quanto o regente na época, D. João V, imbuído pelo espírito da grandeza e fé irresoluta, decide ampliar para duzentas acomodações. A obra passa a ser a grandeza do povoado.

Milhares de trabalhadores, de sol a chuva, pedra por pedra, iniciam a construção apoteótica deste templo da fé. E o que vai se construindo, literariamente por detrás desta ambição religiosa do monarca (o que merece um parágrafo de explicação) é o desdobramento do simulacro poético entre a fantástica força, sobre-humana, de um bloco de trabalhadores rudes e miseráveis, em construir um símbolo da fé, calcado pela ordem do luxo e da ostentação, tal qual às formas mais icomensuráveis de resignação religiosa. Esta força do rito religioso, esta grandiloquente inquietação de fé torna os atos mais loucos e insanos, totalmente desvirtuados da lógica social e das possibilidades de cada indivíduo. São momentos que comprovam tais alegorias, como a imensa pedra, que necessitou de mais de 600 homens para o transporte, incluindo a morte de alguns trabalhadores em prol do seu translado. A imensa e grandiosa comitiva real, com suas dezenas de coches, de carroças às maravilhosas carruagens, com a nobreza toda a viajar no luxo, acima da lama que entupia os pés dos serviçais, que na força da fé e da devoção ao monarca, empurravam, limpavam, tampavam buracos e lama em prol da grande megalomania real, a inauguração parcial do convento de Mafra. Saramago consegue, em sua forma narratológica contemporânea, descrever a loucura e a grandeza dos rituais religiosos, de uma forma que funde sensações e formas, em uma profusão narrativa que beira a carnavalização[1] estudada e difundida por Bakhtin. O frenesi da força idealizadora com que o ser real serve e é servido pelo povo pobre português. Este recurso de carnavalização pode ser vislumbrado em todo o seu apogeu na cena da procissão do corpo de Deus, ou até mesmo nas touradas. São formas religiosas que tomam a nuance de ritos pagãos, onde os homens chicoteiam-se, e o sangue reverbera da pele, mancha as ruas, tornando os corpos ensandecidos pela atração do chicote, o êxtase da dor, enquanto as mulheres, olhando pelas janelas aquele momento de tensão corporal e sanguínea, onde o corpo busca e deseja a dor, loucas gritam em frenesi, botam as línguas de fora, lambem os lábios e roçam as mãos entre as pernas. Esta forma alegórica e rica de descrever os ritos religiosos, as procissões, as riquezas dos ornamentos, dos enfeites, os detalhes artísticos e psicológicos dos momentos de fé, são formas carnavalizadas de entender cenas importantes de devaneio e busca inconvicta da fé como forma de transcender a existência comum e buscar mais.
É importante ressaltar que a carnavalização de memorial do convento é engendrada pela disposição de papeis inversos, onde determinados padrões sociais são revistos e re-ordenados. É o caso do dia da paixão de cristo, onde as mulheres podem sair às ruas para se confessar enquanto os maridos ficam em casa. Na ocasião, elas aproveitam e procuram homens para sanar seus desejos, em rituais sugeridos pelo signo literário de Saramago, na confissão da carne, voltando para os seus lares resignadas e austeras, do modo como saiam. O exemplo forte desta fé que emoldura e motiva a carnavalização dos elementos religiosos na obra está na própria gênese da construção do convento de Mafra. D. João V queria muito um filho. A ordem dos franciscanos, percebendo o interesse e a confissão de D. Ana, antecipou a notícia da gravidez de modo a fazer com que o rei prometesse a construção do convento. A potência do ato de saber e acreditar na gravidez consolidou a criação do símbolo máximo do devaneio religioso de essência portuguesa, construindo os elementos teóricos e literários que fundam Memorial do Convento.
Em oposição dialética ao sonho de fé da construção do convento, temos a fantástica (estória) história de Bartolomeu de Gusmão e sua passarola voadora. Sete sóis e Blimunda, personagens protagonistas que permeiam toda a obra, são os construtores e realizadores do grande sonho de fé do padre Bartolomeu, que ansiava por voar em sua estranha mistura de máquina e caravela alada.


Alimentada pelas vontades que iam sendo coletadas por Blimunda no decorrer dos caminhos por onde passavam, a passarola tinha como princípio de vôo a alquímica relação entre as vontades, o âmbar e o sol. Uma vez este último tocasse as esferas preenchidas de vontades humanas, a nave voaria. Como o fez. Em um lapso de instante, como um raio, a passarola cruzou os céus de Portugal sobre as cabeças dos trabalhadores de Mafra, que dias depois contavam a grande peripécia dos anjos. Em êxtase, mas acometido da loucura dos gênios, o padre voador já demonstrava sinais de seu delírio. Com medo do santo ofício, Bartolomeu de Gusmão foge e desaparece, ensandecido pela grandeza da força humana em relação à força divina. Esta, alimentada pelas palavras dos franciscanos e monges que habitavam aos milhares os habitáculos reais, eram chuva perante à força devota de um povo gigante, retratado com maestria por Saramago, nos induzindo a perguntar: aonde vai a força e a vontade humana? E quando esta vontade é direcionada aos caminhos de uma fé sulreal? Vagando sobre a lama e a pobreza, sobre a grandiloqüência e a loucura, pairam as palavras de memorial do convento, ardendo nas chamas do santo ofício, postulando as grandes inquietações da humanidade.
Jorge Luis Borge e Casares, mestres da realidade fantástica na literatura argentina, preconizam a arte de criar a verdade a partir da mentira, ou misturar ambas, fazendo com que a ficção invada o espaço real, tornando este mais interessante e belo. Nesta obra Saramago consegue construir grandes estórias a partir da maravilhosa história portuguesa, ressucitando mitos e depultando outros não tão menos importantes.
Assim, de uma maneira fantástica e bem contada, Memorial do Convento é uma contemporânea obra que abre nosso universo cultural rumo à um grande país, à uma grande tradição e suas vertentes, nos fazendo refletir sobre o que Nietzshe já denotava em seus escritos, onde a realidade imediata, a força e o trabalho sobrepujavam-se ao contingente imaterial de palavras e aforismas falsos, que muitas vezes pairam acima da lama, mas em algum momento será sujo por ela.


[1] N.A. “A Obra de François Rabelais e a Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento” (1956) e "Problemas da Poética de Dostoiewski”.