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terça-feira, outubro 31, 2006

DICAS PARA A ANÁLISE LITERÁRIA

DICAS PARA A ANÁLISE LITERÁRIA
Prof. Rômulo Giácome de Oliveira Fernandes


DÊ MARGENS ÀS PRIMEIRAS IMPRESSÕES;

- Destaque o Valor Denotativo das palavras primeiro, pois é preciso conhecer o referencial para desvendar os sentidos;

- Valorize as Imagens; realize-as com fidelidade e clareza de detalhes; elas darão informações valiosas sobre o texto

PROCURE AS CONTRADIÇÕES:

- Segundo a semântica Greimasiana, o sentido sempre está na diferença; faça uma leitura inspecional procurando estranhamentos ou referências não determinadas; procure também os exageros;

SAIBA DISTINGUIR O GÊNERO:

- Um poema também pode estabelecer contatos com gêneros narrativos; observe se ele é mais descritivo, dando ênfase aos adornos ou detalhes nas imagens; ou se é narrativo, valorizando uma ação, uma cena, um momento; Ou totalmente lírico, valorizando um devaneio, um pensamento, uma digressão;

DESCUBRA O EU LÍRICO E SUAS RELAÇÕES

- Um poema, classicamente, é sempre um falar emotivo sobre algo ou alguém, ou quase sempre de si mesmo; por mais que um sujeito fale de outro ou de outra coisa na poesia, ele sempre estará “implicando” um estado d´alma próprio. Procure estabelecer relações do eu lírico com aquilo (algo ou alguém) que ele fala.

RECURSOS

- A metodologia básica de análise parte da proposição:

a. Descrever e Classificar os recursos;

b. Analisar a intencionalidade do autor em propor aquele recurso;

c. Analisar a composição daquele recurso, ou aquilo que faz dada “metáfora” (por exemplo) funcionar como tal, representando uma significação a partir das possibilidades de sentido;

d. Efetuar uma leitura original sobre a obra, interpretando-a a partir dos sentidos conotados dos signos postos (significado).
Comprovar a leitura original a partir dos fundamentos textuais.

- Observe que qualquer signo posto em uma obra literária é um recurso; uso de adjetivos, imagens, substantivos, verbos, neologismos; a escolha de um termo em detrimento de outro é marca do recurso;

- As figuras de linguagem de um modo geral são sempre recursos importantes na poesia;

- A escolha de um ritmo ou de uma rima, bem como aliterações e assonâncias também são intencionalmente recursos poéticos que irão concentrar significação;

domingo, outubro 08, 2006

RENATO RUSSO NÃO MORREU

Domingo, aproximadamente 22:00 de calor e chuva; mesmo que ao fundo tenha sons avulsos de chuva, pequenas nuvens de calor exalam do corpo da terra; a vontade de escrever foi mais forte que a preguiça e a loucura foi solta após seções cavalares de músicas de CSS (Cansei de Ser Sexy) e os filmes Taxi Drive e Apocalipse Now Redux;

BLOG DO MARCELO CAMELO
Que os Los Hermanos representam ainda alguma coisa nova no novo rock and rola (enrola) e pululam interesses hermafroditas na MPBS (S de samba), bem, todos sabem; o novo-velho album deles, quatro, soa intrigantemente, bossa. Bem, mas o que interessa agora é ler o que o marcelo camelo, ilustre componente da banda, escreve em um blog hospedado na globo.com. O primeiro dos já dois textos escritos por ele são bem banacas; separados os excessos retóricos de início pensante do autor, acoselho dar uma acessadinha; o primeiro texto é bem semiótico; fala de armadilhas do mundo icônico, de representação e de questões quase que semióticas da linguagem; bem legal; (até parece que o cara leu Santaella); acoselho; o que também é importante comentar, é que o Marcelo Camelo escreve manuscrito e digitaliza o papel, dando uma pessoalidade interessante à composição; o segundo ponto bacana é a possibilidade de comentar o escrito; enfim, acessem:

http://g1.globo.com/Noticias/Colunas/0,,7403,00.html

RENATO RUSSO, O HOMEM QUE NUNCA MORRE: MITO
Minha paixão pelo Renato Russo começou como começa toda paixão adolescente; mas diferente de como termina (precocemente) ficou mais forte e deu origem à uma dissertação de Mestrado pela UNESP. O trabalho sob o título A EFICÁCIA DA CANÇÃO EM RENATO RUSSO: UM ESTUDO DAS PAIXÕES trabalha um viéis comunicativo de uma linguagem determinada por uma ontologia "subjectiva ina especime" como afirma Eric Landowski. Esta abordagem semiótica, procura descrever alguns recursos da semiose da produção comunicativa. Como toda paixão adolescente, quando vemos a pessoa amada depois de alguns anos, sentimos o coração tremer, e vibramos novamente. Foi isso que aconteceu depois que o vi no fantástico. Maior e melhor poeta que Cazuza, Renato ainda continua perdido no meio da década de 80, talvez tornando-se ainda mais cult, determinando a força de lançamento mítico que lhe dará uma inércia eterna. Bem, esperamos. Eu já escrevi um pedaço mínimo dessa história.

PÓS GRADUAÇÃO NESTE SÁBADO
Fechou com uma pequena confraternização, neste sábado (07 de Outubro), a última etapa da pós-graduação em Gramática Normativa; conclui a disciplina de Estilística, procurando trabalhar recortes expressivos da arte poética;



DRUMMOND X PICASSO - TEORIA SEMIÓTICA DA REPRESENTAÇÃO - INTERSEMIOSE
Muitos símbolos se reiteram dentro de um organismo vivo, pulsante e representativo que é a peça artística; mas, quando estes símbolos pulam do tempo único e transpassam referências em outros textos, temos a presença coletiva e legítima da representação. Observemos e analisemos.

Quando nasci, um anjo torto
      desses que vivem na sombra
      disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
      As casas espiam os homens
      que correm atrás de mulheres.
      A tarde talvez fosse azul,
      não houvesse tantos desejos.
      O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.

      Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu
      [coração.
      Porém meus olhos
      não perguntam nada.

Pedaços - Reconstituição - Remontagem



Pernas - Símbolos Coletivos

segunda-feira, setembro 04, 2006

OFICINAS NA ESCOLA CARLOS GOMES - PROJETO CULTURA ITINERANTE

No dia 25 de Agosto, os acadêmicos do 4º período Letras / Inglês, desenvolveram a primeira etapa do projeto CULTURA ITINERANTE. Na ocasião, ofereceram 10 oficinas aos alunos da escola Carlos Gomes, nos dois períodos, manhã e tarde. O projeto atendeu mais de 500 alunos em ambos os períodos, levando informações e atividades sobre recital de poesias, leitura digital de filmes (épicos e desenho animado), linguagem da propaganda, oficina sobre piadas e charges, fábulas, crônicas contemporâneas, expressão corporal e teatro, literatura e música popular. O evento teve o total apoio da equipe pedagógica e direção, bem como de todos os membros do corpo docente da referida escola, que permitiram o uso de todas as aulas da sexta-feira para a relização do projeto. Organizado e Coordenado pelo estágio de Letras, sob responsabilidade do Prof. Rômulo Giácome, o evento agregou mais experiência aos futuros professores, criando um ambiente de discussão e prática das linguagens artísticas que cercam o ensino da língua portuguesa.
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PARABÉNS AOS ESTAGIÁRIOS, QUE DESEMPENHARAM SOBREMANEIRA SUAS ATIVIDADES E FORAM BEM ELOGIADOS PELOS ALUNOS NAS AVALIAÇÕES;

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(+ fotos) OFICINAS NO CARLOS GOMES - 25 DE AGOSTO
























sexta-feira, setembro 01, 2006

UM PRESENTE LITERÁRIO A TODOS

O TEOLITÉRIAS está de volta;
depois de quase dois meses sem postagem,
voltamos a ativa novamente;
Para tanto, vos presenteio com este belíssimo poema
em prosa de Jorge de Lima; Um achado, uma pérola;
Um dos grandes poemas em prosa da nossa língua,
que consegue subverter os limites entre o plástico e o verbal;
Aproveitem o presente e contemplem o sublime momento da poesia;
Abraços a todos;



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O grande desastre aéreo de ontem
Para Cândido Portinari


Vejo sangue no ar, 
vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. 
E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. 
Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. 
Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. 
Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. 
E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. 
E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. 
Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! 
Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. 
Chove sangue sobre as nuvens de Deus. 
E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.

LIMA, Jorge de. Poesia completa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980, 2 v, v. 1, p. 237).
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COMENTÁRIOS: Prof. Rômulo Giácome de Oliveira Fernandes

Que belíssima pérola da contemplação. Na montagem plástica de uma cena, dinâmica e demarcada por um elemento caótico, existe dança, movimento, coreografia alargada pelos signos imagéticos, pela dimensão espacial (espaço físico, espaço dimensional). Em meio a uma explosão sugerida pelo desastre de avião, esta sensação tônica se dispersa em fragmentos de arte, de cores. A belíssima situação sêmica de uma catástrofe, catalisada e projetada na tela de sensibilidade (piloto com uma flor para amada), dançarinas sutilmente existindo e bailando, ramalhete de rosas contrastando com a dimensão azul do céu em meio a chuva de sangue. A técnica cubista se esbalda em um realismo dilacerante do impacto, da dor e do som das turbinas do avião, dos gritos e dos sons do próprio movimento. Nesta polifonia encarnada no êxtase da morte, habita a plenitude da arte. Que linda preciosidade. Abraços.

sexta-feira, junho 02, 2006

PESQUISADORAS DO GRUPO TEOLITERIAS DEFENDEM PROJETOS

por Professor Rômulo Giácome de Oliveira Fernandes

HEI, HO, LETS GO!!!

Antes de começar este post, quero avisar aos acadêmicos do 1º período que o material de apoio para a prova está no link lá em baixo. Um beijo a todos.
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Não poderia passar em branco uma primeira indicação musical:
Morrissey em RINGLEADER OF TORMENTORS - (foto abaixo)
Fatal e sedutor;não faltam motivos críticos para escutar Morrissey,
uma vez que ele salvou o Rock nos anos 80 com a banda The Smiths;
as minorias, aqueles que clamam pelo amor, ou pelo amor indubitavelmente grandioso, para esses The Smiths tocavam; ou para aqueles que sentiam-se pequenos demais diante do mundo ou grandes demais para o próprio corpo; a inconsistência de se reconhecer perdedor, anarquicamente envolvido nos desejos ocultos que dilaceram
o corpo e deturpam a alma; talvez o elemento sensorial de sentir o chão caindo sobre a cabeça "I know over"; bem, The Smiths é antológico; mas voltando a Morrissey, podemos encontrar nele um bom motivo para calarmos a boca quando afirmamos que a arte pós-moderna é um lixo; lixo orgânico é vida, diriam alguns; o que se sabe é que eu aqui não consigo passar um segundo sem escutar o refrão de "The Father who must be killed"; A música Pop é referência em si mesma; Ela é existencial porque a elocução é momentânea, circunstancial;
O que a eterniza é a possibilidade de um enunciado subjetivo e íntimo, com temas que tocam a maioria de uma forma sincrética;
Neste álbum o tema Killed e suas variantes (assassinar, matar) fortalece uma via fúnebre, mas não é nada disso que faixas como
"You have killed me" evocam; elas proporcionam um rock sem muito exagero experimental, mas um forte apelo poético, com letras que conseguem exprimir um caminho natural de espírito, de bonificação à alma, sem ao menos encararmos que alma pode ser a-religiosa, ou até mesmo anti-religiosa; alma enquanto nosso substrato sensível, aquele que tem medo, aquele que se sente inseguro, aquele que se sente triste e sozinho; a sensação de uma balada como "Dear god please Help me" (Senhor Deus, por favor salve-me) é a anti-matéria da religião, pois visualiza múltiplos caminhos para esta suposta ajuda, até um surpreendente caminho blasfêmico; bem, a sensibilidade é coisa que se adquire, o bom senso já é consciente; o sabor da melodia e o frescor de um bom e velho Rock and Roll, é o cosmo de sobrevivência da poesia, tendo em vista que ela herda de tudo isso nas rupturas promovidas. Salvem-se enquanto ainda é tempo. Escutem.



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POEMAS DA SEMANA
por Rômulo Giácome de Oliveira Fernandes
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clAMOR / clAMAR

eu clamo pela palavra
palavra-grito
a palavra fome
um ponto no rosto, a lágrima-palavra
a fuga e o sonho,
o peso e o pesadelo
um velho senhor tombando na rua de lama com platéia
caindo e tocando o solo com o rosto
e a criança por demais criança, agachada olha
e ninguém nada faz pelo nada e mais nada
simplesmente a doença contagiosa e diferença
o ódio e o rancor respingam de sangue a blusa branca
indiferença
e um corpo na calçada, jazido e jaz(z)
ainda que ninguém espere ser
eternamente o próximo
sempre serei eu


O DESEJO E SUA MORADA

na chama amarga e seca do fogo
dois corpos queimam
e as mão saindo da cortina de fumaça pedem
com os dedos abertos, anéis e alianças se cruzam
as mãos se encontram e se tocam
em espasmos de dor se condicionam
corpos que dilacerados pelas lâminas vermelhas
gritam e perfuram o silêncio da noite
aponta um dedo em riste no norte
e tombam ainda sobrando de trapos
sangue, pele, ossos e desejos
incompreendidos.

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QUERO PARABENIZAR AS MENINAS DO GRUPO TEOLITERIAS
QUE BRILHANTEMENTE DEFENDERAM SEUS PROJETOS DE PESQUISA
NESTA ÚLTIMA QUINTA-FEIRA, SENDO MOTIVO DE ORGULHO PARA O GRUPO;

NENHUMA CONQUISTA VEM POR ACASO; ELA É FRUTO DE COMPROMETIMENTO,
RESPONSABILIDADE, INTELIGÊNCIA E HUMILDADE; A FORÇA DE VCS PROVA QUE NÃO EXISTE ADVERSIDADE ENQUANTO UMA PRÓPRIA CRIAÇÃO NOSSA; QUE ISTO SEJA APENAS MAIS UM MOTIVO PARA VOLTARMOS AO ZERO E PERCEBER QUE TEMOS MUITO AINDA O QUE FAZER, MAS QUE COM A CAPACIDADE DE LUTA QUE CADA UMA DE VCS TEM, ISSO É POSSÍVEL; OBRIGADO PELA PACIÊNCIA; CONTINUEM ADMIRANDO O ESPECTÁCULO DO TEXTO LITERÁRIO NESTE MUNDO CADA VEZ MAIS CADUCO DE SENSIBILIDADE E VONTADE; NUNCA, REUTILIZANDO A FALA DA PROFA GEANE (QUANTO À INDIGNAR-SE), DEIXEM DE CONTEMPLAR A FAGULHA DA LITERATURA, SEU VALOR EFÊMERO, MAS QUE QUANDO ASSIMILADO, INFLAMA AS ARTÉRIAS E DÁ O NORTE DA SENSIBILIDADE; ABRAÇOS A TODAS;


LINDA LETICIA TURINI
Crítica Literária: Consonâncias e Atritos na Lógica Discursiva de Antônio Candido, José Veríssimo e Alfredo Bosi.



ROSELI FATIMA DE CAMARGO
A incursão do índio na poesia Brasileira: consolidação de uma estética nacional



PRISCILLA GOMES DE OLIVEIRA
A arquitetura narrativa do desejo: o signo sensual e o limite da sugestão



MARISTELA RODRIGUES PADILHA
A visão da mulher Romântica em José de Alencar: uma Leitura de Lucíola, Iracema e Senhora



ILMA APARECIDA PAREDE STRELLOW
Do Verso ao Signo: Uma (Re)Visão do Poema Concreto no Contexto Moderno



ELIZABETH CAVALCANTE DE LIMA
Diálogos Semióticos entre Texto e Imagem: (Re)Discutindo o Cânone Barroco



ALCIONE MENDONÇA AUGUSTO
Desmistificando o cânone literário: conceitos e funções



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Cliquem neste link que abrirá o material de apoio
para a avaliação bimestral; abraços, Prof. Rômulo

MATERIAL DE APOIO - TEORIA DA LITERATURA

quarta-feira, maio 17, 2006

AINDE QUE FIQUE, SEMPRE SOBRA

Por Rômulo Giacome de Oliveira Fernandes
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quando andamos no solo
seco solo tênue próximo
as linhas do caminho se fecham
e se cruzam por sobre elas mesmas;

fundem-se na pele o ferro e flutuando
o contorno da estrada circula no vento
e faz-se alto girando luminoso de fronte
formando uma auréola sufoca a cabeça que
pesada cai na terra da estrada
sem caminho formando o pó e mais nada

onde estaria no leito a acabar
sabendo que pedaços sensíveis
despedaçadas epidermes sofrem o peso
sufocante da escolha e da vida afora
correndo diante do vazio que agora

enegrecido pelas formas invisíveis
pedem um pouco de mim onde mim
mesmo estaria desperto a acordar
sem saber que o frio não corta
nem o fogo queima só o vazio silencioso
que marca o espaço, definha o sonho e
destrói a última gota de lembraça
ficando o resto, ainda, a contemplar
as sobras do tempo e da consciência
com a cara na lama, os pés na merda
a cabeça pendida ainda pedindo
e ainda mandando um recado à felicidade


Pra quem?

Se me perguntarem: o que?
Responderia ou não
“só uma folha dissolvendo-se ao vento”
Se me perguntarem, para que?
“O toque árido ao solo, a fome, a seca
O desassossego e a dissonância
Distância talvez”
Se me perguntarem, de quem?
“Do invisível que me fere o peito”
E o por que? (se ainda me perguntarem)
Sim. A solidão que devora o último pedaço de mim que ainda fica
E agora?
silêncio,
O ensurdecedor e maldito silêncio.


Me dispo da miséria
Corando-me da mágoa
A indiferença me resseca
E a coragem me abstém da sorte
Não existe medo onde não há perigo
Não há perigo onde tudo é des-importante
Não há importância onde tudo não é meu
Não há nada meu onde nada me detém:
Os olhos, a vontade e o coração
Tudo me (des)ocupa a mente
E foge aos olhos e mãos
Não quero nada
Que ainda
Possa
Ferir
Deixo as virtudes para os outros
Procurarei apenas os sentidos
Na inscrição
Que me habita
O desinteresse

segunda-feira, maio 15, 2006

O RUÍDO DOS NOVOS TEMPOS

LITERATURA DO ESGOTAMENTO OU LITERATURA DA PLENITUDE?

Se a arte rompe os fins dos tempos em busca de algo para imitar, a tendência pós-moderna é acreditar qua a própria imitação é matéria de ficção; A ficção por sobre a ficção; tendo em vista que o universo real é uma ilusão; Esta estratégia de auto-devoração, faz com que toda obra se auto-referencie; e nesta teia de re-criações, o novo não surja no produto, mas no processo.
Para Linda Hutcheon, existem os termos MIMESE DO PRODUTO e MIMESE DO PROCESSO; o primeiro é a realização da imitação do "real"; das personagens, da verossimilhança, dos objetos; no segundo caso, é uma imitação do processo de invenção, mostrando os códigos, os recursos, as marcas que ficam escondidas quando do ato da leitura; é uma espécie de Narcisivação (Narciso) do processo de fazer, de compor, de apresentar; o artista tem a obrigação de agregar ao seu texto o processo de composição, o modus de escrever, as marcas utilizadas;
O resumo de Jonh Barth faz é emblemático:
o romance realista tenta reproduzir o mundo que PARECE SER;
o romance modernista o mundo que PODERIA SER;
o romance pós-modernista o mundo NÃO PODERIA SER;

Esta retórica do ato de compor, esta situação enunciativa, de mostrar o eu enunciador, de mostrar sua técnica e processo de escrita, é produto da tendência a metaficção;
A arte fragmento, ou a meta ficção afirmada por Patricia Waught "o termo dado à estrutura ficional que consciente ou sistematicamente chama a atenção para o seu status de artefato, a fim de levantar questões sobre a relação entre ficção e realidade. Ao promover a crítica de seus próprios métodos de construção, esse tipo de escrita não apenas examina as estruturas fundamentais da narrativa de ficção, como também explora a possível ficcionalidade do mundo exterior, fora do texto de ficção literária"

A grosso modo, percebemos que a arte dos novos tempos está sempre vontando-se para o "fazer" em detrimento de um "representar" somente; esta busca pelas raízes da criação poética, na medida que a ficção se auto-discute, promove o que fala no campo da ruptura: a discussão da linguagem artística.
Em outro momento, nos questionamos se a relação entre o real e o ficional é costumaz, partimos do princípio do espelhamento: fazer uma ficção usando como "real" uma outra ficção, faz da primeira uma eventual realidade primeira; por outro lado, a realidade que acreditamos, também é produto do nosso olhar, e portanto também é ficção. Falar de um personagem em um livro, que já foi personagem de outro, pode produzir o efeito de sentido onde o primeiro passa a ser a referência real para o segundo. Acreditamos nas próprias ficções.

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O ruído dos novos tempos já vem surgindo com a microfonia de toda polifonia; os ruídos que lampejam a esfera da enunciação, surgindo outras vozes, novos locutores, novas enunciações que se entrecruzam, disfarçadas em grunhidos, gemidos, micro-sons e sonoridades; ruídos que são senão signos do tempo por vir; da dissonância e participação do lacônico; da oposição ao silêncio;
Na música pós-Jonh Cage, o rock refletiu bem esta máxima com a banda Jesus and Mary Chain; síncopes; sonoridades em dissonância; amargas eletroacústicas; onde existe polifonia, tem microfonia; esta forma de propor um choque, uma ruptura dos sentidos, das formas de percepção, atingem a mídia que procura a multifacetação; o caleidoscópio de referências; uma espécie de estética-suja;

DICA: banda Jesus and Mary Chain - PsychoCandy - 1985.





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POEMAS MICROFÔNICOS
Rômulo Giácome

SOADA A USINA DE IDÉIAS,
O APITO DA FÁBRICA RUGE COMO A VACA DO SACRIFÍCIO
RUMINANDO DORMINDO SOFREGANDO E GEMENDO
ALTAS VOZES NA PRAÇA NO AUTOFALANTE GRITANDO E CORRENDO
PASSOS LENTOS DE LÃ EM BUSCA DA CHAMA QUASE APAGANDO
E O VENTO BATENDO A LATA NA LATA O CARRO QUE CHOCA
E O BEBÊ ABERTO NA CAMA SORRINDO E DORMINDO
COM O AVIÃO DECOLANDO ESGOLEANDO O OUVIDO
ESTUPRANDO A ALMA QUE EXPLODE EM CACOS DE METAL

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ENCONTRO

CAPITU E LUCÍOLA NA ESQUINA
ONDE O VENTO SOPRA OS CABELOS DE AURÉLIA
PENSATIVA, ELA ANOTA A VISÃO
DE IRACEMA CORTANDO A CORDA DE TIRADENTES
E GRITANDO A PARAGAÇU QUE PARE, DESÇA E CANTE

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DECAPITADAS EM QUARTOS ABERTOS AS IDÉIAS VOAM COMO MARIPOSAS
BRAÇOS DE CÓCORAS ABRAÇANDO RÉSTIAS PERDIDAS DE
LUZ
E EM TODO O MEIO DE PASSOS E ECOS QUE NÃO DIZEM NADA

GRITOS

DISSOLVEM-SE EM NEVE A PELE QUE COBRE TUA BELEZA
DO CACO DE VIDRO QUE PASSA E CORTA
NO BRANCO O FIO DE VERMELHO

GRITOS E GRITOS

CAROÇOS EXPULSOS PELA FRUTA QUE EXPELEM O SEIO
SELADAS AS BOCAS CONTEMPLAM
OS GRITOS E ECOS SURDOS

E NO MEIO O TOTEM
ABRINDO O SORRISO EM DESARMONIA

CANTOS

GRITOS


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VOA EM COMPASSO A VONTADE CARREGANDO A VIRTUDE
CORTANDO MOVIMENTOS E ASSINALANDO NO AR A PASSAGEM
DO VENTO EM DISSONÂNCIA COM O DESTINO RECORTANDO
PEDAÇOS DE CACOS DE VIDA AMARRADOS EM LINHAS DE PIPA
QUE SOLTAS VOLTAM NAS MÃOS DAS CRIANÇAS.


AS MÃOS AFAGAM OUTRAS MÃOS QUE TECEM O FIO DO MANTO DA MORTE AFAGA A FACE E OS OLHOS FECHADOS QUE APERTAM A MÃO DO SONHO
ABRINDO OS DENTES E RECEBENDO O TOQUE DA ÁGUA SORVIDA DA TERRA ABARCA COM UM TOQUE A VONTADE DE MIM E A VONTADE DE SI

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PORQUE ESCOLHO? POR QUE TENHO ESCOLHA!

No debut da cultura de informação, nada melhor que encarar a mídia como um grande cardápio; um cardápio recheado de boas dicas, barato, alimentos nutritivos e realmente sofisticados; mas também a perspectiva de ter que escolher entre pratos enganadores, sem sabor e caros; Se escolho é porque tenho escolha; Mesmo que esta escolha não seja tão diferente quanto se imagina; Tecnicamente a maior escolha é feita pelos sujeitos construtores dos signos que nos esbaldamos; nada é constituído por acaso; tudo possui uma afetação pragmática, moldada dentro de objetivos bem definidos e delineados.
Este caráter seletivo e configurável do plano enunciativo da mídia, tal qual um móbile que merece movimentos até o acerto, é premissa para um estudo semiótico. Em primeira instância a possibilidade de configuração e advinda do caráter flexível da linguagem e suas ramificações, o que naturalmente impele a eternas configurações. Por outro lado, saber que mudar exige a consciência de um “por que” mudar e “para que” mudar, surge a perspectiva do trabalho semiótico: ter a consciência de um leitor em potencial, virtualmente preconizado e avalizado, de modo a que intendamos suas perspectivas, necessidades e desejos. O mistério todo se constitui do telespectador encontrar algo que goste e deseje, sem ao menos ter pedido. Isto propicia uma valorização ao canal, ao jornal ou até mesmo ao blog que fez o que se precisava e era de interesse fazer. A comunicação popular, ou mass media, é um mistério e uma química, mas como todo mistério, existem códigos já utilizados que dão certo e que servem como velhas fórmulas mágicas de audiência. Algumas pedras de toque como o imaginário infantil, coletivizado e icônico, cheio de cores e coreografias, permitindo a fluição de energias ao cenário Pop Juvenil são fórmulas já desgastadas. Os programas de auditório, conservadores sobre o ponto de vista da mesma estrutura, das mesmas âncoras, não constituem mais elemento de ruptura, nem ao menos o voyerismo ou nudez consumada, ainda que esta não se consolidou totalmente como gênero convencional. O que permite uma abordagem semiótica é a premissa da categoria conflito real como força motriz de audiência: o momento que lágrimas vertem na intimidade aberta e deflagrada no Faustão; brigas de opiniões do naipe do Saia Justa ou até mesmo no programa altas horas; como exemplo específico poderíamos utilizar dos recursos semióticos para manipular os dados que temos em uma grade de programação. Primeiro encaramos convidados de um programa de auditório como signos em potencial, que em seu momento paradigmático, por si mesmo e por toda a carga de representação, funcional como representamens de uma dada situação social, cultural; poderíamos propor convite à um diretor de teatro; daríamos a falsa impressão de intelectualidade, tendo em vista que abaixo da teledramaturgia não temos mais nada, e o teatro soa como um desencargo de consciência dos pseudo-socialistas artistas globais, que o procuram como mascaramento da vida abastada, dos textos absurdamente simples e mal adaptados, da falta de contato social, da proximidade efetiva com as massas que os levam ao topo; falar em teatro onde a cultura é vista como um espólio capital, o cenário televisivo, é agir em prol da “nossa” sociedade; pois bem, escolher um membro efetivo desta elite teatral, um ícone rebelde e imolestado pelas tentações e vícios da fraqueza anti-artística; por toda esta plataforma escolheríamos Gerard Thomas; seu suposto engajamento daria-nos apoio por parte da elite pensante; mas precisaríamos que ele tivesse tido respaldo popular; logo lembraríamos quase que inconscientemente que este diretor já havia tirado às calças e mostrado a bunda a pessoas que o vaiaram, o que mostra que ou era uma demonstração de liberdade de expressão, ou a liberdade de expressão de vaiar algo deva ser condenada com uma bunda horrível. Um diretor de teatro mal humorado, que se encontra disposto a achar que é dono de um saber-fazer seria importante para ornamentar um programa de procura por status ideológico. Agora, quem colocar em oposição? Uma modelo, manequim, alguém que serve com o corpo para a moda? Alguém que torna-se símbolo da (i)representação no momento em que o rosto, a expressão, tem que manter-se em estado de suspensão, limitando-se a ser a alegoria de uma tendência da moda? Mas, e se essa modelo inferisse no mundo da dramaturgia; quisesse ser artista, atriz, representar, sugerir emoções, povoar a TV de riso e choro? E se essa atriz não tivesse obtido sucesso, tendo uma representação / atuação considerada fraca pela mídia e levasse uma novela considerada membro direto do Teatro (novela Bang Bang) ao fracasso? Bem, Fernanda Lima seria essa pessoa; desconsiderada pela crítica, amaldiçoada pelos telespectadores; uma química bem interessante: uma atriz frustrada e um diretor “engajado” boca do inferno; Estabelecidas as convenções nesse micro mundo da ficção, onde opinião tem peso de ouro, principalmente vinda da boca de alguém que supostamente é alguém; Dado esse cenário e contexto: pedimos ao quarto poder que ceda espaço aos outros poderes que manipulam nossa mídia; mais quais?

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RESENHAS TARDIAS: PORQUE NEM TODO MUNDO COMPRA PÃO ÀS 6 DA MANHÃ;

SNOW PATROL: UM NOVO AUDIOSLAVE OU A COMPETÊNCIA DO POP EM SER VICIANTE?





Exuberante; bem, com uma referência assim não posso partilhar de critérios negativos. Já matei a crítica pelo pescoço. Mas, a grandiloqüência sempre foi marca do Pop/Rock; então, porque não sê-lo? Há tempos o rock “generale” precisava de um sopro de vigor; sair da onda minimalista do vocal melódico, ou do “cult” dos experimentos indies ou pós-indies, ou death-indies, hahah; bem, o que temos é um excelente debute que pode ser acessado no carro, em casa, ou pela própria percepção; Snow Patrol é Rock Pop, com muito respeito ao trabalho artístico; na crescente “Make this go on Forever”, que cresce descomunalmente e sobe para um refrão que insiste em continuar, mantendo o prazer milimétrico de uma boa melodia ainda presente, presente, por mais um pouquinho, mais um pouquinho, até que há;;;;!!. Já em “Hands Open”, hit gratuito e fortuito, não há que discutir; o segredo da música está justamente na, (...) música!!!hahah. Snow Patrol compartilha experiências irlandesas em um cenário cosmopolita; nascido de um berço que incita uma relação com U2, é claro que não poderíamos deixar passar “Beginning To get To me”, que mantém a guitarra perdida no meio da bateria ascendente, e o vocal acompanhado do riff básico; em suma, MARAVILHOSOMENTE U2; não se deixem enganar por mentes ardilosas que negam o Pop; muitos destes habitantes do planeta de All Star, que assistiram Diários de Motocicleta e se dizem conhecedores de Che Guevara, não passam de enviados do Demônio para expelir nossa bondade Pop, a comunhão, o compartilhar nosso gosto musical;;;
Bem, medir a capacidade semiótica da música Pop é perceber o quanto ela pode ser viciante; terminarei logo esta resenha para escutar...ops, thau.

segunda-feira, abril 24, 2006

O FIM DA CRIATIVIDADE OU PÓS-MODERNIDADE?

ONDE NASCE A VANGUARDA E CHORAM OS DEUSES
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Existe um fim para a criatividade? Ou a criatividade é um fim em si mesma?

Vivemos um tempo em que muito já foi dito e muito já foi experimentado; muitas formas já foram utilizadas, mas antes de tudo, os conteúdos e temas já foram batizados variadas vezes na foz do Rio Jordão;
Talvez tenhamos tido conflitos demais, assuntos demais para debater,
o que afugentou de certa forma o poeta e/ou artista induzido a imaginar que ainda poderia falar de tudo, sem antes cair no erro de que muito ainda falta; ou por outro caminho hipotético, os conteúdos e conflitos são sempre os mesmos, e tomam pouco espaço no rol textual; o que acontece que tudo o que já foi experimentado, reiterado, re-utilizado, já não imprime idéia de criatividade;
vivemos o fim dos tempos? Este problema é cientificamente abordado, criando o conceito de "crise do esgotamento".
Ao de se procurar novos signos para a arte; novas formas de combiná-los; formas de chamar atenção dos críticos e dos fruidores; Mas na crise do esgotamento que nosso aparato semiótico encontra-se, somente dois caminhos parecem, se não corretos, justos: a DESCONSTRUÇÃO ou o PASTICHE;
O primeiro é um sopro de renovação; prescinde do experimental e da ousadia;
tem como método evitar os clichês da estética, evitar o automatismo do belo consolidado pela cultura; desaperecer com as formas vencidas e qualificar o impresentificável; tem como técnica o neologismo; a criação de novos signos; o uso de signos que ainda não puderam ou não foram, de modo ousado, utilizados em contextos artísticos; criar novos cenários de criação para inserção de signos antigos, e criar signos novos em condições antigas; (talvez) seja a maneira técnica de criar uma nova língua artística; um novo idioma, onde o código secundário da arte possa novamente reerguer; somente a partir de um novo idioma, carregado da poeira de um idioma primeiro, poderemos ter ambiente favorável ao novo; Nessa desconstrução do verbal já vinham caminhando o simbolismo e concretismo; nesse esteio formado pelo ato transgressor do império de um novo código, caminha a propaganda, o desenho animado e o cinema;
A outra vértice do problema está no PASTICHE; sua proposta é sedutora, mas recai na responsabilidade de evitar a antropofagia da arte; comer a própria pele; evitar o consenso, o senso; Pegar o que já foi consolidado sempre é morbidamente um ato parasitário; novas roupagens são importantes quando preenchem as lacunas deixadas no momento da elocução primeira; seguida dos mesmos erros a arte re-feita ou re-elaborada é um profundo abismo de criatividade;
Reflexões lançadas, veremos o porvir;
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Seguem os links para estudo do Pós-modernismo e Pós-Modernidade:

PRESSUPOSTOS DA PÓS-MODERNIDADE

TÓPICOS PARA ENTENDER O PÓS-MODERNO

domingo, abril 09, 2006

A ESTÉTICA DA VIOLÊNCIA

Olá a todos!!!
epígrafes da semana:

"Ninguém vai me dizer, o que sentir, meu coração está disperso e é sereno o nosso amor e santo esse lugar(...)estive cansado, seu orgulho me deixou cansando, seu egoísmo me deixou cansado, minha vaidade me deixou cansado, não falo pelos outros, só falo por mim"(...) Marisa Monte & Renato Russo

“A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer
ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível”.
M. Foucault

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Esta postagem terá como âncora a primeira parte da trilogia de textos sobre a estética da violência;

segunda-feira, abril 03, 2006

ALGUNS PILARES DA TEORIA DA LITERATURA CONTEMPORÂNEA

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Poema da Semana: e que semana!
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quando andamos no solo
seco solo tênue próximo
as linhas do caminho se fecham
e se cruzam por sobre elas mesmas;

fundem-se na pele o ferro e flutuando
o contorno da estrada circula no vento
e faz-se alto girando luminoso de fronte
formando uma auréola sufoca a cabeça que
pesada cai na terra da estrada
sem caminho formando o pó e mais nada

onde estaria no leito a acabar
sabendo que pedaços sensíveis
despedaçadas epidermes sofrem o peso
sufocante da escolha e da vida afora
correndo diante do vazio que agora

enegrecido pelas formas invisíveis
pedem um pouco de mim onde mim
mesmo estaria desperto a acordar
sem saber que o frio não corta
nem o fogo queima só o vazio silencioso
que marca o espaço, definha o sonho e
destrói a última gota de lembraça
ficando o resto, ainda, a contemplar
as sobras do tempo e da consciência
com a cara na lama, os pés na merda
a cabeça pendida ainda pedindo
e ainda mandando um recado à felicidade
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Conto: Ainda que dure a esperança!
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COMPRIMIDOS

A sacola comprimia meu peito. Estava cheia e pesada e por isso ficava a balançar, passando de banco em banco, olhando de soslaio a moça que estava atrás. Fazia um barulho infernal, um barulho de martelos e pregos. Os pregos comprimiam meu peito, por dentro. O sapato preto, respingado de lama falava do dia anterior, falava em preto e branco. Ainda lembro quando ganhei estes sapatos. Décadas talvez, tempos diferentes. Mulher e netos. Sentia-os nos pés mostrando-me lembranças fulgazes de mato, lama e crime. O sapato comprimia meus pés, acordavam meu inconsciente. Os sapatos estavam vivos em meus pés mortos. De longe olhei aqueles sapatos sujos de viagem: seria um trabalhador? Seria um ambulante, um andarilho? Bem, viajava. Ansiava por isso desde a infância. O dia em que iria sair de casa, destruir as últimas réstias de lembrança daquele lugar. Os murros, as lágrimas, os gritos. Já não agüentava ficar sentada, nem quieta. Já escutava aquela voz imperiosa a pedir, a ordenar, a mandar que fizesse alguma coisa. Mas eu nunca havia pedido favor algum para ninguém, porque tinha que fazê-los a todos?. Bem, pensar não é libertar-se. Pensar é amargurar-se. Os cabelos longos tocavam minhas costas. Tinha-os pintado. Ainda restava em mim algo de beleza, mesmo que ninguém falasse. Tocavam e pensava o que queriam? Mas. O que queriam todos ali? Uma mulher de cabelos longos, negros e com ar cansado. Perguntei-lhe: falta muito para chegar? Não respondeu, nem olhou. Devia estar cansada de responder aquela pergunta. Devia estar cansada de alguma coisa. Um velho segurava uma sacola. Como pesava aquela sacola. Como ele se agarrava a aquela sacola, de modo tão forte e tão intenso, que ela parecia que iria escorrer das suas mãos. As mãos tremiam e comprimiam a sacola contra o peito. Se todos aqueles soubessem o que me fazia bem e mal. Se todos aqueles soubessem o que tomo para escapar da dor. Já não via mais nada além da luz depois da curva. Todos viam aquela luz intensa, um farol em sentido contrário ou anjos?
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CONCEITOS CAPILARES DA TEORIA LITERÁRIA
Prof. Ms. Rômulo Giácome O Fernandes

1. A literatura está no rol das artes, e por ser antes e tudo expressão artística, ela não tem contato ou obrigatoriedade de o ter com a verdade ou até mesmo com a mentira. A arte possui apenas uma verossemelhança, ou seja, possui uma ligação estrutural ou dialética com a realidade, visto que ela imita (mimese) ou recria esta suposta realidade.

2. Por estar consolidada como arte, possui uma perenidade temporal inatingível; é sempre universal, uma espécie de novidade que permanece sempre novidade. A resposta para este poder universalizante está em alguns fatores, como: a) a literatura não fala de coisas, ou de elementos datados; ela fala por categorias: dores, dialéticas que sempre existiram em qualquer tempo ou espaço. b) é feita de linguagem e portanto é um jogo que pode sofrer mudanças nas regras e possibilitar novos sentidos em qualquer época, visto ser de código aberto (sistema modalizante secundário). f) Possui face metalingüística: está sempre falando dela mesma (em uma observação profunda) e está sempre discutindo a arte pelo simples fato de o ser.

3. A Arte evita funções definidas; mudam-se as teorias, os códigos políticos e humanos, mas a arte está sempre situada naquele espaço exigido pelo lúdico, pela fantasia, pela necessidade de algo mais que a cultura pode oferecer além das necessidades biológicas e afetivas. Ela é o supérfluo necessário da cultura humana.

4. A literatura é antes de tudo linguagem conotativa; um conjunto de códigos que juntos em organização estética tornam-se pulsares de novos sentidos e sensações. Esta linguagem opera no campo conotativo da interpretação. Portanto ela é passiva a criação de novos códigos inventivos, a novas definições e a possibilidade de alimentar enigmas de sentido. Para reforçar, o campo conotativo é o hemisfério dos múltiplos sentidos, além dos sentidos atribuídos categoricamente pela denotação.

5. Modulação: justamente o processo pelo qual o signo multiplica suas possibilidades, saindo dos graus primeiros da escritura, perpassando ao abstrato. Em outras palavras, evoluir o signo até o máximo grau possível de significado: do grau zero da escritura, onde, utilizando um exemplo simples, o lexema “prego” temos que no denotativo prego é prego de pregar, até a possibilidade do prego ser alguém muito idiota (ambigüidade) grau 1; subindo até o prego da cruz (grau 2), e o que representa nela (misericórdia) grau 3; Notem que esta evolução propicia ao texto ter polissemia, pois admite uma variedade maior de possibilidades interpretativas

6. polissemia: é a virtude lingüística que o texto possui de admitir variadas leituras, possibilitando ao signo agregar um maior número possível de significados mediante diversos contextos de significação; ora, cabe aqui lembrar que uma das grandes “operações” semióticas da literatura é a polissemia, visto que um poema não busca uma mensagem específica; na realidade as grandes obras habitam o céu do espaço cultural como estrelas que propiciam dezenas de leituras a quem as quer utilizar;

7. Interpretação e compreensão: Quando encaramos a interpretação como a operação de recepção e assimilação de conteúdos que podem ser descartados ou não, acrescentados ou não, segundo nossa idiossincrasia (nossa subjetividade) percebemos que diante de um poema que se apresenta carregado de sentidos até o máximo grau possível (POUND) a única alternativa possível é a interpretação; a compreensão total de um enunciado literário parte da crença de que um poema possui apenas um sentido e que este pode ser apreendido na íntegra; devemos evitar a compreensão do texto literário, naquilo que o termo tem de limitador das possibilidades de sentido.

8. Em literatura, o autor mesmo que esteja vivo, deve estar morto; não devemos nos preocupar com o autor; o sentimento proposto no momento inicial da enunciação já não é o mesmo no resultado final da leitura, uma vez que se está a séculos do momento do autor, o ímpeto autoral já não tem mais sentido. A única ambição do verdadeiro autor é a expressão; a representação de sensações que possam ser reproduzidas pelo leitor; ou senão criadas a partir de uma sugestão dos signos. Vejamos o que diz Fernando Pessoa a Carlos Drummond de Andrade: O poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente. (FP) Dizem que finjo ou minto / tudo que escrevo. Não. / Eu simplesmente sinto / com a imaginação / não uso o coração / Sentir? Sinta quem lê! (FP). Tua gota de bile tua cara de gozo. Isto ainda não é literatura. Tua infância (...) deixes tua cidade em paz. (CD).

9. A linguagem literária é um código por sobre um outro código ainda, assim sucessivamente. Este caráter modular da linguagem poética permite fazer referências onde ninguém faz por achar impossível. A literatura admite o que aparentemente é impossível pois para ela aquilo é apenas um recurso de expressão. “Ler poesia para mim é desaprender”. (Manoel de Barros). O fato da linguagem por sobre a linguagem; a forma sobre o conteúdo e logo depois o conteúdo passa a ser forma de um novo conteúdo são camadas já previstas por poetas como Fernando Pessoa. Ex: AUTOPSICOGRAFIA; ISTO. A dor sentida pelo poeta, a dor fingida, a dor lida (expressa) a dor do leitor e a dor não tida a dor do devir. O que falha ou finda em Pessoa é um terraço por sobre outra coisa ainda. Notem que ele afirma que esta coisa ainda é que é linda; o conteúdo por sobre a forma que já era um conteúdo por sobre outra forma, em uma relação intensa de imagem por sobre imagem, conceito por sobre conceitos.
10. A natureza da verdade e da imagem poética está na contradição; poesia é contradição; dialética com a realidade (os ombros suportam o mundo / e este pesa menos que a mão de uma criança, Carlos Drummond); ruptura com seu tempo através da novidade; perversão semântica (a cigana analfabeta / lendo a mão de Paulo Freire); desconstrução da imagem; (pingos de vc mancham a minha camisa branca, Rômulo Giacome)

11. O todo literário é formado pela junção de forma e conteúdo; a forma é o suporte material, o significante; aquilo que é organizado de forma sistemática com a intenção de atingir sentidos no leitor pressuposto; o conteúdo foi o resultado atingido pela forma e com ela (o significado); os sentidos, as suposições, os pensamentos, os sentimentos resultantes do processo; è bom frisar que as imagens constituídas na mente do leitor ainda são formas; “o campo de futebol com um elefante rosa”;

12. Literatura é pensar por imagens; não existe um poema sem a realização imagética;

13. Literatura como música e ritmo; o primeiro passo para evocar o sentido de um poema é lendo-o em voz alta; dessa forma vc percebe sua musicalidade (melodia e sonoridade) através da entonação e dos recursos como aliteração (predominância de sons consonantais), assonâncias (predominância de sons vocálicos) bem como silepses (sons de s, f e z); O ritmo é importante pois demarca onde o texto que acentuar;

14. Captamos o sentido do poema pelo visual, sonoro e conceitual; até chegarmos no sentido do poema devemos realizar sua parte material; suas imagens e seus sons, chegando até seu conteúdo; Ezra Pound chama essas faces de Melopéia (sons), fanopéia (imagens) e logopéia (conceitos);

15. Função Poética é a projeção de equivalência entre o eixo de seleção e o eixo de combinação; (Roman Jakobsom); é quando o poeta consegue cruzar forma e conteúdo de modo perfeito; a palavra “sais” Possui uma equivalência entre o seu som (sibilantes que lembram o sal) com o seu sentido denotativo.

16. Literariedade. É a característica essencial para que possamos afirmar que um texto é ou não literário; a literatura é uma eterna problematização; sempre estamos perguntando o que é literatura, como é a linguagem literária; para obter respostas devemos estabelecer critérios dentro da própria obra, do seu caráter inerente, da sua composição intrínseca (dentro do texto) mais do que extrínseca (fora do texto);

Aqui vão mais alguns conceitos importantes a serem eternamente lembrados:

- A linguagem literária está centrada sobre um impacto constante, uma mudança de valores, um trabalho sobre o código em que opera;
- O caráter paradoxal da linguagem literária é proveniente de seu caráter tensivo (oposições)
- "interpretar é escolher um percurso de leitura"
- "interpretar é substituir o signo por seu possível substituto"
- "a linguagem literária parte de pressuposições" (o signo pressuposto)
- "a linguagem literária é sofisticada porque admite o polissêmico com estilo"

- Aproveitem a obra poética como quem recebe um segredo;
a leitura de um poema é um ritual, assim como é qualquer recepção de arte;
um ritual que coloca a linguagem como grande portadora de sentidos;
um ritual que propõem na linguagem respostas às inacreditáveis dores do mundo; um ritual que procura descortinar os mistérios da obra;
um ritual que procura evoluir, desenvolver as imagens, os sons, as texturas;

segunda-feira, março 13, 2006

TÉCNICAS SEMIÓTICAS APLICADAS À VANGUARDA

Olá a todos;
Esta postagem procurará apresentar algumas incursões no universo da linguagem estética pelo viéis da semiótica Francesa. Abaixo também vocês encontraram os Links importantes para as disciplinas.

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Três momentos marcantes na arte pictórica determinam a nova visão do signo que insuflou no século XIX. O primeiro momento é o Impressionismo, que já comporta a (des) unidade do legi-signo, ou seja, já apresenta a quebra de certas consolidações legitimadas pela hierarquia artísticas. Como exemplo podemos apresentar o figurativo, o traço, a norma, o tipo de luminosidade claustrofóbica que permeava a unidade. O impressionismo tem seu momento histórico marcado pela exposição de telas em 17 de abril de 1874. O movimento já destituía o signo de suas marcas individuais, para projetá-lo no âmbito de novos contextos de arranjo, como ao ar livre, ao contato das múltiplas formas de luz que decompunham sua performance realista. Este acelerar do processo de "fragmentação", culmina em um ato de agregar qualis, criando uma arte anti-iconográfica mas marcada por sensações (primeiridade). Vejam como a presença do "externo" e a nuance como exemplo de toque com a impressão são fortes marcas dessa vanguarda.

Abaixo a obra considerada marco histórico:
"Impression soleil levant - Claude Monet"


Culminando em mais uma etapa no processo de disformização do signo visual, percebemos que as estruturas sagradas ao ato de imitar (mimese)
perdem sua idealização central. O que ocorre é que o determinismo que figurava no signo da pintura em estar indicando seu objeto dinâmico e imediato (Peirce) não existe mais. A arte abstrata, que teve como precursores Kandinsk e Piet Mondrian, deixa de estabelecer uma relação direta de signo com objeto. Temos um cavaleiro sem cabeça - signo sem objeto - e como tal temos o processo de estranhamento em grau profundo.

"Cores - Piet Mondrian"


Por último, como em um processo de "abandono" das causas naturais que amarravam a órbita do signo ao seu objeto (referente) temos o "caso" Pop-Art. A referencialidade volta a ser mola, mas vincula-se a um contexto de desautomatização do interpretante, que de tal modo projeta sentidos dado o cenário indiciado. Em outras palavras, a situação do signo dentro de seu cenário de elocução demarca a produção de "símiles" e "análogos". Desde que Duchamp optou pelo Vaso Sanitário no museu, pela roda de bicicleta, a estética passou a ser amparada pelo meta-discurso, sendo ela mesma a re-tradução da sua própria prática. Em moldes acadêmicos, teríamos a necessidade da arte - bula, do contraponto, da explicação do sentido no desarranjo do código. É o caso da obra abaixo, que figura como
uma das primeiras telas Pop-Art.

"O que torna os lares de hoje diferentes? - Hamilton"


Concluo que entender os processos de composição e organização da malha representativa que a vangurda faz uso, é compreender a arte por aquilo que ela tem de singular: sua linguagem. Contemporaneidade é um caráter, e não uma data. Ninguém consegue encontrar algo tão contemporâneo quanto Mallarmé, Pound, James Joyce; modernos que foram escritos no final e início do século.

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UMA BREVE ANÁLISE DE “MAGNÓLIA”

Tecerei antes algumas considerações. A semiótica encara o discurso como um arranjo; uma organização sígnica sistematizada, onde cada peça possui uma funcionalidade, ou até mesmo uma representação ontológica de si mesma ou de outra coisa. Uma palavra cara ao método semiótico é “representação”, que pode ser dedutivamente rotulado como “papel” de determinado sinal, marca, índice, representando aquilo que é para ser representado ou abrindo formas de representar aquilo que se queira. A arte possui características peculiares em sua tessitura pois trabalha sobre algumas assertivas básicas. Digamos que em busca de uma eficácia, ela re-arranja suas moléculas em busca de “estratégias” discursivas.Vejamos algumas marcas essenciais do discurso artístico:

O signo não é utilizado apenas por seu poder de “representar” ou “indicar” um possível objeto; como se ele estivesse sempre em busca de “mostrar” e/ou “indicar” seu referente; o signo está colocado por aspectos próprios de sua materialidade ou natureza. Seja a beleza de suas silepses, o próprio ato da sonoridade advinda da leitura, ou a beleza da imagem que ele mesmo conduz. Ele pode, simplesmente, estar querendo mostrar-se, apresentar sua face material, sua cor, sua imagem, sua textura.

O signo também pode fazer referência ao real, ao denotado. Mas a arte procura utilizar o signo por sobre outro, outro e mais outro, alicerçando a possibilidade de escolha de qual amparo (interpretante) o leitor irá corresponder. A possibilidade de escolher o que o signo indica, o que ele representa, é marca positiva no discurso semiótico / artístico. O caminhar do signo por sobre seus próprios semelhantes, sem recorrer ao real ou ao cartesiano, deixando-se substituir não por um objeto, mas por outro representante, em uma cadeia chamada semiose, é imperativo a diagnosticar a possibilidade do leitor perante a escritura.

Quando o signo não estabelece referência com a cultura ou com seu sistema ele é ontológica. Está nele a resposta através de seu paradigma semântico / cultural. O avanço dos estudos de Iuri Lotman para a área da semiótica se deu no relacionamento inter-mediático entre cultura e avanço semântico, como em progressões modulares de sentidos. Buscar semas para alavancar um processo de interpretação semiótica passa pelo lastro de buscar na cultura mediadores de saber, graus de informação pré-concebidos mediante uma concatenação de informações geridas por um fio condutor “dominante”.

Pensar a linguagem humana como uma ferramenta de diálogo com o mundo, é também pensar em processos de representação complexos, que estão propostos desde o instante da comunicação verbal, até o fluxo do sonho, aos símbolos sociais e idiossincráticos.

No filme Magnólia, o terceiro longa de Paul Thomas Anderson (28 anos), o que vemos é a provocação da capacidade semi / ótica de perceber a construção em seus fragmentos, em porções que concentram poder comunicativo e que se unem em um corpo maior. Nas próximas linhas analisaremos semioticamente este grande filme. O método utilizado será o recorte de micro-narrativas oportunas à técnica, amparada na determinação das tensões, elementos fóricos / disfóricos e marcas de semiose.

1. A tessitura do filme avança rumo ao fragmento. A pequenos núcleos de ação que cabalam uma mesma estrutura tensiva entre um actante (Greimas) que está consumado pelo ódio de uma traição passada com outro actante que procura o perdão para morrer em paz. A morte age nestas micro-estruturas como diluidoras do orgulho, que homens potencialmente poderosos possuem na esfera da aparência social. Em dois núcleos distintos temos dois idosos (um apresentador famoso de televisão, e outro proprietário de uma produtora, coincidentemente a produtora que produz os programas do primeiro) que em situação de morte procuram o perdão dos filhos: uma moça viciada que se auto-exila e um jovem professor (Tom Cruise) que lança e divulga um livro “seduza e destrua”. As marcas identificatórias do movimento tensivo que demarcam o eixo do ódio e do perdão se manifestam nos encontros e desencontros de um presente que ainda dialoga com o passado. Ambos sofreram as traições dos pais. Por outro lado, um outro núcleo dramático apresenta o diálogo de opressão e ambição sofridos por uma criança pelo pai, ambicioso e ausente, que procura no filho um motivo para enriquecer as custas de um programa de respostas, onde crianças desafiam adultos. Nos fragmentos nucleares, que aparecem costurados por tomadas bruscas de câmara, delineiam um enredo maior, uma costura que está amarrada tanto pela “representação”, “referencialização”, quanto pelos temas modulares que irrompem na órbita do macro-discurso. Em suma, podemos perceber a presença de micro-discursos, que giram em uma órbita simétrica em relação a temas e representações. Esta marca pós-moderna de narrativa praticamente incita a ver o conceito do individual talhado não no específico limitador, mas no micro-cosmos que é a vida humana. Pegadas, marcas, detalhes que fogem à lupa do Universal.
2. O que liga estas micro-narrativas? Poderíamos afirmar que a costura efetuada nestas micro-narrativas para com a macro-narrativa é efetuada em dois campos distintos mas confluentes: a representação e a temática. Do ponto de vista da representação percebe-se pequenos “eventos” na teia narrativa que demarcam uma unidade: ambos os núcleos dramáticos assistem ao mesmo programa (aquele, onde a criança pressionada pelo pai procura responder tudo para sair vencedora). A rua onde por alguns momentos os veículos de alguns personagens se encontram (Rua Magnólia). A chuva de sapos que abarca a todos. Todos cantam uma canção, em um momento lírico da obra. O relacionamento de referências actanciais entre diálogos (o não-querer perdoar / o querer ser perdoado). Um homem (núcleo não descrito) que em décadas anteriores havia sido campeão do mesmo programa que agora leva a criança à competir, que vive um amor platônico por um garçom de bar. Este homem, frustrado e empobrecido pela vida, dialoga com a criança como uma espécie de projeção-exemplo, daquilo que a manipulação ambiciosa dos pais provoca nos filhos. Do ponto de vista dos temas, as identidades fóricas que edificam as relações tensivas determinam semioticamente uma seqüência actancial que pode ser modelada da seguinte forma: um fazer errado (abuso sexual, abandono, egoísmo, pressão); um não-fazer-parecer (não ligar, não procurar, não estabelecer), um não poder-fazer (receber o perdão, dar o perdão pelas marcas do passado). Usando o quadrado semiótico percebemos que mais do que erros do passado, o que o filme preconiza são os erros do presente. Marcas como arrependimento, busca pelo perdão estão cerceadas pelo passado que demarca um não-perdoar, um não-aceitar. Diacronicamente, elementos do passado tentam se repetir no presente. O filho (do programa), pressionado pelo pai, (futuro sujeito a pedir perdão), é alertado pelo filho, que em dado momento corta abruptamente o ciclo de erros e não aceita continuar no programa e ser pressionado pelo pai, bem como pede para este pai ser mais carinhoso com ele. A força com que erro, arrependimento e perdão modulam a película, deflagra a própria da força de novas identidades: a falta atenção; o egoísmo; a traição; e em grau profundo, o próprio arrependimento daquele que não quer perdoar o erro do passado, demarcado pela dor que alicerça o orgulho. Passado e presente chocam-se na mesma tessitura. O ciclo de erros deve acabar, e para isso esta referência é efetuada diretamente na órbita do filme.
3. Analiticamente, a composição de certos agentes sígnicos na esfera visual promovem um componente transcodificador, que permite a permuta entre códigos referenciais com códigos conotativos. A referência bíblica na alegoria sinestésica dos chuva de sapos. A presença do elemento incógnito, como um signo visual sem sustentação lógica. (a arma caindo junto com os sapos). Bem como discursos dentro de discursos. O Rap do garoto da periferia. Um outro dado semiótico interessante é evocado pelo agente sígnico representado pelo virtuema “conter a dor”, materializado nas drogas que irrompem no filme: elas deixam lastros de sentido, exaladas na performance do agente “lisérgico”; identificamos em cortes como a morfina para conter a dor do velho doente, que é tomada pela moça jovem arrependida das traições ao marido; o álcool bebido compulsivamente pelo velho apresentador do programa (também consumido pela esposa). A cocaína consumida pela moça que nega o perdão ao pai apresentador (que sofre de câncer).


Qualquer conclusão sobre este filme pode soar um clichê. Logo, uma determinante interessante é a doença corroendo o orgulho. Os erros do passado são marcas que grudam e não soltam mais. Mais difícil do que errar traindo e perdoar. O câncer é escolhido estrategicamente pelo seu processo lento, que possibilita a imersão na própria condição. O tempo latente de “morrer” e perceber a vida passando. Neste intervalo de tempo certas condições surgem. Certas marcas temporais devem ser diluídas na dor. Visto que o ciclo não pode continuar.

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Links:

Bem gente, não só de boa-vida e leituras paralelas vive um aluno mutante;
abaixo seguem alguns Links para leitura obrigatória.
VII período. (é preciso estabelecer com mais convicção o papel da semiótica na teoria e crítica literária; bem como perceber o contexto diacrônico da presença do Clássico e do Moderno).
Segue também Link para o famosíssimo poema "Um lance de Dados" de Mallarmé e um texto crítico sobre o referido poema

SEMIÓTICA E LITERATURA

UM LANCE DE DADOS

SOBRE CÂNONE CLÁSSICO E SEMIÓTICA

UM LANCE DE DARDOS - CRÍTICA

I período
Resenha da obra de Acízelo "Teoria da Literatura"

TEORIA DA LITERATURA - ACÍZELO

Um abração leproso a todos; boa leitura

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

O SHOW DO ANO PARA MIM FOI TELA QUENTE REPETIDA

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abaixo, shows do ano, charges do ano e alguma coisa mais.


No ano de 2005 o nosso grupo de pesquisa conseguiu produzir sete trabalhos monográficos no curso de Letras da UNESC. São pesquisas que iniciram-se ainda nos primeiros períodos e foram tomando forma e volume no andamento da graduação e marcaram a própria evolução do TEOLITÉRIAS. O nosso grupo leva em conta que quanto mais cedo a delimitação do tema surge, mais qualidade poderemos agregar à pesquisa. Uma outra forma de laurear nossas atividades é divulgá-las. Para isso apresento os temas das monografias que foram defendidas no ano acima citado.



da esquerda para direita:
DANIELY AYRES ABREU - PARTICULARIDADES SEMIÓTICAS NO SISTEMA DE COMUNICAÇÃO DOS INDIVÍDUOS COM SÍNDROME DE DOWN

LEANDRA HELOISA TURRINI - O FETICHE COMO PROCESSO DE COMUNICAÇÃO SEMIÓTICA NOS LAYOUTS DE PROPAGANDA DE LINGERIE

ANDRESS DANIELY AVILLA - A RELAÇÃO SEMIÓTICA DA PINTURA DE PORTINARI COM OS SIGNOS REALÍSTICOS DE EUCLIDES DA CUNHA.



ETHEL PANDOLFI ERMITA - ANÁLISE E DIAGNÓSTICO DO PROJETO FEDERAL LITERATURA EM MINHA CASA

SONIA KEPPE - MARCAS DE LINGUAGEM INFANTIL NA POÉTICA DE MÁRIO QUINTANA

GISELY STORCH SANTOS - O ENSINO DE LITERATURA NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO CEEJA EM ESPIGÃO DO OESTE.

SOLANGE DE SOUZA PEREIRA - UMA PERSPECTIVA LITERÁRIA SOBRE MANOEL DE BARROS: EM BUSCA DA LITERARIEDADE

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- Os shows do ano não passam despercebidos pela literatura e nem pela semiótica: o problema é que os shows do ano (para aqueles que embarcaram naquela baboseira do Fantástico e foram para plutão) estou dizendo de nada mais nada menos Roling Stones e U2. Qual a impressão que causa horas e horas de propaganda maciça em nossa cabeça falando dos tais shows? a frustração de assistir pela televisão, igual atração de palco e repartido em partes pela globo. Em suma, uma total sensação de normalidade, mesmice e com o sentimento: estão no RIO; e daí? poderiam estar em Congo que daria no mesmo. A televisão tem o grande poder de criar e ao mesmo tempo destruir. Criei por um momento a expectativa, mas logo depois percebi: ora, na televisão, DVD. Mas falando sério, o que é assistir um show sem conhecer mais do que três músicas de uma
banda? R: gostar de apenas três músicas do Show. Mas confesso que preferi um Stones anônimo ao U2 esquemático e sem situação concreta de atuação. Se os Stones precisaram vir ao Brasil e cantar para mais de 1,5 milhão de pessoas para que eu passasse a querer pesquisar mais sobre a banda (ignorância sobre os Stones de espaço privilegiado em minha cabeça)eles fizeram. Em "Miss You", "Symphony for the devil" achei um stones atual e com apresentação marcante. Mesmo que atolados até a cintura em trejeitos, assimilei bem seus "composer set". Confesso, gostei e me diverti à beça, mesmo que na minha cabeça estivesse sempre esperando o riff inicial de "satisfaction". Bem pessoal, sou Pop até a veia. Quanto ao U2, renego minhas mais saudosas linhas ao encargo de consciência. U2 não faz show. Promove um evento iconoclasta, seja nas simbologias, nos atos, nos discursos. Bono não canta. Bono procura marcar o processo por uma espécie de conivência, de cumplicidade como quem diz: vcs sabem bem o que estou "querendo" dizer. Mas, "sorry". Lamentavelmente, o show de segunda não foi lá exatamente aquilo que poderíamos dizer de uma Tela Quente inédita. Faltou voz. Faltou a eterna e incomensurável interação sincrética da persuasão. Pelo menos não faltou o U2. Para quem sempre espera "Bad", "News Days" contagiar a todos como um câncer, foi o espetáculo que quase foi.


>>>>>vc ficaria entre quais opções que renovam o universo???
se algum tivesse que ser apagado do mapa, quem vcs escolheriam para ficar????
(brincadeirinha literária/cultural)

Drummond ou Cabral?
Castro Alves ou Álvares de Azevedo?
Reginaldo Rossi ou Odair José?
Mallarmé ou Pound?
Camões ou Fernando Pessoa?
Elvis ou os Beatles?
Bil Gates ou Steve Jobs?
A música Country ou a Sertaneja?
24 horas ou Lost?
Ocidente ou Islã??????
Socialismo ou Capitalismo?
modernidade ou pós-modernidade?
controle de metas de inflação ou intervencionismo populista??
hahahah

>>>
Vcs acham que os muçulmanos agiram errado ao inflamarem-se contra as charges?
Vcs acham que devemos respeitar mais a liberdade de expressão ou os ritos e mitos religiosos?
Vcs acham que a liberdade de expressão é uma religião?
Bem, para apimentar sua opinião vejam os seguintes fatos::
(Veja, 15 de fevereiro de 2006)- Entrevista à Tariq Ramadan, filósofo muçulmano.
(Veja) As charges de Maomé deveriam ser publicadas?
(Tariq) Do ponto de vista legal, sim. No contexto de nossas sociedades cada dia mais pluralistas, com diferentes sensibilidades, eu diria que não é sábio publicá-las. Liberdade de expressão exige responsabilidade. (...) na Europa, os Jornais não ferem a sensibilidade dos Judeus. Por que?
(Veja)O mundo seria melhor se os conflitos entre povos e nações fossem resolvidos por meio de guerras de caricaturas?
(Tariq) Caricaturas e humor dependem da realidade de cada um. Certas coisas são universalmentes engraçadas, outras não. Devemos ter cuidado com aquilo que achamos graça.
(Veja) Estamos vivendo um confronto de civilizações?
(Tariq) Não, o que estamos presenciando são confrontos dentro de cada civilização.

Bem, esta entrevista para mim deixou clara uma coisa. A Fé é sempre mais afiada e intensa do que a razão. Pensem por vcs neste caso.
Baixei o final desta etapa da série Lost. Segunda publicarei o final dela.hahahahah
Lixo.(vcs vão ver, por detrás vai aparecer alguma pseudo-teoria psíquica-mórfica-antro-polissêmica que vai embasbacar a todos). hahahahaha

Abraço a todos..

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

VIAGEM BRASÍLIA-DF (JANEIRO/2005) - MEMORIAL JK: MEMÓRIA DE UM PRESIDENTE POP

Viagem realizada em 2005, de Cacoal-RO ao Distrito Federal, conhecendo elementos históricos e culturais, bem como políticos de nossa Capital Federal. Neste texto demarco o impacto que tive ao visitar o Memorial JK e entender um pouco da história da nossa nação. 

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

PÓS-MODERNIDADE E ALGUNS PRESSUPOSTOS

Olá a todos; já estava ansioso para voltar a escrever aqui; minhas férias foram aquelas que podem realmente serem chamadas de "relaxante",visto que, com fervor religioso, não fiz absolutamente NADA. Bem, este é o primeiro post de 2006 e merece algo mais; então o farei um pouco mais amplo; abraços e um beijo no coração de todos os amantes das letras!!
Quero direcionar o Post desta semana aos acadêmicos que ingressaram no curso de Letras, à turma que conheci esta semana: espero que todos vcs "penetrem surdamente no reino das palavras" e percebam o poder das mesmas em vossas vidas. Sucesso à todos e bem vindos ao melhor curso do mundo!!!! (sem bairrismos, hehehe) Também quero desejar boas vindas ao nosso novo coordenador, professor Jorge Luís Freitas Lima. Um grande abraço.

GARIMPANDO O MAR DE IDÉIAS
abaixo selecionei algumas citações para o momento;

"Não há espaço para uma boa criação que não seja demasiadamente pequeno;
grande deve ser a percepção da grandeza"
Rômulo Giacome

"Nomear um objeto é suprimir três quartos do prazer do poema, que é feito de advinhar pouco a pouco: sugerir, eis o sonho"
Mallarmé

Mesmo calada a boca, resta o peito
silêncio na cidade não se escuta
de que me vale ser filho da santa
melhor seria ser filho da outra

"Meu sangue entrou em sua veia e se perdeu"
Chico Buarque

Isso é ser flor, e anjo juntamente
ser Angélica flor, e Anjo florente
Gregório de Matos

"Uma obra de arte consiste em nos ensinar sempre que não havíamos visto o que vemos"
Paul Valéry

"O que em mim sente está pensando"
Fernando Pessoa


série "LOST" (Globo)

Alguém vem acompanhando aquela série LOST?
bem, até o presente momento achei que ela não mostrou
a que veio; as cenas são muito longas para um estilo
dinâmico; os enigmas também são planos distantes, sem
muitas marcas de sentido ou indícios; e o que tudo leva
a crer, é que os mistérios terão nunces de realismo
psicológico. Bem, esperemos para ver, pois até agora
está bem neutra.

série 24 horas (Globo)
Em sentido contrário navegou a série "24 horas". É impressionante
como ela prende a atenção, mesmo em absurdos inverossímeis como
zoom de milhões em placas de carro e a maravilhosa rede de
câmeras cobrindo os EUA todinho. Tirando isso, sua montagem
é muito boa, bem editada e com um roteiro amarrado realmente.
Gostei.É maravilhoso perceber que a cultura pop não apenas sobrevive
do negar a si mesma. Bem, isso mesmo. Muitos artistas e produções procuram no psicológico, no fantástico ou espiritual, motivos para
ser cult. Mesmo sabendo que é pop, será divulgado e milhões verão.
Sou daqueles que permite o Pop sobrevier, desde que ele saiba das
suas dimensões, que na minha opinião são 99% de tudo que vemos de
arte por aí. Ou vcs acham que Mozart ou Sex Pistols não são pop?
Não sejamos ingênuos. Não existe mal nenhum em vender. Existe mal
em porcarias.

LANÇAMENTOS (DISCOS)
Mudando de assunto. A banda contagiantemente moderna e esplendorosamente paradigma dos novos horizontes do Rock mundial lançaram seu novo CD, o terceiro. "Firts Impressions of Heart" já toca em minha radiola home à algumas semanas (heheh, Hó santo e-mule). Quem ainda não conhece The Strokes está perdendo duas grandes oportunidades: a primeira de curtir um
bom Rock and Roll, com muitas referências aos cenários Punk jurássicos (que valiam a pena), bem como muita intervenção Velvetiana. O segundo motivo é ficar antenado no que está acontecendo com o Rock nos últimos 6 anos. Na minha humilde percepção musical os Strokes vieram
forte e intenso. Não é fácil abandonar uma postura pós-punk que construiu e edificou todo o novo movimento pós 2000 sem um pouco de
cicatrizes e dores. Mas fizeram isso muito bem. Os solos estão mais trabalhados, a velocidade diminuiu mas ganhou-se em melodias. Tirado o peso dos 360 graus sofridos, considero um disco comprável (ou baixável).

POESIA
Estaremos completando, neste ano, os cento e dez anos da publicação do poema "Um lance de dados" de Mallarmé, texto que inaugura tudo o que de mais moderno foi engendrado para a poesia no finalzinho do século XIX. Este poema apresenta os primeiros momentos da destituição monárquica do verso em nossas letras, para evocar o que viria a ser a pedra de toque do objetivismo de Pound e concretismo brasileiro. Ora, festa para um único poema? não é qualquer poema que merece tal honraria. Ele abre a noção de leitor indignado com o finito, talhado pelo discurso de conteúdo, e prioriza o acaso como mola essencial. As leis do acaso são íntegras em apresentar o maior número possível de leituras, infinitesimais. Abaixo segue o endereço para acessar este poema tão especial.

http://www.eca.usp.br/alunos/posgrad/denise/poema.htm

POVO DO 5º PERÍODO
Bem, estamos iniciando mais um trabalho e nada melhor do que fazer aquilo que se gosta. Eis o ponto efervecente de se trabalhar SIMBOLISMO
nesta turma tão empenhada e ávida pelos conhecimentos literários. Um dos grandes autores simbolistas, Pedro Kilkerry, ficou despercebido pela crítica histórica (Muricy, Sílvio Romero, José Veríssimo) e teve que ser re-lido e re-avaliado pelos irmãos Campos, em um trabalho quase arqueológico de recomposição textual e memorialista. Seguem uma lista de endereços que serão importantes para um conhecimento prévio sobre este grandioso poeta Baiano. (Os textos possuem natureza científica de "divulgação" e são abertos, mas dão um pouco da real perspectiva de Pedro Kilkerry). Aproveitem.

www.revista.agulha.nom.br/pk.html

www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia/ poesia/index.cfm?fuseaction=Detalhe&CD_Verbete=620

www.mauxhomepage.com/desenterrandoversos/ desenterrandoversos/pedrokilkerry.htm

ENSAIO

Em breves linhas, este pequeno ensaio demarca o primeiro momento em que foi utilizado o termo "pós-modernidade" seguindo sua rota teórica pelos caminhos da arte, conduzindo-nos a refletir sobre a condição cultural atual e seus meandros socioais, filosóficos e estéticos.
Boa leitura.

O PÓS-MODERNO EM UMA VISÃO ESTÉTICA
Por Rômulo Giácome de Oliveira Fernandes


O primeiro a falar em “pós-modernismo” foi Perry Anderson, que cunhou o termo após tê-lo ouvido de um autor hispânico chamado Frederico de Onís, na ocasião ele o utilizou para alicerçar um pensamento conservador dentro do próprio modernismo. Perry Anderson escreveu "As Origens da Pós-Modernidade" (Ed. Jorge Zahar, 1999), figurando como um grande pesquisador das questões culturais e sociais da atualidade, sendo que a primeira (cultura) nos afeta diretamente, partindo para o viés de análise deste pequeno ensaio.
Antecipadamente, não podemos deixar de ressaltar que esta discussão está engendrada sobre duas condições básicas: a constituição de uma sociedade e seus meios de produção e cultura, e por outro lado, a consciência histórica enquanto agente ou paciente dos processos de reconhecimento e representação.
No primeiro âmbito, Fredric Jamesom "Pós-Modernismo - A Lógica Cultural do Capitalismo Tardio" (ed. Ática, 1991) aborda de maneira sistemática e crítica os mecanismos de apropriação da consciência cultural através de uma indústria cada vez mais sofisticada de bens de consumo. Alguns mecanismos de inserção de uma vivência cultural destinada a suprir necessidades são frutos do fetiche pela imagem, uma espécie de reação ao novo capital, o capital devir, aquele que é nutrido pela ausência de repressão e imersão completa na própria vivência.
Em outras palavras, a sociedade corrompida pelas próprias necessidades de consumo, busca na produção modernizada, um tempo de informação, como se pudéssemos estabelecer um diálogo exterior com nossa própria consciência. Ao meu ver, esta bridge que procura unir um vácuo de existência com a possibilidade do ter e do poder, também é criticada por toda a epistemologia da pós-modernidade. O que parece é que todos os críticos ao pós-moderno vêem em Jamesom mais um forte candidato à cadeira marxista do que um crítico literário revolucionário e contemporâneo. Jamesom não é reacionário. Ele encara os modos de produção cibernéticos como suportes ao ir e vir de novas informações produtivas, de novos saberes eficazes e humanos e o enriquecimento da humanidade através das novas habilidades e tecnologias. A partir desta interpretação do pensamento de Jamesom frente ao cinema, música e pintura consideradas de ruptura, vemos que seu marxismo já é tangenciado por laivos de abstração.
O contexto artístico pós-moderno parte de que uma nova ordem social está em voga. A força bestial com que a tão famigerada “Indústria Cultural” (Adorno) toca a ordem de produção de arte é fruto de uma adoção do discurso produtivo como se fosse sua, a adoção do discurso de outrem como legítimo (ideológico). A arte passa por um processo de tentativa de legitimação, busca por uma saída de alteridade. Acredito que nada possa residir tão pernicioso nas atuais estruturas que não sobressaia momentos de ruptura importantes ao desenvolvimento social. Jean François Lyotard que escreveu em 1979 o livro "A Condição Pós Moderna", procurou de maneira epistemológica e estética, traçar uma ordem discursiva para a pós-modernidade. Desta obra podemos extrair, dos inúmeros postulados, um que me parece salutar para a ocasião: a legitimidade do discurso. Na pós-modernidade a necessidade do discurso crítico para fruição da arte é inegável. A obra de arte passou a estar centrada dentro de um discurso estético que a sustenta e a suporta enquanto veiculadora de idéias e informações. Na literatura esta nova postura foi deflagrada por Ezra Pound e James Joyce (Ulisses), ambas obras de fragmentação e atadas a evolução do estudo da linguagem. (Semiótica e Lingüística). Os próprios russos já pretendiam uma nova estética literária, atada aos valores: fragmento, alusão, imagem, discurso e signo (Mayakovski, Andrei Biéli entre outros). Aqui no Brasil, a nova ordem aferida nos oitocentos por Mallarmé foi devidamente re-trabalhada pelos irmãos Campos e Décio Pignatary na poesia concreta. Contudo, a legitimação da arte pelo discurso, e aqui entraria a crítica marxista contra os excessos do mesmo, também estariam previstas em lastros de realidade itinerante e poderosa. Ao contrário do que muitos pensam, a literatura pós-moderna é um contato com o real. Marcas como o cotidiano, o romance urbano, a crônica, a sátira e toda a produção Beatnik e Regionalista estão amarradas a uma noção de verossímil crítico. Por outro lado, a geração de 22 abriu às portas da produção popular regional, em uma ampla pesquisa estética, que no arcabouço da intelectualidade brasileira, deflagrou na literatura pós-moderna como ganchos de ruptura. É irônico termos rupturas na pós-modernidade com a literatura popular, tendo em vista que muitos críticos a vêem como redutora e limitadora desta produção. Com o advento das novas tecnologias discursivas, na geração pós-guerra, tivemos a revitalização de autores como Patativa do Assaré, Pedro Kilkerry e a Lama e Caos do manguebeat. Ora, convenhamos que identificar sintomas de fragmentação na arte pós-moderna como defeito, é esquecer as cicatrizes deixadas pela arte Iluminista e Romântica, elitista e altruísta. O Pós-moderno literário possui um projeto, e este projeto tem marcas profundas na adequação social dos meios de produção de massa e domínio das novas tecnologias. Nunca foi tão possível acessar a informação, e nunca foi tão possível preconizar uma “epistemologia da Internet”. Os Happening e os Madefake, arte multimídia e textos de qualidade estão sendo produzidos em volumes exponencial, e somente através de novos mecanismo de produção e absorção de arte teríamos como escapar do mercado editorial. Fugir dos domínios editoriais, bem como nossos românticos fugiram da Editora da Monarquia, é uma nova forma de encarar os modos de produção.
A constatação sociológica de uma sociedade dês-moldada e renitente de contradições, é o júbilo e regozijo da arte. Banhando-se freneticamente nestas disjunções inerentes ao ser, poder, ter e parecer, a literatura vai concretizar seu projeto de re-estilização projetiva da sociedade através da nova narrativa e da nova consciência histórica de descontínuos. Aqui entra o segundo item mencionado acima, uma construção de historicidade através da representação. Em uma época de meandros de projeções e devir assentado na reprodução em escala potencial, um mundo de representações artísticas possuem mais força e poder do que em décadas anteriores. Do tecnicismo concreto ao tecnicismo subjetivo, ganha o último como saber estético. Esta crise de representação é bem articulada por Siscar, em seu artigo Figuras do Presente:

Neste fechamento do presente sobre
si mesmo, já não de trata dizer que a vida imita a
arte, pois a crença na presença pura pretende exceder
virtualmente, fantasmaticamente, a própria
representação do real (1999: p50)


Esta figurativização do representamem como identidade do pós-moderno literário, tem no simulacro uma identificação tênue com a linha traçada por Derrida quando ele afirma que “nada existe fora do texto”. A arte sempre procurou categorias de existência antagônicas à sua condição de linguagem ficcional. Encontrou forte apoio existencial no simulacro de Baudrillard. “É sempre uma questão de provar o real através do imaginário, de provar a verdade pelo escândalo, de provar o trabalho por intermédio da greve, de provar o capital pela revolução" (BAUDRILLARD).
Drummond já preconizava a existência de um simulacro na vivência poética, na arte de amarrar a condição do ser com a noção do parecer, fecundando uma literatura de metáforas amplas e ligadas ao coletivo sentimento do mundo. A linha que divide a vida da personagem com a existência real sempre foi a mesma linha que dividiu o sonho da concretude. Estas representações mor, que as novas narrativas pós-modernas procuram estender dentro do cenário de produção atual, é a estreita hiperonímia entre um ato de devorar a si mesma para assinalar a força da fome.
Mas toda representação artística está validada por sobre uma égide de categoria semiótica: seja na presentificação do sublime, seja no ato de narrar as desventuras humanas. A reinvenção da palavra e o pastiche, são técnicas contemporâneas para deflagrar sentidos. Se antes a arte estava para o real como substituto, agora ela o tem apenas como âncora referencial. O foco não é mimetizar o sensorial, o existente, mas sim utilizá-lo como matéria prima para transportar ao sonho, ao fantástico, e modernamente, à intimidade, ao pessoal. A existência individual é muito interessante e cara, como metonímia salutar à procriação de idéias. Copiar novas idéias como em uma série ou linha de montagem, não é exatamente o êxito pós-moderno. O êxito pós-moderno na literatura está em deixar o leitor co-piloto de sua obra, como em uma espécie de farsa desdobrada, a leitor tem a parca sensação de domínio do texto, abertura e interpretação própria. Ele acredita estar sendo proprietário de si mesmo, enquanto na realidade está sendo apropriado, está sendo fio condutor da arte, desposando as dúvidas e separando-se das certezas rumo à consciência. Jorge Luís Borges, em seu conto Loteria da Babilônia, de modo sutil e alegórico, remonta como o discurso penetra nas camadas mais profundas da sociedade, do indivíduo e da consciência. Como a apropriação da representação tem o poder e o fazer de mudança (ideologia). Assinalo que tanto a boa literatura (Jonh Barth, por exemplo), quanto a indústria efêmera da arte comestível, possuem os mesmos recursos. Seduzir e provocar são elementos poéticos utilizados na propaganda moderna. Isto por si mesmo mostra a força da literatura enquanto modalizadora de novas linguagens e técnicas. Mas notem que o contrário não é verdadeiro. A propaganda atual reconhece na tônica literária um braço ágil e forte para domesticar. O grande problema é que a ausência de educação formal e lacunas sociais, afetam o desenvolvimento da grande arte, fazendo com que muitos afirmem que a culpa é da própria arte. Esta crise de problematização desarranja o modo como vemos e entendemos a literatura, passamos a acreditar que literatura popular é literatura de péssima qualidade e que a boa literatura é incognoscível. Esta inversão de valores deturpa os estudos literários e mostra que mais fraca do que a arte de um modo geral, está os sistemas políticos, tanto de esquerda quanto de direita, que ainda não conseguiram resolver suas próprias idiossincrasias, imaginem as da literatura.